
DOCES MOMENTOS

Danielle Steel





Kezia Saint Martin era tudo o que uma mulher sonha ser: bonita, inteligente e herdeira de uma fortuna incalculvel. Mas todo o glamour que o dinheiro lhe trazia
s aumentava sua tristeza e decepo com as pessoas.

Em busca da felicidade e de um motivo que justificasse sua existncia, Kezia passa a levar uma vida dupla. Ao mesmo tempo que frequenta a alta sociedade europeia
e americana, adota um nome falso que a permite trabalhar como jornalista em favor de causas sociais. Mas esconder sua identidade de todos que a cercam  uma tarefa
angustiante que a desgasta cada vez mais. Dois mundos e nenhuma felicidade.

A vida de Kezia muda quando ela conhece Lucas Johns, um ex-presidirio que luta com determinao para superar seu passado, e que lhe d foras para traar seus prprios
caminhos. O amor a torna mais forte, mas o destino estava prestes a destruir essa felicidade.

Em Doces momentos, Danielle Steel mantm a rotina de sucessos  qual est habituada, chegando s principais listas de mais vendidos dos Estados Unidos, e levando
novamente aos seus leitores o glamour, a emoo e as tramas cativantes que j venderam 500 milhes de livros em todo o mundo.

DOCES MOMENTOS

Danielle Steel
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Relembrana

O segredo de uma promessa

Segredos de amor

Segredos do passado

Tudo pela vida

Uma s vez na vida

Vale a pena viver

A ventura de amar

Zoya
DANIELLE STEEL

DOCES MOMENTOS

Traduo de LUIZA LAHMEYER LEITE RIBEIRO

10 EDIO

EDITORA RECORD

RIO DE JANEIRO SO PAULO

2004
CIP Brasil Catalogao na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Steel Danielle

S826d Doces momentos Danielle Steel, traduo de

Iffed Luiza Lahmeyer Leite Ribeiro - 10 ed - Rio de Janeiro Record, 2004

Traduo de Passion's promise ISBN 85-01-02936-X

Romance norte-americano Ribeiro, Luiza Lahmeyer Leite Ttulo

91-0535 CDD-8H

CDU - 820(73)-3

Ttulo original norte-americano PASSION'S PROMISE

Copyright 1988, 1976 by Danielle Steel

Todos os direitos reservados inclusive os direitos de reproduo total

ou parcial sob qualquer forma

Para Dan Com amor infinito Por me fazer to feliz e to afortunada Amor
Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa no Brasil

adquiridos pela

DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S A

Rua Argentina 171 -Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel 2585-2000

que se reserva a propriedade literria desta traduo

Impresso no Brasil 
ISBN 85-01-02936


Rio de Janeiro, RJ - 20922-970 EPITORA AFILIADA
Digitalizao e correcco:

Ftima Toms


Envolverei os feridos como casulos

Contarei e enterrarei os mortos.

Deixarei suas almas a vagar no orvalho

E incensarei meu caminho.

As carruagens balanam, so beros.

E eu, abandonando esta pele

De velhas ataduras, irei a seu encontro,

Saindo do carro negro de "Lethe", Puro como um beb.

"Getting There", de Sylvia Plath, Ariel.
Captulo 1

Edward Rascomb Rawlings, sentado no seu gabinete, sorria para o jornal sobre a mesa. A pgina cinco mostrava uma grande fotografia de uma jovem sorridente, descendo 
a rampa do avio. A ilustre Kezia Saint Martin. Numa outra, menor, ela aparecia de brao com um homem alto e atraente, deixando o aeroporto para o isolamento de 
uma limusine  espera. O homem, Edward sabia, era Whitney Hayworth III, o mais jovem scio da firma de advocacia de Benton, Thatcher, Powers e Frye. Edward conhecia 
Whit desde que o rapaz sara da faculdade de direito, h dez anos. Mas ele no estava interessado em Whit, e sim na mulher ao seu lado. Edward conhecia to bem aqueles 
cabelos negros, os olhos de um azul profundo e sua macia compleio inglesa.

E ela parecia bem agora, mesmo em fotos de jornal. Sorria. Parecia queimada do sol. E, finalmente, ela estava de volta. Para Edward, sua ausncia sempre parecia 
interminvel. O jornal dizia que ela acabara de chegar de Marbella, onde fora vista durante o fim de semana na casa de vero espanhola de sua tia, a condessa di 
San Ricamini, nascida Hilary Saint Martin. Antes disso Kezia veraneara no sul da Frana, em "recluso quase total". Edward riu ao pensar nisso. Tinha acompanhado 
pelo jornal regularmente todo o vero, com relatrios de Londres, Paris, Barcelona, Nice e Roma. Ela teve um vero movimentado, "em recluso".

Um pargrafo mais abaixo, na mesma pgina, mencionava trs outras pessoas que tinham chegado no mesmo voo de Kezia. A poderosa filha e herdeira do magnata armador 
grego. E mencionava tambm a princesa belga, mal chegada das colees de Paris para um ligeiro passeio em Nova York. Kezia estivera em boa companhia durante o voo 
e Edward imaginava quanto dinheiro ela teria tomado dos companheiros no jogo de gamo. Kezia era uma exmia jogadora. Espantava-se ao ver que, uma vez mais, Kezia 
concentrava em si a maior parte da cobertura
jornalstica. Era assim com Kezia. Sempre o centro das atenes, a centelha, o trovo, os flashes das cmeras quando entrava nos restaurantes ou saa dos teatros. 
Essa situao chegou ao auge quando ela era adolescente; os fotgrafos e reprteres estavam sempre curiosos, bisbilhotando. Durante anos ela fora seguida a toda 
parte por um bando deles, to logo herdara a fortuna do pai. Agora j estavam habituados a ela e sua ateno parecia esvaziada.

A princpio Edward tentara proteg-la contra a imprensa. Naquele primeiro ano. Naquele primeiro ano, atroz, intolervel. Intensamente doloroso. Ela estava com apenas 
nove anos. Mas os jornalistas, como abutres, estavam s esperando. E no esperaram muito. Para Kezia, ocorreu como um choque, quando tinha treze anos, ser seguida 
por uma jovem reprter excitada, ao entrar na Elizabeth Arden. Kezia no tinha compreendido. Mas a reprter sim, compreendera tudo. O rosto de Edward se endureceu 
ao se lembrar do fato. Puta. Como pde fazer isso com uma criana? Tinha-lhe perguntado a respeito de Liane l, na frente de todos. "Como  que voc se sentiu quando 
sua me..."

A reprter estava quatro anos atrasada na histria, e fora do emprego ao meio-dia, no dia seguinte. Edward ficou desapontado, esperava que ela perdesse o emprego 
na mesma noite. E esta foi a primeira experincia sentida por Kezia. Notoriedade, poder. Fortuna. Um nome. Pais com histria, avs com histria. Poder e dinheiro. 
Nove geraes disso por parte da me. S trs que merecessem meno por parte do pai. Histria. Poder. Dinheiro. Coisas que no se podem conjurar ou mentir a respeito, 
ou esconder.  preciso ter nascido com elas e sentilas correr nas veias, todas trs. E beleza. E estilo. E algum ingrediente mgico danando ao redor na velocidade 
do raio, ento, mas s ento, voc  Kezia Saint Martin. E s existe uma.

Edward mexeu o caf na xcara branca e dourada, de Limoges, na sua mesa, e recostou-se para ver a paisagem. O East River salpicado de pequenos botes e lanchas era 
uma estreita fita cinzenta muito abaixo,  sua direita. De onde estava sentado olhava para o norte e contemplava pacificamente por cima do congestionamento do centro 
de Manhattan, passando pelos arranha-cus para ver, l embaixo, a resistente fortaleza da Park com a Quinta Avenida, perto da barafunda do amontoado verde-amarronzado 
que era o Central Park, e, ao longe, um borro que era o Harlem.

Ele sorveu o caf e virou-se para ler a coluna de Martin Hallam. Queria saber entre os seus conhecidos, quem estaria amando quem, quem estaria dando um jantar onde, 
e quem no aparecia por causa da ltima rixa social. Sabia bem demais que encontraria um ou dois itens sobre

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Marbella. Conhecia bastante o estilo de Kezia para saber que mencionaria a si mesma. Ela era minuciosa e prudente. Ele estava certo. "Na lista dos refugiados voltando 
de um vero no exterior: Scouter Hollingsworth, Bibi Adams-Jones, Melissa Sentry, Jean Claude Reims, Kezia Saint Martin e Julian Bodley. Salve! Salve! O bando est 
todo aqui. Todo mundo voltando para casa."

Era setembro e ele ainda podia ouvir a voz de Kezia num setembro de sete anos antes:

Muito bem, Edward. Eu cursei Vassar e a Sorbonne, e passei um outro vero na casa da tia Hil. Estou com vinte e um anos e agora vou fazer o que quiser, para variar. 
Acabaram-se as viagens de remorso... o que meu pai teria desejado, minha me preferido e o que voc considera "sensato". Eu fiz tudo por eles, por voc. E agora 
vou fazer isso por mim...

Ela andou para cima e para baixo no gabinete dele com um olhar tempestuoso, enquanto ele se preocupava com o "isso" a que ela se referia.

O que voc est exatamente planejando? Ele estava morrendo por dentro. Mas ela estava terrivelmente jovem e muito bonita.

No sei exatamente. Mas tenho algumas ideias.

Conte-as para mim.

Eu planejo... no seja desagradvel, Edward. Virara-se para ele com focos de luz fogosos, de ametista, nos seus lindos olhos azuis. Ela era uma moa impressionante, 
ainda mais quando estava zangada. Ento os seus olhos ficavam quase prpura, a pele de camafeu corava ligeiramente por baixo das mas do rosto; o contraste fazia 
seu cabelo negro parecer de nix. A gente se esquecia como ela era pequenina. Mal passava de um metro e meio, mas era muito bem-proporcionada, e um rosto que, com 
raiva, atraa como um iman, prendendo os olhos da vtima. E todo este conjunto era da responsabilidade de Edward desde que os pais de Kezia tinham morrido. Desde 
ento a carga desses ferozes olhos azuis pertencera a ele e a governanta, a sra. Townsend e sua tia Hilary, condessa di San Ricamini.

Hilary naturalmente no queria ser perturbada. Ela aceitava com toda a boa vontade a moa com ela em Londres, no Natal, e em sua casa de Marbella, durante o vero. 
Mas no queria ser incomodada com aquilo a que se referia como' 'trivial. A fascinao de Kezia com o Peace Corps tinha sido "trivial" como tambm o seu romance 
muito badalado com o filho do embaixador argentino, trs anos antes. Sua depresso quando o rapaz se casara com a prima tambm tinha sido "trivial como outras fascinaes 
passageiras por pessoas, lugares e causas. Talvez Hilary
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contasse que oportunamente tudo seria posto de lado. Mas at que isso acontecesse seria problema para Edward. Aos 21 anos, Kezia j tinha sido uma carga nos seus 
ombros durante doze longos anos. Mas era uma carga que ele apreciara.

Muito bem, Kezia, voc esteve desgastando o meu tapete, mas ainda no me disse que espcie de planos misteriosos tem. E aquele curso de jornalismo em Columbia? J 
perdeu o interesse nele?

De fato desisti, Edward. Quero trabalhar.

Oh! ele estremecera quase visivelmente. "Meu Deus, tomara que seja para alguma organizao de caridade." Por favor, para quem?

Quero trabalhar para um jornal e estudar jornalismo  noite. Havia um olhar de desafio feroz nos seus olhos. Ela sabia o que ele diria.

Acho que seria muito mais prudente fazer o curso da Columbia, concluir o mestrado e s depois pensar em trabalhar.

E depois de obter o mestrado, que espcie de jornal voc sugeriria? Talvez Women's Wearl Ele teve a impresso de ver lgrimas de frustrao e raiva nos seus olhos: 
"Meu Deus, ela vai comear de novo com dificuldades." Ficava mais teimosa cada ano. Era igualzinha ao pai.

Em que jornal voc est pensando? The Village ou o Berkeley Barb?

No. No New York Times.

Pelo menos a moa tinha estilo. Isso nunca lhe faltara.

Eu concordo, de corao, minha querida. Penso que  uma ideia maravilhosa. Mas se  isso que tem em mente, acho mais prudente frequentar Columbia, conseguir o mestrado, 
e...

Ela cortou-lhe a palavra, levantando-se do brao da cadeira onde se empoleirara, e fitando-o zangada, do outro lado da mesa.

E casar com um rapaz terrivelmente bonito da escola de administrao. Certo?

No, a menos que isso seja o que voc deseja.

Tediosa, tediosa, tediosa... E perigosa. Ela era assim tambm. Como a me.

Bem, isso no  o que eu quero fazer.

Ela saiu do seu gabinete e, mais tarde, ele descobriu que ela j tinha o emprego no Times. Ela o conservou por exatamente trs semanas e meia.

Tudo aconteceu precisamente como ele temia. Como uma das cinquenta mulheres mais ricas ela se tornou um alvo para os paparazzi. Todos os dias, em algum jornal, havia 
meno ou fotografia. Alguns jornais

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enviavam os fotgrafos sociais para tirarem instantneos dela. Women's Wear tinha um dia cheio. Era a continuao do pesadelo que sombreara a festa do seu 14 aniversrio, 
invadida pelos fotgrafos.  noite, na pera com Edward, nos feriados de Natal, quando tinha apenas quinze anos, e que eles haviam transformado num horror. Uma sugesto 
suja sobre Edward e Kezia. Depois disso ele no a levara a passear em pblico durante anos... e, muito depois disso, havia fotgrafos que eram rechaados e os que 
no eram. Os encontros que ela temia e depois tivera e lamentara, at que, com dezessete anos, temesse a notoriedade acima de tudo. Com dezoito anos detestava-a. 
Detestava a recluso a que era forada, a preocupao que devia exercitar, a discrio constante. Era absurdo para uma moa daquela idade, mas nada havia que Edward 
pudesse fazer para aliviar essa carga. Tinha uma tradio a enfrentar, mas era muito difcil. Era impossvel para a filha de Lady Liane Holmes-Aubrey Saint Martin 
e Keenara Saint Martin permanecer ignorada. Kezia valia uma fortuna e era bonita. Jovem e interessante, ela fazia notcia. No havia meio de evit-lo, por mais que 
Kezia quisesse fingir que poderia mudar a situao. No podia. E nunca faria. Pelo menos era o que Edward pensava. Mas ficou surpreso com a habilidade de Kezia de 
evitar fotgrafos quando queria (agora ele at tornara a lev-la  pera) e a maneira maravilhosa de se opor aos reprteres com um amplo e deslumbrante sorriso e 
uma palavra ou duas que os faziam ficar na dvida se ela estava rindo deles ou com eles, ou disposta a chamar a polcia. Kezia possua essa especialidade. Alguma 
coisa ameaadora, a lmina crua do poder. Mas tinha alguma coisa de gentil tambm. Era isso que provocava perplexidade em todos. Era uma combinao peculiar dos 
pais.

Kezia possua a delicadeza de cetim da me e a pura fora do pai. Um par surpreendente. E agia como os dois, embora suas atitudes parecessem mais com as do pai. 
Edward notava isso constantemente. Mas o que o assustava era a semelhana com Liane. Centenas de anos de tradio britnica, um bisav que era duque, embora seu 
av paterno tivesse sido apenas conde mas Liane possua criao, muito estilo, tanta elegncia de esprito. Edward cara de amores logo  primeira vista. E ela nunca 
soube. Nunca. Edward sabia que ele no podia... no podia... mas ela fizera coisa pior. Loucura... Chantagem... Pesadelos. Pelo menos tinha evitado um escndalo 
pblico declarado. Ningum soubera. Exceto o marido e Edward... e ele. Edward nunca compreendera. O que teria ela visto no rapaz? Ele era muito mais jovem que Keenan. 
E to... to vulgar. Imaturo. Tinha sido uma escolha infeliz. Liane havia tomado o tutor francs de Kezia como amante. Era quase grotesco, exceto por

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ser muito dispendioso. No fim, custara a vida de Liane, e Keenan gastara milhes para guardar o sigilo.

Keenan fizera remover da casa o jovem e deport-lo para a Frana. Depois disso Liane levou menos de um ano para se afogar em conhaque e champanha e, secretamente, 
em plulas. Pagara alto pela sua traio. Keenan morreu dez meses depois, num acidente. No houve dvida de que tinha sido um acidente, mas que desperdcio. Mais 
desperdcio. Keenan no se importara a respeito aps a morte de Liane e Edward sempre suspeitou que ele apenas deixara acontecer, apenas deixara a Mercedes escorregar 
a ribanceira, deixara-a dar uma guinada no trfego da Rodovia Nacional. Provavelmente estava embriagado, ou apenas muito cansado. No fora realmente suicdio, apenas 
o fim.

De fato, Keenan no se preocupara com mais nada nesses ltimos meses, nem mesmo com sua filha. Contara tudo a Edward, mas apenas a Edward. O confidente de todo mundo, 
Edward. Liane havia lhe contado at suas horrveis histrias, tomando ch um dia, e ele acenando com a cabea, discretamente, e rezando para no vomitar na sua sala 
de visitas. E ela o olhara to lugubremente que o fizera ficar com vontade de chorar.

Edward sempre se preocupara. Ele se preocupara demais por Liane, que tinha sido to perfeita para ser tocada (ou pelo menos ele assim pensara) e por sua filha. Edward 
sempre duvidara se ela ficava excitada por seu amante ser algum to afastado da sua classe, ou apenas um homem jovem, ou talvez por ele ser francs.

Pelo menos ele, Edward, podia proteger Kezia dessa espcie de loucura, e h muito prometera a si mesmo que a protegeria. Kezia era sua obrigao agora, sua responsabilidade, 
e ele ia cuidar para que ela vivesse  altura de cada palmo da sua criao. Havia jurado a si mesmo que no ocorreriam desastres na vida de Kezia, nada de chantagem, 
nem tutores franceses com rostos juvenis. Com Kezia seria diferente. Ela viveria  altura dos nobres ancestrais do lado materno, e das pessoas poderosas do lado 
do pai. Edward sentia que devia isso a Keenan e a Liane. E a Kezia tambm. E ele sabia o que custaria. Como teria que inculcar nela um senso de dever, o senso do 
manto de tradio que ela usava. J adulta, Kezia, brincando, se referira a isso como a sua saia de estopa de sacrifcio, mas compreendera. Edward sempre cuidara 
para que ela compreendesse, havia uma coisa que ela podia lhe dar objetivamente, pensava ele: o senso de quem sabe o que realmente se . Ela era Kezia Saint Martin. 
A ilustre Kezia Holmes-Aubrey Saint Martin, descendente da nobreza britnica e da aristocracia americana, com um pai que usara milhes para fazer bilhes em ao, 
cobre, borracha, petrleo e gasolina.

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Quando havia possibilidade de dinheiro em escala inimaginvel, Keenan Saint Martin estava l. Tornara-se uma lenda internacional e uma espcie de prncipe americano. 
Era a lenda que Kezia herdara com a fortuna. Naturalmente, segundo alguns padres, Keenan tivera que sujar um pouco as mos, mas no muito. Ele era sempre to espetacular, 
e to gentleman, a espcie de pessoa a quem todo mundo perdoa tudo.

Liane, por outro lado, era a ameaa de Kezia, seu terror... Seu lembrete de que se ela cruzasse a fronteira invisvel das regies proibidas, morreria como a me.

Edward queria que ela fosse mais como o pai. Seria muito menos penoso para ele dessa maneira. Mas frequentemente... demasiado frequentemente... ela era a imagem 
de Liane, apenas mais forte, melhor, porm esperta e ainda muito mais bonita do que Liane.

Kezia nascera de pais extraordinrios. Era o elo de uma longa corrente de beleza e graas quase mticas. E cabia a Edward agora cuidar para que a corrente no se 
partisse. Liane a pusera em risco. Mas a corrente estava salva e Edward como todas as pessoas solitrias que nunca ousavam completamente, que nunca so perfeitamente 
bonitas, que nunca so totalmente fortes ficou impressionado com isso. Sua prpria famlia modestamente elegante em Filadlfia era to menos marcante do que essa 
gente mgica a quem ele entregara sua alma. Era o seu guardio. O conservador do Santo Graal: Kezia. O tesouro, o seu tesouro. Pelo qual ficara to contente quando 
o plano de trabalhar no Times falhara to soturnamente. Por algum tempo, tudo ficaria em paz de novo. Ela era dele, para proteg-la; e ele era dela, para comand-lo. 
Ela ainda no o comandara, mas ele temia que um dia o fizesse. Exatamente como os pais dela fizeram: confiavam e mandavam, mas nunca o amaram.

No caso do Times, ele no precisara mandar. Ela voltara para a escola por um tempo, para a Europa durante o vero, mas no outono tudo mudou outra vez. Principalmente 
para Kezia. Para Edward foi terrvel.

Kezia voltara para Nova York com uma enorme mudana na sua maneira de ser, alguma coisa mais feminina. Desta vez no consultou Edward, nem mesmo depois do ocorrido, 
e reivindicou j ser adulta. Com 22 anos ela vendeu um apartamento em Park Avenue onde morara com a sra. Townsend Totie durante treze anos, e alugou dois apartamentos, 
um para si e outro para Totie, que foi gentilmente posta a "pastar", apesar dos protestos de Edward e das lgrimas de Totie. Ento, se ps a resolver o problema 
de um emprego, to decidida como tinha resolvido o assunto do apartamento. A soluo foi espantosamente engenhosa.

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Anunciara a notcia a Edward durante o jantar no seu novo apartamento, enquanto lhe servia um muito agradvel Pouilly fume para suavizar o choque.

Kezia havia contratado um agente literrio e paralisou Edward ao anunciar que j publicara trs artigos naquele vero, que ela mandara da Europa. E o mais engraado 
 que ele havia lido todos e at gostado deles uma pea poltica que escrevera na Itlia; um artigo inesquecvel sobre uma tribo nmada que encontrara no Oriente 
Mdio; e uma stira muito engraada sobre o Plo Clube de Paris. Todos publicados sob o pseudnimo de K.S. Miller. Fora o ltimo artigo que desencadeara a cadeia 
de eventos que se seguiu.

Depois de abrirem outra garrafa de vinho, Kezia comeara a parecer travessa, tentando extorquir dele uma promessa. Subitamente ele sentiu de novo a sensao de desnimo 
no estmago. Vinha mais coisa pela frente, tinha certeza. Sentia isso sempre que ela ficava com aquela expresso nos olhos. O olhar que recordava to agudamente 
o do pai. O olhar que advertia que os planos estavam feitos, as decises tomadas e que no havia nada que pudesse ser alterado a respeito. E agora?

Ela tirara um exemplar do jornal da manh e dobrara-o no segundo caderno. Edward no podia imaginar o que passara despercebido. Lia o jornal de ponta a ponta todas 
as manhs. Ela apontava a coluna social de Martin Hallam, e naquela manh ele no se incomodara de l-la.

Era uma coluna estranha, realmente, e comeara a aparecer apenas um ms antes. Era um relatrio bem-informado, ligeiramente cnico, e bem inteligente sobre os fatos 
do jet set e de suas badalaes. Ningum tinha ideia de quem era Martin Hallam e tentavam adivinhar quem era o "traidor". Fosse quem fosse, ele escrevia sem malcia 
mas certamente muito bem-informado. E agora Kezia apontava para alguma coisa no alto da coluna.

Ele leu-a toda, mas no encontrou meno a Kezia.

Ento?

Ento eu gostaria que voc se encontrasse com um amigo meu. Martin Hallam. Ela ria abertamente e Edward sentiu-se ligeiramente ridculo. E ento ela adiantou-lhe 
a mo para apertar a sua com um borbulhar de risos e aquelas luzes ametistas familiares nos olhos. Alo, Edward. Eu sou Martin. Como est passando?

O qu?! Kezia, voc est brincando...

No. E ningum vai saber. Nem o editor sabe quem escreve isso. Tudo passa pelo meu agente, e ele  extremamente discreto. Tive que estagiar durante um ms, para 
mostrar que sei o que estou falando, mas recebi uma nota hoje. A coluna vai aparecer trs vezes por semana. No  divino?

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Divino?  terrvel. Kezia, como voc conseguiu?

Por que no? Eu no digo nada que possa me acusar. No deixo escapar qualquer segredo que possa destruir a vida de algum, apenas mantenho todo mundo... bem, "informado".

E assim era Kezia. A ilustre Kezia Saint Martin K.S. Miller e Martin Hallam. Agora ela estava de volta para casa depois de outra escapada de vero. Sete veres tinham 
passado desde que sua carreira comeara. E ela era um sucesso, o que lhe acrescentava o charme. Para Edward isso lhe dava um brilho misterioso, uma atitude quase 
insuportvel. Quem, seno Kezia, poderia fazer isso? E por tanto tempo? Edward e seu agente eram as duas nicas pessoas que conheciam o segredo de que a ilustre 
Kezia Saint Martin tinha outra vida alm daquela to prodigamente descrita em WWw, Town and Country e ocasionalmente na coluna "Gente" do Time.

Edward olhou outra vez para o relgio. Podia cham-la agora. Eram dez horas em ponto. Pegou no fone. Este era um nmero que ele prprio discava, sem passar pela 
telefonista. Soou duas vezes, ela atendeu. A voz era rouca, como sempre pela manh. Da maneira como ele mais gostava. Havia alguma coisa de particular sobre essa 
voz. Muitas vezes imaginava o que ela usaria na cama e ento se repreendia por esse pensamento.

Bem-vinda de volta, Kezia ele sorria para a fotografia sobre sua mesa.

Edward! Ele se sentiu comovido com o prazer que havia na voz dela. Como senti sua falta!

No o bastante, pois no mandou nem sequer um carto, sua atrevidinha. Almocei com Totie no sbado passado e ela tambm no recebeu nem uma carta sua.

Isso  diferente. Ela ficaria abatida se eu no lhe dissesse que estava viva. Ela riu e ele ouviu o tilintar de uma xcara contra o fone. Ch. Sem acar. Uma pitada 
de creme.

E voc no acha que eu tambm ficaria abatido?

Certamente que no. Voc  estico demais, seria cafona. Noblesse oblige etc., etc.

Muito bem, muito bem. Sua franqueza o embaraava com frequncia. E tinha razo tambm. Ele possua um senso distinto de "imagem". Fora por isso que nunca lhe dissera 
que a amava. Por que nunca dissera  me dela que a amara.

E como est Marbella?

Terrvel. Devo estar ficando velha. A casa da tia Hil estava literalmente
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cheia de toda espcie de jovens de dezoito anos! Meu Deus, eles nasceram onze anos depois de mim. Por que eles no estavam em casa com suas babs? Ele riu ao som 
da voz dela. Ela ainda parecia ter vinte, mas uns vinte sofisticados. Graas a Deus s estive l para o fim de semana.

E antes disso?

No leu a coluna esta manh? Ela disse que estive em recluso no sul da Frana a maior parte do vero. Kezia voltou a rir e ele tambm. Era to bom ouvir a voz dela.

Realmente estive l por um tempo, num barco que aluguei. Foi muito agradvel. E pacfico. Escrevi bastante.

Vi o artigo que escreveu sobre os trs americanos presos na Turquia. Deprimente, mas excelente. Esteve l?

Naturalmente que estive l, e era deprimente como um inferno.

Onde mais voc foi? Ele queria mudar de assunto. Questes desagradveis eram desnecessrias.

Oh, fui a uma festa em Roma, ver as colees em Paris, a Londres para ver a rainha... Gatinho, gatinho, onde voc esteve? Fui a Londres para ver...

Kezia, voc  impossvel... mas to deliciosa.

Sim. Ela tomou um grande gole de ch e soluou no ouvido dele. Mas senti sua falta.  um "saco"' no poder dizer a todo mundo o que realmente estava fazendo.

Pois bem, venha e conte-me o que realmente esteve fazendo. Almoo no La Grenouille.

Perfeito. Tenho que ver Simpson, mas posso me encontrar com voc depois disso. Uma hora serve?

Muito bem. E... Kezia...

Sim? sua voz era baixa e macia, de repente no to brusca. Da sua maneira ela o amava tambm. Fazia quase vinte anos agora, ele tinha suavizado o choque da ausncia 
do pai.

 realmente bom saber que voc est de volta.

E  bom saber que algum se importa com isso.

Bobinha, voc parece fazer crer que ningum se importa.

Isso se chama a sndrome da pobre moa rica, Edward. Terapia ocupacional para uma herdeira. Ela riu, mas havia algo em sua voz que o perturbou.

Vejo-a  uma hora.

Ela desligou e Edward ficou olhando para a paisagem.

A vinte quarteires de onde ele estava sentado, Kezia permanecia na cama, acabando o seu ch. Havia uma pilha de jornais na cama, uma

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pilha de correspondncia na mesa ao lado. As cortinas estavam puxadas para trs, proporcionando uma vista pacfica do jardim atrs da residncia. Um pssaro arrulhava 
no ar-refrigerado. A campainha da porta soou.

Droga! ela pegou o roupo de cetim branco ao p da cama, imaginando quem poderia ser. Quando abriu a porta, um rapaz porto-riquenho, magro e nervoso, segurava uma 
longa caixa branca.

Ela sabia o contedo da caixa antes mesmo de dar um dlar ao rapaz pelo trabalho. Sabia quem era o remetente e conhecia at o florista. E sabia que reconheceria 
a letra da secretria dele no carto. Aps quatro anos, pode-se at deixar a secretria escrever os cartes: "Oh, voc sabe, Effy, alguma coisa como: voc no imagina 
o quanto senti a sua falta." Effy fez um bom trabalho, dizendo o que qualquer virgem romntica de 24 anos diria num carto para acompanhar a dzia de rosas vermelhas. 
E Kezia realmente no se importava se o carto fosse de Effy ou de Whit. J no fazia muita diferena. Nenhuma at, de fato.

Desta vez Effy acrescentara "jantar hoje  noite?"  mensagem com flores e Kezia ficou parada com o carto na mo. Sentou-se numa cadeira de veludo que pertencera 
 sua me e brincou com o carto. Fazia um ms que no via Whit. Desde que ele voara para Londres a negcios e haviam comemorado na Anabela antes dele tornar a partir 
no dia seguinte. Decerto tinham se encontrado no aeroporto na noite anterior, mas no se falaram. Realmente nunca se falavam. Ela inclinou-se pensativamente na direo 
do telefone na mesinha de fina madeira com o cartozinho na mo. Olhou atravs da pilha de convites que sua secretria organizava para ela duas vezes por semana: 
os que havia perdido e os que eram para um futuro razoavelmente prximo. Jantares, coquetis, inauguraes de galerias, shows de moda, shows beneficentes. Duas participaes 
de casamento e uma de nascimento.

Ela discou para o escritrio de Whit e esperou.

J de p, Kezia querida? Voc deve estar exausta.

Um pouco, mas ainda estou viva. As rosas so lindas. Deixou escapar um risinho e desejou que tivesse passado despercebido.

Estavam bonitas, fico contente. Kezia, voc estava linda na noite passada. Ela riu enquanto olhava para a rvore no jardim vizinho. Em quatro anos, a rvore crescera 
mais que Whit.

Voc foi muito gentil em me buscar no aeroporto. E as rosas comearam o meu dia exatamente agora. Eu j estava ficando melanclica por ter de desfazer as malas.

Ela havia calculado mal, chegando no dia de folga da arrumadeira. Mas as malas podiam esperar.

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E o meu convite para jantar? Os Orniers vo dar um jantar, e se voc no estiver muito cansada, Xavier sugeriu que dssemos uma esticada no Raffles.

Os Orniers tinham uma suite na torre do Hotel Pierre, que conservavam para suas viagens anuais a Nova York. Mesmo para umas poucas semanas valia a pena, pois  irritante 
estar num quarto diferente, num lugar diferente a cada vez. Pagavam alto preo pela familiaridade, mas isso no era novidade para Kezia. E aquele jantar era exatamente 
a espcie de coisa que devia cobrir. Tinha que voltar  crista da onda. O almoo na Grenouille com Edward seria um bom comeo, mas, diabo... Ela queria ir ao centro 
da cidade, onde havia delcias que Whit jamais sonharia que ela conhecesse. Sorriu para si mesma e subitamente lembrou-se de Whit ao telefone.

Desculpe, querido. Eu gostaria muito, mas estou terrivelmente cansada da viagem e de toda essa vida selvagem no fim da semana com tia Hilary. Voc poderia dizer 
aos Orniers que morri, e que vou tentar v-los por um instante antes que partam? Para voc vou ressuscitar amanh. Mas hoje simplesmente estou fora. Bocejou ligeiramente 
e depois riu. Meu Deus, no tinha inteno de bocejar no seu ouvido. Desculpe.

Muito bem. E acho que voc est certa quanto a esta noite. Provavelmente eles no serviro o jantar at as nove horas. Voc sabe como so, e quando voc chegar em 
casa, depois do Raffles, j dever estar passando de duas horas.

Danar naquele poro superdecorado, pensou Kezia,  justamente o que eu no preciso.

Estou contente por voc me compreender, amor. Realmente, acho que vou tirar minha secretria eletrnica, e ir correndo para a cama s sete ou oito. E amanh estarei 
radiante...

Bem, jantar amanh ento? Obviamente, querida. Obviamente.

Sim. Tenho uma coisa na minha mesa...  para uma espcie de recepo de gala em St. Regis. Voc quer tentar? Creio que os Marshes esto assumindo o comando na Maisonette 
para o seu 98 aniversrio de casamento, ou coisa assim.

Sua maldosa.  apenas o 25 aniversrio. Bem, vou reservar mesa na Cote Basque, e podemos dar uma passada l mais tarde.

Perfeito querido, at amanh, ento.

Posso busc-la s sete?

Faa isso s oito.

Muito bem querida. Vou v-la ento.

Ela sentou-se, balanando uma perna sobre a outra aps desligar.

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Realmente, precisava ser amvel com Whit. O que ganharia sendo desagradvel com ele? Todo mundo pensava neles como um par, e ele sempre foi gentil com ela. Seu par 
constante, querido Whitney. To previsvel e to perfeito, to lindo e to impecavelmente trajado. Era insuportvel realmente. Precisamente l, 1,85m, olhos azuis 
de ao, cabelo louro espesso, 35 anos, sapatos Gucci, gravatas Dior, gua-de-colnia Givenchy, relgio de Piaget. Apartamento na esquina da Park Avenue com a 63, 
boa reputao como advogado e amado por todos os amigos. O companheiro bvio para Kezia, e s isso bastava para que ela o detestasse, apesar de no detest-lo realmente. 
Ela apenas ressentia-se da necessidade que tinha dele. Apesar da amante de Sutton Place, que ele no sabia que era de seu conhecimento.

O jogo de Whit e Kezia era uma farsa, mas discreta e uma farsa til.

Ele era o acompanhante ideal e, portanto, totalmente seguro. Era aterrador recordar que um ou dois anos antes ela havia considerado a possibilidade de se casar com 
ele. Parecia no haver razo para no fazlo. Continuariam com suas atividades e Kezia iria contar a respeito da coluna. Eles iriam s mesmas festas, veriam as mesmas 
pessoas e levariam suas prprias vidas. Ele traria rosas em vez de mand-las. Eles teriam quartos separados e quando mostrassem a casa a algum, o quarto de Whit 
seria chamado de quarto de hspedes. Ela iria ao centro e ele a Sutton Place, e nenhum dos dois teria que ser o mais esperto. Eles nunca mencionariam isso um ao 
outro, naturalmente; ela iria jogar bridge, ele iria ver um cliente e eles se encontrariam no dia seguinte ao almoo, pacificados, amolecidos, apaziguados e amados, 
cada qual pelo seu respectivo amante. Que fantasia insana; ela ria pensando nisso agora. Ainda esperava mais do que isso. Considerava Whit como um velho amigo. Gostava 
dele de uma maneira estranha. E, de certa forma, estava habituada a ele, o que era o pior.

Kezia dirigiu-se lentamente para o quarto e sorriu para si mesma. Era bom estar em casa. Esplndido estar de volta para o conforto do seu prprio apartamento, na 
grande cama branca com uma colcha de pele de raposa prateada, que tinha sido uma terrvel extravagncia, mas ainda lhe agradava tanto. A moblia delicada tinha sido 
da sua me. O quadro comprado em Lisboa no ano anterior, pendia por cima da cama. Um sol do feitio de uma melancia sobre uma rica regio e um homem trabalhando nos 
campos. Havia qualquer coisa cordial e amigvel no seu quarto que ela no encontrava em parte alguma, nem nopalazzo de tia Hilary em Marbella, ou na linda casa em 
Kensington, onde ela tivera o seu prprio quarto tia Hilary tinha tantos quartos na casa de Londres que podia d-los a amigos, como dava lenos de renda. Mas Kezia

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nunca se sentia assim, exceto em casa. Havia tambm uma chamin no quarto, e ela encontrara a cama de bronze em Londres, anos antes; uma cadeira de veludo marrom 
macio perto da chamin e um tapete branco felpudo que dava vontade de danar descalo pelo cho. Plantas pendiam das janelas e candelabros sobre o parapeito da chamin, 
que davam no quarto um brilho macio  noite. Era muito bom estar em casa.

Riu mansamente para ela prpria, um som de puro prazer quando ps Mahler no estreo e comeou o banho. E de noite... Cidade baixa. Para Mark. Primeiro seu agente, 
depois almoo com Edward. E finalmente Mark. Guardando o melhor para o fim... enquanto nada tiver mudado.

"Kezia", falava consigo mesma, olhando no espelho do banheiro, nua, cantarolando a msica que ecoava pela casa, "voc  uma moa muito atrevida," advertiu, com o 
dedo apontando para o seu reflexo. Jogou para trs a cabea, rindo. Seu longo cabelo negro varrendo as costas at a cintura. Parou muito quieta, ento, e olhou profundamente 
dentro dos prprios olhos. "Sim, eu sou um rato. Mas o que mais posso fazer? Uma moa tem que viver e h diversas maneiras de viver." Afundou na banheira pensando 
sobre tudo isso. As dicotomias, os contrastes, os segredos, mas pelo menos sem mentiras. Nada dizia a ningum. Mas no mentia. Quase nunca, pelo menos. Mentiras 
eram muito duras de conviver. Segredos eram melhores.

Quando afundou na gua morna pensou em Mark. Delicioso Marcus. O cabelo selvagem, o sorriso inacreditvel, o cheiro do sto, os jogos de xadrez, o riso, a msica, 
seu corpo, seu fogo. Mark Wooly. Ela fechou os olhos e desenhou uma linha imaginria at embaixo das costas com a ponta do dedo e depois traou-o suavemente sobre 
os lbios. Alguma coisa pequena, um mal-estar no fundo do estmago, e ela virou-se lentamente na banheira fazendo ondinhas na gua.

Vinte minutos depois, ela saiu do banho, escovou o cabelo num n liso e ps um vestido de l simples de Dior por cima da roupa de baixo nova, de renda cor de champanha 
que comprara em Florena.

Vocs supem que eu seja esquizofrnica? perguntou ela ao espelho enquanto cuidadosamente ajeitava o chapu no lugar, inclinando-o lentamente sobre um dos olhos. 
Mas ela no parecia esquizofrnica. Ela parecia "a" Kezia Saint Martin prestes a ir almoar na La Grenouille em Nova York, ou no Fouquet de Paris.

Txi. Passando pela portaria, Kezia levantou um brao, fazendo sinal para o txi. Ela sorriu ao porteiro e enfiou-se no carro, mal este estacionou no meio-fio. Sua 
temporada em Nova York estava apenas comeando. E o que teria para ela em perspectiva? Um livro? Um

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homem? Mark Wooly? Uma dzia de artigos suculentos para as grandes revistas? Uma poro de momentos apreciveis? Solido, recolhimento e esplendor. Tinha tudo isso. 
E outra temporada na palma da mo.

No seu gabinete, Edward estava empertigado diante da paisagem. Olhou para o relgio pela undcima vez numa hora. Daqui a poucos minutos ele a veria entrar, ela o 
veria e sorriria, e ento se aproximaria e tocarlhe-ia na face com a mo... "Oh! Edward,  to bom ver voc." Ela o acariciaria, daria uma risada e sentaria ao seu 
lado enquanto "Martin Hallam" tomaria notas mentais sobre quem estava em que mesa, com quem, e K.S. Miller cogitaria sobre a possibilidade de um livro.

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Captulo 2

Kezia abriu caminho pelo emaranhado de homens que rondavam entre o vestirio e o bar do La Grenouille. A frequncia na hora do almoo era intensa, o bar estava repleto, 
as mesas cheias, os garons atarefados. Nada mudara, at a decorao era a mesma. Assentos de couro vermelho, toalhas cor-de-rosa, pintura a leo brilhante nas paredes 
e flores em todas as mesas. A sala cheia de anmonas e rostos sorridentes, com baldes de prata contendo garrafas de vinho branco no gelo, em quase todas as mesas, 
enquanto rolhas de champanha especavam sobriamente aqui e ali.

As mulheres eram bonitas ou tinham se esforado muito para dar essa impresso. Os objetos de Cartier estavam dispostos em profuso. E o murmrio da conversa atravs 
da sala era distintamente francs. Os homens usavam ternos escuros e camisas brancas, mostravam cabelos grisalhos nas tmporas e exibiam riqueza em charutos Romanoff 
de Cuba, via Sua, em pacotes marrons sem marca.

La Grenouille era o bar dos muito ricos ou muito chiques. Ter uma conta corrente bastante ampla para pagar a despesa no era o suficiente para entrar. Era preciso 
pertencer. Isso tinha de fazer parte da pessoa, um estilo que exsudava pelos poros do seu Pucci.

Kezia? A mo de algum tocou-lhe o cotovelo, e ela viu a face queimada de Amory Strongwell.

No, querido.  o meu fantasma. Ele ganhou um sorriso pirracento.

Voc est maravilhosa.

E voc parece to plido. Pobre Amory. Ela contemplava com ironia o bronzeado profundo, adquirido na Grcia, enquanto ele lhe apertava o ombro cuidadosamente e a 
beijava na face.

Onde est Whit?

Talvez em Sutton Place, querido... trabalhando como louco,

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presumivelmente. Ser que nos veremos na festa dos Marsh, amanh  noite? A pergunta era retrica, e ele, distrado, acenou afirmativamente em resposta. Vou me encontrar 
justamente agora com Edward.

Camarada de sorte.

Ela sorriu-lhe mais uma vez e abriu caminho na massa de gente at onde o matre a aguardava para gui-la a Edward. Ela o encontrou sem ajuda; estava na sua mesa 
favorita, com uma garrafa de champanha gelando ao lado. Louis Roederer 1959, como sempre.

Ele tambm a vira e levantara-se, indo ao seu encontro, enquanto Kezia andava facilmente entre as outras mesas atravs da sala. Ela sentia olhares sobre si e reconhecia 
cumprimentos discretos quando passava por mesas de conhecidos, enquanto os garons lhe sorriam. Ela crescera naquele ambiente, todos os anos ia ali. Aos 16 anos 
isso a agoniava, aos
18 tornara-se um hbito, aos 22 tinha lutado contra isso, e agora, aos
29, ela apreciava. Isso a divertia. Era a sua brincadeira particular. As mulheres diriam "vestido maravilhoso", os homens devaneariam a respeito de Whit; as mulheres 
decidiriam que com fortuna igual elas podiam sair com a mesma espcie de chapu e os garons se acotovelariam um ao outro murmurando em francs "Saint Martin". Na 
sada, poderia ou no haver um fotgrafo da Womens Wear esperando para tirar sua fotografia no estilo paparazzi quando ela passasse pela porta. Isso a divertia. 
Ela fazia o jogo muito bem.

Edward, voc est lindo! Ela lanou-lhe um olhar inquiridor, deu um enorme abrao e deixou-se cair na banqueta a seu lado.

Meu Deus, como voc est bonita!

Kezia beijou-o na face, suavemente, e depois acariciou-o com ternura.

Voc tambm.

E como foi hoje com Simpson? indagou Edward.

Agradvel e produtivo. Estivemos discutindo algumas ideias que tenho para um livro. Ele me deu bons conselhos, mas no... aqui...

Ambos sabiam que havia muito barulho para permitir uma conversa, e raramente falavam da carreira dela em pblico. "Discrio  a melhor parte do valor", como Edward 
dizia com frequncia.

Champanha?

Alguma vez eu disse no?

Ele fez um sinal para o garom e o ritual de Louis Roederer comeou.

Deus, como eu gosto disso! Sorriu outra vez para ele e contemplou lentamente a sala. Edward comeou a rir.

Sei o que est fazendo, Kezia, e voc  impossvel. Ela estava

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estudando a cena para sua coluna. Levantou o copo para ele e sorriu.

Para voc mademoiselle, bem-vinda em casa. Eles bateram os copos e sorveram o champanha. Era exatamente da maneira como eles gostavam: de uma boa safra e geladssimo.

E, de passagem, como est Whit? Vai jantar com ele hoje  noite?

No vou jantar, vou para a cama me recuperar da viagem.

No acredito, mas aceito, se voc o diz.

Que homem sabido voc , Edward. Provavelmente  por isso que gosto de voc.

Ele olhou-a por um momento. Tomou-lhe a mo.

Kezia, seja prudente. Por favor.

Sim, Edward. Eu sei. Eu sou.

O almoo foi agradvel. Todos os seus almoos eram. Ela perguntou-lhe acerca dos mais importantes clientes, lembrou-se de todos os seus nomes e quis saber o que 
fora feito do sof no seu apartamento que precisava desesperadamente ser reformado. Eles disseram "Alo" para todos os conhecidos e foram abordados por uns breves 
momentos por dois dos scios da firma. Ela falou-lhe pouco a respeito da viagem enquanto conservava um olho nas idas e vindas dos pares formados.

Ela deixou-o do lado de fora s trs. O fotgrafo de "surpresa" da Women's Wear tirou devidamente sua fotografia, e Edward chamou um txi antes de voltar para o 
trabalho. Ele se sentia sempre melhor quando sabia que Kezia estava de volta  cidade. Poderia estar presente se ela precisasse e sentia-se mais participante da 
vida dela. Nunca soube realmente, mas desconfiava que havia mais alguma coisa na vida de Kezia do que Raffles e festas dadas pelos Marshes, ou mais ainda do que 
Whit. Mas ela nada dizia a Edward, e ele no perguntava. Realmente no queria saber enquanto ela estivesse bem; cuidadosa, como ele dizia. Mas havia puxado muito 
ao pai para que se satisfizesse com um homem como Whit. Edward sabia disso muito bem. Levara mais de dois anos para estabelecer o testamento do pai discretamente 
e executar os arranjos para as duas mulheres; e ningum soubera.

O txi levou Kezia para casa e deixou-a  sua porta, com excesso de freadas e espalhando lixo ao lado do meio-fio.

Kezia subira e pendurara o vestido branco de Dior no closet. Meia hora depois estava de jeans, com o cabelo solto, e o servio de comunicao informado para receber 
os seus recados: ela estaria descansando e no queria ser perturbada at ao meio-dia seguinte. Momentos depois, ela saa.

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Esgueirou-se silenciosamente no metro na esquina da rua 77 com Lexington Avenue. Nada de maquilagem, nem bolsa, apenas um porta-nqueis no bolso e um sorriso nos 
lbios.

O metro era uma poo concentrada de Nova York, todo o som e cheiro amontoados, cada caracterstica mais acentuada. Velhas engraadas com os rostos maquilados com 
mscaras; gays com calas to apertadas que quase se podia ver os cabelos nas suas pernas; magnficas moas carregando pastas a caminho de agncias de modelos; homens 
que cheiravam a suor e cigarros, de quem no se tinha vontade de ficar perto, e um passageiro ocasional de Wall Street num terno riscado, cabelo curto e culos de 
aros de chifre. Era uma sinfonia de vises, odores e sons, com um pano de fundo de freios guinchando e rodas trepidando. Kezia prendia a respirao e fechava os 
olhos contra a brisa quente e o lixo voando, varrido pelo trem que chegava. Embarcou depressa, passando pelas portas quando j se fechavam.

Encontrou um lugar ao lado de uma velha carregando uma bolsa de compras. Um casal jovem sentou-se ao seu lado na parada seguinte e, furtivamente, repartiram cigarros 
de maconha sem serem observados pelo fiscal, que andava pelo vago, olhos fixos em frente. Kezia se viu sorrindo, imaginando se a velha do outro lado no iria ficar 
tonta com o cheiro. Ento o trem guinchou para uma parada em Canal Street e era tempo de sair. Kezia se lanou rapidamente escada acima e olhou em volta.

Estava de novo em casa. Numa outra casa. Armazns, casas de cmodos escalavradas, escadas de sada de incndio, botequins e, a uns quarteires dali, as galerias 
de arte, cafs e galpes cheios de artistas e escritores, escultores e poetas, de barbas e lenos coloridos. Um lugar onde Camus e Sartre ainda eram reverenciados 
e onde Kooning e Pollok eram deuses. Ela andava rapidamente, com uma pequena palpitao. No importava tanto... no na sua idade... no como as coisas iam entre 
eles... no devia ser to bom estar de volta... podia ser diferente agora... Mas era bom sentir que estava de volta e ela queria que tudo estivesse da mesma maneira.

Ei, moa. Onde  que esteve? Um preto alto, gil e de jeans branca recebeu-a com prazer, surpreendido.

George! Ele levantou-a do cho num grande abrao e rodopiou com ela. Ele estava no corpo de bale da Metropolitan Opera. Que bom ver voc! Ofegante e sorrindo, ele 
a colocou no cho ao seu lado e ps um brao em torno dos ombros dela.

Voc esteve fora por um tempo longo demais, lady. Seus olhos danavam e seu sorriso parecia uma longa fieira de marfim num rosto barbudo.

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 isso a. Estava quase achando que a vizinhana tinha ido embora.

Nunca! O SoHo  sagrado! Eles riram e ele acertou o passo ao lado dela. Onde voc vai?

Que acha do The Partridge para tomar um caf? Ela ficou subitamente temerosa de ver Mark, achando que tudo havia mudado. George saberia, mas no queria lhe perguntar.

Prefiro vinho. E estou  sua disposio por uma hora. Tenho ensaio s seis.

Dividiram uma garrafa de vinho no The Partridge. George bebeu a maior parte da garrafa enquanto Kezia brincava com o copo.

Sabe de uma coisa, baby?

O que, George?

Voc me faz rir.

Terrvel. Por qu?

Porque sei o que a deixa to nervosa e tremendamente assustada que nem mesmo me pergunta. Vai perguntar ou devo falar? disse, rindo para ela.

Existe alguma coisa que talvez eu no queira saber e descobrir.

Merda, Kezia. Por que no vai at o estdio dele e descobre?  melhor dessa maneira. Ele se ps de p, enfiou a mo no bolso e tirou trs dlares.

Minha contribuio. Sim, v para casa.

Para casa? Para Mark? Sim, de certa maneira... Embora ela soubesse.

Ele enxotou-a at a porta com outra onda de riso e ela viu-se diante da porta familiar do outro lado da rua. Nem chegou a olhar para a janela; em vez disso procurava 
nervosamente rostos estranhos.

Seu corao batia enquanto corria os cinco andares e atingia o patamar, ofegante e tonta, e levantava a mo para bater na porta. Mas ela escancarou-se antes que 
a tocasse, e Kezia sentiu-se envolvida nos braos de um homem infinitamente alto, desesperadamente magro, de cabelos emaranhados. Ele beijou-a e levantou-a nos braos, 
puxando-a para dentro com um grito e um sorriso.

Ei, caras,  Kezia! Como  que vai, garota?

Ele pousou-a no cho e ela olhou em torno. Os mesmos rostos, o mesmo sto, o mesmo Mark. Nada mudara. Era uma volta vitoriosa.

Meu Deus, parece que estive fora um ano!

Ela riu novamente e algum ofereceu-lhe um copo de vinho tinto.

Voc est dizendo isso a mim. E, agora, senhoras e senhores... O jovem infinitamente alto curvou-se em dois e indicou a porta aos

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amigos. Minha senhora voltou. Em outras palavras, vocs, caras, vo andando! Eles riram de boa vontade e murmuraram cumprimentos quando saram. Mal a porta se fechou 
e Mark puxou-a para os seus braos de novo.

Puxa, garota, estou to contente por voc ter voltado.

Eu tambm. Ela insinuou a mo sob sua camisa rasgada, toda salpicada de tinta, e sorriu dentro dos olhos dele.

Deixe-me v-la falou enquanto lentamente levantava a camisa de Kezia. Ela ficou ereta e quieta. Seu cabelo caindo sobre um ombro, uma luz quente nos ricos olhos 
azuis, um reflexo vivo no desenho do nu que pendia da parede por trs dela. Fizera isso no inverno anterior, logo depois que se encontraram. Ento aproximou-se dele 
lentamente e Mark ficou nos braos dela, sorrindo, quando soou uma batida na porta.

V embora!

No. Eu no vou. Era George.

Merda, filho da me. O que voc quer? Abriu a porta enquanto Kezia, com os seios nus, corria para o quarto de dormir.

George agigantou-se sorridente diante da porta com uma meia garrafa de champanha na mo.

Para sua noite de npcias, Marcus.

George, voc  lindo. George danou escada abaixo, e Mark fechou a porta com uma gargalhada.

Ei, Kezia, t a fim de uma taa de champanha?

Ela voltou para a sala, sorridente e nua, o cabelo solto nas costas. A viso do champanha no Grenouille, vestida de Dior, trazia-lhe riso aos olhos agora. A comparao 
era absurda.

Ela recostou-se indolentemente na porta, a cabea inclinada para o lado, vendo-o abrir o champanha. Subitamente Kezia sentiu como se o amasse, e isso era absurdo 
tambm. Os dois sabiam que no era verdade. No era essa espcie de coisa. Ambos compreendiam... mas era bom no compreender por um momento. No ser racional ou 
fazer sentido. Teria sido agradvel am-lo, amar algum, qualquer um e por que no Mark?

Senti sua falta, Kezia.

Eu tambm, querido, eu tambm. E tambm imaginei que podia estar com outra mulher agora. Sorriu e sorveu um gole de champanha borbulhante, doce demais. Eu estava 
cheia de escrpulos infernais, receio de vir aqui. At que encontrei George e bebi com ele no The Partridge.

Idiota. Devia ter vindo aqui primeiro.

Estava com medo. Dirigiu-se a ele e passou um dedo pelo seu peito, enquanto Mark a olhava.

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Sabe de uma coisa fatdica, Kezia?

O qu? Seus olhos encheram-se de sonhos.

Eu estou com sfilis.

O qu? Ela olhou para ele horrorizada, e Mark riu abafado.

Eu s imaginava o que voc diria. Realmente no tenho sfilis. Ele parecia divertido com a brincadeira.

Jesus! Ela se instalou nos braos dele, sacudindo a cabea e sorrindo. No estou to segura a respeito do seu senso de humor.

Ele seguiu-a para o quarto, sua voz soando rouca enquanto falava por trs dela.

Vi uma figura, uma moa no jornal, no outro dia. Ela se parecia com voc, s que mais velha e muito tensa.

Havia uma pergunta na voz dele. Uma pergunta que ela no tencionava responder.

Ah, ?

Seu ltimo nome era francs. No, Miller. O primeiro nome estava borrado. No pude l-lo. Voc se relaciona com algum desse tipo? Ela parecia bem extravagante.

No, no me relaciono com ningum desse tipo. Por qu?

E agora as mentiras tinham comeado at com Mark. No apenas pecados ou omisses; agora eram pecados graves tambm. Azar.

No sei, estava simplesmente curioso. Ela era interessante, com um olhar feroz, infeliz.

E voc caiu de amores por ela e decidiu que tinha de encontr-la, de modo que os dois pudessem viver felizes para sempre depois disso? Certo?

Sua voz estava leve, mas no tanto quanto ela gostaria. Sua resposta ficou perdida quando ele a beijou e a levou gentilmente para a cama. Houve pelo menos uma hora 
de verdade no meio de uma vida de mentiras. Os corpos geralmente so honestos.

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Captulo 3

Pronta?

Pronta. Whit sorriu para ela atravs do resto de caf e de musse de chocolate. Estavam duas horas atrasados para a festa dos Marshes em St. Regis. Os Marshes tinham 
convidado mais de quinhentas pessoas.

Kezia resplandecia num vestido de cetim azul-acinzentado, que lhe circundava o pescoo e deixava nuas as costas, mostrando o queimado profundo do vero. Pequenos 
brincos de diamantes brilhavam nas suas orelhas e o cabelo tinha sido escovado num n liso no alto da cabea. O vesturio de noite impecvel de Whit acentuava sua 
elegncia. Eles formavam um par espetacular. Agora estavam convencidos disso.

A multido na entrada da Maisonette, em St. Regis, era enorme. Homens elegantemente vestidos de smoking, cujos nomes apareciam constantemente no Fortune, mulheres 
cobertas de diamantes, vestindo Balenciagas, Givenchys e Diors, cujos rostos eram frequentemente vistos na Vogue. Ttulos europeus, descendentes jovens de americanos 
nobres amigos de Palm Beach e Grosse Pointe, Scottsdale e Beverly Hills. Os Marshes tinham exagerado. Garons circulavam entre a multido crescente oferecendo champanha 
Moet et Chandon e pequenas travessas do vaidoso caviar ou pat.

Havia lagosta fria num bufe no fundo da sala, e posteriormente seria servido a piece de resistance, um enorme bolo de noiva, uma rplica do que fora servido 25 anos 
antes. Cada convidado receberia uma pequena caixinha do bolo de sonho embrulhada cuidadosamente com o nome do casal e a data inscritos. "Mais do que um pouco pegajoso", 
segundo Martin Hallam observaria na sua coluna no dia seguinte. Whit entregou a Kezia uma taa de champanha e gentilmente deu-lhe o brao.

Voc quer danar ou circular um pouco?

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Circular, eu acho, se for humanamente possvel. Sorriu calmamente para ele enquanto lhe apertava o brao.

Um fotgrafo contratado pelos anfitries bateu uma foto dos dois fitando-se amorosamente e Whit enlaou-a pela cintura. Kezia sentia-se confortvel com ele. Depois 
de sua noite com Mark, sentia-se benigna e benevolente, mesmo com Whit. Era estranho pensar que, de madrugada, ela passara pelas ruas do SoHo com Mark, deixando-o 
relutantemente s trs da tarde para telefonar ao seu agente, despachar o que havia na mesa e descansar antes do ataque devastador da noite. Edward telefonara para 
saber como ela estava e riram uns bons momentos sobre sua meno do almoo na coluna da manh.

Como, em nome de Deus, voc pode me chamar de fogoso, Kezia? Eu tenho mais de sessenta anos.

Voc tem meramente sessenta e um. E voc  "fogoso", Edward. Olhe para voc.

Eu me esforo muito para no faz-lo.

Bobo. Tinham passado por outros tpicos, ambos com cuidado para no mencionar o que ela teria feito na noite anterior...

Mais champanha, Kezia?

Ela se permitira tomar a primeira taa sem sequer perceber. Estava pensando em outras coisas; em Edward, no novo artigo que lhe fora encomendado, numa pea sobre 
mulheres de prestgio candidatas s prximas eleies nacionais. Ela se esquecera completamente de Whit e da festa dos Marshes.

Cus, j acabei a taa! Sorriu novamente para Whit e ele olhou-a zombeteiramente.

Ainda cansada da viagem?

No, s um pouco sonhadora. Divagando, suponho.

 preciso prtica num furor como este. Ele trocou a taa vazia por outra cheia e encontraram um local discreto de onde podiam observar o salo de dana. Observaram 
todos os pares e ela fez um registro mental de quem estava danando com quem e quem estava usando o qu. Divas de pera, banqueiros, belezas famosas, playboys conhecidos 
e uma extravagncia de rubis, safiras, diamantes e esmeraldas.

Voc est mais bonita do que nunca, Kezia.

Est me lisonjeando, Whit.

No, eu a amo.

Era bobagem dele dizer isso. Ambos sabiam que era diferente. Mas ela inclinou a cabea com recato afetado e um sorriso delicado. Talvez ele a amasse, como moda. 
Talvez ela mesmo o amasse como um irmo

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favorito, um amigo de infncia. Ele era um homem doce; no lhe era realmente difcil. Mas am-lo? Isso era diferente.

Parece que o vero lhe fez bem.

A Europa sempre faz. Oh, no!

O qu? Ele virou-se na direo que causara um ar de consternao no seu rosto, mas j era tarde. O baro de Schnellinger aproximava-se rapidamente, o suor porejando 
de suas tmporas, e com um olhar de xtase ao reconhecer o par.

Ah, meu Deus, diga-lhe que voc est menstruada e no pode danar sussurrou Whit.

Kezia explodiu numa gargalhada que o bochechudo barozinho alemo interpretou como de prazer.

Eu tambm estou contente em ver voc, minha querida. Boa noite, Whitney. Kezia, voc est especialmente linda esta noite.

Muito obrigada, Manfred. Voc est muito bem. E quente e suarento. E obeso e enjoativo. E lbrico, como de costume.

 uma valsa. Chustamente para ns. J!

Ela no pde dizer no. Estava certo de que ele ia lembr-la do seu querido pai, j falecido. Era mais simples conceder-lhe uma valsa por amor ao pai. Pelo menos 
ele era um danarino eficiente, nas valsas pelo menos. Ela fez um aceno gentil com a cabea, estendendo a mo para ser levada at o salo. O baro afagou-lhe a mo 
e levou-a, justamente quando Whit sussurrou-lhe ao ouvido:

Vou salv-la logo depois da valsa.

Seria melhor, querido disse ela entre dentes e com um sorriso experiente.

Como poderia explicar uma coisa como esta a Mark? Ela comeou a rir s de pensar em explicar a existncia de Mark e as suas incurses ao SoHo a qualquer um da Maisonette 
esta noite. Certamente o baro compreenderia. Ele provavelmente rastejava por lugares ainda mais incomuns do que o SoHo. Mas no esperaria que Kezia o fizesse. Ningum 
acreditaria. No Kezia, a mulher, mas a Kezia Saint Martin... e era diferente, de qualquer modo. Como os outros homens, ela sabia que o baro conduzia suas aventuras 
diferentemente e por motivos diferentes... Ou era uma coisa diferente? Seria ela simplesmente uma pobre mocinha rica fugindo, para ser levada a brincar com seus 
amigos bomios? Algum deles seria real para ela? s vezes duvidava. A Maisonette era real. Whit era real. O baro era real. To real que ele a fazia se sentir desesperanada 
s vezes. Uma gaiola dourada da qual ningum escapava. Ningum escapava do seu nome, do seu rosto, dos ancestrais do seu pai ou de sua me, no importava por quanto 
tempo j estivessem mortos.

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Ningum escapava de toda a merda de noblesse oblige. Ou algum pode? Pode algum simplesmente entrar no metro com um sinal e um sorriso e nunca mais voltar? O misterioso 
desaparecimento da ilustre Kezia Saint Martin. No, se uma pessoa deixa, deixa elegante e abertamente. Com estilo. No fugindo pelo metro em silncio total. Se ela 
realmente queria o SoHo, teria que dizer isso nem que fosse por causa de si mesma. At ela sabia. Mas era isso o que ela queria? O SoHo seria muito melhor do que 
isso? Seria Sabayon em vez de sufl Grand Marnier. Mas nenhum deles era muito nutritivo. O que ela precisava era de um bife completo. Contar com o mundo de Mark 
para seu sustento era como esconder-se com um suprimento de seis meses de bolinhos e nada mais. Ela simplesmente tinha um mundo para compensar o outro, um homem 
para complementar outro e o pior de tudo era que ela sabia disso. Nada era ntegro... Ser que eu sou? Ela nem percebera que dissera isso alto.

Voc  o qu? arrulhou o baro no seu ouvido.

Oh, lamento, eu estava pisando no seu p?

No, minha beleza, s no meu corao. Voc dana como um anjo.

Ela sorriu agradavelmente e rodopiou nos seus braos.

Obrigada, Manfred.

Giraram graciosamente mais uma vez e afinal seus olhos encontraram os de Whit e a valsa chegou a um fim piedoso. Ela ficou de p ligeiramente afastada do baro e 
agradeceu-lhe outra vez.

Ser que vo tocar outra? Seu desapontamento era quase infantil.

O senhor dana valsa muito bem. Whitney estava ao lado deles, curvando-se ligeiramente diante do suarento alemo.

E voc  um homem de muita sorte, Whitney. Kezia e Whit se olharam e Kezia concedeu, afinal, um ltimo sorriso ao baro, quando eles se afastaram.

Ainda viva?

Perfeitamente. Fui muito indolente, e ainda no falei com uma alma sequer esta noite.

Kezia tinha trabalho a fazer e a noite estava apenas comeando.

Voc quer parar e conversar com alguns amigos?

Por que no? No vi nenhum deles desde que voltei.

Ento vamos adiante, milady. Vamos nos lanar aos lees e ver quem est aqui.

Todo mundo estava, como Kezia observara ao entrar. E aps rodear uma dzia de mesas e seis ou sete grupos perto do salo de dana, ela ficou gratificada por encontrar 
duas das suas amigas. Whitney

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deixou-a com elas e foi compartilhar dos charutos com seu scio.

Ei, vocs Kezia juntava-se a duas jovens altas, que pareciam surpresas ao v-la chegar.

Eu no sabia que voc estava de volta! As faces quase se encontraram enquanto beijos voaram no ar e as trs se fitaram com prazer. Tiffany Benjamin estava um pouco 
mais do que embriagada, mas Marina Walters parecia brilhante e viva. Tiffany era casada com William Patterson Benjamin IV, o homem nmero dois na grande casa de 
corretagem em Wall Street. E Marina estava divorciada. E gostava das coisas como estavam, ou assim dizia. Kezia sabia que no era bem assim.

Quando voc chegou da Europa? Marina sorria-lhe e apreciou seu vestido. Mas que vestido bonito! A propsito:  Saint Laurent?

Kezia aquiesceu.

Eu logo imaginei.

E tambm o seu, madame Marina concordou, satisfeita, mas Kezia sabia que era uma cpia. Puxa, voltei h dois dias e estou comeando a duvidar se estive fora. Kezia 
falava enquanto conservava um olhar casual pela sala.

Conheo a sensao. Voltei na ltima semana a tempo de pr as crianas na escola. Tendo que gastar tempo com dentistas, sapatos, uniformes de escola, e trs festas 
de aniversrio, esqueci que tinha viajado. Estou pronta para outro vero. Onde voc esteve este ano, Kezia?

No sul da Frana, e passei os ltimos dias com Hilary em Marbella. E voc, Marina?

Com os Hamptons o vero inteiro. Montono como o inferno. Este no foi o meu vero mais brilhante.

Por qu? Kezia levantou as sobrancelhas. Que aconteceu?

Nenhum homem ou coisa parecida Ela caminhava para os
36 e pensava em conseguir alguma coisa antes que aparecessem as bolsas sob os olhos. No vero anterior, ela fizera um tratamento para os seios ficarem mais firmes 
pelo "mais maravilhoso mdico" em Zurique. Kezia mencionara isso na coluna e Marina ficara lvida.

Tiffany tinha ido  Grcia para o vero e tambm passara alguns dias com primos distantes, em Roma. Bill teve que vir para casa mais cedo. Bullock e Benjamin pareciam 
requerer a presena do seu diretor quase constantemente. Mas ele se desenvolvia com isso. Comia, dormia e amava o trabalho. Os indicadores Dow Jones batiam em algum 
lugar no seu corao e o seu pulso subia e descia com o mercado. Isso era o que Martin Hallam dizia na sua coluna. Mas Tiffany compreendia; com o pai dela tinha 
sido da mesma maneira. Fora o presidente de uma corretora
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de cmbio quando finalmente se retirou para um ms de golfe antes do ataque cardaco fatal. Que maneira de partir. Um p no cmbio e o outro no campo de golfe. A 
vida da me de Tiffany foi menos dramtica. Como Tiffany, ela bebia, porm menos.

Tiffany se orgulhava de Bill. Ele era um homem importante, mais ainda que o pai dela. Ou o irmo. E, que diabo, o irmo havia trabalhado tanto quanto Bill. Gloria 
assim o disse. Ele era advogado de Wheeler Spaulding Forbes, uma das mais antigas firmas de Wall Street. Mas a casa de corretagem de Bullock e Benjamin era a mais 
importante da rua. Isso dava importncia a Tiffany, a sra. William Patterson Benjamin IV. E ela no se importava de passar frias sozinha. Levava as crianas para 
Gstaad no Natal, Palm Beach em fevereiro e Acapulco para as frias de primavera. No vero elas passavam um ms em Martha's Vineyard com a me de Bill e depois iam 
 Europa; Monte Carlo, Paris, Cannes, St. Tropez, Antibes, Marbella, Skorpios, Atenas, Roma. Era divino. Tudo era divino para Tiffany. To divino que ela estava 
bebendo a ponto de se matar.

No  a festa mais divina que voc j viu? Tiffany balanava-se ligeiramente, observando sua amiga.

Marina e Kezia trocaram um rpido olhar e Kezia concordou. Ela e Tiffany cursaram a mesma escola. Ela tambm era uma boa moa quando no estava bbada. Isso era 
alguma coisa que Kezia no poria na sua coluna. Todo mundo sabia que ela bebia e era triste v-la naquele estado. No era uma coisa divertida para se ler no caf 
da manh, como os seios levantados de Marina. Isso era diferente, doloroso. Suicdio com champanha.

O que tem agora na sua agenda, Kezia? Marina acendeu um cigarro e Tiffany voltou a ateno para seu copo.

No sei. Talvez d uma festa. Depois que escrever o artigo que elaborei hoje.

Puxa, como voc tem coragem! Eu olho para alguma coisa como isso e me encolho com medo. Meg gastou oito meses planejando. Voc est de novo no comit de artrite 
este ano?

Kezia aquiesceu.

Eles pediram para fazer o baile das crianas aleijadas ao ouvir essa meno, Tiffany acordou.

Crianas aleijadas? Terrvel! Pelo menos no disse que era divino.

O que  que tem de terrvel?  um baile como outro qualquer Marina defendeu rapidamente a festa.

Mas as crianas aleijadas? Pense bem, quem aguenta olhar para elas? Marina olhou aborrecida para Tiffany.

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Tiffany, querida, voc j viu um artrtico no baile dos artrticos?

No, acho que no...

Ento voc tambm no vai ver crianas aleijadas no baile das crianas aleijadas. Marina era realista e Tiffany parecia apaziguada, enquanto alguma coisa viscosa 
revirava o estmago de Kezia.

Suponho que voc est certa, Marina. Voc vai fazer o baile, Kezia?

Ainda no sei. No decidi. Estou um pouco cansada do circuito de benefcios, francamente. Estivemos fazendo esse tipo de coisa durante muito tempo.

No estivemos todas fazendo isso? Marina fez eco lastimosamente e deu um piparote na cinza dentro da bandeja do mordomo.

Voc devia se casar, Kezia,  divino. Tiffany sorriu deliciada e serviu-se de mais champanha de um garom que passava. Era o terceiro desde que Kezia se juntara 
a elas. Uma valsa recomeava do outro lado do salo.

Esta  a minha dana de m sorte. Kezia olhou em volta e resmungou internamente. Onde Whit se metera?

M sorte por qu?

Eis a o porqu. Kezia cumprimentou rapidamente na direo do baro, que se aproximava. Ele havia pedido a msica e olhava para todos os lados procurando por ela 
h meia hora.

Boa sorte. Marina sorriu maliciosamente, e Tiffany tentou o melhor que pde para focalizar a cena.

 isto, Tiffany, meu amor, por que no me casei.

Kezia, nossa valsa! Era intil protestar.

Ela acenou graciosamente para suas amigas e seguiu de brao dado com o baro.

Voc acha que ela gosta dele? Tiffany parecia espantada. O baro era realmente muito feio. E, mesmo embriagada, ela sabia muito bem.

No, idiota. Ela quis dizer que, com gente deste tipo ao redor, quem tem tempo de achar um camarada decente? Marina conhecia o problema bem demais. Tinha procurado 
um segundo marido quase dois anos, e se algum meio decente no acorresse logo sua estrutura racharia, seus seios cairiam de novo. Ela imaginava que teria cerca 
de um ano para ach-lo antes que o traseiro desmoronasse.

No sei, Marina. Talvez ela goste dele. Kezia  um pouco estranha, voc sabe. s vezes imagino que herdar todo esse dinheiro to jovem a afetou. Alis, acho que 
afetaria quase todo mundo. No parece possvel algum levar uma vida normal quando se  uma das pessoas mais ricas...

Oh, Tiffany, pelo amor de Deus, cale a boca. E por que voc no volta para casa e fica sbria para variar?

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Que coisa podre para dizer! Havia lgrimas nos olhos de Tiffany.

No, Tiffany, que coisa podre de se ver.

E com isso Marina rodopiou nos calcanhares e desapareceu na direo de Halpern Medley. Ela ouvira que ele e Lucille acabavam de romper. Era esta a melhor ocasio 
de encontr-los, pois estavam assustados e ofendidos, temerosos at a morte em organizar a vida por eles mesmos, sentindo falta das crianas, solitrios de noite. 
E Marina tinha trs filhos e ficaria mais do que feliz em conservar Halpern ocupado. Ele era uma excelente presa.

No salo de dana, Kezia girava lentamente nos braos do baro. Whitney estava empenhado numa conversa sria com um jovem corretor, de mos elegantes e alongadas. 
O relgio da parede bateu trs horas.

Tonta, Tiffany foi se sentar numa banqueta de veludo vermelho no fundo da sala. Onde estava Bill? Ele dissera qualquer coisa a respeito de chamar Frankfurt. Frankfurt? 
Por que Frankfurt? Ela no se podia lembrar se ele a trouxera aquela noite, ou se ele estava fora da cidade e ela viera acompanhada de Mark e Gloria. Tinha ela... 
droga, por que ela no conseguia se lembrar? Vejamos, havia jantado em casa com Bill e as crianas... sozinha com as crianas... estariam as crianas ainda em Martha's 
Vineyard com a me Benjamin?... Estavam. Seu estmago comeou a girar lentamente com a sala, sentiu que ia ficar enjoada.

Tiffany? Era o seu irmo, Mark, com aquele olhar no rosto, e Gloria imediatamente atrs dele. Havia um muro de reprovao entre ela e o banheiro, seja l em que 
maldito hotel estivessem. Ou seria a casa de algum? No se lembrava de nada.

Mark... eu...

Gloria, leve Tiffany para o banheiro das mulheres.

Ele no desperdiou tempo falando com a irm. Dirigiu-se exclusivamente  mulher. Conhecia muito bem os sinais. Acontecera sobre o assento do novo Lincoln, na ltima 
vez que a levaram para casa. E, no fundo de Tiffany, alguma coisa se esclareceu. Ela sabia. Esse era o problema. No importava quanto tivesse bebido, ela sempre 
sabia. Ela podia ouvir o tom das vozes to claramente. Elas nunca se apagavam.

Lamento muito... Mark. Bill est fora da cidade e se voc pudesse apenas me levar... Ela arrotou e Gloria adiantou-se nervosamente, enquanto Mark afastava-se para 
trs, enojado.

Tiffany? Era Bill, com o seu habitual sorriso vago.

Eu pensei... voc estava... Mark e Gloria afastaram-se. O marido de Tiffany pegou-lhe o brao e saiu to depressa quanto possvel dos sales onde transcorria a festa.

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Eu pensei... Estavam atravessando os corredores agora, e ela deixara sua bolsa na banqueta. Algum a pegaria. Minha bolsa, Bill. Minn...

Est bem querida, vamos cuidar disso.

Eu... Meu Deus, estou me sentindo muito mal. Tenho que sentar.

Sua voz era apenas um sopro e j esquecera da bolsa. Bill estava andando muito depressa, isso a fazia sentir-se pior.

Voc est precisando de ar ele manteve seu brao junto ao dela, e sorria a quem passava, o diretor a caminho do seu gabinete... bom dia... dia... alo... muito prazer 
em v-lo... o sorriso nunca se apagava e os olhos nunca esquentavam.

Eu s... Eu... Oh. A brisa da noite fria bateu-lhe no rosto e ela sentiu a cabea mais leve, porm seu estmago subia ameaador na direo da garganta.

Bill... Virou-se e olhou para ele, apenas por um momento. Ela queria fazer-lhe uma pergunta terrvel. Alguma coisa forava-a

a dizer isso. A perguntar. Como era horrvel. Oh, meu Deus, ela rezava para que no fizesse a tal pergunta. s vezes, quando estava muito embriagada, ela queria 
perguntar ao irmo a mesma coisa. Uma vez chegou a perguntar  me, o que lhe valeu uma bofetada. A pergunta... A pergunta sempre a queimava quando estava embriagada. 
Champanha sempre lhe causava esse efeito, e s vezes gim.

Vamos apenas lev-la num txi confortvel, e voc vai ficar bem instalada, no  verdade, querida? Ele voltou a apertar seu brao gentilmente, como um solcito mordomo, 
e fez um sinal para o porteiro. Um momento depois, um txi estava com a porta aberta diante deles.

Um txi? E voc... Bill? Oh, meu Deus, e vinha a pergunta outra vez, tentando lutar para abrir caminho da sua boca, do seu estmago, da sua alma.

Est tudo certo, querida. Bill se curvava para falar com o motorista. Ele no estava ouvindo. Todo mundo falava por cima e em torno dela, passando por ela, nunca 
para ela. Ela ouviu Bill dar o endereo ao motorista e ficou ainda mais confusa no momento. Mas Bill parecia to seguro. Vejo voc amanh de manh, querida.

Deu-lhe um beijo formal na face e a porta se fechou, batendo, e tudo que ela pde ver foi o rosto do porteiro sorrindo, enquanto o txi partia. Ela tentava abrir 
o vidro da janela... e a pergunta... a pergunta estava lutando para sair. No podia segurar mais tempo. Tinha que perguntar a Bill... William... Billy... Eles tinham 
que voltar, de modo que ela pudesse perguntar. Mas o txi se afastava do meio-fio e a pergunta
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saiu da sua boca com um longo jato de vmito, quando ela se debruou para fora. Voc me ama?...

O motorista recebera vinte dlares para lev-la em casa e assim o fez, sem dizer uma palavra. Ele nunca respondeu  pergunta. Nem Bill. Bill tinha subido para o 
quarto que reservara no St. Regis, onde duas moas ainda estavam esperando. Uma peruana magrinha e uma gorda loura de Frankfurt. E, de manh, Tiffany no se lembraria 
de ter voltado para casa sozinha. Bill tinha certeza disso.

Pronta para ir?

Sim, senhor. Kezia reprimiu um bocejo e concordou sonolenta com Whit.

Foi uma bela festa. Voc j percebeu que horas so? Ela assentiu com a cabea e olhou para o relgio.

Quase quatro horas. Voc vai se sentir morto no trabalho amanh.

Ele estava habituado a isso. Saa quase toda noite durante a semana.

No posso ficar deitado at meio-dia como vocs, senhoras indolentes.

Todas elas. Pobre, pobre Whit. Que triste histria. Ela deu pancadinhas na sua face e saram para uma rua deserta. Tambm ela no podia ficar na cama a manh toda. 
Devia comear a pesquisar sobre o novo artigo e queria estar de p s nove.

Voc tem alguma coisa como a de hoje na sua agenda para amanh, Kezia? Acenou para um txi, segurou a porta para ela, enquanto Kezia juntava sua saia de cetim azul 
e se instalava no banco de trs.

Meu Deus, espero que no. Estou destreinada desde o vero. Na verdade seu vero no tinha sido to diferente. Mas pelo menos sem o baro.

Torne a pensar nisso. Tenho um jantar com um scio amanh  noite. Mas na sexta-feira vai haver alguma coisa no El Morocco. Voc vai estar na cidade?

Eles estavam passando depressa pela Park Avenue.

De fato, duvido. Edward est tentando me convencer para um fim de semana mortalmente chato com alguns velhos amigos dele. Conheceram meu pai. Isso era sempre uma 
coisa segura para dizer.

Segunda, ento. Vamos jantar no Raffles.

Ela sorriu facilmente e se aconchegou ao seu ombro. Mentira para Whitey, afinal. No tinha planos com Edward, que nunca tentaria amarr-la a um fim de semana como 
o que descrevera a Whit. Iria para

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o SoHo. Depois daquela noite, merecia isso... E que mal faria uma mentirinha a Whit? Tudo era por uma boa causa: sua sanidade.

Raffles na segunda parece bem.

Agora, ela precisava de material novo para a coluna. Poderia conseguir bastante informao telefonando para alguns amigos, para um papo. Ligaria para Marina, pois 
ela era sempre uma fonte excelente. E teria um excelente item tambm. O interesse de Marina por Halpern Medley, na Maisonette, no passara despercebido por Kezia. 
Nem Halpern pareceu indiferente a Marina. Kezia sabia por que Halpern interessava tanto a sua amiga, e era difcil censur-la. Ficar quebrado nada tinha de engraado, 
e Halpern era o remdio mais atraente para o que a afligia.

Eu telefono amanh ou depois, Kezia. Talvez possamos almoar no Lutce, no 21. Ou voc pensa em algum lugar mais divertido? disse Whit.

Certamente podemos. Voc quer vir para um rpido conhaque, caf ou qualquer coisa? Era a ltima opo que ela desejava, mas achou que lhe devia alguma coisa.

Realmente no posso, querida. Vou estar cheio de trabalho amanh.  melhor eu ir dormir um pouco, e voc tambm! falou de dedo em riste, quando o txi estacionou 
na porta de Kezia; depois beijou-a, sempre to gentil, mal tocando nos lbios.

Boa noite, Whit. Foi uma noite agradvel.

 sempre uma noite agradvel com voc, Kezia. Ele acompanhou-a lentamente at a portaria e esperou que o porteiro abrisse.

D uma olhada nos jornais amanh. Estou certa que falaro sobre ns. At Martin Hallam ter alguma coisa a dizer sobre o vestido.

Os olhos de Whit sorriam. Ele beijou a testa de Kezia enquanto o porteiro esperava pacientemente. Era fascinante a maneira como eles h anos se mantinham fingindo. 
Um beijo aqui e ali, uma sondagem, um sentimento, e s. Ela se declarara virgem e ele aceitara a histria.

Ela acenou-lhe enquanto se afastava e seguiu sonolenta para o seu andar. Era bom sentir-se em casa. Abriu o zper do vestido de cetim azul, tirou-o enquanto atravessava 
a sala de visitas e depositou-o no sof, onde ele poderia ficar at segunda-feira. At o dia do juzo final, pensando bem. Que maneira insana de viver! Era como 
uma vida inteira de estratagemas, de truques... vestir-se toda para uma festa diria de mscaras a fim de espiar os seus amigos. Esta era a primeira da temporada 
e a irritou desde o comeo. Este ano, a agitao comeara mais cedo.

Ela fumou um ltimo cigarro, apagou a luz e, com uma sensao de que havia transcorrido pouco tempo, ouviu o despertador tocar. Eram oito da manh.

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Captulo 4

Kezia trabalhou trs horas no novo artigo, destacando, esboando o que pensava das mulheres sobre as quais queria escrever, e rascunhando cartas para pessoas que 
podiam lhe dizer alguma coisa mais sobre elas. Seria uma bonita pea, digna de K.S. Miller, e ela estava contente. Depois disso abriu a correspondncia e passou-a 
pelo crivo, a habitual chuva de convites, algumas cartas de fs, enviadas por uma revista, e um memorando de Edward a respeito de proteo contra impostos que ele 
queria ver com ela. Nenhuma era interessante e Kezia estava inquieta. Tinha um outro artigo em mente; talvez isso ajudasse. Um tema sobre maus-tratos a crianas 
nas casas de classe mdia. Seria um tema quente e pesado, se Simpson conseguisse encontrar mercado para ele. Ela imaginava se os Marshes, com suas festas que custavam 
milhares de dlares, algum dia teriam pensado nisso. Ou as favelas. Ou a pena de morte na Califrnia. Nenhuma dessas causas eram moda. Se fossem, certamente teria 
havido um jantar beneficente para elas, um fabuloso baile, algo superbadalado por um comit de beldades... enquanto Marina esperava por uma liquidao na Bendel 
ou procurava boa reduo em Ohrbach, e Tiffany anunciava que a causa era "divina"... O que estaria lhe acontecendo, droga? O que lhe importaria se Marina tentasse 
usar cpias como originais? E que faria se Tiffany ficasse bbada todos os dias muito antes do meio-dia? Mas isso a aborrecia, e como! Talvez um pouco de sexo acalmasse 
seus nervos. Ela chegou ao estdio de Mark s 12:30.

Puxa, garota! O que te aconteceu?

Nada. Por qu? Ela ficou de p, observando-o trabalhar num guache. Apreciou a pintura. Gostaria de comprar, mas no podia fazer isso e tampouco consentiria que ele 
lhe desse. Kezia sabia que ele precisava de dinheiro, e era bastante prudente para no trocar um objeto com ele.

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Bem, voc bateu com a porta e eu imaginei que alguma coisa devia ter chateado voc. Ele lhe havia devolvido as chaves.

No, eu estava apenas meio irritada, acho que com fadiga, ou coisa parecida. Ela deixou-se cair numa cadeira. Senti sua falta na noite passada. s vezes gostaria 
que voc no me deixasse ir a parte alguma.

Ser que eu tinha essa opo? Ele a olhou surpreso e ela tirou os sapatos.

No.

Foi o que pensei. Isso no parecia aborrec-lo. Kezia estava comeando a se sentir melhor.

Gosto do guache. Olhou por sobre os ombros de Mark quando ele deu uns passos atrs para observar o trabalho feito naquela manh.

Sim, talvez esteja bom. Ele estava destruindo uma caixa de biscoitos de chocolate e olhando secretamente contente. De repente, virou-se para olh-la de frente e 
passou os braos em torno de seu corpo. E o que voc fez desde ontem?

Vejamos... Li oito livros, corri, fui a um baile, candidatei-me a presidente. O assunto habitual.

Em alguma parte dessa bosta de mentiras est a verdade, no ? Ela deu de ombros e trocaram sorrisos entremeados com beijos. Mark realmente no se importava com 
o que ela fazia quando no estava com ele. Ele tinha sua vida prpria, seu sto, seus amigos. A vida de Kezia era dela mesma. Pessoalmente, suspeito que voc candidatou-se 
a presidente.

No consigo guardar segredos de voc, Marcus.

No disse ele enquanto, cuidadosamente, desabotoava-lhe a camisa. Nenhum segredo de todo... Agora  o segredo que eu estava procurando. Ternamente descobriu um seio 
e curvou-se para beijlo, enquanto Kezia insinuava as mos por baixo da camisa dele, passando-as pelas costas. Senti muita falta sua, Kezia.

Nem a metade do que senti.

Um rpido flash da ltima noite passou correndo diante da mente. Vises do baro danarino. Ela se desvencilhou de Mark e sorriu para ele durante um longo momento.

Voc  o homem mais bonito do mundo, Mark Wooly.

E o seu escravo.

Ela sorriu-lhe. Mark no era escravo de ningum e ambos sabiam disso. Ento, de ps descalos, ela correu e foi para trs do cavalete, pegando de passagem a caixa 
de biscoitos de chocolate.

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Ei!

OK. Agora vamos  verdade, Mark. De quem voc gosta mais? De mim ou de seus biscoitos de chocolate?

Voc pirou, ou coisa assim? Ele perseguiu-a por trs do cavalete. Mas ela fugiu para a porta do quarto. Eu gosto dos meus biscoitos de chocolate. O que voc acha?

Mas eu os peguei! Ela correu para o quarto de dormir e pulou em cima da cama, pulando de um p para outro, rindo com os olhos cintilantes e o cabelo voando em torno 
da cabea, como um bando de corvos sedosos.

Me d os meus biscoitos de chocolate, mulher! Eu sou viciado!

Chocohlico

lau! ele juntou-se a ela na cama com um brilho nos olhos, tomou-lhe os biscoitos e atirou-os sobre a cadeira de pele de carneiro. Ento puxou-a para um abrao apertado.

Voc no  s um chocohlico sem esperanas, Mark Wooly. Voc  um tarado sexual tambm. Kezia ria infantilmente quando se aconchegou aos braos dele.

Voc sabe, talvez eu tambm esteja viciada em voc!

Eu duvido. Mark puxou-a para junto de si e, envolvidos em risos e no seu cabelo negro, eles se amaram.

O que  que voc quer para jantar? Ela bocejou e aninhou-se junto de Mark na cama confortvel.

Voc.

Esse foi o almoo.

Ah,  assim? Existe alguma lei dizendo que eu no posso ter para o jantar o que tive no almoo? Ele amarfanhou o cabelo dela e deulhe um beijo nos lbios.

Vamos, Mark, fique srio. O que mais voc quer? Alm dos biscoitos de chocolate.

Oh... bife... lagosta... caviar... o habitual. Ele no sabia como isso era o habitual para ela. Oh, merda, no sei. Massa, eu acho, fettuccine talvez. A pesto. Voc 
pode conseguir um pouco de manjerico fresco?

Voc est quatro meses atrasado, est fora da poca. Que acha de molho de moluscos?

Jia.

Ento vou tratar disso num instante. Ela passou a lngua nas suas costas, espreguiou-se mais uma vez e pulou da cama, escapando da mo que ele estendia. Nada disso, 
Marcus. Mais tarde, ou nunca conseguiremos o jantar.

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Que se foda o jantar. A luz dos seus olhos revivia.

Que se foda voc.

Era exatamente o que eu tinha em mente. Agora voc ganhou a pintura. Ele ria abertamente enquanto, deitado de costas, observava-a vestir-se. Realmente voc no  
engraada, Kezia, mas  linda de se ver.

Voc tambm. Seu corpo esguio estava esticado preguiosamente sobre os lenis. Ocorreu-lhe, quando olhava para Mark, que no havia nada mais bonito do que o ousado 
belo aspecto de um homem muito jovem, um jovem muito bonito...

Ela deixou o quarto e voltou com sua bolsa de corda na mo, uma das camisas dele amarrada num n justo sob os seios, acima de um bem cortado jeans, o cabelo amarrado 
num fiapo de fita vermelha.

Tenho que pint-la desse jeito.

Voc tem de deixar de ser to bobo. Ficaria com a cabea inchada. Alguma encomenda especial? Ele sorriu, sacudiu a cabea e ela saiu para o mercado.

Havia mercados italianos perto e ela sempre gostara de fazer compras para ele. Aqui os alimentos eram reais. Massa feita em casa, legumes frescos, frutas enormes, 
tomates para espremer, uma srie completa de salames e queijos esperando para serem apalpados, cheirados e levados para casa, para um repasto principesco. Bisnagas 
compridas de po italiano para levar para casa debaixo do brao, como fazem na Europa. Garrafas de Chianti danando nos ganchos perto do teto.

Era um passeio curto e era a hora do dia em que os jovens artistas comeavam a sair dos seus antros. O final do dia, quando os que trabalham  noite comeam a ficar 
vivos, e aqueles que trabalham de dia precisam espreguiar-se e andar. Mais tarde haveria mais gente nas ruas, vagando, conversando, fumando a erva,  deriva, parando 
nos cafs a caminho dos estdios de amigos ou para o show da ltima escultura. Era um ambiente amistoso no SoHo; todo mundo trabalhava duro. Companheiros numa jornada 
de alma compartilhada. Pioneiros no mundo das artes. Danarinos, escritores, poetas, pintores, eles se congregavam aqui na pontinha mais ao sul de Nova York, presa 
entre a obscenidade e o lixo de Greenwich Village e o concreto e vidros de Wall Street. Aqui era um lugar mais suave. Um mundo de amigos.

A mulher da mercearia a conhecia muito bem.

Ah, signorina, come sta?

Bene, grazie, e lei?,

Cosi, cosi. Um p' sanca. Che cosa vorebbe oggi?

E Kezia vagava no meio daqueles cheiros deliciosos e escolhia salames,
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queijo, po, cebolas, tomates. Fiorella aprovava sua escolha. Aqui estava uma moa que sabia comprar. Ela conhecia o salame certo, o que colocar num molho, a consistncia 
que um Bei Paese devia ter. Ela era uma bonita moa. O marido era provavelmente italiano. Mas Fiorella nunca perguntava.

Kezia pagou e se foi com a bolsa de corda cheia. Parou ao lado para comprar ovos e no fim da rua entrou na confeitaria para comprar trs caixas de biscoitos de chocolate 
que ele preferia. Na volta, ela perambulou lentamente na rua entre os grupos cada vez mais densos. O aroma de po fresco e salame bafejava sua cabea: o cheiro de 
maconha pairava bem perto, o odor forte de caf expresso se desprendia dos bares enquanto um cu crepuscular estendia-se por cima das cabeas. Era um ms de setembro 
bonito, ainda quente, mas o ar estava mais limpo do que de hbito, e havia luzes cor-de-rosa no cu, como uma das antigas aquarelas de Mark, ricas em tons pastis. 
Pombos arrulhavam e bamboleavam rua abaixo, e as bicicletas encostavam-se nos edifcios; aqui e ali uma criana pulava na corda.

O que voc trouxe? Mark estava deitado no cho, fumando um cigarro de maconha.

O que voc tinha encomendado: bife, lagosta, caviar, o habitual. Ela soprou-lhe um beijo e jogou os embrulhos na mesinha.

Voc comprou bife? Ele parecia mais desapontado do que esperanoso.

Sim. Mas Fiorella diz que ns no comemos bastante salame. Ento comprei uma tonelada dele.

Bem, ela deve estar drogada.

Antes de Kezia ter entrado na sua vida, ele passava a feijo-branco e biscoitos de chocolate. Fiorella era uma outra parte do mistrio de Kezia, um dos muitos presentes 
dela para ele.

Ela  um barato. Um tremendo barato.

Voc tambm. Voc tambm.

Ela estava na porta da cozinha, com olhos iluminados, uma luz de crepsculo enchia a sala e Kezia fitou Mark esparramado no cho, dizendo:

Voc sabe, uma vez ou outra eu acho que gosto de voc realmente, Marcus.

Uma vez ou outra acho que amo voc tambm.

O olhar que repartiam dizia milhes de coisas. Nada de coisas desagradveis, nem presso, nem esforo. Nenhuma profundidade, mas nenhuma disputa. Havia mrito nisso 
para os dois.

Voc quer dar uma volta, Kezia?

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La passeggiata.

Ele riu docemente, ouvindo a palavra. Ela sempre a chamava assim.

Eu no tinha ouvido isso desde que voc foi embora.

 o que um passeio representa para mim aqui. No centro da cidade as pessoas andam, correm. Elas ficam malucas. Aqui elas ainda sabem como viver. Como na Europa. 
L passeggiate, os passeios que os italianos fazem toda a noite ao entardecer e no meio do dia nos domingos em cidadezinhas engraadinhas, onde a maioria das mulheres 
usa roupas pretas e os homens usam chapu e camisas brancas, calas soltas e sem gravata. Fazendeiros dignos, boa gente. Eles observam o seu ambiente, cumprimentam 
os amigos. Eles fazem isso direito,  uma espcie de instituio para eles. Um ritual. Uma tradio, e gosto disso. Ela parecia contente.

Ento vamos disse Mark, levantando-se lentamente. Esticou-se e ps um brao em torno dos ombros dela. Ns podemos comer quando voltarmos.

Kezia sabia o que isso significava. Onze, talvez meio-dia. Primeiro passeariam, depois encontrariam amigos e parariam para uma conversa na rua, por um momento. Ficaria 
escuro e se refugiariam no estdio de algum, de modo que Mark pudesse ver o progresso dos ltimos trabalhos, e eventualmente o estdio ficaria cheio de gente, e 
eles iriam para o Partridge  cata de vinho. E subitamente, horas depois, estariam morrendo de fome e Kezia servindo fettucine para nove pessoas. Haveria velas e 
msica, risadas, guitarras e cigarros de maconha passados  volta at que se tornassem finos fiapos de papel. E Klee, Rousseau, Cassat e Pollock se tornariam vivos 
na sala quando os seus nomes pairassem entre eles. Paris nos dias do impressionismo devia ter sido assim. Os marginais, mal-amados da arte padronizada, juntando-se 
e formando um mundo deles mesmos para rirem e darem mutuamente coragem e esperana... at que um dia algum os descobrisse e os tornasse famosos, oferecendo-lhes 
caviar em vez de biscoitos de chocolate. Era uma vergonha realmente. Para o bem dele, Kezia quase esperava que eles nunca deixassem para trs o fettucine e os soalhos 
sujos de seus estdios e as noites mgicas, porque usariam smokings e sorrisos falsos e olhos tristes. Eles jantariam no "21" e danariam no el Morocco e iriam a 
festas na Maisonette.

Mas Park Avenue ficava longe do SoHo. Um universo  parte. E o ar ainda era rico com o final do vero e a noite estava cheia de sorrisos.

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Para onde voc vai, meu amor?

Tenho que ir ao centro, para uns compromissos.

Eu a vejo mais tarde. Ele no lhe prestava ateno, intensamente ocupado com um guache.

Kezia beijou-lhe a nuca, passando por ele, olhou em volta a sala. Detestava ir ao centro da cidade. Era como se estivesse sempre com medo de no encontrar o caminho 
de volta. Como se algum do seu mundo suspeitasse do que ela estava fazendo, onde tinha estado e pudesse tentar impedi-la de voltar. Essa ideia a apavorava. Ela 
precisava voltar, precisava do SoHo, de Mark e de tudo para que eles estavam a fim. Tolo realmente. Quem poderia impedi-la de voltar? Edward? O fantasma do seu pai? 
Que absurdo! Tinha 29 anos. Deixando o SoHo, ela sentia como se estivesse cruzando a fronteira para o territrio inimigo, atrs da Cortina de Ferro, numa misso 
de reconhecimento. Divertia-se fantasiando sobre isso. E a maneira casual de Mark tratar suas idas e vindas tornava mais fcil vagar para l e para c entre os dois 
mundos. Riu para si mesma quando correu ligeiramente escada abaixo.

Era uma manh ensolarada, brilhante; o metro deixou-a a trs quadras do seu apartamento, e andar pela Lexington Avenue e atravessar a rua 74 foi estimulante. Enfermeiras 
do Lenox Hill dirigindo-se para o almoo, compristas parecendo enervados, o trfego rangendo raivosamente: tudo aqui era mais rpido. Mais barulhento, mais escuro, 
mais sujo, mais tudo.

O porteiro abriu a porta e ps a mo no quepe, numa saudao. Havia flores esperando por ela no refrigerador conservado pela administrao do edifcio para ocasies 
como esta. Deus proibia que as rosas murchassem enquanto madame estivesse no cabeleireiro ou no SoHo. Era a habitual caixa branca de Whit.

Kezia olhou o relgio e fez um clculo rpido. Tinha que dar os telefonemas do dia como "Martin Hallam", bisbilhotando secretamente por um mexerico. Tambm tinha 
a coluna que j acabara, mas precisava passar para o seu agente. Um banho rpido e ento a reunio para o baile dos artrticos. Primeira reunio do ano, e matria 
para Martin Hallam. Ela poderia estar de volta ao SoHo s cinco, dar uma passada rpida na Fiorella para comprar provises e ainda sair para um passeio com Mark.

Recolheu as mensagens em sua secretria eletrnica. Um chamado de Edward. Dois de Marina e um de Whit, que queria confirmar o almoo no" 21" nodia seguinte. Ela 
respondeu ao chamado, prometeu-lhe ateno total, agradeceu-lhe as rosas e ouviu-o pacientemente dizer o quanto tinha sentido sua falta. Cinco minutos depois, estava 
na banheira,

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a mente longe de Whit. Logo depois enxugava-se na grande toalha Porhault com discretos monogramas em rosa: KHStM.

A reunio foi na casa de Elizabeth Morgan, a sra. Angier Whimple Morgan, a terceira. Ela era da idade de Kezia, mas parecia dez anos mais velha e o marido duas vezes 
mais velho do que ela. Era sua terceira mulher, as duas primeiras tinham convenientemente morrido, aumentando lindamente sua fortuna. Elizabeth estava remodelando 
a casa. "Como leva tempo para encontrar as peas certas."

Kezia estava dez minutos atrasada, e quando chegou as mulheres enchiam o hall. Duas empregadas em uniformes pretos frisados ofereciam sanduches para ch e havia 
limonada numa longa bandeja de prata. O mordomo estava discretamente tomando nota de encomendas de bebidas.

O sof e os fauteuils Lus XV (imagine, oito deles, querida, da Christie's! E todos num dia! Voc sabe a classe social de Prichley e ainda por cima assinados) estavam 
atravancados com as senhoras idosas do comit, entronizadas como chefes de Estado, rangendo pulseiras de ouro e cobertas de prolas, usando costumes "finos" e "maravilhosos" 
chapus, uma poro de Balenciagas e Chanels. Elas observavam as mulheres mais jovens cuidadosamente, com grande esprito crtico.

A sala tinha um p-direito de dois andares, o parapeito da chamin era francs. Um "maravilhoso mrmore Lus XV" e o candelabro horroroso foram presente de casamento 
da me de Elizabeth. Mesas de madeira especial, escrivaninha marchetada, um cofre de mosaico dourado, Chippendale, Sheraton, Hepplewhite tudo parecia a Kezia como 
a Sotheby na vspera de um leilo.

"As moas" tiveram meia hora livre para conversas at se porem em ordem. Ento sua ateno foi requisitada na frente da sala. Courtney St. James estava encarregada.

Muito bem senhoras, bem-vindas em casa depois do vero. E todo mundo est com tima aparncia!

Elizabeth estava presa num costume de seda azul-marinho que esmigalhava seus amplos seios e lutava para passar pelos quadris. Um broche de safira de tamanho considervel 
adornava a lapela, suas prolas estavam no lugar, o chapu combinava com o vestido, e com trs ou quatro anis que pareciam ter nascido em suas mos, ela acenava 
para as moas, enquanto falava.

E agora vamos organizar a nossa festa maravilhosa, maravilhosa! Vai ser no Plaza este ano. Surpresa. Surpresa! O Plaza e no o Pierre. Como  terrivelmente excitante, 
terrivelmente excitante!

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Houve um murmrio entre as mulheres. O mordomo continuava circulando silenciosamente sua bandeja atravs da multido. Tiffany era a primeira na fila e parecia balanar 
enquanto, de p, sorria amavelmente para as amigas. Kezia olhou para a frente e deixou os olhos passarem como um pente pela multido. Estavam todas ali, todas. Os 
mesmos rostos e um ou dois novos, mesmo os novatos, no eram to estranhos. Eles apenas tinham acrescentado este comit  mirade de outros. No havia estranhos, 
ningum que no pertencesse quela classe. No se podia deixar qualquer um trabalhar para o baile dos artrticos, no ? "Mas minha querida, voc deve compreender, 
voc se lembra de quem era sua me, no  verdade?" Nos ltimos anos, Tippy Walgreen tentara introduzir um dos seus amiguinhos no grupo. "Eu quero dizer, afinal, 
que todos sabiam que sua me era meio judia! Eu quero dizer realmente, Tippy. Voc est embaraando a moa!"

O comit zumbia. Compromissos eram firmados. Escalas de reunies marcadas. Duas vezes por semana durante sete longos meses. Isso daria s mulheres razo para viver 
e um motivo para beber pelo menos quatro martinis por reunio se elas captassem o olhar do mordomo com frequncia. Ele continuaria suas rondas, sempre discreto, 
enquanto a jarra de limonada permanecia quase intacta.

Como de hbito, Kezia aceitou o papel de chefe do comit jnior. Contanto que ela ficasse na cidade seria til para sua coluna. E isso significava nada mais do que 
estar segura de que as debutantes certas viessem ao baile e que a umas poucas escolhidas fosse permitido lamber os selos. Uma honra que encantaria a suas mes. "O 
baile dos artrticos, Peggy! Elegante, elegante, elegante!"

A reunio comeou s cinco, com pelo menos a metade das mulheres confortavelmente apertadas, mas no tanto que no pudessem voltar para casa e enfrentar seus maridos 
com o habitual: "Voc sabe, Elizabeth nos obrigou a tomar parte." E Tiffany diria a Bill que tudo tinha sido divino. Se ele viesse para casa. As fofocas que Kezia 
estava ouvindo sobre Tiffany nesses dias eram cada vez mais desagradveis.

Os ecos que ouvia traziam de volta outras lembranas, lembranas de coisas ocorridas h muito tempo, mas nunca completamente esquecidas. Lembranas. Lembranas de 
reprimendas, que ela ouvira por trs das portas fechadas; recomendaes; e os sons de quem est violentamente doente do estmago. Sua me, como Tiffany. Ela detestava 
observar Tiffany agora. Havia muito sofrimento nos seus olhos miseravelmente envolvidos em "divino" e piadas detestveis e aquele olhar vago, vidrado, mostrando 
que ela no sabia exatamente onde ela estava e por qu.

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Kezia olhou para o relgio aborrecida. Eram quase cinco e meia, e ela no queria se amolar tendo que parar em casa para trocar o seu vestidinho, um modelo de Chanel 
que estava usando. Mark sobreviveria a ele. E com sorte estaria envolvido demais no seu cavalete para notar. E se ele tivesse qualquer chance de not-lo? Nessa hora 
era quase impossvel apanhar um txi. Ela olhou desanimada para a rua. Nenhum txi  vista.

Quer uma carona? A voz soou bem prxima, e ela virou-se, surpresa. Era Tiffany, de p, ao lado de um lustroso Bentley azulmarinho, com motorista de libr. O carro 
era da sua sogra, Kezia sabia.

A me de Benjamin emprestou-me o carro Tiffany aprecia pedir desculpas. Na luz de fim da tarde, distante do mundo de festas e fachadas, Kezia viu uma verso to 
mais velha da sua colega de escola, com rugas de tristeza e desnorteamento em torno dos olhos, e uma aparncia doentia na pele. Ela fora muito bonita no tempo de 
escola, e ainda era, mas estava perdendo a beleza. Isso fez relembrar sua me. Dificilmente podia olhar Tiffany nos olhos.

Muito agradecida, meu amor, mas no quero desvi-la do seu caminho.

Que diabo, voc no mora to longe... Mora? Ela deu um sorriso cansado que quase rejuvenesceu-lhe a aparncia. Agora era hora de ir para casa. Ela bebera o suficiente 
para comear a esquecer as coisas. Kezia morava no mesmo lugar h anos.

No, no moro muito longe, Tiffie, mas no vou para casa.

Est bem. Ela parecia to solitria, to carente de uma amiga, que Kezia no podia recusar. As lgrimas estavam brotando na sua garganta.

Est bem, muito obrigada. Kezia sorriu e aproximou-se do carro, forando-se a pensar em outras coisas. Ela no podia chorar diante da moa, pelo amor de Deus. Chorar 
por qu? A morte da me, vinte anos antes... Ou pela moa que j estava semimorta? Kezia no se permitia pensar nisso, quando afundou no fofo assento traseiro do 
carro. O bar j estava aberto. A me de Benjamin tinha sempre um bom estoque.

Harley, ns estamos de novo em falta de bourbon disse ao motorista.

Estamos, madame. Harley manteve-se sem expresso e Tiffany virou-se para Kezia com um sorriso.

Voc quer um drinque? Kezia sacudiu a cabea.

Por que voc no espera at chegar em casa?

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Tiffany concordou, segurando o copo e olhando vagamente pela janela. Estava tentando se lembrar se Bill viria para casa jantar. Pensou que ele estava em Londres 
por trs dias, mas no tinha certeza se seria na prxima semana... ou na semana passada.

Kezia?

Sim? Kezia estava sentada muito quieta, enquanto Tiffany tentava coordenar os pensamentos.

Voc gosta de mim? Kezia ficou estupefata e Tiffany pareceu horrorizada. Ela se distrara e a pergunta escapara. A pergunta de novo. O demnio que a perseguia. Lamento... 
eu... estava pensando em outra pessoa... Havia lgrimas brotando dos olhos agora, quando Tiffany virou o olhar da janela para o rosto de Kezia.

Est tudo bem Tiffie. Kezia ps o brao em torno da amiga e houve um longo momento de silncio. O motorista olhou pelo espelho retrovisor, rapidamente, e continuou 
rgido por trs do volante, paciente, imperturbvel e eternamente discreto. Nenhuma das jovens notou a sua presena. Ele esperou bem cinco minutos enquanto as mulheres 
no banco de trs se afagavam sentadas, sem palavras, s ouvia um som de choro, suave. Ele no estava certo sobre qual delas estaria chorando.

Madame?

Sim, Harley A voz de Tiffany soava muito rouca.

Aonde vamos levar a srta. St. Martin?

Oh... no sei. Ela enxugou os olhos com a mo enluvada e olhou para Kezia com um meio sorriso. Para onde voc vai?

Eu... para a Sherry-Netherland. Voc pode me deixar l.

Certamente. O carro j dera partida e as duas acomodaram-se, dando-se as mos entre fina pelica bege e suede preta, sem dizer nada, embora houvesse coisas demais 
que precisavam ser esclarecidas, se uma delas alguma vez comeasse ou tentasse. O silncio era mais fcil. Tiffany queria convidar Kezia para jantar em sua casa, 
mas no podia se lembrar se Bill estava ou no na cidade, e ele no gostava de suas amigas. Ele queria ler depois do jantar o trabalho que trazia para casa, ou sair 
para suas reunies, sem ter necessidade de se demorar ou ficar em bate-papos inteis. Tiffany conhecia as regras. Ningum para jantar, exceto quando era ele quem 
trazia convidados. Fazia anos desde que ela tentara... era por que... era como... no princpio ela ficara to solitria. Com o pai falecido e a me... bem, me... 
e ela havia pensado em bebs... mas Bill tambm no queria eles em volta. Agora as crianas comiam s cinco e meia na cozinha, com a bab Singleton, e a bab considerava 
"imprudente" para Tiffany comer com eles. As crianas se sentiam "inconfortveis". Ento ela jantava sozinha s sete e meia, na sala

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de jantar. Agora ela imagina se Bill estaria em casa para jantar esta noite, ou como ele ficaria zangado se...

Kezia?

Hum? Kezia se distrara nos seus prprios pensamentos tristes e sentia uma dor surda no estmago nos ltimos vinte minutos. Sim?

Por que voc no vem jantar comigo esta noite? Ela parecia uma menininha com uma ideia brilhante.

Tiffie... eu... eu lamento muito, meu amor, mas hoje  impossvel. Ela no podia aceitar. Tinha que ver Mark. Precisava. A sua sobrevivncia vinha em primeiro lugar, 
e o dia j havia sido muito penoso. Lamento.

Est bem. No se preocupe. Ela beijou Kezia gentilmente na face, enquanto Harley parava na Sherry-Netherland. Os carinhos que trocaram foram desesperados, por causa 
da necessidade de uma e dos remorsos da outra.

Tome cuidado com voc, voc vai tomar?

Certamente.

Telefone-me de vez em quando. Tiffany assentiu.

Promete?

Prometo.

Tiffany parecia envelhecida outra vez quando trocaram o ltimo sorriso, e Kezia voltou a acenar quando desapareceu no saguo. Ela esperou cinco minutos e ento saiu 
e chamou um txi, disparando rumo ao SoHo, tentando esquecer os olhos angustiados da amiga.

Tiffany serviu-se de mais um rpido usque.

Meu Deus,  a Cinderela! O que aconteceu  minha camisa?

Pensei que voc no notaria. Lamento, querido, eu a deixei em algum lugar.

Posso ced-la.  Cinderela, no ? Ou voc est de novo se candidatando a presidente? Mark estava encostado  parede, observando o trabalho do dia, mas seu sorriso 
dizia que estava contente por ela estar de volta.

Para falar a verdade, senador, candidatar-se para presidente  bvio demais. Ela sorriu e encolheu os ombros. Vou sair dessa histria e arranjar alguma coisa para 
comer.

Antes de fazer isso, sra. senadora... falou, andando propositalmente em sua direo, com um sorriso malicioso.

Oh? O casaco do costume j estava retirado, seu cabelo solto, sua blusa meio desabotoada.

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Sim, senti sua falta hoje.

Pensei que voc nem havia notado minha ausncia. Parecia to ocupado quando sa...

Muito bem, no estou ocupado agora. Ele levantou-a nos braos. Seu cabelo negro varrendo-lhe o rosto. Voc fica muito bonita toda vestida. Parecida com a moa que 
vi no jornal enquanto estava fora. S que muito, muito mais bonita. A outra parecia uma puta.

Kezia deixou a cabea cair gentilmente no seu peito e comeou a rir.

E eu no sou uma puta?

Nunca, Cinderela, nunca.

Que iluses voc tem.

S a seu respeito.

Louco, meu doce louco... Ela beijou-o suavemente na boca e num momento o restante das roupas marcaram a passagem para a cama. Estava escuro quando se levantaram.

Que horas so?

Devem ser mais ou menos dez horas. Ela se espreguiou e bocejou. Estava escuro no apartamento. Mark debruou-se para acender a vela e depois aconchegou-se nos seus 
braos. Quer sair para jantar?

No.

Nem eu, mas estou com fome e voc no comprou comida, no foi?

Ela sacudiu a cabea.

Estava com muita pressa para chegar em casa. De certo modo, estava mais ansiosa para v-lo do que a Fiorella.

No  to importante. Podemos cear manteiga de amendoim e biscoitos de chocolate.

Ela respondeu com um muxoxo e a mo apertando a garganta. Depois riu, se beijaram e foram para a banheira, onde ficaram brincando de jogar gua um no outro antes 
de repartir sua nica toalha prpura. Sem monograma.

Enquanto se secava, Kezia pensava que o SoHo tinha chegado tarde demais para ela. Talvez nos seus vinte anos parecesse real, talvez ento ela acreditasse. Agora, 
era engraado... especial... Agradvel... para Mark, mas no para ela. Outros lugares pertenciam-lhe, todos aqueles lugares que ela nem mesmo queria, mas inadvertidamente 
possua.

Voc est pensando no que vai fazer?

Ela fez uma pausa por um longo momento antes de responder, ento encolheu os ombros.

Talvez sim, talvez no, acho que nem mesmo saiba.

Ento voc deve imaginar.

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Sim, talvez eu deva imaginar antes do meio-dia de amanh. Ela havia se lembrado do almoo com Whit

Existe algo importante para amanh? Ele parecia perplexo e ela sacudiu a cabea enquanto repartiam uma mo cheia de biscoitos com o resto do vinho.

No, nenhum assunto importante amanh.

Voc deu a impresso de que havia.

Nada, verdade, meu amor. Acabei de decidir que quando voc chegar  minha idade muito pouca coisa tem alguma importncia. "Nem mesmo voc, ou a sua maneira de fazer 
amor, ou o seu doce e delicioso corpo ou minha prpria maldita vida..."

Posso classific-la como Matusalm?

Absolutamente. Eles j me classificaram assim durante anos disse ela, rindo, na noite clara de outono.

O que  to engraado?

Tudo. Absolutamente tudo.

Pensei que voc estivesse embriagada. A ideia divertiu-o, e por um momento ela desejou que fosse verdade.

S um pouco bbada com a vida, talvez... sua espcie de vida.

Por que minha espcie de vida? No pode ser a sua espcie de vida tambm? O que  to diferente entre a sua vida e a minha, pelo amor de Deus?

Ah, essa no  a hora.

O fato de eu estar me candidatando para senador, naturalmente. Ele puxou-a para que se olhassem frente a frente, enquanto ela tentava rir dele.

Kezia, por que voc no pode ser direta comigo? s vezes voc me d a sensao de que nem mesmo sei quem voc . A fora com que ele agarrava o seu brao perturbou-a 
quase tanto quanto a pergunta nos seus olhos. Mas ela apenas encolheu os ombros com um sorriso evasivo. Bem, vou dizer, Cinderela, quem quer que seja, que acho que 
sabe o que est fazendo.

Ambos riram, enquanto ela o seguiu at o quarto e enxugava em silncio duas lgrimas invisveis em suas faces. Mark era um bom rapaz mas no a conhecia. Como podia? 
Ela no o deixaria conhec-la. Ele era apenas um menino.

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Captulo 5

Srta. Saint Martin, muito prazer em v-la.

Muito obrigada, Bill. O sr. Hay worth j est aqui?

No, mas tem uma mesa reservada. Posso lev-la at l?

No, obrigada. Vou esperar na sala da lareira.

O "21" estava abarrotado de corpos famintos por um almoo. Executivos, modelos da alta-costura, atores e produtores muito conhecidos, os deuses do mundo da publicidade 
e uma poro de vivas famosas. O restaurante estava vibrante de sucesso. A sala da lareira era um canto pacfico, onde Kezia podia esperar antes de entrar no redemoinho 
de fluxos com Whit. O "21" era divertido, mas ela no estava com disposio.

Kezia no quisera vir para o almoo. Era estranho como tudo estava ficando um pouco mais duro. Talvez ela estivesse velha demais para a vida dupla. Seus pensamentos 
voltaram-se para Edward. Havia uma possibilidade de encontr-lo no "21", almoando, mas era mais provvel ser encontrado no Lutce ou no Mistral. Suas predilees 
para almoo eram em geral francesas.

Como voc supe que as crianas se sentiriam se eu as levasse para Palm Beach? No queria que elas pensassem que estou empurrando-as para longe do pai.

Esse fiapo de conversa fez Kezia virar a cabea. Bem, bem. Marina Walters e Halpern Medley. As coisas estavam certamente progredindo. Primeiro item para as notcias 
de amanh. Eles no a tinham visto, discretamente dobrada numa das amplas cadeiras de couro vermelho. A vantagem de ser pequena. E silenciosa.

E ento ela viu Whit. Elegante, juvenil e queimado de sol, num terno cinza-escuro e numa camisa azul Wedgewood. Acenou-lhe e ele veio at a sua cadeira.

Sr. Hayworth, seu aspecto  tremendamente bonito hoje Ela levantou a mo para ele da sua confortvel cadeira e ele beijou-lhe o punho ligeiramente, depois segurou 
os dedos dela frouxamente.

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Sinto-me bem melhor do que com uma garrafona de champanha sob o meu cinto na outra noite. Como voc suporta a ressaca?

Muito bem. Dormi o dia inteiro mentiu ela. E voc? Sorriu-lhe e comearam a abrir caminho para a sala de jantar.

No me faa inveja. Seus sonos prolongados so um ultraje!

Ah, sr. Hayworth! Srta. Saint Martin... O maitre levou-os para a mesa costumeira e Kezia instalou-se, olhando em volta. Os mesmos rostos, a mesma multido. At os 
modelos pareciam muito conhecidos. Warren Beatty sentou-se numa mesa do canto, e Babe Paley acabara de entrar.

O que voc fez na noite passada, Kezia? O sorriso dela era algo que ele no era capaz de ler.

Joguei bridge.

Parece que voc ganhou.

De fato, ganhei. Tive um filo de vitrias depois que voltei para casa.

Fico contente por voc. Eu perdi firme no gamo nas quatro ltimas semanas. Sorte cachorra. Mas ele no parecia muito preocupado, dando batidinhas na mo dela e 
fazendo sinal para o garom. Dois bloody marys e um bife trtaro duplo. O habitual. Querida, voc quer vinho? Ela sacudiu a cabea. Os bloody marys bastariam.

Foi um almoo rpido; ele deveria voltar ao trabalho s duas. Agora que o vero tinha passado, havia negcios, como de costume: novos testamentos, novas preocupaes, 
novos bebs, novos divrcios, nova estao.

Era quase um ano inteiro novo. Como as crianas voltando para a escola, a classe social marcava os anos pela' 'temporada'', que estava apenas comeando.

Voc estar na cidade este fim de semana, Kezia? Ele parecia distrado enquanto chamava um txi.

No. Lembre-se, eu tenho aquele compromisso de fim de semana com Edward.

Oh,  verdade. Bem. Ento no vou me sentir desprezado. Vou para Quogue com alguns scios. Mas telefono na segunda-feira. Voc ficar bem? A pergunta divertiu-a.

Estarei bem. Ela insinuou-se graciosamente no txi e sorriu dentro dos olhos dele. Scios, querido? Obrigada pelo almoo. Vejo-o na segunda.

Ele acenou de novo quando o txi se retirou e ela suspirou confortavelmente do banco de trs. Finito. Estava fora do gancho at segunda. Mas subitamente s havia 
mentiras.

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O fim da semana foi perfeito. Cu brilhante e ensolarado, uma ligeira brisa, pouca poluio e baixa contagem de plen, e Kezia e Mark tinham pintado o quarto numa 
brilhante cor de centurea-azul.

Em honra aos seus olhos disse ele enquanto trabalhavam diligentemente em volta da janela. Era uma porcaria de trabalho, mas quando acabaram estavam imensamente contentes.

Que tal um piquenique para celebrar? Mark estava animadssimo.

Kezia correu para comprar provises com Fiorella, enquanto Mark procurava entre os amigos um carro emprestado. Um amigo de George ofereceu sua caminhonete.

Para onde vamos, senhor?

Para a ilha do Tesouro. Minha prpria ilha do Tesouro. E ele comeou a cantarolar canes absurdas a respeito de ilhas, entremeadas com muitos cacarejos e gargalhadas 
grosseiras.

Mark Wooly, voc est maluco.

Est frio, Cinderela. Enquanto voc aprecia. No havia malcia em cham-la de Cinderela. Estavam extremamente felizes e o dia estava lindo. E Mark nunca fora malicioso.

Ele levou-a a uma pequena ilha no East River, uma jia sem nome perto da ilha Randall. Eles pularam da auto-estrada e, atravs de lixo e uma estradinha abaulada 
que parecia no levar a lugar nenhum, atravessaram uma pontezinha e subitamente... Mgica! Um farol e um castelo em runas s deles.

Sim, e  completamente minha. E agora  sua tambm. Ningum vem por aqui.

Nova York os contemplava sombriamente do outro lado do rio, as Naes Unidas, o edifcio da Chraysler e o Empire State parecendo lustroso e polido enquanto o par 
feliz deitado na grama abria uma garrafa do melhor vinho de Fiorella. Rebocadores e barcaas de transporte passavam e eles acenavam para os capites e a tripulao 
e riam para o cu.

Que lindo dia!

 realmente lindo. Ele ps a cabea no regao de Kezia e ela inclinou-se para beij-lo.

Deseja um pouco mais de vinho, sr. Wooly?

No. S uma fatia do cu.

s suas ordens, senhor.

As nuvens se juntavam e eram quatro horas da tarde quando o primeiro facho de luz do farol passou atravs das nuvens.

Acho que vamos receber essa fatia do cu que voc encomendou.
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Em cerca de cinco minutos. Veja como sou boa para voc. Seu desejo  uma ordem.

Garota, voc  terrvel! Ele pulou, ficando em p, e abriu os braos. Em cinco minutos estava chovendo, o farol iluminando, o trovo roncando, e eles correram em 
volta da ilha juntos, mo na mo, rindo e com os corpos molhados.

Quando chegaram em casa tomaram uma chuveirada juntos, e a gua quente dava a sensao de pinicar seus corpos gelados. Andaram nus para o novo quarto azul, e deitaram-se 
pacificamente um nos braos do outro.

Ela deixou-o s seis horas na manh seguinte. Ele dormia como uma criana, sua cabea nos braos dela, seu cabelo escondendo os olhos, seus lbios macios ao tato.

Adeusinho meu amado, durma profundamente. Beijou-o gentilmente numa tmpora, sussurrando no seu cabelo. Seria meio-dia quando ele acordasse e ela estaria longe nessa 
ocasio. Num mundo diferente, caando drages, fazendo escolhas.

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Captulo 6

Bom dia, srta. Saint Martin. Vou dizer ao sr. Simpson que est aqui.

Obrigada, Pat. Como tem passado?

Ocupada, maluca. Parece que todo mundo tem uma nova ideia para um livro depois do vero. Ou um novo manuscrito ou um cheque de royalties que se perdeu.

 isso a, eu sei o que voc quer dizer. Kezia sorriu pesarosamente, pensando nos prprios planos para um livro.

A secretria deu uma olhadela na sua mesa, juntou alguns papis e desapareceu atrs de uma pesada porta de carvalho. A agncia literria de Simpson, Wells e Johns 
no parecia muito diferente da firma de direito de Edward, ou do escritrio de Whit, ou da casa de corretagem que tinha o grosso da sua conta. Isto era negcio srio. 
Compridas prateleiras de livros, paredes forradas de madeira, maanetas de bronze dourado e um espesso tapete cor de vinho borgonha. Sbrio. Impressionante. Prestigioso. 
Ela era representada por uma firma de alta reputao. Era por isso que se sentia confortvel em compartilhar o seu segredo com Jack Simpson. Ele sabia quem ela era 
e somente ele e Edward conheciam seus inmeros pseudnimos. E a equipe de Simpson, naturalmente. Mas eles eram discretos. O segredo era bem guardado.

O sr. Simpson vai v-la agora, srta. Saint Martin.

Obrigada, Pat.

Ele estava esperando por ela de p, por trs da mesa, um homem gentil, quase da idade de Edward, ficando calvo e com as tmporas grisalhas, com um amplo sorriso 
paternal e mos reconfortantes. Eles se cumprimentaram. E ela se instalou na cadeira diante dele, mexendo o ch que Pat havia providenciado. Hoje era ch de hortel, 
s vezes era o breakfast ingls e  tarde era sempre ch Earl Grey. O escritrio de Jack Simpson era o cu para ela, um lugar para relaxar e desligar. Um lugar de 
excitao a respeito do que ela havia feito. Sentia-se feliz ali.

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Tenho uma outra comisso para voc, querida.

timo, o que ? Ela olhava na expectativa, por cima da xcara de borda dourada.

Bem, vamos falar um momento primeiro. Havia algo diferente nos seus olhos hoje. Kezia imaginava o que poderia ser. Isto  um pouco diferente do que habitualmente 
voc faz.

Pornografia? Ela sorveu o ch e suprimiu um sorriso. Simpson sorriu entre dentes.

Ento  isso o que voc quer fazer, no ? Kezia riu para ele e Simpson acendeu um charuto. Este era um Dunhill, no cubano. Ela mandava-lhe uma caixa todo ms. 
Bem, lamento desapont-la, ento. Definitivamente no  pornografia.  uma entrevista. Ele observou os olhos dela cuidadosamente. Kezia muito facilmente dava a impresso 
de uma cora acuada. Havia algumas zonas da sua vida onde nem mesmo ele no ousava pr o p. Uma entrevista?

Seu rosto meio que se fechou. Bem, acho que  isso. Alguma coisa mais na agenda?

No, mas acho que tnhamos de fazer um pouco mais a respeito disso. J ouviu falar em Lucas Johns?

No estou certa. O nome diz algo mas no acho a referncia.

 um homem muito interessante. Trinta e tantos anos, passou seis anos na priso na Califrnia por assalto  mo armada e cumpriu a sentena em Folson, San Quentin... 
todos aqueles pontos de horror lendrios de que se ouvem falar. Pois bem, ele passou por tudo isso e sobreviveu. Foi um dos primeiros a organizar sindicatos trabalhistas 
nas prises, e fez muito barulho a respeito dos direitos dos prisioneiros. E ainda conserva sua influncia agora que est de fora. Conclu que isso  a sua vida; 
ele vive para a causa da abolio das prises e melhorar a sorte dos prisioneiros, enquanto a medida no sai. At mesmo recusou sua primeira liberdade condicional 
porque ele no havia acabado o que comeara. Da segunda vez que lhe ofereceram no lhe deram alternativa. Queriam-no longe da cadeia, ento ele saiu e organizou 
tudo de fora. Causou um tremendo impacto sobre o pblico em termos do que realmente aconteceu nas nossas prises. Objetivamente escreveu um livro poderoso sobre 
o assunto, quando saiu pela primeira vez, um ano ou dois atrs, no me lembro da data exata. Arranjei para ele uma poro de entrevistas na televiso, essa espcie 
de coisa. E o que  mais estranho  que ele tem feito isso desde que est com liberdade condicional. Imagino que deva ser perigoso para ele permanecer discutvel.

Acho que sim.

Ele cumpriu seis anos da sentena, mas no  um homem livre.

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Como eu compreendo, na Califrnia eles tm uma espcie de sistema chamado de sentena indeterminada, que significa que recebe uma sentena mais ou menos vaga. Acho 
que no caso dele a sentena era de cinco anos. Ele cumpriu seis anos, mas poderia ter cumprido dez ou vinte  vontade das autoridades carcerrias. Imagino que ficaram 
cansados de t-lo por perto, para no dizer outra coisa.

Kezia assentiu, intrigada. Simpson tinha contado com isso.

Ele matou algum nos assaltos?

No. Estou quase certo que no. Apenas provocou confuso. Do que pude deduzir do seu livro, ele teve uma juventude bastante selvagem. Fez a maior parte da sua educao 
na priso; acabou o secundrio, obteve um grau universitrio e mestrado em psicologia.

 habilidoso de qualquer modo. Ele teve algum problema depois que saiu?

No problemas com a lei. Ele parece ter superado isso. O nico problema de que tenho conhecimento  o de estar danando na corda bamba com a publicidade conseguida 
por sua agitao em favor dos presos. E a razo dessa entrevista agora  um outro livro que est lanando, uma exposio no comprometedora das condies existentes 
e suas opinies sobre o assunto so uma espcie de continuao do primeiro livro, mas bem mais brutal. Est causando um furor, segundo ouvi.  um bom momento para 
um artigo sobre ele, Kezia. E voc  a pessoa indicada para escrev-lo. Voc fez aqueles dois artigos sobre os levantes na priso de Mississipi no ano passado. Isso 
no  assunto incomum para voc, no inteiramente.

Isso tambm no  um artigo documentado sobre um evento noticioso e uma entrevista, Jack. Seus olhos procuraram os dele. E voc sabe que eu no fao entrevistas. 
Alm disso, ele no est falando do Mississipi. Ele est falando da Califrnia. E eu no sei mais nada a respeito deles do que li no jornal, como todo mundo mais. 
Era uma desculpa fraca e ambos sabiam disso.

Os princpios so os mesmos, Kezia. Voc sabe disso e o artigo que nos ofereceram  a respeito de Lucas Johns, no sobre o sistema penal da Califrnia. Ele pode 
falar muito disso. Voc pode ler o primeiro livro sobre a matria. Ele lhe dir tudo que precisa saber, se tiver estmago para isso.

Como  que ele ?

Simpson reteve um sorriso ao ouvir a pergunta. Ele franziu o cenho e recolocou o charuto no cinzeiro.

Estranho, interessante, poderoso, muito ambguo. Eu o vi falar, mas nunca me encontrei com ele. Tem-se a impresso que ele vai dizer
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a qualquer um qualquer coisa sobre prises, mas nada sobre si mesmo. Vai ser um desafio entrevist-lo. Eu diria que ele  muito precavido, mas atraente de uma maneira 
estranha. Parece um homem que nada teme porque nada tem a perder.

Todo mundo tem alguma coisa a perder, Jack.

Est pensando em si mesma, minha querida. Mas alguns no pensam. Alguns j perderam tudo com que se importavam. Ele tinha mulher e filho quando foi para a priso. 
A criana morreu num atropelamento em que o motorista fugiu e a mulher suicidou-se dois anos antes da sua libertao. Ele talvez seja um daqueles que j perdeu... 
Uma coisa boa como essa pode liquidar uma pessoa. Ou dar-lhe uma estranha espcie de liberdade. Acho que ele tem isso.  alguma coisa como um Deus para aqueles que 
o conhecem bem. Voc vai ouvir uma poro de depoimentos conflitantes sobre ele: cordial, amvel, gentil, ou desumano, brutal e frio. Depende com quem voc fala. 
Na sua maneira, ele  uma espcie de lenda e um mistrio. Ningum parece conhecer o homem a fundo.

Voc parece conhec-lo muito bem.

Ele me interessa. Li o livro, ouvi-o falar e fiz um pouco de pesquisa antes de pedir-lhe para vir discutir comigo, Kezia.  exatamente o tipo de artigo em que voc 
poderia ser brilhante.  sua maneira, ele  to misterioso quanto voc . Talvez ele lhe possa ensinar alguma coisa. E vai ser um artigo a ser notado.

Como exatamente posso fazer isso? Ela estava subitamente firme de novo, mas por um instante balanara. Simpson ainda tinha esperana.

Ah? Voc deseja agora a obscuridade?

No obscuridade, discrio. Anonimato. Paz de esprito. Nada disso  novo para voc. J passou por isso antes.

Em teoria. No na prtica. Exatamente agora voc tem a oportunidade de escrever um artigo que no somente a interessa, mas seria uma oportunidade extremamente boa 
profissionalmente, Kezia. No posso deix-la perder a chance. No sem dizer por que eu acho que voc deve fazer essa entrevista. Acho que seria tola se no fizesse.

E mais tola ainda se eu fizer. No posso. Tenho muita coisa na pauta. Como poderia entrevist-lo sem eu prpria causar certo furor, como voc chama a isso? Pelo 
que voc me diz, ele no  um homem Que passe despercebido. E quanto tempo acha que levaria para algum me notar? Ou o prprio Johns, por falar nisso. Ele provavelmente 
j sabe quem eu sou.

Ele no  essa espcie de homem, Kezia. Ele no d bola para

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colunas sociais, debutantes ou outra coisa qualquer que acontea no seu mundo. Est muito ocupado com o dele. Estou disposto a apostar que ele nunca ouviu o seu 
nome.  da Califrnia, vive no Meio-Oeste agora. Provavelmente nunca foi  Europa e voc pode ficar certa de que no l as pginas sociais.

Voc no pode ter tanta certeza disso.

Eu quase juraria. Posso sentir o que ele , e j sei com que se preocupa. Exclusivamente. Ele  um rebelde, Kezia. Um rebelde autodidata, inteligente, totalmente 
devotado. No um playboy. Pelo amor de Deus, moa, seja sensata.  com a sua carreira que voc est brincando. Ele estar pronunciando um discurso em Chicago na 
prxima semana e voc pode cobrir o evento fcil e silenciosamente. Uma entrevista com ele nos seus escritrios no dia seguinte, e pronto. Ningum nesse discurso 
vai conhec-la e estou certo de que ele tambm no. O pseudnimo K.S. Miller pode resguard-la adequadamente. E isso  tudo que ele saber sobre voc. Ele estar 
muito mais interessado na espcie de cobertura que lhe dar do que naquilo que voc faz na sua vida particular.

Ele  homossexual?

Possivelmente. No sei. No sei o que um homem faz durante seis anos na priso. Nem isso tem importncia. A questo  aquilo que defende e como defende. Este  o 
ponto crucial. E se eu pensasse, por um momento sequer, que escrever esse artigo causaria algum embarao, no o teria sugerido. Voc deve me conhecer a esta altura. 
Tudo que posso dizer  que estou enfaticamente certo que ele no ter a mais remota ideia sobre sua vida particular ou interesse nela.

Mas no existe meio de voc estar certo disso. O que aconteceria se ele for um aventureiro, um vigarista, que descobre quem eu sou e imagina alguma maneira de eu 
ser til aos seus objetivos? Ele podia dar meia-volta e jogar-me em todos os jornais por t-lo entrevistado.

Simpson comeou de novo a se impacientar. Esmagou a ponta do charuto.

Olhe, voc escreveu sobre eventos, lugares, acontecimentos polticos, perfis psicolgicos. Fez alguns trabalhos excelentes, mas nunca um artigo como este. Creio 
que voc podia fazer isso. E fazer bem. E acho que deve.  uma oportunidade importante para voc, Kezia. Voc  ou no  uma escritora?

Claro. Mas parece terrivelmente imprudente da minha parte. Como transgresso das minhas regras pessoais. Tive paz durante sete anos porque fui total, completa e 
absolutamente cuidadosa. Se comear a fazer entrevistas agora logo surgiro outras, e... no. No posso.

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Por que no? Pelo menos, pense nisso. Tenho o ltimo livro dele, se voc quiser ler. Realmente acho que voc devia pelo menos fazer isso antes de tomar uma deciso 
definitiva.

Ela hesitou durante um longo momento e depois assentiu cuidadosamente.

Seria a nica concesso que faria. Ainda estava certa de que no faria o artigo. No podia se permitir. Talvez Lucas Johns no tivesse nada a perder; o que no era 
o seu caso. A sua paz de esprito e a vida secreta cuidadosamente preservada, que levara tanto tempo a construir. Essa vida a conservara viva. Ela no faria nada 
que a prejudicasse, por ningum no mundo. Nem por Mark Wooly, nem por Jack Simpson e nem por algum vigarista desconhecido com uma "causa quente". Para o inferno 
com ele. Ningum merecia isso.

Est bem, vou ler o livro. Ela sorriu pela primeira vez em meia hora, depois sacudiu a cabea com pesar. Voc certamente sabe como vender seus argumentos. Patife!

Mas Simpson sabia que ainda no a convencera. Tudo que podia esperar era a curiosidade de Kezia. E as palavras escritas por Lucas Johns fariam o resto. Sentia em 
seu ntimo que s ela poderia escrever este artigo e raramente se enganava.

Simpson, voc  realmente um patife de primeira linha! Voc me deu a impresso que toda a minha carreira depende disso... Ou a minha vida.

Talvez dependa. E voc, minha querida,  uma escritora de primeira. Mas penso que est chegando a um ponto em que tem de fazer algumas escolhas. E o fato  que elas 
no sero fceis, quer voc as faa agora quanto a este artigo, ou mais tarde, sobre outra coisa. A minha maior preocupao  que voc faa estas escolhas e no 
deixe apenas a vida e a carreira passarem.

No tenho a impresso de que a "vida" ou minha carreira esto passando.

Ela levantou uma sobrancelha cinicamente divertida. No era do feitio dele ser to preocupado e to franco.

No, voc fez muito bem at agora. Tem tido um progresso saudvel, uma boa evoluo, mas apenas at certo ponto, mas o confronto decisivo algum dia ser duro. Aquele 
momento em que voc no pode "passar", em que voc no pode apenas organizar tudo para se adequar s suas necessidades. Voc tem de decidir o que realmente quer 
e agir de acordo.

E voc pensa que no tenho feito isto? Ela ficou surpresa Quando ele sacudiu a cabea.

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Voc no foi forada a fazer. Mas acho que j  tempo de fazer.

Como o qu?

Como o que voc quer ser? K.S. Miller, escrevendo artigos srios, que realmente faam sua carreira progredir, ou Martin Hallam, mexericando a vida dos amigos sob 
pseudnimo, ou a ilustre Kezia Saint Martin, entrando e saindo de bailes de debutantes e na Tour d'Argent em Paris? Ningum pode ter isso tudo, nem mesmo voc.

No seja absurdo, Simpson. Ele a fazia sentir-se inconfortvel, e tudo por causa desse artigo sobre um ex-condenado, agitador trabalhista. Disparate. Voc sabe perfeitamente 
bem que a coluna de Hallam  uma brincadeira para mim disse, aborrecida. Nunca levei a srio, nestes ltimos cinco anos. E voc tambm sabe que a minha carreira 
como K.S. Miller  o que importa para mim. As festas de debutantes e a Tour d'Argent, como voc disse olhou para ele agudamente, so coisas que fao para passar 
o tempo, fora de hbito para conservar a coluna de Martin Hallam viva. Eu no vendo a minha alma para essa maneira de viver. Mas ela sabia bem demais que era mentira.

No estou certo que isso seja verdade, porm, se for, voc pode descobrir mais cedo ou mais tarde que o preo que ter de pagar ser sua alma ou sua carreira.

No seja to dramtico.

No dramtico. Honesto e preocupado.

Bem, no se preocupe, no nessa rea. Voc sabe que tenho de fazer o que se espera de mim. No se mudam sculos de tradio em poucos anos numa mquina de escrever. 
Alm disso, uma poro de escritores trabalha sob pseudnimos.

Mas eles no vivem sob pseudnimos. E discordo quanto  mudana de tradies. Voc est certa num ponto, no se mudam tradies em poucos anos. Voc as muda subitamente, 
brutalmente, com uma revoluo sanguinria.

Penso que no  necessrio.

Ou "civilizado",  isso. No, voc tem razo. Revoluo nunca  civilizada, nunca  confortvel. Estou comeando a pensar que voc tem de ler o livro de Johns para 
seu prprio bem. De uma certa maneira voc esteve na priso por quase trinta anos. A voz dele suavizou-se quando olhou nos olhos dela. Kezia,  assim que voc quer 
viver? A expensas da sua felicidade?

No se trata disso.  que s vezes no h escolha. Seu olhar se distanciou, em parte aborrecida, em parte magoada.

Mas isso  precisamente o que estamos discutindo. E h sempre uma escolha. Ou ser que ela no v isso? Voc vai viver sua vida

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por um dever "absurdo" para agradar ao seu curador, dez anos depois da sua maioridade? Voc vai atender aos desejos dos parentes que j esto mortos h vinte anos? 
Como voc pode esperar isso de si prpria. Por qu? Porque eles morreram? Isso, por amor de Deus, no  culpa sua e os tempos mudaram, voc mudou. Ou isso  o que 
o rapaz com quem voc est comprometida espera de voc. Se for esse o caso, talvez venha o tempo em que voc ter de escolher entre ele e o seu trabalho, e talvez 
voc tivesse melhor cara do que agora.

Que homem? Whit? Que ridculo! Por que Simpson estava trazendo tudo isso agora? Ele nunca mencionara nada disso antes. Por que agora?

Se voc se refere a Whitney Hay worth, no estou comprometida e nunca estarei. Ele no pode me custar nada alm de uma noite muito aborrecida. Portanto, voc est 
se preocupando  toa nesse ponto.

Estou contente por ouvir isso. Mas ento o que , Kezia? Por que uma vida dupla?

Ela suspirou profundamente e olhou para baixo, para as mos cruzadas no regao.

Porque em algum lugar do caminho eles me convenceram que, se deixasse cair o Santo Graal por um instante sequer, ou o pusesse de lado por um dia, o mundo inteiro 
entraria em colapso e a culpa seria minha.

Bem, vou lhe dizer um segredo: no vai haver isso. O mundo no vai acabar. Seus pais no vo persegui-la, seu curador nem mesmo vai se suicidar. Viva para si mesma, 
Kezia. Voc realmente tem que viver. Por quanto tempo pode viver uma mentira?

Ser que um pseudnimo  uma mentira? Era uma defesa fraca e ela sabia.

No, mas a maneira de lidar com ele . Voc usa seus pseudnimos para manter duas vidas totalmente estranhas uma da outra. Os seus dois lados. Um  dever e o outro 
 amor. Voc  como uma mulher casada que tem um amante, e no quer desistir de nenhum. Acho que  uma carga pavorosa. E desnecessria. Olhou para o relgio e sacudiu 
a cabea com um sorrisinho. E agora lhe peo desculpas. Estive censurando-a durante quase uma hora. Mas so coisas que eu queria discutir com voc h muito tempo. 
Faa o que quiser do artigo de Johns, mas pense um pouco no que eu lhe disse. Acho que  importante.

Suspeito que voc tem razo. Subitamente ela se sentiu exausta. A manh a exaurira. Era como se tivesse visto sua vida inteira Passar diante dos olhos. E como ela 
era insignificante passada em revista. Simpson tinha razo. Ela no sabia o que faria com o artigo de Johns, mas isso no era importante. O ponto era muito mais 
profundo.

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Vou ler o livro de Johns esta noite.

Faa isso e me telefone amanh. Eu posso segurar a revista at l. E voc me perdoar pela pregao.

Ela lanou-lhe um sorriso cordial.

S se voc me deixar agradecer-lhe. Voc no disse nada que eu quisesse ouvir, mas agradeo porque precisava disso. Estive pensando no assunto ultimamente e esta 
manh, discutindo com voc, foi como se estivesse discutindo comigo mesma. Doce esquizofrenia.

No to extico como isso. E voc no  a nica; outros travaram essa batalha antes. Um deles deve ter escrito um livro sobre como sobreviver.

Voc diz que outros sobreviveram a isso? Riu ela, depois de um ltimo gole de ch.

E muito bem, de fato.

E depois, o que fizeram? Fugiram com o ascensorista para provar a opinio deles?

Alguns. Os estpidos. Os outros encontraram solues melhores.

Ela tentou no pensar na me.

Como Lucas Johns? No sabia por qu, mas tinha escapado. A ideia era absurda. Quase engraada.

Dificilmente. No estou sugerindo que se case com ele, minha querida, apenas o entreviste. No surpreende que voc tenha feito tanto barulho.

Jack Simpson sabia as razes reais do barulho. Ela estava com medo. E  sua prpria maneira, ele tentara acalmar seus temores. Apenas uma entrevista... uma vez. 
Poderia mudar tanto para ela alargar os horizontes, traz-la para fora, fazer dela uma escritora. Se ao menos corresse bem.

Era apenas porque sabia que as chances dela ser "descoberta" eram to improvveis que a tinha encorajado. Ela teria se escondido para sempre se fosse queimada nessa 
entrevista, e ele sabia. Nenhum deles podia se permitir isso. Ele pensara em tudo com muito cuidado antes de lhe sugerir o artigo.

Sabe, voc fez muito sentido hoje... Jack. Devo admitir que ultimamente o "mistrio" tem se desgastado. Ele perdeu o seu charme depois de um certo tempo.

E o que ele dissera era verdade. Ela era como uma mulher casada com um amante. S que nunca havia pensado dessa forma... Edward, Whit, as festas, os comits: e depois 
Mark, o SoHo e piqueniques em ilhas mgicas; e, separado de tudo isso, seu trabalho. Nada se adequava.

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Tudo separado e escondido e desde muito tempo comeando a rompla em dois. A que e a quem ela devia sua primeira obedincia? A ela naturalmente, mas era fcil esquecer 
isso... At que algum a lembrasse, como Jack Simpson tinha feito.

Voc vai tolerar um afago... gentil senhor?

No tolerar, mas apreciar, minha querida. Vou desfrut-lo completamente.

Ela lhe deu um abrao e um sorriso quando se preparou para sair.

 uma vergonha danada voc no ter feito este discurso h dez anos.  um pouco tarde agora disse ela.

Com vinte e nove anos? No seja tola. Agora v-se embora, leia o livro e telefone amanh de manh.

Ela o deixou com um ltimo aceno da mo enluvada de pelica marrom e a agitao das abas do casaco comprido de suede.

A capa do livro na mo no dava a impresso de importante quando ela o examinou de novo no elevador. No havia fotografia de Lucas Johns na contracapa. S uma breve 
biografia que dizia menos do que Simpson lhe dissera. Ele era estranho e duro; pelo que ouvira naquela manh, ela j possua um perfil bem claro do homem. Ela esperava 
alguma coisa comum no seu rosto; estava certa de que era baixo, forte, duro e talvez pesado demais e ambicioso. Seis anos na priso devem exercer influncias estranhas 
sobre um homem e certamente no poderiam melhorar a sua beleza. Assalto  mo armada tambm... um homenzinho gordo num armazm com uma arma. E agora era respeitado 
e lhe estava oferecendo a oportunidade de entrevist-lo. Apesar de toda a conversa com Simpson, sabia que no podia fazer isso. Ele acertara alguns pontos bons a 
respeito de sua vida... mas uma entrevista com Lucas Johns ou quem quer que fosse estava fora do campo do possvel ou do prudente.

Ela fez uma coisa tola, ento. Foi almoar com Edward.

No acho que voc possa fazer essa entrevista disse ele, enftico.

Por que no? Era como pr uma armadilha diante dele. Kezia sabia o que ele diria. Mas no podia resistir ao impulso de espica-lo.

Voc sabe a razo. Se comear a fazer entrevistas, estar a um Passo de algum descobrir a que voc est disposta. Podia levar avante esta entrevista, Kezia. Mas 
mais cedo ou mais tarde...

Ento pensa que posso me esconder para sempre?

Voc chama a isso de esconder? Ele fez um gesto largo com a mo, ao redor dos vestbulos do La Caravelle.

Num sentido, sim.

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No sentido em que voc pensa, acho que  prudente
- E a respeito da minha vida, Ed? Da minha vida?
A respeito da sua vida? Voc tem tudo que quer: amigos, conforto e os seus escritos. Poderia querer mais? Exceto um marido?

Isso j no existe na minha lista de presentes de Natal, querido E posso pedir mais. Honestidade.

Voc est argumentando com coisas sem importncia. Em troco dessa honestidade seria sua privacidade. Lembre-se do emprego que voc queria tanto no Times, h um ano.
Era diferente.
Como?
Eu era mais jovem. E no era uma carreira, era um emprego uma coisa que eu queria provar.

No  a mesma coisa?
Talvez no. Talvez seja uma questo de sanidade.
Cus, Kezia, no seja ridcula! Voc se deixa envolver com qualquer disparate. Simpson lhe falou esta manh. Seja sensata, o homeriB tem direitos adquiridos sobre 
voc. Ele est olhando para isso do ponto de vista dele, no do seu. Para benefcio dele, no do seu.

Mas ela sabia que no era verdade. E o que tambm sabia agora era que Edward estava com medo. Ainda mais temeroso do que ela. Mas de qu e por qu?
Edward, no importa como voc veja isso, um dia desses terei que fazer uma escolha.
Sobre uma entrevista para uma revista. Uma entrevista com um prisioneiro. Ele no estava com medo, estava horrorizado.
Kezia ficou penalizada ao perceber o que ele temia: estava escorregando para longe do seu ltimo domnio sobre ela. A entrevista no  realmente a questo, Edward. 
Ns dois sabemos disso. At mesmo Simpson sabe.
Ento, em nome de Deus, qual  a questo? E por que est fazendo todo esse barulho a respeito de sanidade, liberdade e honestidade?! Nada disso faz sentido. H algum 
na sua vida fazendo presso?
No, s eu mesma.
Mas existe algum na sua vida de quem eu nada saiba?
Existe. A honestidade soou bem. Eu no sabia que voc esperava ser mantido informado de todas as minhas coisas. Edward olhou para longe embaraado.
Eu apenas gosto de saber que voc est bem. Isso  tudo. Eu pressentia que havia algum alm de Whit.
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Sim, querido, mas por que voc presumia? Certamente que no. Voc est certo, existe.

Ele  casado?

No.

No  casado? Eu estava bastante seguro que era.

Por qu?

Porque voc  to discreta... Eu apenas presumi que ele devia ser casado, alguma coisa do gnero.

Nada disso. Ele  livre, tem vinte e trs anos e  um artista do SoHo. Edward levou um momento para digerir o fato.  s para o seu registro: eu no o sustento. 
Ele est encostado pela previdncia social e gosta disso. Kezia estava quase gozando a si mesma agora, enquanto Edward parecia ter tido um ataque apopltico.

Kezia.

Sim, Ed. Sua voz era puro acar.

E ele sabe quem voc ?

No, e pouco se importa. Kezia sabia que no era inteiramente verdade, mas tambm sabia que Mark nunca traria nenhum problema, bisbilhotando o outro lado da sua 
vida. Ele estava simplesmente curioso de uma maneira infantil.

Whit sabe alguma coisa de tudo isso?

No. Por que deveria saber? Eu nada lhe conto dos meus amantes e ele no conta as transas dele.  uma troca justa. Alm disso, Whitney prefere rapazes.

Ela no previra a expresso do rosto de Edward; no era de completo espanto.

Sim... eu... tinha ouvido dizer. E me perguntava se voc sabia.

Sabia.

Ele lhe disse?

No, outra pessoa.

Lamento.

No fique triste. Isso no tem importncia para mim. Parece uma coisa dura de dizer, mas nunca estive enamorada de Whit. Ns dois somos convenientes um para o outro. 
No  muito bonito afirmar isso, mas  um fato.

E o outro homem... o artista. Ser ele srio?

No, ele  agradvel, fcil, engraado e um alvio para algumas presses da minha vida.  tudo que ele , Edward, no se preocupe, ningum vai fugir com meu dinheiro.

Essa no  a minha nica preocupao.

Agrada me ouvir isso.

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Por que desejava subitamente mago-lo? Qual a razo disso? Mas ele estava atraindo-a, tentando-a, como um agente superzeloso, para uma estao de guas, que ela 
detestava, mas ele insistia em atra-la de novo. E no havia maneira de ela ir.

Ele no tornou a mencionar o artigo at estarem esperando por um txi. Foi uma das raras vezes em que discutiram seus assuntos de negcios em pblico.

Voc pretende faz-la?

O qu?

A entrevista que Simpson discutiu com voc?

No sei, vou pensar um pouco.

Pense bem. Pondere o quanto isso significa para voc, que preo est disposta a pagar para faz-la.  possvel que no acontea nada, mas pode ser que sim.  tudo 
uma incgnita. Mas pelo menos esteja preparada, saiba que chances voc tem.

Ser algo to terrvel assim, Edward? O seu olhar era novamente suave.

No sei, Kezia. Realmente no sei. Mas, de certa maneira, suspeito que, no importa o que eu diga, voc a far de qualquer modo. Ou talvez eu s esteja piorando 
as coisas.

No. Mas posso ter que faz-la, no por Simpson, mas por mim mesma.

Foi o que pensei.

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Captulo 7

O avio aterrissou em Chicago s cinco da tarde, menos de uma hora antes do discurso de Lucas Johns. Simpson conseguira um apartamento emprestado com uma amiga no 
Lake Shore Drive. A amiga, uma viva idosa cujo marido fora companheiro de classe de Simpson, estava passando o inverno em Portugal.

Agora, quando o txi circundava a borda do lago, Kezia comeava a sentir uma excitao crescente. Finalmente ela escolhera. Dera o primeiro passo. Mas o que aconteceria 
se coisa fosse maior do que ela era capaz de suportar? Uma coisa era trabalhar na sua mquina de escrever e se chamar de K.S. Miller, e coisa muito diferente era 
fazer isso face a face. Naturalmente Mark tambm no sabia quem ela era. Mas era diferente. O limite do seu horizonte era o seu cavalete e, mesmo que ele soubesse, 
realmente no se importaria. O fato o faria rir, mas no seria importante. Lucas Johns podia ser diferente. Ele poderia usar a notoriedade dela em vantagem prpria.

Tentou afastar seus temores quando o txi chegou defronte do endereo que Simpson lhe dera. O apartamento ficava no 19 andar de um edifcio de aparncia sbria 
do outro lado do lago. O piso de parquete no saguo ecoou sob seus ps. Acima da sua cabea havia um candelabro elaborado de cristal. E a forma fantasmagrica de 
um grande piano mantinha-se silenciosa sob uma camada de poeira, ao p da escada. Um comprido hall espelhado conduzia  sala de estar. Mais lenis protetores da 
poeira, mais dois candelabros de mrmore cor-de-rosa Lus XV. O parapeito da chamin brilhava suave  luz do hall. As moblias por baixo dos lenis pareciam macias, 
e ela vagou curiosa de sala em sala. Uma escada em espiral levava a um segundo andar. L em cima, no quarto de dormir principal, ela puxou as cortinas e afastou 
as sombras sedosas. O lago se espalhava diante dela, banhado pelo brilho do prdo-sol, barcos a vela virando de bordo preguiosamente em direo 

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casa. Seria gostoso dar um passeio e contemplar o lago por um tempo, mas ela estava com outras coisas em mente. Lucas Johns e que espcie de homem ele provaria ser.

Lera o livro dele e se surpreendeu por ter gostado. Estava condicionada a no gostar do livro s porque a entrevista se tornara uma questo to importante entre 
ela, Simpson e Edward. Mas a questo estava nela mesma e, quando leu o livro, esqueceu o resto. Lucas usava as palavras de um jeito agradvel, um jeito poderoso 
de se expressar sobre si mesmo, alm de ter insinuaes de humor por toda a obra, e uma recusa de levar a srio a si prprio, apesar da paixo pelo assunto. O estilo 
era estranhamente inconsistente com a sua histria, embora fosse difcil acreditar que um homem que tenha passado a maior parte da sua juventude em vestbulos de 
cadeias e prises juvenis pudesse ser to literato agora.

Entretanto, aqui e ali, conscientemente escorregava para o jargo das prises e grias da Califrnia. Ele era uma combinao incomum de dogmas, crenas e de esperanas, 
alm de um cinismo com seu sabor genuinamente engraado e mais de um laivo plido de arrogncia. Parecia ser diferentes coisas no mais o que tinha sido uma vez, 
porm o que se tornara: uma bem-sucedida combinao, o que ele respeitava acima de tudo. Kezia invejara-o quando lera o livro. Simpson tinha razo. De certo modo, 
o livro se relacionava com ela. Qualquer espcie de cativeiro podia ser uma priso, at mesmo um almoo no La Grenouille.

Sua imagem mental de Johns estava mais clara agora: olhos como contas, mos nervosas, ombros arqueados, barriga protuberante e finos fios de cabelo cobrindo uma 
testa brilhante, j calva. Kezia no sabia por que, mas parecia que o conhecia. Ela quase podia v-lo falando enquanto lia o livro.

Um homem corpulento fazia uma introduo ao discurso de Lucas Johns, esboando em traos ousados os problemas dos sindicatos de trabalho nas prises, uma escala 
de salrios, com preos por hora de trabalho, nas melhores instituies, os ofcios inteis que eram ensinados em condies indecentes. Ele cobriu o assunto facilmente, 
sem exagero. Kezia observou o rosto do homem. Ele estava estabelecendo a cena e o ritmo. A voz baixa, porm com um poderoso impacto. A maneira realista com que ele 
discutia os horrores das prises foi o que mais a afetou. Era estranho que tivessem posto este homem antes de Johns; seria difcil segui-lo. Ou... Talvez o dinamismo 
nervoso de Johns contrastasse bem com a maneira mais fcil do primeiro orador fcil mas com intenso
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controle. A fibra desse homem intrigou-a de tal modo que ela se esqueceu de observar a sala para se assegurar de que no havia ningum capaz de reconhec-la. Ela 
se esqueceu de si inteiramente, e foi envolvida pela disposio do discurso.

Tirou um livro de notas e registrou breves comentrios sobre o orador e s ento comeou a observar a audincia de modo geral. Notou trs conhecidos radicais negros 
e dois lderes trabalhistas que tinham repartido seu conhecimento com Johns no passado, quando ele estava comeando. Havia poucas mulheres e, na primeira fila, ela 
viu um advogado criminal muito conhecido, frequentemente citado pela imprensa. Era um grupo que j conhecia o negcio, e um outro que j estava ativo na reforma 
das prises. Ela ficou surpresa pela grande audincia e quando ouviu o final da introduo, observou que a sala estava surpreendentemente quieta. No se ouvia um 
sussurro, nenhum movimento nas cadeiras, nenhuma procura barulhenta por cigarros e isqueiros. Nada parecia se mover. Todos os olhos fixados no homem na frente da 
sala. Kezia tinha razo. Seria difcil para Lucas Johns continuar.

Olhou para o orador outra vez. Ele tinha o colorido do pai dela. Cabelos pretos quase cor de azeviche e fogosos olhos verdes, que pareciam fixar as pessoas nos seus 
lugares. Ele procurava olhos conhecidos e os retinha, falando s para eles e ento movendo-se para cobrir toda a sala, a voz baixa, as mos imveis, o rosto tenso. 
Entretanto, alguma coisa na boca sugeria escrnio. Alguma coisa nas mos sugeria brutalidade. Ele tinha mos interessantes e um sorriso incrvel. De uma maneira 
poderosa, quase assustadora, ele era bonito e ela gostou dele. Kezia se viu observando-o, examinando-o, com fome de detalhes. Os ombros causavam impacto no velho 
casaco de tweed, as pernas compridas preguiosamente estendidas em frente. A espessura do cabelo, os olhos que vagueavam, paravam e depois moviam-se outra vez at 
que finalmente a encontraram.

Kezia sentiu que ele a observava da mesma maneira como ela olhava para ele. Por algum tempo sentiu-se presa e atrada por seu olhar, ento o orador desviou seu olhar 
para longe. Tinha sido uma sensao estranha, como se posta contra a parede com uma mo na sua garganta, e outra afagando o seu cabelo; voc se sente com vontade 
de encolher de medo e derreter de prazer. De sbito, sentiu-se quente na sala repleta e calmamente olhou em volta, imaginando por que esse homem estava levando tanto 
tempo; isso dificilmente era uma introduo. Ele falara durante quase meia hora, como se quisesse roubar o espetculo de Lucas Johns. Ento ela viu claro e teve 
que lutar consigo mesma para no rir na sala silenciosa: aquilo no fora uma introduo. O homem cujos olhos to rapidamente tinham batido nos dela era Johns.

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Captulo 8

Caf?

Ch, se possvel. Kezia sorriu para Lucas Johns enquanto ele despejava uma xcara de gua quente, e depois entregava-lhe o saquinho de ch.

A suite dava sinais de hspedes frequentes xcaras de papel meio vazias, sujas de caf ou de ch, restos de biscoitos, cinzeiros transbordando de cascas de amendoim, 
pontas de cigarros, e um bar muito desgastado no canto. Era um hotel modesto, e a suite no era grande, mas agradvel e confortvel. Ela imaginava h quanto tempo 
ele estaria ali. Era impossvel dizer se Lucas fizera seu lar ali por um ano ou se tinha mudado naquele dia. Havia muita comida e bebida, mas nada era pessoal, nada 
parecia dele, como se ele possusse apenas as roupas do corpo, a luz dos olhos, o saquinho de ch que lhe dera e nada mais.

Vamos encomendar o caf l de baixo.

Ela sorriu de novo por cima da xcara de ch e observou-o, calmamente.

Para dizer a verdade, no estou com fome. No h pressa. A propsito, fiquei muito impressionada pelo seu discurso na ltima noite. Voc parecia to  vontade no 
palco. Tem muito jeito para trazer um assunto difcil s propores humanas sem parecer hipcrita a respeito do que sabe em primeira mo. Isso  uma grande arte.

Muito obrigado.  uma coisa bonita de se ouvir. Acho que  s uma questo de prtica. Tenho feito muitos discursos para grupos. A reforma de prises  tema novo 
para voc?

No inteiramente. Fiz alguns artigos no ano passado sobre levantes em duas prises do Mississipi. Foi uma confuso feia.

Sim, eu me lembro. A verdadeira questo a respeito de todo o assunto de "reforma", no  a reforma. Acho que a abolio das prises, como ns a conhecemos,  agora 
a nica soluo sensata. Eles no

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trabalham desse jeito. Estou trabalhando pelo fim das construes de prises justamente agora, com uma poro de boas pessoas que organizaram isso. Vou em direo 
a Washington em seguida.

Voc j vive em Chicago h muito tempo?

Sete meses, como uma espcie de escritrio central. Trabalho fora do hotel quando estou organizando uma srie de compromissos, como discursos ou outras coisas. Mas 
foi escondido aqui que eu escrevi meu novo livro, que vai ser lanado daqui a um ms. Depois disso, carreguei o manuscrito por toda a parte.

Voc viaja muito?

A maior parte do tempo. Mas, quando posso, volto para c. Aqui eu fixo meus calcanhares e relaxo.

Nada nele sugeria que fizesse isso frequentemente. No parecia a espcie de homem que saberia como ou quando devia parar. Apesar de toda a tranquilidade, sentia-se 
uma fora propulsora dentro dele. Tinha uma maneira muito calma de apenas se sentar, quase sem se mexer, seus olhos observando a pessoa com quem falava. Mas era 
mais como a atitude precavida de um animal farejando o ar  procura de sinais de ataque ou aproximao. Kezia podia sentir tambm que ele estava desconfiado dela 
e no completamente  vontade. O humor que ela vira nos seus olhos na noite anterior estava cuidadosamente resguardado agora.

Voc sabe, estou surpreso por terem mandado uma mulher para fazer o artigo.

Chauvinismo, sr. Johns? A ideia divertiu-a.

No, apenas curiosidade. Voc deve ser muito boa, ou eles no a mandariam. Havia o lado de arrogncia que ela notara no livro.

Acho que , principalmente, porque gostaram daqueles artigos que fiz no ano passado. Suponho que voc poderia dizer que eu j passara a vista sobre o assunto das 
prises antes...

Ele sorriu e sacudiu a cabea.

 uma maneira e tanto de colocar as coisas.

Poderia chamar a isso de "ver as coisas do lado de fora".

No estou certo de que seja um progresso. Voc nunca pode ver do lado de fora, ou ser que voc v mais claro? Mas com menos vida. Para mim, sempre parece melhor 
ir direto s entranhas da coisa. Voc entra no assunto ou no entra. Do lado de fora no  garantido, essa maneira morta de fazer alguma coisa. Seus olhos brilharam 
e a boca sorriu, mas tinha sido uma mensagem pesada. Pense nisso. Eu li alguns dos seus artigos. Eu acho... Podia ter sido na Playboy! Ficou momentaneamente perplexo, 
ela no parecia do tipo da Playboy, mas ele estava certo de se lembrar de um artigo publicado recentemente.

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Ela confirmou com a cabea, sorrindo.

Era um artigo sobre estupro. Solidrio com o lado masculino, para variar. Ou com falsas acusaes de estupro feitas por mulheres neurticas que, no tendo nada melhor 
a fazer, levam um camarada para casa e ento se acovardam e pem-se a gritar que foram estupradas.

Tem razo, esse foi o artigo de que me lembro. Eu gostei dele.

Naturalmente. Ela tentou segurar o riso.

Bem, bem. Pensei que fosse um homem que tivesse escrito. Parecia um ponto de vista masculino. Acho que por isso eu esperava um homem para fazer esta entrevista. 
No sou realmente a espcie de camarada com quem mandam mulheres conversar.

Por que no?

Porque, querida dama, eu me comporto como merda. Ele deu uma profunda e gostosa gargalhada e ela o acompanhou.

Ento  isso que voc faz, no ? Engraado! Subitamente, ele pareceu embaraado e tomou um gole de caf.

Sim, talvez. Algumas vezes... Escrever  divertido.

Sim, gosto disso. Mas o termo engraado, divertido, parece antes banal, como uma coisa que voc faz s vezes como hobby. No  a ideia que fao disso. Escrever  
importante para mim. Muito.  para valer, mais real do que uma poro de coisas que sei.

Ela se sentiu estranhamente defensiva diante do olhar silencioso dele. Era como se ele tivesse invertido a situao, passando a entrevist-la.

O que eu fao  tambm importante para mim.  real.

Pude ver isso no livro.

Voc o leu? Ele parecia surpreso e ela assentiu.

Gostei dele.

O novo  melhor.

-  to modesto sr. Johns, to modesto!'' Ele era uma espcie engraada de homem.

Este ltimo  menos emocional e mais profissional, e eu aprecio isso.

Os primeiros livros so sempre emocionais.

Voc escreveu um? A situao se invertera de novo.

Ainda no, mas muito breve, espero. Isso, subitamente, irritou-a.

Ela era escritora, trabalhara duro no seu ofcio durante sete anos e ele escrevera no um livro, mas dois. Ela o invejou. Por isso e uma poro de coisas. Seu estilo, 
sua coragem, a vontade de seguir seusinstintos e pular no que ele acreditava... mas ento de novo ele nada tinha a

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perder. Ela lembrou-se da mulher e da criana morta, e sentiu-se estremecer por alguma ternura nele que devia estar escondida em algum lugar, profundamente.

Eu tenho mais uma pergunta e depois voc pode voltar para o artigo. O que significa o "K"? De alguma maneira, K.S. Miller no soa como um nome.

Ela riu para ele, e por um breve momento quase lhe contou a verdade: Kezia. O "K" representa Kezia e Miller  uma farsa. Ele era a espcie de homem a quem s se 
diz a verdade. No se podia livrar com menos e no se quereria. Mas ela devia ser sensata. Seria tolo pr tudo a perder por um momento de honestidade. Kezia era 
um nome pouco comum e ele poderia ver sua fotografia em algum lugar, e a prxima coisa que se saberia...

O "K"  de Kate. O nome da sua tia favorita...

Kate, nome sensvel. Kate Miller. Kate Sensvel Miller.

Ele sorriu para ela e acendeu outro cigarro. Kezia teve a impresso de que ele estava se rindo dela, mas no de maneira maliciosa. O olhar lembrou-lhe outra vez 
o do seu pai. De maneira estranha eles eram semelhantes... alguma coisa na maneira de rir... na maneira inflexvel de olhar para ela, como se soubesse todos os seus 
segredos e estivesse apenas esperando que ela prpria os revelasse, para ver se ela o faria, como se ela fosse uma criana brincando e ele o soubesse. Mas o que 
poderia este homem saber? Nada, a no ser que ela estava ali para entrevist-lo e o seu primeiro nome era Kate.

Muito bem, vamos encomendar o desjejum e comear a trabalhar. Os gracejos e as brincadeiras acabaram.

Certo, sr. Johns. Estou pronta, se o senhor estiver.

Ela tirou o bloco com as notas rabiscadas na noite anterior, tirou uma caneta da bolsa e sentou-se na sua cadeira.

Ele divagou durante duas horas, falando com surpreendente franqueza a respeito dos seus seis anos de priso. Como era viver sob a sentena indeterminada, a qual 
explicou para ela: era um fenmeno da Califrnia que condenava homens a sentenas de cinco ou trs anos  priso perptua, deixando o trmino da sentena para ser 
determinada Pelo departamento de liberdade condicional ou pelas autoridades carcerrias. At mesmo o juiz, que d a sentena, no tem controle sobre O tempo que 
um homem deve passar na priso. Uma vez comprometido com as garras da sentena indeterminada, um homem pode apodrecer na priso toda a vida, esquecido, perdido, 
muito tempo depois da reabilitao ou at que ele no se importe mais com a sua liberdade. Chega uma hora em que isso j no importa.
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Mas eu... disse ele com um meio sorriso eles no podiam se livrar de mim, eu era a pedrinha no sapato deles. Ningum gosta de um organizador. Eu tinha organizado 
outros prisioneiros em comits para melhores condies de trabalho, interrogatrios melhores, condies de visita decentes com suas mulheres, mais amplas oportunidades 
para estudo. Fui o representante deles todos.

Contou tambm o que fez para ser mandado para a priso, e falou nisso com um mnimo de emoo.

Procurando barulho, eu acho, e aborrecido com a vida que tinha. Estava completamente bbado, era vspera de Ano-Novo e bem... voc sabe o resto. Assalto a mo armada, 
sem sangue-frio o suficiente, para dizer o menos. Assaltei uma mercearia com uma espingarda que nem mesmo funcionava e fugi com duas caixas de bourbon, uma caixa 
de champanha e uns cem dlares. Eu realmente no queria os cem dlares, mas eles me entregaram, ento peguei. Eu s queria a bebida, para tomar um porre com os meus 
camaradas. Fui para casa e me diverti o quanto pude. At que me levaram para a priso, pouco depois da meianoite... Feliz Ano-Novo. Ele sorriu timidamente e depois 
seu rosto tornou-se srio. Parece engraado agora, mas no foi. Voc parte uma poro de coraes quando faz uma coisa como essa.

Parecia errado para Kezia. Admitia que era uma coisa revoltante de fazer. Mas seis anos e a vida da mulher por causa de trs caixas de bebida? Seu estmago revirava-se 
lentamente, enquanto na sua mente irrompiam cenas de La Grenouille, Lutce, Maxim's e Anabela. Almoos de cem dlares e fortunas gastas em rios de vinho e champanha. 
Mas nesses famosos bares ningum encomendava seu champanha com um tiro.

Luke falou graciosamente sobre sua juventude no Kansas. Um perodo sem acontecimentos, quando o seu maior problema fora o seu tamanho e sua curiosidade sobre a vida. 
Ambos fora da proporo para sua idade e situao na vida. Apesar do aviso de Simpson, Luke podia se fechar nos problemas pessoais. Kezia achou-o aberto e fcil 
de conversar. No final da manh, tinha a impresso de que sabia tudo a respeito dele e parara de tomar notas. Era mais fcil ouvir a alma do homem escutando apenas 
os pontos de vista polticos, os interesses, as causas, as experincias, os homens que ele respeitava e os que detestava. Ela recapitularia tudo isso mais tarde, 
de memria, com mais profundidade.

O que mais a surpreendeu foi a falta de amargura. Era determinado,; raivoso, agressivo, arrogante e duro. Mas tambm apaixonado nas suas crenas e compadecido com 
as pessoas com quem ele se importava; e gostava de rir. As gargalhadas de bartono soaram frequentemente na pequena
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sala de estar na sua suite enquanto ela o entrevistava e ele a regalava com histrias de anos passados. J passava bem das onze quando ele se esticou e levantou 
da sua cadeira.

Detesto dizer isto, Kate, mas temos que interromper. Tenho de falar com outro grupo ao meio-dia e preciso cuidar de umas poucas coisas antes. Posso interess-la 
num outro discurso? Voc  uma boa audincia. Ou voc tem que voltar para Nova York? Ele percorreu a sala, colocando papis e canetas no bolso e olhando por cima 
do ombro para ela com o olhar que se reserva para amigos.

As duas coisas realmente. Devo regressar. Mas gostaria de ouvir voc falar. Que grupo ?

Psiquiatras. O tema  um relatrio de primeira mo sobre os efeitos psicolgicos de estar na priso. E provavelmente vo querer ouvir at que ponto  real a ameaa 
da psicocirurgia na priso. Eles sempre perguntam a respeito.

Voc quer dizer lobotomias frontais? Ele assentiu.

 grande o nmero delas? Ela ficou momentaneamente petrificada.

Mesmo um pouco "delas"  demais. Mas acho que no acontecem com muita frequncia. Talvez ocasionalmente. Lobotomias, tratamento de choque, uma poro de merda horrenda.

Ela assentiu sombriamente e observou o relgio.

Vou apanhar as minhas coisas e encontr-lo l.

Voc est num hotel aqui perto?

No, meu agente arranjou o apartamento de um amigo.

Muito conveniente.

Muito.

Quer uma carona? ofereceu ele enquanto se encaminhava para a porta.

Eu... no... obrigada. Tenho que fazer umas paradas pelo caminho. Eu o encontrarei na sua conferncia.

Ele no insistiu, mas concordou, alheado, enquanto esperavam pelo elevador.

Ficarei interessado em ler este artigo quando ele for publicado.

Vou pedir ao meu agente que lhe envie as provas, to logo as tenha. Ele a deixou diante do hotel; Kezia foi at a esquina e chamou um txi. Era um dia bonito para 
caminhar, e se tivesse mais tempo andaria todo o caminho de volta ao apartamento no Lake Shore Drive. Um dia quente de outono com cu brilhante. Quando chegou ao 
edifcio, pde observar veleiros deslizando na superfcie do lago.

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O apartamento fantasma ecoou os seus passos quando ela correu escadas acima com a sua mala. Puxou a capa protetora de poeira sobre a cama muito bem-arrumada e puxou 
a persiana. Riu imaginando o que Luke diria se tivesse visto isso. No combinava com a imagem de Kate. Alguma coisa lhe dizia que ele no aprovaria. Ou talvez achasse 
divertido e, juntos, puxariam as capas de todos os mveis, acenderiam o fogo e ela tocaria msicas de cabar no grande piano do andar trreo, dando um pouco de vida 
ao lugar. Engraado ela pensar em fazer alguma coisa destas com Luke. Mas ele poderia ser um homem adequado para se divertirem juntos. Kezia gostava dele e Luke 
no fazia ideia de quem ela era. Havia um sentimento seguro e feliz e o artigo j se elaborava bem na sua cabea.

A conferncia de Luke foi interessante e o grupo receptivo. Ela registrou umas poucas notas. Agora, almoando, mordiscou distraidamente o bife no seu prato. Luke 
estava sentado a uma mesa comprida, cheia de flores, na frente da sala, e ela foi localizada perto. Ele olhava para Kezia de vez em quando, com uma risada maliciosa 
nos olhos verde-esmeralda. Uma vez, levantando silenciosamente seu copo para ela, piscou. Deu-lhe uma vontade de rir no meio daquele grupo de psiquiatras. Ela sentiu 
como se o conhecesse melhor do que todos os presentes na sala, talvez melhor do que ningum. Luke compartilhou com ela bastante da sua histria; ela entrara a fundo 
no santurio interior de Luke que Simpson profetizara que jamais conseguiria. Era uma vergonha que Kezia no pudesse dar-lhe a recproca.

Seu voo seria s trs e ela teria que deixar o almoo s duas. Mal Luke acabara sua conferncia ela se levantou. Ele tinha se sentado em cima do estrado com a multido 
habitual de admiradores em volta. Ela chegou a pensar em sair lentamente, sem perturb-lo com agradecimentos e despedidas, mas no seria correto. Queria pelo menos 
dizer alguma coisa antes de sair, pois parecia muito pouco amvel esquadrinhar a cabea de um homem durante quatro horas, e depois simplesmente desaparecer. Mas 
era quase impossvel atravessar a multido e, quando finalmente conseguiu, encontrou-se de p, bem atrs dele, que falava animadamente para algum. Kezia ps a mo 
no seu ombro e se assustou com o pulo que ele deu. No parecia a espcie de homem capaz de ficar assustado.

Era uma coisa grave para fazer a algum que passara seis anos na priso. Sua boca sorria, mas os olhos pareciam srios, quase medrosos.

Fico nervoso com algum atrs de mim. J  um reflexo.

Lamento, Luke, eu s queria me despedir; preciso pegar o avio.

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OK, aguarde apenas um segundo.

Ele levantou-se para lev-la at o saguo. Enquanto Kezia voltava  mesa para apanhar o casaco, Luke foi detido pelos admiradores. Ela se enervava perto da porta, 
at que no pde mais esperar. Amvel ou no, precisava ir. No queria perder o avio. Com um ltimo olhar na direo dele, cruzou o saguo e pegou a valise com 
o porteiro, quando este abriu a porta do txi. Recostou-se no assento traseiro do carro e sorriu. Tinha sido uma boa viagem e escreveria um belo artigo.

Kezia no vira Lucas de p, debaixo do toldo, atrs dela com uma expresso de desapontamento no rosto.

Diabos, sra. Kate Miller, muito bem. Ns vamos nos ver a respeito disso. Sorriu para si mesmo quando tornou a entrar. Tinha gostado dela. Ela era to vulnervel, 
to engraada... a espcie de mulher pequenina e fina que ele queria jogar para o ar e apanhar nos braos.

O senhor alcanou a jovem senhora? perguntou o porteiro, que o tinha visto correr.

No respondeu, abrindo um amplo sorriso que era quase uma risada. Mas eu a alcanarei.


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Captulo 9

Ele me telefonou? O que quer dizer? Ele me telefonou? Eu mal cheguei. E como  que ele conseguiu falar com voc? Kezia estava quase lvida de raiva com Simpson.
Acalme-se, Kezia. Ele telefonou h uma hora e suponho que o pessoal da revista o tenha encaminhado a mim. No existe mal nenhum nisso. E ele foi perfeitamente civilizado.
Bem, o que ele queria? Ela estava se despindo enquanto falava, a gua j estava enchendo a banheira. Faltavam cinco minutos para as sete e Whit dissera que viria 
apanh-la s oito. Eles eram esperados numa festa s nove.
Ele disse que achava que o artigo no ficaria completo a menos que voc cobrisse o encontro para essa moratria contra prises, amanh em Washington. Ele gostaria 
que voc segurasse o artigo at poder acrescentar o resto. Parece razovel, Kezia. Se voc foi a Chicago, certamente pode ir a Washington por uma tarde.
Quando  essa coisa que voc quer que eu v? Maldito Lucas Johns. Ele est sendo uma peste, ou pelo menos egocntrico.
Ela escrevera o esboo do artigo no avio e bastava. Seu senso de triunfo se evaporara rapidamente agora. Um homem que telefonara mal ela ds-cera do avio no merecia 
confiana de no estar querendo saber demais. 
A assembleia da moratria  amanh de tarde.
Diabo, se eu for de avio posso ser reconhecida por um reprter social, que vai pensar que vou a alguma festa e tente me arrancar um bocado de notcias. E ento 
sou capaz de acabar cercada de paparazzi.
Isso no aconteceu na ida a Chicago, no foi?

No, mas Washington  muito mais perto de casa e voc sabe disso. Jamais vou a Chicago. Talvez eu deva ir de carro amanh e... Oh! meu Deus, a banheira!

Simpson esperou ela fechar a torneira. Parecia nervosa e ele deduziu
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que a viagem fora cansativa. Mas teria sido boa para ela. No havia dvida alguma sobre isso. Ela tinha enfrentado tudo, feito a entrevista e ningum a reconhecera 
graas a Deus. Se tivessem, ele nunca veria o fim disso. Agora ela poderia fazer uma poro de entrevistas. E Johns certamente tinha parecido contente com o trabalho 
dela. Mencionara que conversou quase quatro horas com ela. Kezia devia ter manejado tudo muito bem, e as referncias casuais de Johns a srta. Miller mostravam que 
ele no tinha a menor ideia de quem ela era. Ento qual o problema? Por que to explosiva? Ela voltou ao telefone com um suspiro.

Voc est se afogando a?

No ela riu, cansada. Lamento, Jack eu fui grosseira com voc, mas realmente fico nervosa de fazer essa espcie de coisa to perto de Nova York.

Mas a entrevista de hoje correu bem, no foi?

Sim. Muito bem. Mas voc pensa que a moratria  realmente importante para o artigo, ou ser que Luke Johns est numa viagem astral agora e quer mais ateno?

Acho que a ideia dele  vlida.  uma outra esfera da sua ao e podia dar muita fora ao artigo. Atmosfera, e nada mais. Depende de voc, mas no vejo mal algum 
em voc ir. Sei o que a preocupa, mas voc viu por si mesma, em Chicago, que no houve problema com isso. No houve reprteres e ele no tem a menor ideia de quem 
seja voc, alm de K.S. Miller.

Kate disse e riu consigo mesma.

O qu?

Nada. Oh, no sei. Talvez voc tenha razo. A que horas comea o encontro? Ele disse?

Meio-dia. Ele estar viajando de avio de Chicago de manh. Ela pensou por um minuto e ento concordou no telefone.

Muito bem, farei isso. Suponho que poderia voar na ponte area. E poderia voltar amanh  noite.

timo. Voc quer telefonar a Johns para confirmar, ou quer que eu faa? Ele queria confirmao.

Por qu? Assim ele poder telefonar para outro bigrafo caso eu no v?

Ora, no seja enjoada. Havia momentos em que ela precisava de um pontap no traseiro. No, ele falou alguma coisa como busc-la no avio.

Merda!

O qu?! Simpson parecia ligeiramente chocado. Ele no estava habituado com essa linguagem por parte de Kezia.

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Desculpe. No, eu mesma vou cham-lo. E no quero ser encontrada no avio. S em caso extraordinrio.

Acho prudente. E voc quer que arranje algum lugar para voc ficar? Se quiser um hotel, podemos pr na conta da revista, juntamente com a passagem do avio.

No, prefiro voltar para casa. E esse lugar que voc me arranjou em Chicago foi fabuloso. Deve ser uma casa e tanto quando ela est em plena atividade.

Costuma ser... costuma ser. Estou contente que tenha gostado. Passei l uns bons tempos, h muitos anos. Ele se deixou levar durante um momento e depois voltou ao 
tom comercial. Ento voc voltar para casa amanh  noite.

 isso a. Ela queria voltar ao SoHo e Mark. H dias. E esta noite tinha aquela festa no El Morocco para ir com Whit. Hunter Forbishe e Juliana Watson-Smithe anunciavam 
seu noivado como se todo mundo j no soubesse. Duas das mais chatas e ricas pessoas na cidade, e, sorte pior ainda, Hunter era seu primo em segundo grau. A festa 
seria insuportvel, mas pelo menos El Marocco era divertido. No ia l desde o vero. E os chatos no somente estavam ficando noivos, mas decidiram ter um tema para 
a festa: branco e preto. Seria engraado se aparecesse com George, seu amigo danarino do SoHo. Preto e branco... ou Lucas, para esse tema, com seu cabelo negro 
para combinar com o de Kezia e a pele igualmente branca. Que absurdo. E valendo uma montanha de notcias para um ano. No, precisava combinar com Whit, mas era uma 
vergonha. Luke se divertiria numa festa como esta. Engraado e ultrajante. Riu alto quando mergulhou no banho. Ela telefonaria para ele aps vestir-se, para lhe 
dizer que o encontraria em Washington na manh seguinte. Mas, em primeiro lugar, tinha que se arrumar para a festa. Kezia j havia decidido h muito tempo o que 
usaria para aquela encantadora soiree em branco e preto: o vestido de renda, que j estava pousado na cama, ousadamente decotado, em estilo imprio com uma capa 
moir preta, o novo leno de pescoo David Webb e brincos que ela mesma comprara no ltimo Natal: um conjunto de nix com um generoso suprimento de lindas pedras, 
diamantes naturalmente. Aos 29 anos ela no esperava mais que algum lhe comprasse essa espcie de coisa. Ela mesma comprava.
Lucas Johns, por favor. Esperou enquanto a telefonista chamava o quarto.

Alo. Parecia sonolento ao atender.
Luke?... Kate... Ela quase falara Kezia.,
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Eu no sabia que voc gaguejava. Ela deu uma risada, que ele retribuiu.

No gaguejo. Apenas estou com muita pressa. Jack Simpson me telefonou. Irei cobrir essa reunio amanh. Por que voc no mencionou esta manh que eu deveria estar 
l?

S pensei nisso depois que voc se foi ele sorria para si mesmo enquanto falava. Pensei que precisaria disso para completar a entrevista. Voc quer que eu a apanhe 
no avio?

No, obrigada. Estarei bem. Diga-me apenas onde posso encontr-lo.

Ele disse e ela anotou o endereo, de p junto  sua mesa, no seu vestido de renda branca e capa de moir, delicadas sandlias de seda preta nos ps e uma das pulseiras 
de diamantes da sua me em cada brao. E ento comeou a sorrir.

O que  engraado?

Nada realmente. Foi apenas o que eu estava usando.

E o que voc est usando sra. Miller?

Uma coisa terrivelmente tola.

A mim me parece muito misterioso. No tenho certeza se voc quer dizer botas de couro altas e um chicote, ou um roupo cravejado de pedras com diamantes falsos.

Um pouco das duas coisas. Vejo-o amanh, Luke.

Desligou com um ltimo ataque de riso e a campainha da porta tocou aparecendo um Whit to empertigado e elegante como sempre. Para ele, naturalmente, fora fcil 
o branco e o preto: um smoking e uma das camisas que ele mandava fazer quatro vezes por ano em Paris.

Onde voc esteve o dia inteiro? E meu... Mas como voc est esplndida! Trocaram seu habitual beijo seco e ele segurou-lhe as mos.  alguma coisa nova. No me lembro 
de ter visto esse vestido antes.

Mais ou menos, eu no o uso frequentemente. E passei o dia inteiro com Edward. Fizemos meu novo testamento. Sorriram um para o outro e ela pegou sua bolsa. Mentiras, 
mentiras, mentiras. Nunca tinha sido assim antes. Mas ela sabia, enquanto rodopiava para o hall, que a coisa ia piorar. Mentindo para Whit, mentindo para Mark, mentindo 
para Luke. " por essa razo que voc escreve, Kate. Por divertimento?" Lembrou-se da pergunta de Luke enquanto o elevador levava-os para o saguo, e as sobrancelhas 
se franziram quando ela pensou no olhar de Luke. No fora acusador, apenas curioso. "Mas no, merda!" Ela no escrevia s para se divertir. Era real. Mas como qualquer 
coisa pode ser ali quando tudo que faz est envolvido em mentiras?

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Pronta, querida? Whit esperava por ela fora do elevador, e ela ficara parada l um instante sem se mover, olhando para ele, mas vendo os olhos de Luke, ouvindo sua 
voz.

Lamento, Whit, devo estar cansada. Apertou-lhe o brao quando saram para a limusine que os esperava.

Por volta das dez j estava embriagada.

Por Deus, Kezia, voc est certa de poder andar? Marina observava-a puxar as meias para cima e o vestido para baixo quando estavam no toalete das mulheres no El 
Morocco.

Naturalmente que posso andar! Mas ela estava cambaleando e no parava de rir.

O que lhe aconteceu?

Nada desde que Luke, quero dizer, Duke... quero dizer, desde o caf da manh, droga. Mal tivera tempo de tocar no almoo antes de tomar o avio em O'Hare, e no 
tinha se preocupado em jantar.

Kezia, voc est bbada. Um caf ajudaria?

No, ch. No... caf. No! Champaaaannnhhaaa! Ela arrastava a palavra e Marina riu.

Pelo menos voc  uma bbada amigvel. Vanessa Billingsley fica perturbada e chegou a chamar Mia Hargreaves de puta delirante.

Kezia soltou gargalhadas espasmdicas e Marina acendeu um cigarro, sentando-se enquanto Kezia procurava desesperadamente lembrar o que Marina acabara de dizer. Mia 
chamara Vanessa de... no, Vanessa chamara Mia.

Se ela pudesse se prender a isso seria bom para a coluna. E o que ouvira antes a respeito de Patricia Morbang estar grvida? Seria isso mesmo? Tudo era to difcil 
de lembrar!

Oh Marina,  to difcil lembrar de tudo.

Marina olhou-a com um meio sorriso e sacudiu a cabea.

Kezia, meu amor, voc est em pedaos. Bem, quem no est? Devem ser mais de dez horas.

Meu Deus,  mesmo! E eu que tenho que acordar cedo amanh, merda!

Marina riu outra vez ao ver Kezia se espalhando de parede a parede do toalete das senhoras, parecendo uma criana recm-chegada da escola, o vestido de renda branca 
como espuma parecendo uma camisola de noite, os diamantes brilhando nos seus pulsos como se fossem emprestados pela me para afastar o tdio de um dia chuvoso.

E Whit vai ficar muito furioso se eu estiver embriagada.

Diga-lhe que  gripe. No sei se o sacana saberia a diferena.

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Ambas riram e Marina ajudou-a a se pr de p- Voc realmente tem que ir para casa.

Acho que era melhor danar. Whit dana muito bem, voc sabe.

Ele tem que saber. Marina olhou dura e longamente para ela, mas a mensagem ficou perdida para Kezia. Estava demasiado embriagada para ouvir ou se importar.

Marina? Kezia parecia ainda mais infantil de p, olhando para a sua amiga.

O que, meu amor?

Voc ama realmente Halpern?

No, garota. No. Mas amo a paz de esprito que ele pode me dar. E consegui isso tentando por mim mesma com as crianas. E com mais seis meses teria que vender meu 
apartamento comunitrio.

Mas voc o ama um pouco...

No, mas gosto dele bastante. Marina parecia cnica e divertida.

Mas voc no ama ningum? Um amante secreto, talvez? Voc tem de amar algum, no ?

Voc ama? Bem, imagine isso: voc ama Whit?

Claro que no. Uma espcie de pequeno alarme funcionou dentro da sua cabea. Estava falando demais.

Ento quem voc ama, Kezia?

Voc, Marina, eu amo voc muito, muito, muito. Atirou os braos em torno do pescoo da amiga e comeou a rir. Marina sorriu-lhe de volta e gentilmente tirou-lhe 
os braos do pescoo.

Kezia, querida, voc pode no amar Whitney, mas se eu fosse voc conseguiria que ele me levasse para casa. Acho que j basta!

Saram do toalete das senhoras de brao dado. Whitney aguardava do lado de fora. Ele notara o balano do passo de Kezia quando ela deixara a sala, meia hora antes.

Voc est bem?

Maravilhosa. Whit e Marina trocaram olhares e Whitney Piscou-lhe.

Voc certamente est maravilhosa. Eu no sei o que voc sente Querida, mas eu tambm estou maravilhosamente cansado. Acho que Podemos chamar isso uma noite e tanto.

No, no e no! No estou cansada. Vamos chamar isso uma manh!

Subitamente, Kezia achava tudo muito engraado.

Vamos tirar seu rabo daqui, Kezia, antes que voc aparea na coluna de Martin Hallam amanh: Kezia Saint Martin, bbada como um


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gamb quando deixou o El Morocco na ltima noite com... No seria lindo? Kezia riu de contentamento com o aviso de Marina.

Isso no podia acontecer a mim.

Whitney e Marina riram outra vez e lgrimas comearam a rolar pelas faces de Kezia enquanto ela ria.

Ah, no pode? Pode acontecer a qualquer um de ns.

Mas no a mim, eu sou... eu sou amiga dele.

E Jesus Cristo tambm . Marina deu-lhe pancadinhas no ombro e voltou para a festa enquanto Whitney passava o brao em torno de Kezia, conduzindo-a lentamente para 
a porta. Ele havia enrolado a capa preta no seu brao e estava carregando a pequena bolsa de contas pretas.

 minha culpa, querida, devia t-la levado para jantar antes de virmos para c.,

Voc no podia.
Claro que podia. Deixei o escritrio cedo, para jogar tnis,
No, voc no podia, eu estava em Chicago. Ele arregalou os olhos e ps a capa sobre os ombros dela.
Est bem, querida. Est bem. Certamente voc estava. Kezia teve outro ataque de riso enquanto ele a levava gentilmente para fora. Ela deu-lhe pancadinhas na face 
e olhou-o de modo estranho,
Pobre Whitney disse. Ele no prestava ateno. Estava muito mais preocupado em p-la num txi. Ele acomodou-a na sua sala de visitas e deu-lhe uma palmadinha gentil, 
esperando impulsion-la para o quarto de dormir. Sozinha. Trate de dormir um pouco, mademoiselle. Telefono-lhe amanh.
Tarde! Muito tarde. Ela s se lembrava que deveria estar em Washington o dia todo. Com uma terrvel ressaca.
Voc diz "tarde"! eu no ousaria telefonar-lhe antes das trs.
Faa isso s seis! Kezia riu para ele quando fechou a porta atrs de si e mergulhou numa das cadeiras de veludo azul da sala de visitas. Estava bbada. Total e maravilhosamente 
bbada. E tudo por causa de um estranho chamado Luke. E iria v-lo no dia seguinte.
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Captulo 10

A impresso estava um pouco borrada, e os traos indistintos, mas era indubitavelmente Kate. A maneira de se transportar era inconfundvel. A flexo da cabea, seu 
tamanho. A ilustre Kezia Saint Martin, numa vestimenta em branco e preto, parecia uma criao de Givenchy, o jornal dizia, e usando as famosas pulseiras de diamantes, 
que tinham sido de sua me. Herdeira de vrias fortunas em ao, petrleo. No surpreendia que ela risse falando-lhe ao telefone e dissesse que estava usando uma 
coisa engraada. A roupa tambm pareceu muito engraada para Luke. Mas ela estava linda. Mesmo nos jornais. Ele j a vira nos jornais antes, mas agora prestava ateno 
direta no que via. Agora que a conhecia isso era importante para ele. E que vida estranha ela devia levar. Ele percebera aquela agitao extrema por baixo da pose 
e da perfeio. O pssaro na gaiola dourada estava morrendo por dentro e ele sabia disso. E imaginava se ela tambm saberia. E o que sabia mais agudamente era que 
queria toc-la, antes que fosse tarde demais.

Em vez disso tinham aquele maldito encontro, e ele devia continuar representando o jogo dela. Cabia a Kezia terminar o jogo "K.S. Miller" entre eles. S ela poderia 
fazer isso. Tudo o que podia fazer seria dar-lhe a chance. Mas quantas chances mais? Com quantas desculpas podia ele sonhar? Quantas cidades mais? Quantos encontros 
mais? Tudo que sabia  que a queria, por mais tempo que levasse. O problema era ele no ter muito tempo. O que tornava tudo mais maluco.

Quando Kezia chegou, encontrou Luke num gabinete cercado de rostos incomuns. Os telefones tocavam, o pessoal gritava, mensagens voavam, a fumaa era espessa, e ele 
parecia no notar que ela estava ali. Acenou uma vez e no olhou para ela toda a tarde. A coletiva com a imprensa fora remarcada para as duas e as salas permaneceram 
cheias durante todo o dia.

Eram seis horas quando Kezia conseguiu um lugar para sentar. Tirou
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o bloco da sua bolsa e alegremente aceitou a metade de um sanduche de presunto de um estranho. Que dia para sobreviver com uma ressaca. Sua cabea tinha piorado 
com a hora. Telefones, pessoas, discursos, estatsticas, fotografias. Era demais. Ao, emoo e presso. Ela se surpreendia como ele aguentava isso como dieta regular, 
com ou sem ressaca.

Quer sair daqui?

Esta  a melhor oferta que tive o dia inteiro. Sorriu para ele e pela primeira vez em muitas horas o rosto dele amenizou-se.

Venha. Vou lhe arranjar alguma coisa decente para comer.

Eu realmente devo ir para o aeroporto.

Mais tarde. Voc precisa de um intervalo primeiro. Parece que levou uma trombada de caminho. E era como ela se sentia. Amarrotada, cansada, desgrenhada. Lucas no 
tinha melhor aspecto. Parecia cansado e durante a maior parte do tempo mostrara um ar carrancudo. Um charuto na mo e a cabeleira como se ele tivesse passado as 
mos por ela durante horas.

Mas ele tinha razo. O dia tinha sido um contraste total com os dois em Chicago. Este era a carne do ofcio, o estmago, como ele o chamou. Apaixonado, frentico, 
fervente. Este era mais intenso, menos polido e muito mais real. Luke parecia ser o encarregado total deste encontro. Era quase uma espcie de deus. Havia uma fria 
em volta dele de que ela s tivera um vislumbre em Chicago. O ar estava eltrico, com seu tipo especial de energia, e a dureza dele j no era silenciosa. Mas seu 
rosto amenizou-se um pouco quando olhou para ela na sada.
Parece cansada, Kate. Foi demais para voc? No era uma crtica, ele parecia preocupado.
No, estou bem. E voc? Foi um dia interessante e estou contente de ter vindo para assisti-lo.
Eu tambm. Percorriam um longo corredor agitado, entre fluxos de pessoas voltando para casa.

Conheo um lugar calmo, onde poderemos jantar cedo. Voc dispe de algum tempo? O tom em que falou revelava que ele esperava que ela pudesse.

Certamente eu gostaria. Por que correr de volta? Para qu? Para Whitney ou para Mark. Subitamente, nem isso parecia importar. Eles foram para a rua e ele tomou-lhe 
o brao.

A propsito, o que voc fez na ltima noite? Ele duvidava que ela dissesse. Para dizer a verdade, fiquei bbada. E no fazia isso h anos. Era louca essa necessidade 
de lhe dizer tudo sem realmente dizer. Ela podia contar-lhe tudo, mas ele sabia que no o faria.

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Voc se embriagou? Luke contemplou-a com um ar divertido por todo o rosto.

Ento ela ficara embriagada naquele modelo branco e preto, com as pulseiras de diamantes da sua me... e acompanhada por aquele homossexual enfeitado. Sem dvida 
ela estava aborrecida com a sua desaprovao.

Estavam andando lado a lado agora, e ela olhou para ele pensativa, aps breve silncio.

Voc realmente preocupa-se a respeito da priso, no ? Quero dizer... no ntimo?

Ele assentiu cuidadosamente.

Voc no pode calcular?

Posso. S fico um pouco intrigada por que d tanto de si a esta causa. Parece-me uma quantidade de energia gasta num s lugar.

Vale a pena.

Deve valer. Mas no se estar expondo a um risco tremendo s por se envolver nessas questes e ser to franco sobre elas? Parece-me que ouvi dizer que podem revogar 
a liberdade condicional por muito menos.

E se o fizerem, o que eu perdi?

Sua liberdade. Ou isso no lhe importa? Talvez depois de seis anos de priso isso no importasse mais para ele, embora parecesse que esse fato s podia tornar mais 
cara a liberdade.

Voc no entende a questo. Nunca perdi minha liberdade, mesmo na priso. Ah, certamente por um tempo, mas uma vez que a reencontrei, tratei de conserv-la. Parece 
antiquado, mas ningum pode tomar sua liberdade. Eles podem limitar sua mobilidade, porm isso  mais ou menos tudo que podem fazer.

Muito bem, ento vamos dizer que tentem limitar sua mobilidade de novo. Voc no estar se expondo a srio risco com essa espcie de agitao que est fazendo do 
lado de fora: discursos, conferncias, seus livros, as questes de sindicato de trabalho nas prises? Parece-me que voc est andando numa corda bamba. Inconscientemente, 
ela repetia o discurso de Simpson.

Parece-me que muita gente faz isso. Na priso e fora dela. Talvez voc mesma tambm esteja numa corda bamba. Ento o que fazer?  calmo enquanto voc no cai.

E ningum o empurra.

Tudo que sei  que todo o sistema est podre. No posso ficar de boca fechada. Se calar, minha vida nada significaria para mim.  simPlesmente isso. E se eu pagar 
um preo no final, foi minha prpria escolha.
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Estou querendo correr esse risco. Alm disso, eu diria que o Departamento de Correes da Califrnia no se acha exatamente disposto a me convidar para voltar. Eu 
dei-lhes um jumbo gigante. A mais importante dor do traseiro.
Realmente, voc no teme ter sua liberdade condicional revogada?
Nada disso, nunca acontece. Mas ele no olhou para ela enquanto dizia isso e pareceu ficar tenso. Voc gosta de comida italiana, Kate?

Cai bem. No estou certa, mas acho que estou faminta.

Ento massa  o ideal. Vamos pegar aquele txi. Ele correu cruzando a rua e segurando-lhe a mo. Manteve a porta devidamente aberta, seguiu-a encolhendo as pernas 
no banco de trs muito estreito, Puxa, devem ter fabricado esse carro para anes. E voc parece to confortvel! Devia dar graas por ser um pigmeu. Deu ao motorista 
o endereo do restaurante, passando por cima dos protestos ultrajados de Kezia.

S porque voc  um aborto da natureza, Lucas Johns, isto no significa que pode desabafar seus problemas nos... - Ora, no h nada de errado em ser pigmeu. Ela 
lanou-lhe um olhar terrvel e fungou.

Eu lhe devia dar um soco no olho, sr. Johns, mas receio machuc-lo.
Isso estabeleceu o tom da noite. Leve, brincalho, camarada. Ele era fcil de conviver. E s depois que o caf expresso foi servido  que ficaram mais pensativos.

Gosto desta cidade. Voc vem aqui frequentemente, Kate? Se eu morasse em Nova York eu viria.
Venho de vez em quando.

Para qu? Ele queria que ela contasse a verdade. No podiam nem mesmo comear at que ela o fizesse.
E ela queria lhe dizer que vinha ali para festas, bailes, jantares na Casa Branca. Para inauguraes. Para casamentos. Mas no pde dizer nada disso. No importa 
o que fosse.
Venho para histrias ocasionais como esta. Ou apenas para ver amigos. Kezia notou um laivo de desapontamento nos olhos dele, mas foi passageiro. Voc no fica cansado 
de viajar tanto? Novamente era a digna srta. Saint Martin. Luke estava comeando a pensar que no havia esperanas.

No, viajar  uma maneira de viver para mim atualmente, e  por uma boa causa. O que acha de um pouco de conhaque?
92 
Oh, Deus, no esta noite. Ela se encolheu  lembrana da dor de cabea, que afinal a deixara com o jantar.

Presa  m noite passada, hem?

Pior! Ela sorriu e tomou um outro gole de caf.

Como foi? Divertiu-se?

No. Tentando entorpecer-me, fugir de meus problemas, e acho que tenho uma poro na minha cabea. Tudo uma tentativa de me afastar de mim mesma.

O que  que voc tem na cabea? "Voc, sr. Johns..."

Ela sorriu do seu prprio pensamento.

Posso censur-lo e dizer que foi a entrevista? Um olhar de pura pirraa feminina danava nos seus olhos.

Certamente, voc pode pr a culpa em mim, se quiser. Tenho sido acusado de coisas piores. "Ento ela tem que se entorpecer para suportar a festa. Interessante. Muito 
interessante. Pelo menos ela no estava enamorada daquele filho da puta." Sabe uma coisa, Kate? Eu gosto de voc.  uma mulher muito encantadora. Ele recostou-se 
para trs e sorriu, olhando profundamente os olhos dela.

Muito obrigada, apreciei muito estes ltimos dias. E ser que devo fazer uma confisso terrvel?

O qu? Voc jogou o seu bloco fora, no toalete do escritrio? Eu no censuraria nem um pouco, e comearamos tudo. Eu gostaria.

Deus no permita. No, "minha confisso terrvel"  que esta  a minha primeira entrevista. Sempre tenho feito artigos mais gerais. Mas esta  uma experincia nova 
para mim. Kezia imaginava se os escritores no cairiam de amores com a primeira pessoa entrevistada. Seria inconveniente se a primeira pessoa por acaso fosse a moa 
tatuada em Ringling.

Como aconteceu de voc nunca ter feito uma entrevista antes? ele estava intrigado.

Fiquei assustada.

Por que ficaria assustada? Voc  uma boa escritora, de modo que no faz sentido. E voc no  tmida.

Sim, s vezes sou. Mas voc no intimida facilmente.

Devo corrigir isso? Ela riu e sacudiu a cabea.

No, voc est muito bem do jeito que .

O que  que a assusta tanto nas entrevistas?

 uma longa histria. Nada que voc queira ouvir. E voc? O Que o assusta?

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Diabo, ela no dir. Ele quis se levantar e sacudi-la, porm preferiu mir-la, friamente.

E essa parte da entrevista? O que me pode assustar? ela sacudiu a cabea e imaginou o que ele estaria pensando.

Uma poro de coisas me assusta. Temores podem criar muita confuso. A covardia me assusta e pode custar a vida de algum. O desperdcio me assusta porque o tempo 
 to curto. Fora disso, pouca coisa mais. Exceto mulheres. Oh, isso sim, mulheres me assustam at a morte.

Passado um momento de tenso, havia novamente riso nos seus olhos e Kezia ficou aliviada. Durante um minuto ela sentiu que Mark vinha para ela com duas pistolas, 
mas decidiu que era apenas a sua prpria parania. Mark no sabia que ela estava mentindo. No havia possibilidade dele saber, ou ele j teria dito. Ele no era 
homem para brincadeiras. Estava certa disso.

Mulheres o assustam? Ela sorria outra vez.

Elas me aterrorizam Luke tentou encolher-se no seu lugar.

E como! Ela comeou a rir.

Oh, voc tem razo.

Continuaram conversando por mais uma hora, e a breve tenso entre eles acalmou-se. Ela afinal sucumbiu a um clice de conhaque, seguido por outro caf expresso. 
Queria ficar ali sentada com ele para sempre.

H um lugar a que costumo ir no SoHo, em Nova York. Chama-se The Partridge e  um lugar engraado, muito frequentado por poetas e artistas. Kezia sentiu-se enrubescer 
enquanto lhe dizia isso.

 um lugar na moda?

Ela riu alto s em pensar nisso.

Oh, no.  um lugar comum. Muito comum.  por isso que gosto dele.

Ento a lady tinha suas preferncias, no tinha? Os lugares a que ia, onde ningum sabia quem ela era, onde...

Ento eu provavelmente gostaria dele, Kate. Voc tem que me levar qualquer dia. Ele deixou passar a sugesto casualmente e acendeu outro charuto. O que voc faz 
de si mesma em Nova York?

Escrevo. Vejo amigos. Vou a festas s vezes ou ao teatro. Viajo bastante tambm. Mas a maior parte do tempo escrevo. Conheo uma poro de artistas no SoHo e s 
vezes ando com eles.

E o resto do tempo?

Vejo outras pessoas... depende da minha disposio.

Voc no  casada, ?
No. Sacudiu a cabea decisivamente como que para confirmar.

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Eu no pensava.

Por qu?

Porque  cuidadosa, da maneira como as mulheres costumam ser consigo mesmas. Voc pensa no que vai fazer e dizer. A maioria das mulheres casadas que tm mais algum 
costumam ter essa espcie de pensamento e o demonstram. Que acha desse comentrio chauvinista clssico masculino?

Nada mau. Mas  tambm uma coisa muito perceptiva para dizer. Nunca pensei nisso dessa maneira, mas talvez voc esteja certo.

Voltemos a voc agora.  a minha vez de entrevistar. Ele parecia estar gostando da conversa. Comprometida?

No. Nem mesmo estou amando algum. Tenho uma alma virgem.

Estou confuso. Se tivesse um chapu o tiraria. Ambos riram outra vez. Mas no estou certo de acreditar. Est tentando dizer que no tem nem mesmo um homem idoso? 
O que seria ento o homossexual nas fotos dos jornais? Mas dificilmente podia perguntar sobre isso.

Nem mesmo um homem idoso.

Est dizendo a verdade?

Os olhos dela levantaram-se para os dele, parecia ofendida.

 verdade. H algum com quem tenho bastante prazer, mas eu... eu apenas visito-o quando posso.

Ele  casado?

No... S uma espcie de outro mundo.

No SoHo?

Lucas era rpido para pegar as coisas no ditas. Ela confirmou novamente.

Sim, no SoHo.

Ele  um felizardo disse Lucas, a voz estranhamente calma.

No, ele  realmente um cara divertido. Um bom rapaz. Gosto dele, s vezes chego a pensar que o amo. No h nada de muito srio entre ns e nunca haver. Por um 
monte de razes.

O que, por exemplo?

Somos apenas muito diferentes, s isso. Alvos diferentes, opinies diferentes. Ele  bastante mais jovem do que eu. E tem a cabea noutra direo, principalmente 
por sermos to diferentes.

Isso  to ruim, ser diferente?

No. Mas existem diferentes espcies de ser "diferente". Ela sorriu de suas prprias palavras. Neste caso formao diferente, interesses diferentes... apenas bastante 
diferente para tornar diferente demais, mas ainda gosto dele. E o que acontece com voc? Uma velhota?

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Esse termo lhe pareceu engraado, como se se referisse a av de algum e no  namorada.

No. Nenhuma velhota. Eu viajo demais. Umas poucas mulheres boas aqui e ali. Mas ponho minha energia nos ideais, no nos meus relacionamentos. No usei essa espcie 
de esforo durante muito tempo. Acho que esta fase j passou para mim. E voc paga um preo pelo esforo que faz dando pontap na merda dessa maneira. Voc no pode 
ter isso, de qualquer modo. Tem de fazer escolhas. Ele repetiu muitas coisas como essas. Do seu ponto de vista, era um purista. E sua causa vinha em primeiro lugar. 
Encontrei muita gente boa com quem conversar, viajando por toda parte. Isso significa bastante para mim.

Significa muito para mim tambm. Pessoas com quem voc possa conversar com profundidade so raras. E ele era uma dessas pessoas raras.

Tem razo. O que traz uma pergunta  baila. Eu gostaria de vla quando for a Nova York, Kate. Voc aceitaria? Podamos ir ao The Partridge.

Kezia sorriu para ele, seria bom v-lo. Sentia como se tivesse feito uma nova amizade, e era incrvel a que ponto ela mostrara sua alma neste jantar. No tinha planejado 
assim. De fato planejara ser bastante reservada. Mas a gente se esquece de ser reservada com uma pessoa como Luke. Era uma coisa muito perigosa e ela se lembrou 
disso agora.

Seria divertido rev-lo algum dia respondeu, intencionalmente vaga.

Voc me daria o seu nmero? Pegou uma caneta para anotar nas costas de um envelope. No queria dar-lhe tempo de recuar. Mas ela no fez nenhum movimento nesse sentido. 
De uma certa maneira ele a colocara contra a parede e Kezia sabia disso. Tomou a caneta e escreveu o seu nmero, mas no seu endereo. No haveria mal em dar-lhe 
o seu telefone.

Ele botou o envelope no bolso, pagou a conta e ajudou-a a vestir o casaco.

Posso lev-la ao aeroporto, Kate

Ela pareceu levar muito tempo abotoando o casaco, sem levantar os olhos, e ento enfrentou o olhar dele, parecendo tmida

No seria muito incmodo?

Ele puxou gentilmente um fiapo de cabelo solto de Kezia e sacudiu a cabea.

Eu gostaria.

 muito gentil.

No seja sofisticada, voc  uma boa companhia.

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Ele esperou sua partida. Do porto, Kezia virou-se para lhe dar um ltimo aceno. Sua mo levantou-se alto, e impulsivamente soprou-lhe um beijo quando subiu a rampa. 
Tinha sido uma bela noite, uma grande entrevista, um dia maravilhoso. Estava se sentindo sentimental a respeito do sucesso disso e estranha a respeito de Luke.

Embarcou no avio e tomou um lugar na frente, aceitando os jornais de Nova York e Washington de uma aeromoa. Ento recostou-se no seu assento e acendeu a luz. No 
havia ningum ao lado que ela pudesse perturbar enquanto lia. Era o ltimo voo para Nova York e seria mais de uma da madrugada quando chegasse l. Nada tinha a fazer 
no dia seguinte. Trabalhar no artigo de Lucas Johns talvez, mas isso era tudo. Havia desejado ir para o SoHo ao encontro de Mark naquela noite, mas agora no estava 
com disposio. No era tarde demais, Mark estaria de p. Mas no queria v-lo. Queria ficar sozinha.

Sentiu uma leve tristeza inund-la lentamente. Um sentimento incomum, agridoce, de ter tocado algum que se fora. Sabia que no veria mais Lucas Johns. Ele sabia 
o seu telefone, mas provavelmente no teria tempo; e se ele algum dia passasse pela cidade, provavelmente ela estaria em Zermatt, Milo ou Marbella. Ele estaria 
ocupado nos prximos cem anos com os sindicatos e sua causa, com internos e moratrias... E aqueles olhos... ele era um homem to bom, to amvel... to gentil! 
Difcil imagin-lo na priso, difcil imaginar que ele tivesse sido duro ou mesquinho, tivesse talvez apunhalado um homem numa luta no ptio. Encontrara um homem 
diferente. Um Luke que a perseguiu durante todo o caminho para casa. Ele se afastara dela para sempre agora, ento podia se permitir o luxo de vir-lo do avesso 
na sua mente... apenas nessa noite.

O voo foi demasiado rpido e ela detestou sair do avio e abrir caminho atravs do terminal para tomar um txi. Mesmo nessa hora La Guardia estava movimentado. To 
movimentado que ela no viu o homem alto de cabelos pretos seguindo-a a alguns metros de distncia at o txi. Ele observou-a insinuar-se no txi a apenas uma pequena 
distncia. E ento, virando-se para esconder o rosto, olhou para o relgio. Ele tinha tempo. Ela levaria meia hora para chegar em casa.

E ento ele telefonaria para ela.

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Captulo 11

ALO?
Oi, Kate. Ela sentiu um fluxo quente ao som daquela voz.
Oi, Lucas. A voz dela soava cansada e enevoada. Estou contente de voc ter me telefonado.

Chegou bem em casa?

Cheguei. Foi um voo calmo. Ia ler o jornal, mas nem me incomodei.

Ele queria dizer "eu sei", mas no o fez e controlou a vontade de rir.

O que tenciona fazer agora, srta. Miller? Havia uma expresso de malcia na voz.

Nada em especial. Ia tomar um banho quente e ir para a cama.

Posso lhe falar num drinque no Partridge? Ou P.J. Clarke's?

 um bom pedao de caminho do seu hotel em Washington, no acha? Ou est planejando vir a p? Ela se divertia com esse pensamento.

. Eu poderia. Mas no  uma viagem longa desde La Guardia.

No seja tolo, eu tomei o ltimo avio. Que homem maluco, considerar voar todo o percurso at Nova York para um drinque!

Sei que voc tomou o ltimo voo. Eu fiz o mesmo.

Por qu? Ento ela compreendeu. Voc, miservel, eu nem sequer o vi.

Espero que no, quase quebrei o ombro, escondendo-me no meu lugar.

Lucas, voc est maluco. Ela riu no ouvido dele e deitou a cabea nas costas da cadeira. Que coisa intil de se fazer.

Por qu? Eu tenho o dia livre e ia, de qualquer maneira, relaxar. Alm disso, senti-me desprezvel vendo-a partir.

Eu me senti completamente desprezvel partindo, no sei por qu, mas senti.

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E agora estamos os dois aqui e no h razo para nos sentirmos
inrezveis. Certo? Ento o que vamos fazer? P.J.s, Partridge ou oulugar qualquer? No estou to familiarizado assim com Nova York.

Ela ainda estava rindo e abanando a cabea.

Luke, so quase duas da manh. No h tantas coisas para fazer.

Em Nova York? Ele no ia desistir assim to fcil.

Voc  demais. Vou encontr-lo no P.J.s em meia hora. Voc

vai levar esse tempo para chegar  cidade e quero tomar uma chuveirada rpida e mudar de roupa. Quer saber uma coisa?

O qu?

Voc  excntrico.

 um cumprimento?

Possivelmente disse e sorriu gentilmente ao telefone.

Bem, vou encontr-la no P.J.s em meia hora ele estava contente com o que tinha feito. Seria uma linda noite. No no se importava se tudo que ela fizesse fosse apertar-lhe 
a mo. Seria a melhor noite da sua vida. Kezia Saint Martin. Era impossvel no ficar impressionado. Mas, apesar do rtulo de fantasia, ele gostava dela. Ela o intrigava. 
No se parecia nada com a imagem que fazia dessas mulheres. Ela no era distante e secretamente feia. Era gentil, cordial e solitria. Ele podia ler isso nela.

E meia hora mais tarde ali estava ela na porta de entrada do P. J.s e dejeans. Nem mesmo tinha uma griffe, apenas um bom e surrado jeans, seu cabelo negro sedoso 
em duas tranas compridas de menininha. Mais do que nunca ela parecia muito jovem para ele.

O bar estava repleto, as luzes brilhantes, a serragem espessa no cho e a vitrola berrava. Era sua espcie de lugar. Luke bebia cerveja, quando Kezia apareceu com 
um brilho no olhar.

Meu Deus, voc  sorrateiro. Ningum nunca me seguiu num avio. Mas que coisa bonita para se fazer. No era inteiramente verdadeiro, mas ela ria outra vez.

Pediu um drinque e j estavam no bar h meia hora quando Kezia olhou por cima do ombro dele para a porta. Sempre havia a chance de algum conhecido passar por ali; 
ou que um grupo dos que voltavam de festas, dando uma esticada depois de parar no L Club ou no El Morocco e destrusse a histria "Kate Miller".

Esperando algum ou apenas nervosa? Ela sacudiu a cabea.

Nenhuma das duas coisas. S perplexa, acho. H algumas horas Jantvamos em Washington, dissemos "At mais" no aeroporto e agora aqui estamos.  um pouco chocante. 
Mas um choque agradvel.

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Choque demais, Kate? Talvez ele tivesse ido longe demais,! mas pelo menos ela no parecia zangada.
No. O que voc quer fazer agora?
Que acha se andarmos um pouco?
Seria divertido. Pensei nisso no avio. Queria dar um passeio ao longo do East River. Fao de vez em quando, tarde da noite.  uma boa maneira de pensar.

E ser morta.  isso que est tentando fazer? A ideia dela passeando ao longo do rio sem proteo enervou-o.
No seja to bobo, Lucas. Voc no deve acreditar em tudo que ouve a respeito desta cidade.  to segura como qualquer outra. Ele olhou ameaadoramente e acabou 
sua cerveja.

Comearam a andar lentamente pela Terceira Avenida, passando por restaurantes e bares, e o rudo do trfego, tarde da noite, na rua 57. Nova York no era, de modo 
algum, como qualquer outra cidade. No como qualquer outra cidade americana. Talvez como uma Roma gigantesca com a sua sede de vida depois de escurecer. Mas era 
maior, mais selvagem, cruel, e muito menos romntica. Nova York tinha seu prprio romance, seu prprio fogo. Como um vulco refreado, esperando uma chance de erupo. 
Ambos sentiram as vibraes da cidade vagando pelas ruas, fora do compasso com a sua disposio, recusando-se a se sentir empurrada ou forada. Sentiam-se estranhamente 
em paz. Passaram por pequenos grupos de prostitutas carregando cezinhos chineses e poodles, usando suteres justos e jeans apertados. Mulheres passeavam com cezinhos 
de estimao enquanto homens, cambaleando de to bbados, dirigiam-se aos txis. Era uma cidade que se mantinha viva 24 horas por dia.

Viraram  esquerda na rua 58 e andaram atravs da elegante sonolncia de Sutton Place, sentada como uma dama idosa ao lado do rio. Kezia imaginou por um momento 
se no encontraria Whit, deixando o apartamento do seu amante.

Em que est pensando, Kate? Parece sonhadora. Ela olhou-o e sorriu.

Acho que estava apenas deixando minha mente vagar... Pensando em algumas pessoas que conheo... voc... muito pouco realmente. Ele tomou-lhe a mo e andaram calmamente 
 beira do rio, caminhando para o norte, at que uma pergunta interrompeu seus pensamentos.

Estava pensando numa coisa. Onde voc vai dormir esta noite?

Eu dou um jeito. No se preocupe com isso. Estou habituado a chegar em cidades no meio da noite. Parecia despreocupado.

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Voc poderia dormir no meu sof.  um pouco grande, mas confortvel, eu mesma j dormi nele.

Parece-me agradvel. Era mais do que agradvel, mas ele no podia deix-la perceber como estava feliz com o convite, ou a que ponto surpreso. Tudo tinha sido to 
mais fcil do que imaginara.

Eles trocaram outro sorriso e continuaram andando. Kezia sentia-se confortvel com ele e h anos que no gozava dessa paz. No importava se ela o deixava dormir 
no seu sof. Ou mesmo se ele ficasse sabendo onde ela morava? Afinal, o que importava realmente? Por quanto tempo ela poderia esconder dele, de si mesma, dos estranhos 
e amigos? As preocupaes tinham se tornado uma carga insuportvel. Pelo menos por uma noite ela queria pr de lado essa carga. Luke era seu amigo; dificilmente 
a prejudicaria, mesmo sabendo seu endereo.

Quer ir l para casa agora? Estavam na esquina da rua 72 com a York.

Voc mora aqui perto? A vizinhana surpreendeu-o. Era classe mdia, mas no tinha bom aspecto.

No muito longe daqui. Uns poucos quarteires do outro lado e alguns mais adiante.

Dirigiram-se para oeste na rua 72 e a vizinhana comeou a melhorar.

Cansada, Kate?

Devo estar, mas no sinto.

Provavelmente est ainda nebulosa da bebedeira que teve na noite passada.

Que coisa chata para lembrar! S porque fiquei bbada uma vez no ano...

 s isso?

Certamente que sim.

Ele puxou-lhe uma das tranas e atravessaram a rua deserta. No centro da cidade o trfego ainda estaria retumbante, mas ali no havia ningum  vista. Agora tinham 
atingido a Park Avenue, dividida por lindos canteiros de flores e sebes.

Eu no diria que voc vive numa favela, Kate Miller. Durante algum tempo, enquanto vagavam pela rua York, ele imaginou que ela iria lev-lo para outro apartamento 
a fim de manter secreto o lugar onde vivia. Graas a Deus ela no estava assustada. Voc deve ser bem-sucedida em seus artigos.

Um olhar de pirraa passou entre eles e os dois comearam a rir.

Eu no poderia realmente me queixar.

Ela estava representando direito at o fim. No ia cair numa nica

101
coisa. Isso o intrigava. To reservada e para qu, droga? Sentia pena pelas agonias da sua vida dupla. Ou talvez ela no gastasse tanto tempo ao seu lado para que 
aquele fingimento fosse estressante. Mas havia o SoHo, o lugar para onde ela ia para "fugir". De qu? Dela prpria, dos amigos? Ele sabia que seus pais tinham morrido. 
De que teria ela que fugir? Certamente no seria o camarada que ele tinha visto na fotografia do jornal.

Viraram uma esquina para uma rua de trs pistas. Ela parou, com um sorriso, na primeira porta. Um toldo, um porteiro e um endereo impressionante.

Aqui estamos. Apertou a campainha e o porteiro lutou com a fechadura. Parecia sonolento, com seu quepe inclinado para trs. Ele era um substituto, observou ela, 
e tudo que arriscou foi um vago boa noite. Providencialmente no se lembrava do nome dela e Luke sorriu para si mesmo no elevador. Kezia virou a chave do seu apartamento 
e empurrou a porta. Havia correspondncia ordenadamente empilhada na mesa do vestbulo. A faxineira estivera l e tudo parecia impecavelmente limpo e arrumado, cheirando 
a cera fresca.

Posso lhe oferecer vinho?

Champanha, eu presumo.

Ela virou-se para olh-lo. Luke sorria gentilmente, com malcia nos olhos.

Um apartamento e tanto. Classe de monto. Mas ele no disse isso cruelmente; foi mais uma espcie de pergunta.

Eu podia dizer que era a casa dos meus pais... mas no queria fazer isso.

 ou era?

 meu. Tenho bastante idade para ter juntado alguma coisa como esta para mim mesma.

Como eu disse, voc deve ser muito bem-sucedida no trabalho. Ela encolheu os ombros e sorriu. No queria se desculpar.

E esse vinho? Agora est uma droga realmente. Voc no preferiria uma cerveja?

Sim. Ou uma xcara de caf. Acho que preferia isso.

Ela deixou-o pr a chaleira no fogo, ele andando lentamente atrs dela, sua voz atingindo-a da porta quando ela bateu com as xcaras na cozinha.

Ei, voc tem uma companheira de apartamento?

Uma o qu? Ela no estava prestando ateno, empalideceria se tivesse prestado.

Companheira de apartamento. Voc tem uma?

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No, por qu? Voc gosta de creme e acar no caf?

No, obrigado. Caf preto. Nenhuma companheira?

No. O que o faz perguntar?

Sua correspondncia.

Ela parou com a chaleira na mo e olhou em torno

O que  que tem a minha correspondncia? Ela no tinha pensado nisso.

 endereada a uma srta. Kezia Saint Martin. O tempo parecia parado entre eles.

Sim, eu sei.

Algum que voc conhece?

Sim. O peso do mundo parecia cair dos seus ombros com uma palavra. Eu.

Epa!

Eu sou Kezia Saint Martin. Tentou sorrir, mas parecia forado e ele fingiu um choque. Se ela o conhecesse um pouco melhor teria rido do olhar dele.

Voc quer dizer que no  Kate S. Miller?

Sim. Sou. K.S. Miller tambm. Quando escrevo.

 o seu pseudnimo, compreendo.

Um dos vrios. Martin Hallam  outro

Voc coleciona pseudnimos, meu amor? Andou para ela lentamente.

Ela pousou a chaleira no fogo e virou-se deliberadamente para o outro lado. Tudo que ele podia ver era o cabelo negro e os seus ombros estreitos curvados.

Sim, pseudnimos e vidas. Existem trs "eus", Luke. Quatro realmente. No, cinco agora, contando com Kate S. Miller. Nunca precisei de prenome antes. Tudo no passa 
de uma pequena esquizofrenia.

 isso? Ele estava exatamente atrs dela agora, mas no se aproximou para toc-la. Por que no sentamos e conversamos um pouco?

A voz dele era baixa e ela virou o rosto para olh-lo com um assentimento apenas perceptvel. Precisava falar e ele seria o homem ideal com quem desabafar. Ela precisava 
falar com algum antes que ficasse maluca. Mas agora ele sabia que era mentirosa... Ou talvez isso no importasse com Luke. Quem sabe ele compreenderia?

- OK.

Seguiu-o at a sala de visitas, sentou-se numa das cadeiras de veludo azul da sua me e observou-o recostando-se no sof.

Cigarro?

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Obrigada. Acendeu para ela, que tragou profundamente o cigarro sem filtro, reunindo seus pensamentos.
Vai parecer maluquice quando se conta a algum sobre isso. Eu nunca tentei contar a ningum antes.
Ento, como sabe que parece maluquice? Os olhos dela estavam decididos.
Porque  maluquice.  uma maneira impossvel de viver, eu sei. Tentei "Minha vida secreta" com Kezia Saint Martin. Tentou rir, mas saiu um som vago no silncio.
Parece que  tempo de desabafar e estou  disposio. Estou aqui sentado, no tenho nenhum lugar para ir e nem hora marcada. E tudo o que sei  que voc leva uma 
vida insana, Kezia. Voc merece coisa melhor. Seu nome pareceu estranho nos lbios dele, olhou-o atravs da fumaa. Pior do que insana, deve ser um modo de vida 
terrivelmente solitrio.
 isso a. Sentiu lgrimas brotando de seus olhos. Queria dizer tudo a Luke: K.S. Miller, Martin Hallam, Kezia Saint Martin. A respeito da solido e do sofrimento 
e da feira do seu mundo envolvido em brocado de ouro como se isso pudesse escond-lo, tornando-o bonito do lado de fora, ou fazendo suas almas cheirarem melhor, 
mergulhando-as em perfume... e as obrigaes e responsabilidades intolerveis e as estpidas festas e os homens aborrecidos. E a vitria do seu prprio nome de autora 
no seu primeiro artigo srio e ningum para compartilhar, exceto um advogado de meia-idade e um agente ainda mais velho.; Tinha uma vida para lhe mostrar e uma vida 
que escondera profunda-' mente no seu corao at agora. Eu nem mesmo sei como comear.!

Voc disse que havia cinco de voc. Escolha uma e comece da. Duas lgrimas isoladas correram pelas suas faces. Ele estendeu-lhe a mo, que ela segurou, e ficaram 
assim sentados com as mos se tocando do outro lado da mesa, as lgrimas correndo lentamente na sua face.

Bem, a primeira de mim  Kezia Saint Martin. O nome que viu nas cartas. Herdeira, rf... no  uma viso romntica? Riu enviesado atravs das lgrimas. De qualquer 
modo, meus pais morreram quando eu era criana, deixando-me uma grande quantia em dinheiro e uma casa enorme, que meu procurador vendeu e transformou num prdio 
de apartamentos na rua 81 com a Park Avenue, e que oportunamente vendi para comprar isto. Tenho uma tia que casou com um conde italiano e fui criada pelo meu tutor 
e minha governanta, Totie. E, naturalmente, o que os meus pais me deixaram alm disso foi um nome. No apenas um nome, mas um NOME. E ele foi cuidadosamente marcado 
em mim antes, e depois que eles morreram. Eu no era uma qualquer,

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era Kezia Saint Martin. Droga, Luke, voc no l os jornais? Secou as lgrimas e assoou o nariz num leno de linho lils com renda cinza na ponta.

Em nome de Deus, o que  isso? - O qu?

Essa coisa em que voc assoou o nariz? Ela olhou para a coisinha prpura.

- Um leno. O que voc pensa que ?

Parece a vestimenta de um padre em miniatura, pelo amor de Deus! Que fantasia! Agora sei que voc  uma herdeira.

Ela riu e sentiu-se um pouco melhor.

E sim, eu li os jornais, a propsito. Mas preferi ouvir da sua boca essa histria. No gosto de apenas ler a respeito de pessoas com quem me preocupo.

Kezia ficou momentaneamente confusa. Pessoas com quem se preocupa? Mas ele nem mesmo a conhecia... mas voara de Washington para v-la. Estava ali e parecia muito 
interessado no que dizia.

Bem, toda vez que ponho o p em algum lugar, tiram o meu retrato.

Isso no aconteceu esta noite. Ele tentava mostrar-lhe alguma coisa, que ela era mais livre do que pensava.

No, mas poderiam ter tirado, foi apenas sorte. Era por isso que eu observava as portas; isso e tambm porque estava com medo de ver algum que conhecesse e que 
me chamasse de Kezia em vez de Kate.

Isso teria tanta importncia assim, Kezia? Se algum desvendasse o seu segredo? O que aconteceria?

Assim... eu me sentiria como uma tola, eu teria sentido...

Assustada? Ele acabou a frase para Kezia e olhou para longe.

Talvez. Sua voz soou um pouco baixa.

Por que, meu amor? Por que ficaria assustada se eu soubesse quem voc era realmente? Ele queria ouvir isso dela. Voc ficaria com medo que eu a magoasse ento? A 
perseguisse por causa do seu dinheiro? Do seu nome? O qu?

No... ... bem, possivelmente. Outras pessoas podiam me querer por causa dessas coisas, Lucas. Mas no estou preocupada por isso com voc.

Os olhos dela procuraram os dele diretamente e ela certificou-se de que ele compreendera. Ela confiava nele e queria que ele soubesse disso.

Mas o pior  uma outra coisa, Kezia Saint Martin no  apenas eu. Ela  "algum". Ela tem que viver  altura de alguma coisa. Quando eu tinha vinte anos eu era considerada 
a mais cotada jovem do mercado.

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Voc sabe, uma espcie de ao da Xerox. Se voc investisse em mim, o seu investimento certamente aumentaria. Lucas observou-a nos olhos enquanto ela falava; neles 
estavam marcados anos de mgoa. Ele estava calado, sua mo segurando a dela gentilmente. E havia mais ainda do que apenas ser notada. Havia uma histria... boa histria, 
m histria, avs, minha me... Ela parou e parecia ter esquecido de continuar. A voz de Lucas afinal mexeu com ela.

Sua me? O que houve com sua me?

Ah... apenas... coisas. Sua voz tremia e seus olhos evitavam os dele. Parecia ter dificuldade em continuar.

Que espcie de coisas? Que idade voc tinha quando ela morreu?

Eu tinha oito anos. E ela... embriagou-se at a morte.

Posso supor que aconteceram "coisas" a ela tambm? Ele recostou-se por um momento e observou Kezia, cujos olhos agora se erguiam para ele, lentamente, com um olhar 
de tristeza impenetrvel e medo.

Sim, aconteceram coisas a ela tambm. Ela era a lady Liane Holmes-Aubrey antes de se casar com meu pai. Ento, passou a ser a sra. Keenam Saint Martin. No estou 
certa do que foi pior. Provavelmente ser a mulher do papai. Pelo menos na Inglaterra ela sabia como tudo funcionava. Aqui as coisas eram diferentes. Mais rpidas, 
mais agudas e mais impertinentes. s vezes ela falava disso. Ela se sentia mais pblica do que tinha sido em casa como moa. No pairavam em torno dela da maneira 
como fazem comigo. Mas ento ela tambm no tinha a fortuna do papai.

Ela tambm era rica?

Muito. No to rica como meu pai, mas diretamente relacionada com a rainha. Engraado, no ? Kezia olhou para longe por um momento.

No sei se  engraado. Por enquanto no soa como se fosse.

Ah, vai ficar melhor. Meu pai era muito rico, muito poderoso, muito invejado, muito odiado e ocasionalmente muito amado. Fazia coisas malucas, viajava bastante, 
ele... bem, fazia qualquer coisa que quisesse. E mame era solitria, eu acho. Constantemente espionada, comentada, falada, seguida em volta. Quando ia a festas, 
contavam o que ela usava. Quando papai estava fora e ela danava com um velho amigo num baile de caridade, faziam uma onda sobre isso nos jornais. Ela se sentia 
caada. Os americanos podem ser brutais assim. Sua voz diminuiu por um instante.

S os americanos, Kezia? Ela sacudiu a cabea.

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No, todos so maus. Mas aqui so capazes de ser mais diretos. So ousados ou menos tmidos. Eles mostram menos deferncia, no sei. talvez ela fosse demasiado frgil. 
E demasiado solitria. Ela sempre parecia como se no estivesse compreendendo a razo.

Ela deixou seu pai? Ele se mostrava interessado agora. Muito. Estava comeando a sentir alguma coisa pela mulher que tinha sido a me de Kezia. A frgil mulher inglesa 
nobre.

No. Ela se apaixonou pelo meu tutor francs.

Voc est brincando?

No.

E isso causou um grande escndalo?

Acho que sim. Deve ter causado. Isso a matou.

Diretamente.

No... Quem sabe? Isso e uma poro de outras coisas. Meu pai descobriu e o jovem foi despedido. Eu adivinho o que lhe aconteceu depois disso. Ela era uma traidora 
e ela prpria sentenciou-se  morte. Bebia cada vez mais e comia cada vez menos, e finalmente conseguiu o que queria: sair disso.

Voc sabia? A respeito do instrutor, quero dizer.

No, no naquela ocasio. Edward, meu procurador, contou-me mais tarde. Para ficar certo de que os pecados da me nunca seriam reproduzidos na filha.

Por que chama isso de uma traio? Por que ela foi infiel a seu pai?

No, isso seria perdovel. O imperdovel foi que ela traiu seus antepassados, sua herana, sua classe, e a sua criao, enamorando-se e tendo um caso com um campons 
tentou rir, mas o som do riso soou falso.

E isso  um pecado? Lucas parecia confuso.

Isso, meu querido,  um pecado capital. Voc no deve ter sexo com classes baixas. Isso se aplica s mulheres do meu status. Para os homens  diferente.

Para eles no  errado trepar com as classes baixas.

Naturalmente. Os nobres sempre estiveram se metendo com as empregadas h centenas de anos.  apenas a lady da casa que no pode ser levada pelo motorista.

Estou compreendendo. Tentou parecer divertido mas no estava.

 muito bonito. Minha me no via. E ela cometeu um crime ainda pior. Apaixonando-se por ele. Chegou a falar em fugir com ele.

Como o seu pai descobriu? Ele a seguiu?

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Decerto que no. Nunca suspeitou. No, Jean Louis simplesmente contou-lhe. Quis cinquenta mil dlares do meu pai para no fazer um escndalo. No era muito, depois 
de todas as coisas consideradas. Meu pai pagou-lhe vinte e cinco e conseguiu que o deportassem.

Seu procurador contou-lhe tudo isso? Lucas agora parecia tempestuoso.

Por segurana. Queria me manter na linha.

Conseguiu?

De certo modo.

Porqu?

Porque, numa maneira pervertida, tenho medo do meu destino.  uma espcie de maldio por fazer e maldio por no fazer. Acho que se vivesse a minha vida da maneira 
que os outros esperam de mim eu detestaria beber demais at morrer como minha me. Mas se eu trair a minha "herana" talvez acabe como ela, de qualquer modo. Uma 
traidora trada, de amores com um chato de classe baixa que chantageou seu marido. Bonito, no ?

No.  pattico. E voc cr realmente nessa estupidez de traio?

Ela assentiu com a cabea.

Tenho que acreditar, vi muitas histrias como esta, tive... de maneira menor isso aconteceu comigo. Quando as pessoas sabem quem voc , elas a tratam diferente, 
Lucas. Voc no  mais uma pessoa para elas. Voc  uma lenda, um desafio, um objeto sobre o qual tm direito. Os nicos que compreendem so os da mesma espcie.

Voc est dizendo que eles a compreendem? Lucas parecia perplexo.

No. A  que est todo o problema. Para mim nada disso funciona. No posso ter o que quero... pelo menos tenho medo. Eu... Ah, droga, Lucas, no sei. Parecia perturbada 
enquanto amassava uma caixa de fsforos entre os dedos.

Que aconteceu ao seu pai?

Ele teve um acidente, e no por estar sentimentalmente doente do corao por causa da minha me. Assim mesmo estou certa que ele sentiu a falta dela. Mas ele estava 
muito amargo ento. Parecia que ele no acreditava em mais nada. Bebia. Guiava depressa demais. Morreu. Muito simplesmente na verdade.

No, muito complicado. O que est me dizendo  que um traidor, como voc chama isso, da sua "herana", do seu mundo, leva ao suicdio, acidente mortal. Chantagem 
e corao partido. Mas o que a levaria a seguir as regras? O que aconteceria, se voc representasse isso

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corretamente, Kezia, e nunca "trasse sua classe", como voc diz? O que aconteceria apenas se continuasse com seus princpios... eu quero dizer voc, Kezia. O que 
isso representaria para voc?

Matar-me lentamente. Sua voz era muito suave, porm segura.

 o que est acontecendo com voc?

Sim, acho que  assim, de uma maneira menor. Ainda tenho minhas escapatrias, minhas liberdades. Elas ajudam. Meu ofcio de escrever  a minha salvao.

Momentos roubados. Voc alguma vez tomou essas liberdades abertamente?

No seja ridculo, Lucas. Como?

De qualquer modo voc tem que fazer. Faa o que quer! Abertamente para variar.

Eu no poderia.

Por que no?

Edward. A imprensa. Qualquer coisa que eu fizer, que seja apenas ligeiramente fora da linha, estaria em todos os jornais. Mesmo alguma coisa to simples como sair 
com algum "diferente". Ela olhou para ele agudamente. Ir a algum lugar "inapropriado", dizer alguma coisa imprudente, usar alguma coisa indiscreta.

Est bem, ento voc tem uma m imprensa. E da? O cu no vai desabar por causa disso.

Voc no compreende, Lucas. O cu desabaria.

Por que Edward faria um inferno? E o que importa?

Mas ele tem razo... e... se eu acabo... Ela no sabia o que dizer.

Como sua me?

Ela levantou os olhos banhados em lgrimas e concordou.

Voc no faria isso, no poderia. Voc  diferente,  mais livre, tenho certeza. Voc provavelmente  mais universal, talvez mais inteligente do que ela. E, diabos, 
Kezia, e se voc se apaixonasse pelo seu instrutor, pelo motorista, ou por mim? Que desgraa de merda seria?

Ela no respondeu  pergunta. No sabia como.

 um mundo especial, Lucas disse finalmente. Com suas respostas especiais.

Sim, como em cana subitamente parecia amargo.

Voc quer dizer a priso?

Ele concordou com a cabea, calmamente.

Acho que talvez voc esteja certa. Uma priso silenciosa, invisvel, com paredes construdas de cdigos, hipocrisias, mentiras, restries

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e celas cobertas de preconceitos e temor, e tudo isso ornamentado com diamantes.

Subitamente levantou os olhos para ela e riu.

O que voc achou de engraado?

Nada, exceto que nove dcimos do mundo esto se digladiando para entrar nessa elite do seu pequeno mundo, e quando chegam l no apreciam o som que tem. No muito.

Talvez consigam. Alguns conseguem.

Mas o que acontece com aqueles que no conseguem, Kezia? O que acontece com aqueles que no podem viver com essa merda? Ele apertava a mo dela enquanto falava, 
os olhos dela levantaram-se lentamente para fit-lo.

Alguns deles morrem, Lucas.

E os outros? Aqueles que no morrem?

Eles vivem com isso. Fazem as pazes com isso. Edward  um deles. Aceita as regras porque precisa delas.  o nico caminho que ele conhece, mas isso arruina sua vida 
tambm.

Ele podia ter mudado tudo isso. Lucas parecia impaciente e Kezia abanou a cabea.

No, Lucas, ele no podia. Algumas pessoas no podem.

Por que no? No tm tutano para isso.

Se voc quer chamar assim... Algumas pessoas apenas no tm estmago para enfrentar o desconhecido. Preferem ir para o fundo com um navio conhecido do que se afogarem 
em mares desconhecidos.

Ou serem salvas. Sempre h uma chance de se encontrar um salva-vidas ou ir dar numa ilha paradisaca.

Mas Kezia estava pensando em outra coisa. Passaram-se minutos at que ela falasse outra vez, os olhos fechados, a cabea repousando no encosto da cadeira. Parecia 
cansada e envelhecida. No estava completamente segura que Luke compreendesse. Talvez no pudesse. Talvez ningum pudesse.

Quando eu tinha vinte e um anos quis ter uma vida prpria. Por isso tentei um emprego no Times. Jurei a Edward que eu podia consegui-lo, que ningum me amolaria, 
que no desgraaria meu nome e toda essa merda. Durou dezessete dias de trabalho e quase tive uma crise nervosa. Ouvi toda espcie de piadas, era o alvo de todo 
tipo de hostilidade, curiosidade, inveja e obscenidade. Eles at tinham paparazzi no toalete das mulheres quando eu precisava fazer pipi. Divertia-os terem me contratado 
e observavam a graa. Eu tentei, Luke, realmente tentei, mas no havia meio de suportar isso. Eles no me queriam. Eles queriam meu nome de fantasia e ento tentar 
me trazer para baixo, apenas para criticar,

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para verem se eu tambm era humana, e eu nunca mais sa em pblico de novo. Esse foi o ltimo emprego de que algum soube, a ltima viso da minha pessoa real que 
o mundo l fora teve de mim. Desde ento fui clandestina, com pseudnimos, escondendo-me por trs de agentes... bem, tudo era exatamente da maneira em que estava 
quando conheci voc. E esta  a primeira vez que corri o risco de ser descoberta.

Por que voc fez isso?

Talvez porque tivesse que fazer. Mas quanto algum possa saber, eu vou a todas as festas corretas, estou em todos os comits corretos, passo frias nos lugares certos, 
conheo todas as pessoas certas, e todo mundo pensa que eu sou preguiosa. Tenho a reputao de ir a festas todas as noites e dormir at trs horas da tarde.

E no  isso o que voc faz? Ele no conseguiu disfarar um sorriso.

No, no fao isso. No tinha achado graa, estava zangada. Eu trabalho at cansar o meu traseiro. Aceito todo artigo decente que posso, e tenho um bom nome no meu 
ramo. No se pode fazer isso dormindo at trs horas da tarde.

E isso no combina com todas as pessoas "certas"? Escrever no  certo tambm?

Certamente que no. No  respeitvel. No para mim. Esperam que eu esteja procurando um marido e indo ao cabeleireiro, no bisbilhotando em torno das prises no 
Mississipi.

Ou ex-sentenciados em Chicago. Havia um laivo de tristeza nos seus olhos. Ela tornara tudo bem claro agora.

A objeo deles no seria para quem escrevo a respeito, seria o fato de trair a minha herana.

Outra vez isso? Puxa, Kezia, esse conceito no est um pouco ultrapassado? Um monte de pessoas de sua espcie tambm trabalha.

Sim, mas no gostam. No para valer. E... existe mais.

Imagino quanto mais. Ele acendeu o cigarro e ficou esperando, surpreso ao v-la sorrir.

Alm do mais, eu sou traidora. Voc, por acaso, j ter lido a coluna de Martin Hallam? Ele  sindicalizado, ento talvez voc o conhea.

Ele concordou com a cabea.

Bem, Martin Hallam sou eu. Comecei com uma espcie de brincadeira, mas funcionou, e... ela encolheu os ombros e levantou as mos quando ele comeou a rir.

Voc quer dizer que escreve aquela coluna maluca? Ela assentiu, sorrindo acanhadamente.

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E voc trai todos os seus amigos assim? Ela confirmou outra vez.

Eles engolem isso. S no sabem que sou eu quem escreve. E, para lhe dizer a verdade, nos ltimos dois anos tem sido uma chatice.

Fala-me em ser um traidor! E ningum suspeita que  voc?

No. Ningum at agora. Eles nem mesmo sabem que  escrito por uma mulher. Eles apenas aceitam. At mesmo meu editor no sabe quem escreve. Tudo passa pelo meu agente 
e naturalmente estou registrada como K.S. Miller na lista de servio da agncia.

Voc me diverte agora ele parecia perplexo.

s vezes eu divirto a mim prpria. Foi um momento de risadas, de descontrao, aps o princpio penoso da conversa.

Vou lhe dizer uma coisa: certamente voc se mantm muito ocupada. Os artigos de K. S. Miller, a coluna de Hallam, e sua vida de fantasia. E ningum suspeita.

No. E essa parte no foi fcil. Foi por isso que entrei em pnico com a ideia de entrevist-lo. Pensei que voc poderia ter visto minha fotografia em algum lugar 
e me reconheceria como eu mesma, no como Kate Miller, obviamente. Bastava uma pessoa ver-me no lugar errado, na hora errada, e zs, todo o castelo de cartas ruiria. 
E a verdade disso  que a parte escritora da minha vida, o trabalho srio,  a nica parte que respeito. No quero prejudic-lo por ningum e por coisa nenhuma.

Mas voc fez. Voc me entrevistou. Por qu?

Eu lhe disse. Tinha de fazer. E tambm estava curiosa. Gostei do seu livro. E o meu agente me pressionou. Ele estava certo, naturalmente. Eu no podia me esconder 
para sempre se quisesse uma carreira literria sria. Existem ocasies em que tenho de correr riscos.

Voc se arriscou muito.

Sim, foi o que fiz.

Est arrependida?

No, estou contente. Sorriram um para o outro, e ela suspirou.

Kezia, e se voc dissesse ao mundo, aquele mundo, que fosse para o inferno e fizesse o que quer, para variar? Voc no poderia pelo menos ser K. S. Miller abertamente?

Como? Pense na sujeira que isso causaria, o que eles diriam nos jornais. As pessoas me pediriam artigos no por causa de K. S. Miller, mas por Kezia Saint Martin. 
E eu voltaria para onde estava h oito anos, como grfica do Times. A minha tia teria ataques, meu tutor ficaria de corao partido e eu sentiria como se tivesse 
trado todo mundo que estivesse na minha frente.

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Pelo amor de Deus, Kezia. Todas essas pessoas esto mortas ou semi-mortas!

Mas as tradies no. Continuam vivas.

E tudo nas suas costas, no ? Voc  a nica que tem a responsabilidade de manter o mundo? Voc no percebe como isso  insano? Aqui no  a Inglaterra vitoriana, 
e, meu Deus,  a sua vida que voc est escondendo. Se voc respeita o que est fazendo por que no assumir suas chances e viv-la com orgulho? Ou ser que est 
se borrando de medo?

Talvez, no sei. Nunca senti que tivesse escolha.

 a que voc est errada. H sempre uma opo. A respeito de tudo que se faz. Talvez voc no queira uma escolha. Talvez tenha preferido se esconder, como uma neurtica, 
e viver dez vidas diferentes. Eu, porm, acho que isso no vale nada.

Talvez no valha. No me parece muita coisa, agora. Mas o que voc no compreende  a ideia do dever, obrigao, tradio.

Dever para com quem? E quanto a voc mesma? Ser que nunca pensa nisso? Voc quer sentar por aqui sozinha escrevendo em segredo e ento sair para ir a essas festas 
imbecis com aquele fresco enfeitado?

De quem est falando?

Daquele que vi no jornal com voc.

Voc quer dizer que sabia?

Eu sabia.

Por que no me disse? Seus olhos irritaram-se por um momento. Ela mal o deixara entrar na intimidade de sua vida, e j se tornara um traidor?

Como podia contar? Ei, lady, antes que voc fizesse a prxima entrevista, eu gostaria de lhe dizer que conheo seu nome verdadeiro porque tinha lido a seu respeito 
no jornal? Ento o que fazer? Eu imaginei que voc me contaria quando se sentisse pronta para isso, ou talvez nunca. Mas se eu lhe dissesse de frente, como uma bofetada, 
voc teria fugido, e era isso o que eu no queria.

Por qu? Com medo que eu no escrevesse a notcia sobre voc? No se preocupe. Eles mandariam algum outro para faz-lo. Voc no perderia a sua histria ela quase 
escarneceu dele, mas Lucas agarrou-lhe o brao to subitamente, que a deixou perplexa.

No, mas eu poderia ter perdido voc.

Ela esperou um longo momento antes de falar. Ele ainda segurava-lhe o brao quando, finalmente, indagou:

E isso teria alguma importncia?

Muita. E o que voc tem de decidir agora  se quer ou no viver de mentiras o resto da vida. Parece-me uma parasita devassa, aterrorizada
113
a respeito de quem vai v-la, quando, onde, com quem e fazendo o qu. E quem se importa? Deixe que a vejam, mostre-lhes quem voc realmente . Ou ser que no sabe, 
Kezia? Acho que esse  o ponto crucial. Talvez K. S. Miller seja uma grande impostora, como Martin Hallam ou Kezia Saint Martin.

V para o inferno! gritou Kezia, livrando o brao.  muito fcil para voc sentar-se a e fazer discursos. Voc no tem absolutamente nada a perder. Ningum espera 
nada de voc. Ento como pode saber o que isso significa? Voc pode fazer tudo o que bem entender!

 mesmo? Sua voz estava calma outra vez. Bem, deixe-me lhe dizer uma coisa, srta. Saint Martin: eu sei a respeito de obrigaes muito mais do que voc, s que a 
minha obrigao no  para um punhado de mmias da classe superior. Meu dever  com gente de verdade, camaradas com quem cumpri pena, que no tm ningum para falar 
por eles, nem famlias para contratar advogados ou se lembrarem deles ou dar a mnima ateno. Sei quem so; lembro-me deles, todos sentados esperando pela liberdade, 
presos num buraco, esquecidos aps anos na priso; alguns deles por tanto tempo quanto sua vida, Kezia. E se eu no fosse bastante macho para ir e fazer alguma coisa 
por eles, ento talvez ningum mais o fizesse. Esse  o meu dever. Mas pelo menos  real, e acho que tenho sorte porque cuido deles. Eu no fao isso s porque tenho 
que fazer ou porque tenho medo de no fazer. Fao isso porque quero. Arrisco o meu traseiro contra os deles, porque cada vez que abro a boca corro o risco de ficar 
preso l com eles. E voc vem me falar de dever e de ter algo a perder! Mas vou lhe dizer mais uma coisa antes que voc o faa.  que se eu no ligasse para eles, 
se no gostasse deles, simplesmente diria "tchau" e os mandaria se foder. A me casaria de novo, teria uma poro de filhos e iria viver no campo.

"Kezia, se no acredita na vida que est liderando, no a viva.  simples como gua. Porque o preo que est tentando evitar pagar, voc ir pagar de qualquer maneira. 
Voc vai detestar a si mesma por ter desperdiado os anos, fazendo brincadeiras que j devia ter superado h tempos. Se voc apreciasse essa vida seria muito bom. 
Mas voc no gosta dela. O que est ento fazendo l?

No sei realmente. Exceto que no creio que seja to corajosa como voc.

Voc pode ser to corajosa quanto quiser ser. Isso  merda. Voc est apenas esperando por uma maneira fcil de sair. Uma petio que lhe d a liberdade, um homem 
que venha, a tome pela mo e a leve embora. Bem, talvez acontea assim, mas provavelmente no. Voc ter que fazer isso por si mesma, como todo mundo.

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Ela ficou calada em resposta, e Luke sentiu vontade de segur-la. Tinha lhe dado demais para engolir de uma s vez, mas no pde evitar.

Agora que ele abrira as portas do seu interior, tinha que lhe dizer que vira. Para o bem dos dois. Mas principalmente para ela.

- Eu no pretendia tripudiar, baby.

- Isso tinha que ser dito.

Voc provavelmente pode me acusar de muitas coisas que precisam ser ditas tambm. Vejo pelo que est passando e voc tem razo num sentido:  muito mais fcil para 
mim. Tenho um exrcito de pessoas esperando nos bastidores para me dizer a que ponto sou terrvel. No a administrao da liberdade condicional, pense bem, mas pessoas, 
amigos. Isso faz uma grande diferena. Isso provoca uma espcie de viagem dentro de mim mesmo. O que voc est tentando fazer  bastante mais duro. Causas trazem 
muita glria, romper com a casa nunca traz... at mais tarde. Muito mais tarde. Mas voc chegar l. Voc j est a meio caminho, s que ainda no sabe.

Voc acha que sim?

Eu sei. Voc vai conseguir se libertar. Mas sabemos que o caminho  spero. Quando ele a observou ficou mais uma vez perplexo com o que acabara de ouvir. Os segredos 
das profundezas da alma de Kezia, as confisses sobre a famlia e as teorias insanas sobre tradio e traio. Era tudo mais do que uma pequena novidade para ele, 
mas nem por isso menos estranha. Ela era o produto de um mundo singular e diferente, entretanto uma hbrida  sua maneira.

Aonde voc pensa que a estrada da liberdade a est levando, a propsito? Para o SoHo? Ele queria saber.

No seja ridculo! Passo um tempo agradvel l, mas no  a coisa real. Eu mesma sei disso. Apenas ajuda-me a atravessar todo o resto da merda. Voc sabe, a nica 
coisa que no  merda  K. S. Miller.

Isso  um pseudnimo, no um ser humano. Voc  um ser humano, Kezia. Acho que  disso que voc se esquece. Talvez de propsito.

Talvez tenha sido preciso. Olhe para a minha vida, Luke. Ela no est em parte alguma, e as farsas esto ficando cada vez mais duras de representar.  tudo uma grande 
e longa farsa. A farsa das festas, dos comits, os bailes. A farsa da velha senhora do artista no SoHo, a farsa da coluna de mexericos.  tudo um jogo. E estou cansada 
de viver num mundo to limitado que s pode incluir cerca de oitocentas pessoas. E no me encaixo num cenrio como o SoHo.

Por qu? No  da sua classe?

No. Apenas no  o meu mundo..,

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Ento pare de procurar no mundo dos outros. Faa o seu. Um mundo maluco, bom, ruim, qualquer coisa que voc queira, mas faa apenas um que se adapte a voc, para 
variar. Voc faz as regras. Fique calada a respeito, se acha que  assim que tem de fazer, mas pelo menos tente respeitar sua prpria ao. No traia a sua causa. 
Voc  esperta demais para isso. Acho que percebe por si mesma que chegou a um ponto onde tem que fazer escolhas.

Sei disso. Acho que  por isso que tive coragem de convid-lo. Eu tinha que convidar. Voc  um homem bom. Eu o respeito. No podia continuar insultando-o com mais 
mentiras e evasivas. No podia insultar a mim mesma desse modo. No outra vez. Era uma questo de confiana.

Sinto-me honrado.

Ela levantou os olhos para ver se ele a estava gozando, e ficou sensibilizada ao perceber que no.

E assim so quatro anunciou ele.

Quatro o qu?

Voc disse que eram cinco pessoas. Acaba de descrever a quarta. A herdeira, a escritora, a colunista de mexericos e a turista do SoHo. Quem  a nmero cinco? Estou 
comeando a gostar disto. Ele sorriu com naturalidade e esticou as pernas.

Eu tambm. E no sou uma colunista de mexericos, a propsito.  uma sociedade editorial sorriu com afetao.

Perdoe-me, sr. Hallam.

De fato. A quinta pessoa  sua criao, "Kate". Eu nunca contei tudo isso a ningum antes. Acho que isso marca o comeo de um novo eu.

Ou o final de todos os eus. No acrescente mais um papel  lista. Uma outra farsa. Faa isso diretamente.

Eu sou havia ternura nos seus olhos quando ela o observou.

Eu sei que voc , Kezia. E estou contente. Por ambos. No... por voc.

Voc me deu uma espcie de liberdade esta noite, Luke.  uma coisa muito especial.

Mas voc est errada dizendo que eu lhe dei. Eu lhe disse antes que ningum podia tomar sua liberdade. Nem ningum pode devolv-la tambm. Voc arranja essa liberdade 
sozinha. Mantenha em segurana ele debruou-se e beijou-a na cabea, e ento sussurrou-lhe no ouvido: De que lado  o seu banheiro? Ela riu quando o olhou de frente. 
Ele era um homem to bonito.

O banheiro  no hall  esquerda. Voc no pode errar,  cor-de-rosa.

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Sena decepcionante se no fosse disse ele rindo, enquanto ela voltava  cozinha para cuidar do caf.

Trs horas tinham passado.

Ainda quer esse caf, Luke? Ele estava de volta, espreguiando-se na porta da cozinha.

Poderia troc-lo por uma lata de cerveja?

Certamente.

Assim pode conservar o copo limpo, obrigado. Nenhuma classe. Nenhuma classe de maneira alguma. Voc sabe como  com os camponeses. Puxou a lingueta da lata e tomou 
um gole Puxa, como  gostosa

Foi uma longa noite. Lamento ter abusado dos seus ouvidos como fiz, Luke.

No, voc no falou demais nem eu ouvi demais. Sorriram um para o outro e ela sorveu um gole de vinho branco.

Vou instal-lo no sof disse ela, passando facilmente sob o brao que ele apoiava no umbral da porta.

Em questo de minutos, ela arrumou o sof como cama.

Isto quebra o galho at amanh. Precisa de alguma coisa mais antes que eu corra para a cama?

O que ele precisava a chocaria. Ela estava crispada e realista de novo. A dona da casa. A ilustre Kezia Saint Martin.

Sim, para falar a verdade preciso de alguma coisa antes que v correndo para a cama. Preciso de uma viso da mulher com quem me sentei aqui e falei a noite toda. 
Voc deve estar de saco cheio, meu amor.  um hbito desagradvel meu. No vou mago-la, rapt-la ou roubar-lhe sua mente, no vou sequer chantage-la.

Ela pareceu surpresa e um pouco magoada, parada do outro lado da sala.

No senti que tenha roubado minha mente. Eu queria falar com voc, Lucas.

Ento o que est diferente agora?

Eu apenas no estava pensando.

Ento voc se fechou.

Hbito, eu acho.

E contei a voc uma histria desagradvel. No somos amigos? Ela concordou com lgrimas brilhantes nos olhos. Fora uma noite

emocionante.

Claro que somos amigos.

Muito bom, porque acho voc muito especial. Atravessou a sala em trs largas passadas e deu-lhe um abrao e um beijo na face. 
- Boa noite, baby. Durma bem.

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Ela ficou na ponta dos ps e retribuiu-lhe o beijo.
Obrigada, e voc tambm, Lucas, durma bem.

Ele podia ouvir o tiquetaque de um relgio em algum lugar e nenhum som do quarto dela. Ficara deitado durante uns dez minutos, e estava demasiado tenso para dormir. 
Sentia-se como se tivesse conversado durante dias, e receava t-la assustado, feito alguma coisa para lev-la a se fechar de novo. Kezia no era uma mulher sobre 
quem se pudesse avanar muito, a menos que se quisesse perd-la antes mesmo de comear. Mas ele avanara um longo caminho numa noite. Ele estava contente apenas 
com isso. Rememorou as horas de conversa... as expresses do seu rosto... as palavras... as lgrimas... a maneira como ela procurara atingir a mo dele...

Luke, voc est dormindo? Ele estava to imerso em seus pensamentos que no ouvira o barulho dos ps descalos dela atravs do carpete.

No, estou acordado. Levantou-se apoiado num cotovelo e olhou para ela. Usava uma camisola macia, cor-de-rosa, e o cabelo caalhe solto abaixo dos ombros. Alguma 
coisa errada?

No consigo dormir.

Nem eu.

Ela sorriu e sentou-se no cho perto do sof. Luke no sabia o que fazer. Nem sempre era fcil compreend-la. Acendeu um cigarro e passou-o para Kezia. Ela segurou, 
tragou e devolveu-o.

Voc fez uma boa coisa para mim esta noite, Lucas.

O que foi? Tornou a se deitar, olhando para o teto.

Voc me deixou falar uma poro de coisas que me aborreciam h anos, e eu precisava tanto desabafar.

E isso no era tudo de que ela estava precisando, mas essa ideia o assustou. Ele no queria se meter na vida dela. J estava com problemas demais nas mos.

Luke?

Sim?

Como era sua mulher? Houve um longo silncio e ela comeou a se arrepender de ter perguntado.

Bonita, jovem, maluca como eu naqueles dias... e assustada. Ela estava assustada de passar por isso sozinha. No sei, Kezia... ela era uma boa garota, eu a amava... 
mas parece que j passou tempo demais. Eu era diferente ento. Ns fazamos coisas, no dizamos coisas. Fiquei completamente fodido quando fui para a cadeia. A 
pessoa precisa ser capaz de falar de alguma coisa como a que aconteceu, e ela no podia.

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Ela no podia falar nem mesmo quando nossa filhinha foi morta. Acho que foi isso que a matou. Tudo amarrado dentro dela at que ficou sufocada e morreu. De certa 
maneira, ela estava morta antes de cometer suicdio. Talvez como sua me.

Kezia concordou, observando o rosto dele. Lucas tinha o olhar distante, mas a voz no mostrava seno respeito pelo passar do tempo.

- Por que voc perguntou?

- Curiosidade, acho. Falamos muito de mim esta noite.

- Falamos muito de mim ontem na entrevista. Eu diria que estamos iguais. Por que no tenta dormir um pouco?

Ela concordou, amassou o cigarro que tinham compartilhado e se ps de p.

- Boa noite, Luke.

- Boa noite, baby. Vejo-a amanh.
- Hoje.

Ele sorriu pela correo, estendendo a mo na direo do traseiro dela.

- V embora, tagarela. Ponha a sua bunda na cama agora, ou estar cansada demais para me mostrar a cidade.

- Voc pode passar o dia?

- Assim estou planejando, a menos que tenha alguma coisa melhor para fazer.

- Nada, estou livre como um passarinho. Boa noite, Lucas. Ela virou-se rapidamente, num fluxo de seda cor-de-rosa, e ele observou-a indo embora, querendo atingi-la 
e faz-la parar. E ento tudo saiu, antes que pudesse engolir as palavras.

- Kezia! - A voz foi suave mas premente.

- Sim? - Ela vrou-se com um ar de surpresa no rosto.

- Eu te amo.

Kezia ficou muito quieta, nenhum deles se moveu. Luke deitado, enrolado no sof, observando o rosto dela, que parecia perplexo pelas suas palavras.

- Eu... voc  muito especial para mim, Luke. Eu...

- Est com medo?

Ela concordou, baixando os olhos.

- Um pouco.

- No precisa temer, Kezia. Eu a amo. No quero mago-la. Jamais conheci uma mulher como voc.

Ela queria dizer-lhe que nunca conhecera um homem como ele, mas no conseguiu. No podia dizer nada. S podia ficar ali de p, desejando os seus braos e no sabendo 
como encontr-los.

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Foi Lucas quem se aproximou calmamente, enrolando-se no lenol que ela usara para sua cama. Andou at ela e envolveu-a com os braos, segurando-a junto a si.

Tudo est bem, baby. Tudo est bem.

Est. No  verdade? Contemplou-o com um olhar radiante. Isto era diferente de tudo que j conhecera. Era importante, srio. E, no ntimo de sua alma, ele sabia 
quem ela era. Lucas...

Sim, minha santa.

Eu o amo. Eu... o... amo...

Ele levantou-a nos braos e, gentilmente, levou-a de volta ao quarto. E, quando a deitou, ela ergueu os olhos para ele, sorrindo. Era o sorriso de uma mulher, malicioso, 
misterioso, terno.

Sabe de uma coisa engraada, Luke? Nunca fiz amor no meu quarto antes.

Fico contente.

Eu tambm. Suas vozes tinham se transformado em sussurros.

A timidez de Kezia desapareceu quando abriu os braos para ele, deixando que Luke puxasse sua camisola cor-de-rosa pelos ombros, enquanto desenrolava o lenol da 
cintura dele.

As mos de Lucas passaram a madrugada conhecendo-lhe o corpo at que, afinal, ela dormiu nos seus braos, quando o cu estava clareando em cinza-plido.

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Captulo 12

Bom dia, meu amor. O que  que voc quer fazer hoje? Ela sorriu, com o queixo encostado no peito.

Ah, voc sabe, o costumeiro... tnis, bridge, qualquer coisa que supostamente se deve fazer na Park Avenue.

Levante o nariz.

Meu nariz? Por que o nariz?

Gosto do seu nariz.  lindo.

Voc est maluca. Simplria e contemplativa srta. Saint Martin. Talvez seja por isso que gosto de voc.

Voc est certo de me amar? Ela brincava com uma coisa que as mulheres s fazem quando se sentem seguras.

Absolutamente certo.

Como  que voc sabe? passou um dedo pelo seu pescoo, pensativamente, e ento deixou-o vagar pelo peito.

Porque meu calcanhar esquerdo fica coando. Minha me me disse que eu saberia se era amor de verdade quando o meu calcanhar coasse. Ele est coando. Ento voc 
deve ser a tal.

Que coisa maluca!

Ele calou-a com um beijo e ela se aninhou nos seus braos e ficaram deitados lado a lado, gozando a manh.

Voc  linda, Kezia.

Voc tambm.

Ele tinha um corpo magro e poderoso, que ondulava com msculos sadios cobertos pela pele mais macia. Ela mordiscou suavemente o bico do mamilo dele, que deu uma 
palmadinha no seu traseiro.

Onde voc conseguiu esse bronzeado?

- Em Marbella, naturalmente. E no Sul da Frana. Em recluso.

Voc est me gozando...

No estou gozando ningum. Os jornais disseram que eu estava

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em "recluso". Na realidade, sa sozinha num barco alugado no Adritico e um pouco antes de chegar a Marbella fiz umas pesquisas para uma histria no Norte da frica. 
Foi o maior barato Seus olhos brilharam com a lembrana.
Voc sabe convencer, hem?
Fiz muitos trabalhos este vero tambm. Ei, Luke, no seria legal se pudssemos viajar juntos alguma vez? Quero dizer, aos lugares legais como Dacar, Marrakech, 
Camargue, Bretanha e Jugoslvia? Talvez a Esccia tambm. Ela levantou os olhos em sua direo, sonhadoramente, e mordiscou-lhe a orelha.

Parece formidvel, mas infelizmente no acontecer, pelo menos por enquanto.

Por que no?

Eu no posso. Liberdade condicional.

Que chato!

Ele jogou a cabea para trs e riu, afastando-a da sua orelha, e procurando seus lbios. Beijaram-se faminta e longamente. Quando se separaram, ele riu de novo.

Voc tem razo. Minha liberdade condicional  uma chatura. Eu imagino a reao deles se eu lhes dissesse isso.

Vamos lhes dizer e ver no que d.

Tenho uma suspeita de que voc  capaz.

Ela sorriu com malcia e Luke puxou o lenol para ver-lhe o corpo.

Voc sabe de que eu gosto?

Do meu umbigo.

Mais do que da sua grande boca. Pelo menos  silencioso. No, fique sria por um momento...

Vou tentar.

Cale a boca.

Eu o amo.

Ei, mulher, voc no pode parar de falar? Ele a beijou furiosamente e puxou uma mecha do seu cabelo.

Nunca tive algum com quem falar tanto tempo, jamais gostei disso... s que senti que era to bom que no pude parar.

Sei o que voc quer dizer. Passou a mo suavemente por sua coxa, com um olhar apaixonado.

O que  que voc ia me dizer? Ela estava deitada, observando-o de maneira positiva.

Queridinha, seu ritmo  terrvel. Estou a ponto de conquistar o seu corpo outra vez.

No, voc estava a ponto de me dizer alguma coisa.

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No seja pirracenta. Eu estava a ponto de lhe dizer alguma coisa

antes que me interrompesse. O que eu ia dizer  como parece incrvel que na ltima semana eu nem mesmo a conhecia, e trs dias atrs voc apareceu em uma das minhas 
conferncias, e no outro dia eu lhe contei a histria da minha vida. Ontem me apaixonei por voc e agora estamos aqui. Nunca pensei que coisas assim pudessem acontecer.

Elas no acontecem. Mas sei o que voc quer dizer. Sinto como se o tivesse conhecido toda a vida.

Era o que eu pensava. Sinto-me como se estivssemos presos um ao outro durante anos. E gosto disso.

Voc se sentiu dessa maneira alguma vez antes?

Que pergunta impertinente! Mas, para sua informao, no senti. Uma coisa  danadamente certa. Nunca me apaixonei de ficar de pernas para o ar em trs dias, antes... 
e nunca com uma herdeira.

Ele sorriu-lhe e acendeu um charuto. Kezia refletiu alegremente que sua me teria morrido. Um charuto no quarto de dormir? Antes de tomar caf? Meu Deus!

Lucas, voc sabe o que conseguiu?

Mau hlito?

Alm disso. Voc conseguiu estilo.

Que espcie de estilo?

Estilo maravilhoso, estilo sexual, estilo corajoso, estilo macho. Acho que estou maluca por voc.

Maluca, certamente. Mas por mim! Nesse caso sou tremendamente sortudo.

Assim como eu. Ah, Lucas. Estou to contente que voc esteja aqui! Imagine s se eu no lhe tivesse dado o meu nmero de telefone!

Eu a teria encontrado de qualquer maneira.

Como?

Eu teria encontrado um jeito. No a deixaria escapar da minha vida num sopro. No pude tirar os olhos de voc durante toda a noite, na primeira conferncia. Eu no 
imaginava que voc era o escritor que me entrevistaria. Era delicioso compartilhar dos segredos dos seus primeiros sentimentos, e Kezia estava sorrindo como no 
sorria h anos.

Voc me assustou naquela primeira manh.

Assustei? Meu Deus, e eu me esforcei tanto para no assust-la! Provavelmente eu estava dez vezes mais assustado do que voc.

Mas no parecia. Parecia to mordaz que continuei pensando que voc era capaz de ver tudo que eu pensava.

Eu desejava furiosamente poder. Era tudo que eu podia fazer para no pular em cima de voc e agarr-la.

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Conquistador! Rolou para mais perto dele e beijaram-se novamente. Voc tem gosto de charuto.

Quer que eu escove os dentes?

Depois. Sorriu e rolou de barriga para baixo, a camisola cor-de-rosa ainda presa aos ps dele. Ele beijou-a outra vez e segurou-a nos seus braos, seu corpo lentamente 
apoderando-se do dela, os ps pressionando as pernas dela afastadas.

OK, lady, voc disse que me mostraria a cidade.

Sentou-se numa das cadeiras de veludo azul, fumando o seu segundo charuto do dia e bebendo sua primeira cerveja. Acabara de tomar o caf da manh. Kezia olhou-o 
e comeou a rir.

Lucas, voc parece impossvel.

Eu no pareo impossvel. Pareo extremamente possvel. E me sinto o maior barato. Eu disse a voc que no tinha classe.

Voc est errado.

Sobre o qu?

De no ter classe. Classe  uma questo de dignidade e brio, interesse. Acontece que voc tem um pouco de cada coisa. Eu me relaciono com uma horda de pessoas que 
no tm qualquer classe. E encontro no SoHo pessoas esbanjando classe.  uma coisa estranha.

Pode ser. Ele parecia no se importar. Ento, o que vamos fazer hoje? Alm de fazer amor.

Hmmm... est bem. Vou lhe mostrar a cidade.

E foi o que fez. Arranjou uma limusine e deram uma volta por Wall Street e o Village. Andaram pelo East River Drive acima e cruzaram a rua
42 para a Broadway, parando no Stage Delicatessen para comprar requeijo e roscas. Ento, seguiram caminho para o norte do Central Park, passando rapidamente pelo 
Plaza, onde pararam para um drinque no Oak Room. De volta pela Quinta Avenida e subindo a Madison, passaram por todas as butiques. Fizeram o motorista parar no Metropolitan 
Museum. Saram e passearam no parque. J eram seis horas quando pararam no Stanhope para beber, lutando com os pombos por amendoins no caf da calada.

Voc deu uma boa volta, Kezia. Ei, s pensei em uma coisa. Voc quer encontrar um dos meus amigos?

Aqui? Ela parecia surpresa.

No aqui, garota tola. Na cidade alta, no Harlem.

Parece interessante. Ela fitou-o com um longo e lento sorriso. A ideia a intrigava.

Ele  um bonito rapaz. O melhor camarada. Eu acho que voc iria gostar dele.

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Provavelmente. Trocaram um olhar doce e radiante, que refletia o calor do dia.

Ficaria um pouco esnobe irmos at l de limusine, no acha?

Ele sacudiu a cabea em resposta e pagou a conta.

Podemos mandar Jeeves para casa e pegar um txi.

Merda para isso tudo.

Voc quer ir de limusine? El'e no contara com essa. Certamente no para uma viagem ao Harlem. Mas talvez ela no soubesse viajar de outra maneira.

Claro que no, seu tolo, a gente pode ir de metro.  mais rpido e mais esperto. E muito mais discreto.

Vejam s quem fala! "Discreto". Voc quer dizer que costuma pegar o metro? Ele levantou-se e olhou para o rosto de Kezia enquanto ambos riam. Ela era cheia de surpresas.

Como  que voc acha que vou para o SoHo? De avio a jato?

Seu prprio Lear particular, eu acho.

Mas naturalmente. Vamos, Romeu, vamos nos livrar do Jeeves e andar um pouco.

O motorista tocou no quepe e desapareceu no mesmo instante. Dirigiram-se sem pressa para o metro, onde desceram s entranhas do mundo, compraram lembranas, repartiram 
biscoitos salgados e uma Coca-Cola.

Atingiram a estao 125 e Luke segurou-lhe a mo enquanto subiam as escadas para a rua.

So apenas algumas quadras.

Pense bem, Luke. Tem certeza de que ele est em casa?

No. Ns vamos para o seu local de trabalho e estou certo que estar l. Dificilmente voc o arranca dali at para aliment-lo.

Luke parecia subitamente mais aberto enquanto andavam, e mais seguro de si do que durante todo o dia. Seus ombros pareciam crescer, seu andar era quase deslizante, 
enquanto seus olhos prestavam muita ateno aos passantes. Ele usava o habitual casaco de tweed enquanto ela estava de jeans. Mas isto ainda era o Harlem. Um longo 
caminho distante de casa. Para ela. Para ele parecia algo que conhecia. Luke estava precavido, mas s ele sabia a razo.

Sabe de uma coisa, Lucas? Voc anda diferente aqui.

Pode crer. Isso me faz lembrar San Quentin. Viraram uma esquina, Lucas olhou para cima de um edifcio e parou. Bem,  aqui. Ele estava de p diante de um decadente 
prdio de arenito pardo, com um letreiro quase todo queimado: Casa do Armistcio. Mas no pareceu a Kezia que tivesse sido uma grande trgua.

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Luke fez um gesto e ps um brao nos seus ombros enquanto subiam as escadas. Dois negros adolescentes de voz roufenha e uma moa porto-riquenha precipitaram-se de 
uma porta, rindo e gritando, a moa fugindo dos garotos, mas no com muito empenho. Kezia sorriu e levantou os olhos para Luke.

Ento? O que  to diferente aqui? Luke no sorriu em resposta:

Drogados, traficantes, prostitutas, proxenetas, lutas de rua. A mesma coisa que acontece em qualquer lugar da cidade, em qualquer cidade do mundo nestes dias, exceto 
a vizinhana onde voc vive. E no fique com ideias fantasiosas. Se voc decidir que gosta de Alejandro, no continue vindo aqui depois que eu for embora. D-lhe 
um telefonema e ele pode ir v-la. Este no  o seu mundo.

Mas  o seu? Estava quase aborrecida com o discurso. Ela era uma moa feita. Havia sobrevivido antes de Luke. Embora, admitisse, no no meio do Harlem. E este  
o seu mundo, suponho? repetiu.

Ele no parecia se adequar melhor do que ela. Bem, no muito melhor.

Costumava ser, mas j no . Mas posso lidar com isso e voc no.  muito simples. Ele manteve a porta aberta para ela e o seu tom de voz lhe dizia que estava falando 
de negcios.

O corredor, revestido de cartazes desbotados, cheirava a urina velha e grama fresca. Graffiti completavam como trabalho de arte os cartazes. As protees de vidro 
em volta das lmpadas tinham quebrado e flores de papel pendiam molemente dos extintores de incndio. Um aviso desgastado dizia: "Bem-vindo  Casa do Armistcio. 
Ns o amamos." E algum riscara a palavra "amamos" e escrevera "podemos".

Luke abriu caminho, serpenteando numa escada estreita, ainda dando a mo a Kezia. Mas a tenso o estava abandonando agora. Aquele que fora uma vez lutador de rua 
tinha vindo para uma visita. Uma visita social. Ela riu subitamente, lembrando-se das lendas do Velho Oeste.

O que acha de to engraado, minha santa? Ele olhou-a de sua grande altura quando ela chegou ao topo da escada atrs dele, leve nos seus ps, sorrindo e feliz.

Voc, xerife Dillon. s vezes  um tumulto total.

Ah, voc acha?

Acho disse e inclinou o rosto para ele, que se dobrou para beij-la.

Gosto disso. Gosto muito. Correu a mo pelas costas de Kezia

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quando ela se juntou a ele no patamar, e deu-lhe um empurro gentil na direo de uma porta muito arranhada.

- Tem certeza de que ele est aqui? - perguntou ela, sentindo-se tmida de repente.

- Claro, baby. Ele est sempre aqui, o estpido, o filho da puta. Ele desperdia suas entranhas nesta casa de merda. Suas entranhas, seu corao e sua alma. Voc 
vai ver.

O nome na porta dizia Alejandro Vidal. Nenhuma promessa, nenhum slogan e desta vez nenhum graffito. S um nome.

Kezia esperou que Luke batesse, mas ele no o fez. Deu brutalmente um pontap na porta e abriu-a como um raio na hora em que entrou.

- Qu... - Um latino atrs de uma escrivaninha levantou-se com um olhar de espanto e ento comeou a rir. - Luke, seu bandido, como vai? Eu devia saber que era voc. 
Durante um segundo pensei que eles finalmente tinham vindo me pegar.

O mexicano pequeno, de olhos azuis e barbudo, parecia extasiado ao v-lo, quando Luke, em grandes passadas, atravessou a sala e abraou-o.

Passaram-se minutos antes que Luke se lembrasse de Kezia, ou Alejandro ao menos notasse a sua presena. E levou outro tanto para que Kezia tivesse um vislumbre do 
homem, perdido no abrao de urso de Luke. Foram uma poro de Qupasa hombre" e um rpido fluxo de xingamentos mexicanos. O puro espanhol de Alejandro e o ingls 
cheio de grias de Luke tinham sido adquiridos na cadeia. Brincadeiras a respeito de "dois cachimbos" e o short de algum, e uma variedade de dialetos ininteligveis 
que eram em parte mexicano, em parte priso, e parte californiano. O linguajar era um mistrio para Kezia. E ento, subitamente, tudo parou e o mais gentil sorriso 
e olhos incrivelmente mais suaves fixaram-se no rosto de Kezia. O sorriso se espalhava dos olhos para a boca e os olhos eram do mais suave veludo azul. Alejandro 
tinha a espcie de rosto que atrai as confidncias e o corao. Quase como um Cristo ou um padre. Olhou timidamente para Kezia e sorriu.

- Alo. Este rude filho da puta provavelmente nunca se lembrar de nos apresentar. Eu sou Alejandro. - Estendeu-lhe a mo, que ela pegou.

- Eu sou Kezia. - Eles se deram as mos com cerimnia e depois riso. Alejandro ofereceu as nicas duas cadeiras do quarto e empoleirou-se na sua escrivaninha.

Era um homem de altura mdia, mas perto de Luke parecia um ano. Porm no era o seu aspecto que chamava ateno. Eram os olhos. Eram ternos e compreensivos. Aqueles 
olhos no atingiam a pessoa e

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a agarravam; era a pessoa que ia alegremente ao encontro deles. Tudo nele era cordial. Seu sorriso, seus olhos, a maneira com que olhava para ambos. Era um homem 
que tinha visto muita coisa, mas no havia nele trao de cinismo. S a compreenso dos que tinham passado por experincia dolorosa e a compaixo de um homem gentil. 
Seu sentido de humor permitiu que sua alma sobrevivesse ao que via. E enquanto Luke e ele trocavam brincadeiras durante uma hora, Kezia observou-o. Ele fazia um 
estranho contraste com Luke, mas Kezia gostou dele imediatamente e soube por que era o mais ntimo amigo de Luke. Eles tinham-se conhecido h muito tempo em Los 
Angeles.

H quanto tempo voc est em Nova York? Era a primeira vez que ela se dirigia a ele desde que foram apresentados. Ele lhe servira ch e depois sucumbira  tagarelice 
com Luke. Fazia um ano que no se viam e havia muita coisa a dizer.

Estou aqui h trs anos, Kezia.

Parece-me muito tempo. Luke interrompeu o dilogo. Quanta merda voc vai apanhar em torno desse depsito de lixo, Al, antes de ficar inteligente e voltar para casa? 
Por que no volta para Los Angeles?

Porque estou trabalhando numa coisa aqui. O nico problema  que os camaradas que tratamos so pacientes externos em vez de internos. Cara, se ns tivssemos uma 
instalao residencial, eu podia levar essa miservel operao muito e muito longe.

Voc est tratando de garotos com problemas de drogas? Kezia estava interessada no que ele teria para dizer. Ao menos poderia dar uma boa histria. Mais do que com 
a histria, estava intrigada com o homem. Ela gostou dele. Era a espcie de homem que se tem logo vontade de abraar, e ela acabara de encontrar.

Sim, drogas e pequenas histrias criminais. As duas esto quase sempre relacionadas. Ele se entusiasmou quando explicou os servios que a instalao oferecia, mostrou-lhe 
mapas, grficos, histrias e esboos de planos futuros. Mas o problema real continuava: falta de controle. Quando os garotos voltassem para a rua de noite, fugindo 
de lares desfeitos onde a me estivesse fornicando na nica cama do quarto, ou o pai estivesse batendo na mulher, onde irmos tomassem picos na privada, e as irms 
tomassem ou vendessem bolinhas, nada havia que pudessem fazer. O ponto principal  tir-los do ambiente. Mudar todo o padro de vida. Ns sabemos disso agora, mas 
no  fcil. Fez um gesto para as paredes descascadas e mostrou o seu ponto de vista amplamente. O lugar estava em mau estado.

Ainda acho que voc  um sonhador disse Luke, mas estava

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impressionado com a determinao do amigo, seu impulso. Ele o tinha visto vencido, fotografado, expulso, espancado e ridicularizado, cuspido e ignorado. Mas ningum 
pode manter Alejandro por baixo. Acreditava nos seus sonhos. Como Luke tambm nos dele.

E voc pensa que  mais sensato do que eu, Luke? Voc vai fazer o mundo parar de construir prises? Hombre, voc morrer antes de ver isso acontecer. Revirou os 
olhos e encolheu os ombros, mas o respeito era inteiramente mtuo.

A conversa dos dois divertia Kezia. Com ela Alejandro falava um ingls perfeito, mas com Luke caa na linguagem das ruas, uma pirraa, uma recordao, uma brincadeira 
ou um elo, ela no estava completamente segura. Talvez uma combinao de todas.

Muito bem, espertinho, voc vai ver. Daqui a trinta anos no haver uma priso funcionando neste estado ou em qualquer outro.

Ela compreendeu "loco" e "cabeza" em resposta e ento Luke fez um gesto indecoroso com um dedo da mo direita.

Por favor, tem uma dama presente.

Mas tudo era uma grande brincadeira e Alejandro parecia t-la aceitado. No havia o menor sinal de timidez nele, entretanto. Ele brincava com Kezia como fazia com 
Luke.

E voc Kezia, o que  que faz? Ele a fitava de olhos bem abertos.

Eu escrevo.

E ela  boa.

Kezia riu e deu um empurro em Luke.

Espere at ver a entrevista antes de decidir. De qualquer modo, voc  preconceituoso.

Eles repartiram um sorriso em trs direes e Alejandro olhou satisfeito para seu amigo. Soube imediatamente que isso no era um capricho. No era mulher de uma 
noite ou amiga casual. Era a primeira vez que via Luke com uma mulher. Luke mantinha as mulheres na cama e ia para casa quando queria algo mais. Esta devia ser especial. 
E parecia diferente das outras tambm. Mundos diferentes. Ela era inteligente e tinha certo estilo. Classe. Imaginava onde Luke a teria encontrado.

Vamos jantar juntos no centro da cidade? Luke acendeu um charuto e ofereceu um para o amigo. Alejandro apanhou-o avidamente e depois pareceu surpreso quando o acendeu.

Cubano?

Luke assentiu. Kezia riu.

A lady tem bom suprimento.

Alejandro assobiou e Luke olhou momentaneamente orgulhoso. Ele

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tinha uma mulher possuidora de alguma coisa que ningum mais no grupo tinha: charutos cubanos.

Lucas, eu no posso ir jantar. Bem que gostaria, mas... Alejandro apontava para a montanha de trabalho na mesa hoje, s sete da noite, vamos ter um grupo de pais 
dos nossos pacientes.

Terapia de grupo? Alejandro confirmou.

Conscientizar os pais s vezes ajuda.

Kezia subitamente teve a impresso de que Alejandro estava tentando esvaziar uma onda de mar com um dedal, mas era preciso darlhe crdito para experimentar.

Jantaremos num outro dia, talvez. Quanto tempo voc vai ficar na cidade?

Hoje  noite, amanh. Mas eu volto. Alejandro sorriu de novo e deu-lhe uma pancadinha nas costas.

Sei que vai voltar. E fico feliz por voc. Contemplou cordialmente Kezia e sorriu a ambos. Pareceu uma bno.

Era bvio que Alejandro detestava v-los partir tanto quanto Lucas detestava ter de ir embora. E Kezia sentiu isso tambm.

Voc tinha razo.

A respeito de qu?

Alejandro.

Claro, eu sei. Lucas estivera perdido nos seus pensamentos at chegarem ao metro. Este filha da puta vai acabar encontrando a morte com esses malditos grupos de 
terapia e seus ideais fedidos. Eu gostaria que ele largasse essa merda.

Talvez ele no possa fazer isso.

Ah, sim? Lucas estava preocupado com o amigo.

 uma espcie de guerra, Luke. Voc trava a sua, ele cuida da dele, e nenhum de vocs, realmente, se preocupa em ficar sacrificado nesse processo. O que importa 
 o resultado final. Para vocs dois. Ele no  to diferente de voc. No na maneira de pensar. Ele est fazendo o que tem de fazer.

Lucas assentiu ainda parecendo descontente, mas sabia que Kezia tinha razo. Ela era muito perceptiva. Isso o surpreendia s vezes. Para algum to cego a respeito 
da prpria vida, Kezia tinha um jeito de pr o dedo diretamente na ferida dos outros.

Entretanto voc est errada numa coisa.

O qu?

Ele no  de maneira alguma igual a mim.

Por que diz isso?
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No tem a menor estrutura fsica para isso.

E voc tem? Um sorriso comeou a iluminar os olhos dela. O macho estava falando.

 melhor voc acreditar, minha santa. Um cara no viveria, como eu, seis anos no sistema penal da Califrnia se fosse franzino como ele. Algum o tornaria um homossexual 
passivo e se o cara no apreciasse morreria no dia seguinte.

Ento ele nunca esteve na priso?

Alejandro? Luke deixou escapar um riso baixo, cordial. Nunca. Todos os seus irmos estiveram. Ele estava visitando um dos irmos em Folsom e gostei dele. Quando 
fui transferido para outra cadeia, ele teve permisso especial para me visitar. Ficamos irmos desde ento. Mas Alejandro nunca esteve no mesmo grupo, nunca esteve. 
Ele foi para um caminho diferente do resto da sua famlia. Magna cum laude em Stanford.

Puxa, e ele  to humilde!

 por isso que ele  to bonito, baby. E tem um corao puro

como ouro.

O trem que chegava engoliu suas ltimas palavras, e eles retornaram em silncio. Ela puxou-lhe a manga na parada da rua 77.

Aqui estamos.

Ele concordou, sorriu e levantou-se. Tinha voltado a si de novo, ela podia ver. A preocupao com Alejandro desaparecera da sua face. Agora tinha outras coisas na 
mente.

Baby, eu a amo. Segurou-a nos braos quando o trem partiu e os seus lbios se encontraram. E ento, subitamente, ele olhou-a outra vez preocupado. Isso  inoportuno?

Ha? Ela no sabia o que ele queria dizer, quando ento Lucas se afastou, embaraado.

Bem, posso entender que voc no queira aparecer nos jornais. Eu lhe fiz uma poro de discursos na ltima noite, mas entendo como voc se sente. Ser voc mesma 
 uma coisa, ser figura de primeira pgina  outra.

Graas a Deus nunca fui primeira pgina. Pgina cinco talvez, at pgina quatro, mas nunca pgina um. Essa  reservada para homicdios, raptos e quebras no mercado 
de aes. Riu de novo para ele.

Certo, Luke. Est tudo calmo, alm disso havia malcia nos seus olhos note-se que muito poucos dos meus amigos viajam de metro.  bobagem deles realmente.  uma 
maneira to maravilhosa de viajar!

Sua voz era a de uma pura debutante quando piscou-lhe os olhos e Lucas lanou-lhe um olhar srio do topo da sua altura.

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Eu certamente vou guardar isso na mente. Tomou a mo dela e balanou-a enquanto seguiram adiante, com sorrisos concordantes

Quer levar alguma coisa para comer? Perguntou ao passarem por uma loja que vendia frangos assados.

No.

No est com fome? Ela estava subitamente faminta. Fora um longo dia.

Sim, estou com fome.

Bem. Ele a apressava pela rua e ela no compreendia e ento com um olhar para o seu rosto ela compreendeu. Perfeitamente. Lucas, voc  terrvel.

Diga-me isso depois. Ele a tomou pela mo e, rindo, correram pelo porto do metro e viraram a esquina em direo  casa.

Lucas! O porteiro! Pareciam crianas descabeladas correndo desordenadamente pela rua, de mos dadas. Fizeram uma parada sbita na frente do edifcio dela. Ele seguiu-a 
ento decorosamente para dentro, os dois segurando o riso com expresses rgidas. Ficaram no elevador como coroinhas e depois tiveram um ataque de riso no saguo, 
enquanto Kezia procurava a chave.

Vamos, Vamos! Ele passou a mo suavemente por baixo do casaco e deslizou-a para dentro da saia.

Pare com isso, Luke! Ela ria e procurava mais atentamente pela chave.

Se voc no encontrar a danada da chave at eu contar at dez, vou...

Voc no vai!

Sim eu vou. Exatamente aqui no hall.

Pare com isso! Espere... achei. Tirou a chave da bolsa.

Ora, bolas! Estava comeando a esperar que voc no a achasse.

Voc  uma desgraa A porta abriu violentamente e ele se lanou sobre Kezia quando entraram, levantando-a nos braos para lev-la para a cama.

No, Lucas, pare!

Voc est brincando?

Ela arqueou o pescoo com altivez, encarapitada nos braos dele, olhando-o nos olhos, eriada, mas havia um pedido de misericrdia nos olhos dela.

No estou brincando. Ponha-me no cho. Preciso fazer pipi.

Pipi! O rosto de Luke abriu-se em gargalhadas. Pipi?

Sim, pipi. Ele a ps no cho e Kezia cruzou as pernas, rindo outra vez.

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- Por que no falou? Quero dizer, se eu soubesse que...

A gargalhada dele encheu o hall enquanto ela desaparecia na direo do banheiro.

Voltou num minuto e a ternura havia substitudo o esprito de pirraa. Tinha tirado os sapatos no caminho e ficou descala diante dele, com o longo cabelo contornando-lhe 
o rosto, seus olhos grandes e brilhantes e alguma coisa feliz na sua expresso, algo que nunca estivera ali antes.

Sabe de uma coisa? Eu'te amo. Puxou-a de encontro a si e deu-lhe um abrao gentil.

Eu tambm o amo. Voc  alguma coisa que eu tinha imaginado,

mas nunca pensei que encontraria.

Nem eu. Creio que tinha me resignado a no ach-la e apenas continuar como estava.

E como era?

Sozinho.

Eu tambm conheo essa coisa.

Andaram silenciosamente at o quarto e ele contornou a cama enquanto ela tirava o jeans. Mesmo os lenis Porthault j no a embaraavam, e eram bonitos para Luke.

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Captulo 13

Lucas?

Sim?

Voc est bem? Estava escuro no quarto e ela sentou-se, olhando para ele com a mo no ombro. A cama estava mida em torno deles.

Estou me sentindo muito bem. Que horas so?

Quinze para as cinco.

Meu Deus! Rolou de costas e olhou para ela, grogue. O que voc est fazendo de p?

Eu no estava fazendo nada. Mas voc teve um sonho mau, um sonho realmente mau.

No se preocupe. Lamento ter acordado voc. Ele acarinhou-lhe um seio ternamente, com os olhos semicerrados, e ela sorriu.

Meu ronco  muito pior, no entanto. Voc teve sorte.

Mas ela estava preocupada. A cama estava encharcada dos seus suores.

Acho que preferia que roncasse. Voc parecia to perturbado. Assustado eu acho.

No se preocupe com isso, minha santa. Voc vai se acostumar.

Voc tem desses sonhos frequentemente?

Ele levantou os ombros como resposta e procurou os cigarros.

Quer fumar? Ela sacudiu a cabea.

Voc quer um copo d'agua? Ele riu quando acendeu o cigarro.

No, minha boa samaritana, no quero. Corta essa, Kezia. O que  que voc espera? Estive numa poro de lugares engraados na minha vida. Eles deixam marcas.

Mas desse modo? Ela o observara durante quase vinte minutos antes de acord-lo. Ele agia como se estivesse sendo torturado.

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Isso era... isso era de quando voc esteve na priso? Perguntou ela a contragosto, mas ele se limitou a dar de ombros.

Uma coisa  certa. No  de fazer amor com voc. Eu lhe disse para no se preocupar.

Levantou-se num cotovelo e beijou-a. Mas ela ainda podia ver o terror nos seus olhos.

Luke? de repente uma coisa lhe ocorreu.

O qu?

Quanto tempo voc vai ficar aqui?

At amanh.

E  tudo?

 tudo. Mas quando ele viu o olhar no rosto dela, esmagou o cigarro e puxou-a para seus braos. Vai haver mais.  s o comeo. Voc pensa que vou perd-la depois 
de levar todos esses anos para encontr-la?

Kezia sorriu em resposta e ficaram deitados, lado a lado no escuro, em silncio, at que afinal adormeceram. At Luke dormiu pacificamente desta vez, o que era mais 
raro do que Kezia sabia. Ultimamente, desde que recomearam a segui-lo, ele tinha pesadelos toda a noite.

Caf completo? Kezia vestia um roupo de cetim branco e sorriu para ele enquanto se espreguiava.

Apenas um cafezinho, obrigado. No gosto de tomar caf s pressas e no tenho muito tempo.

Ele tinha pulado da cama e j estava se despindo. Ela lembrou-se de novo. Luke estava partindo.

No olhe assim, Kezia, eu lhe disse, vai haver mais, uma poro de vezes. Deu uma pancadinha no seu traseiro e ela escorregou facilmente nos braos dele.

Vou sentir tanta falta quando voc se for...

Eu tambm, sr. Hallam, voc  uma linda mulher.

Ora, cale-se! Riu mas ficou embaraada quando ele recordou a coluna. A que horas sai seu avio?

Onze.

Merda. Ele riu para ela e andou lentamente pelo hall, sua estatura larga deslizando facilmente no seu passo especial. Kezia observou-o em silncio, encostando-se 
na porta do quarto, refletindo que Parecia que sempre estiveram juntos: pirraando, rindo, viajando pelo "metro, falando tarde da noite, observando o sono um do 
outro e acordando, compartilhando um cigarro e os pensamentos da madrugada antes do caf.

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Lucas! Caf! Ela colocou uma xcara fumegante na pia e bateu no ombro dele atravs da cortina do chuveiro. Tudo parecia to natural, to familiar, to bom.

Ele alcanou a xcara contornando a cortina, inclinou a cabea, sorveu um gole.

Bom caf. Voc vem para dentro? Ela sacudiu a cabea.

No, obrigada, sou mais do banho de banheira.

Ela sempre preferiu o banho de banheira. No era um choque logo de manh. Tudo fazia parte do ritual. leo para banho de Dior. A gua perfumada morna, e bastante 
cheia para cobrir-lhe o peito na banheira de mrmore cor-de-rosa, ento emergindo para toalhas felpudas, e no seu confortvel roupo de cetim branco, os seus chinelos 
favoritos com saltos de veludo cor-de-rosa. Luke sorriu-lhe, enquanto ela o observava, e estendeu um brao para convid-la a se juntar a ele.

Venha.

No, Luke. Eu vou esperar. Ela ainda se sentia sonolenta.

Nada disso.

E ento, com um inesperado movimento, um movimento de uma das mos, ele fez escorregar o roupo dos seus ombros e antes que protestasse ele a levantara dos ps na 
curva do seu brao e a depositava na cascata de gua diante dele.

Eu estava sentindo sua falta, baby. Riu enquanto ela falava atabalhoadamente e puxou as mechas de cabelo mido dos olhos. Ela estava nua, com exceo dos chinelos 
de veludo.

Ah, voc... voc... maroto. Puxou os chinelos dos ps, atirou-os fora da banheira e bateu nele com a palma da mo no ombro. Mas ela estava tambm lutando para no 
cair na gargalhada e ele sabia. Ele tapou-lhe a boca com um beijo, e os braos dela rodearam-no quando ele se inclinou para beij-la. Ele a protegia contra os lenis 
d'agua fumegantes e sentiu as mos dela viajando da sua cintura para as coxas.

Eu sabia que voc gostaria disso, uma vez aqui dentro.

Voc  um touro miservel, podre, descomunal, Lucas Johns,  isso o que voc . Mas o tom no concordava com as palavras.

Mas eu te amo.

Eu tambm te amo. Quando ele fechou os olhos para beij-la, Kezia esquivou-se e dirigiu a gua do chuveiro em cheio no rosto dele, abaixando-se para belisc-lo numa 
coxa.

Ei, minha cara, cuidado! Na prxima vez poder sentir falta! Mas beijou o lugar onde pensou que ela fosse mord-lo, enquanto a gua do chuveiro ondulava pelos seus 
cabelos e pelas costas abaixo,

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aquecendo os dois. Ele levantou-a lentamente, as mos percorrendo seu corpo, e os lbios se encontraram quando ele a puxou para os seus braos e fez com que ela 
enlaasse sua cintura com as pernas.

Kezia, voc est maluca?

Por qu?

Estavam confortavelmente aninhados numa limusine alugada, e ela

parecia completamente  vontade.

Esta no  a maneira da maioria das pessoas viajarem, voc sabe.

Sim, eu sei riu timidamente e mordiscou-lhe a orelha. Mas

admita que  engraado.

Certamente que . Mas me d um tremendo complexo de culpa.

Por qu?

Porque esse no  o meu estilo. No sei como explicar.

Ento apenas cale-se e aproveite. Ela riu, mas sabia o que Luke queria dizer. Ela tambm tinha visto outros mundos. Voc sabe, Luke, passei metade da minha vida 
tentando negar essa maneira de vida e a outra metade cedendo a ela e detestando-a, ou detestando-me por ser comodista. Mas de repente no me incomodo mais. Isso 
j no me possui. Apenas parece uma coisa engraada de se fazer, e por que no?

Desse ponto de vista no parece to ruim. Voc me surpreende, Kezia. Voc  mimada e no . Voc toma isso por garantido, e ento ri de tudo como criana. Eu entendo 
assim. Voc torna essa situao engraada!

Ele parecia contente quando acendeu um charuto. Ela o tinha provido de uma caixa de cubanos.

Ficaram de mos dadas no fundo da limusine e o aeroporto Kennedy apareceu cedo demais. A divisria de vidro que os separava do motorista estava erguida. Kezia apertou 
o boto para baixar a divisria e lembrar ao motorista em que terminal queriam ficar. Tornou a erguer a divisria.

Trocaram um sorriso, com as sobrancelhas levantadas das pessoas nascidas para comandar. Uma por hereditariedade, outra pela sua alma. Viajaram o resto do caminho 
em silncio, de mos dadas. Mas alguma coisa dentro de Kezia estremeceu ao pensar que ele estava indo embora. O que aconteceria se nunca mais o visse? Ou se tudo 
tivesse sido um perodo excepcional? Ela expusera sua alma para esse estranho e deixara seu corao desprotegido, e agora ele estava indo embora.

Mas no seu prprio silncio, Luke tinha os mesmos temores. E esses no eram os nicos. Ele tinha sentido nas suas entranhas que carros de tiras eram todos os mesmos: 
azul-plido, verde-esmaecido, castanho-escuro
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com uma antena alta, vibrante, atrs. Ele sempre os sentia e tinha sentido este aqui. E agora ele os estava seguindo a uma distncia discreta. Ele especulava como 
souberam que ele estava em casa de Kezia. Isso o fez pensar se tinham-no seguido naquela noite em Washington, se mesmo naquele passeio tarde da noite para o apartamento 
dela havia sido seguido. Eles estavam fazendo isso cada vez mais, ultimamente. No era apenas perto das prises. Estava acontecendo em toda a parte agora. Os canalhas!

O motorista registrou a bagagem de Luke para ele, enquanto Kezia esperava no carro. Foi s por uns poucos momentos, antes que Luke enfiasse a cabea na janela.

Voc vai comigo at o porto?

Isso  como o chuveiro, ou tenho outra opo? Riram-se, recordando aquela manh.

Vou deix-la usar o seu julgamento neste particular. Eu confio no meu debaixo do chuveiro.

Eu tambm.

Ele olhou para o relgio e o sorriso dela desapareceu.

Talvez seja melhor voc ficar aqui e apenas voltar  cidade. Seria estpido voc entrar numa poro de problemas. Ele compartilhava da preocupao dela. Sabia que 
confuso haveria nos jornais se algum os visse. E ele no era nenhum Whitney Hayworth III. Era Lucas Johns e digno de noticirio no seu ramo, mas no de uma maneira 
que fosse fcil para Kezia. E o que aconteceria se os tiras no carro azul se aproximassem dele? Poderia arruinar todo o seu encontro com ela, poderia assust-la.

Kezia abriu os braos para beij-lo e ele inclinou-se para ela.

Vou sentir muito sua falta, Luke.

Eu tambm.

Meu Deus, detesto v-lo partir! Lgrimas chegaram-lhe aos olhos e subitamente ele recuou.

Nada disso. Vou telefonar  noite.

E num segundo ele tinha ido embora. A porta bateu discretamente e ela o observava afastar-se. Luke no se virou nenhuma vez para olhar, enquanto lgrimas escorriam 
pela face dela.

O caminho de volta foi sombrio. Queria ficar sozinha com seus pensamentos do dia e das duas noites anteriores. Seus pensamentos vagueavam para o presente. Por que 
no foi at o porto com ele? De que estava com medo? Estaria ela envergonhada dele? Por que no tivera coragem?

A divisria baixou abruptamente. O motorista olhou com surpresa pelo retrovisor. 
138
Quero voltar disse ela.

- Como disse, senhorita?

- Quero voltar para o aeroporto. Ele esqueceu uma coisa no carro. Tirou um envelope da bolsa e segurou-o com ar de importncia no colo Uma desculpa esfarrapada. 
O camarada deveria ter pensado que ela era desequilibrada, mas ele que se danasse. Ela s queria voltar a tempo. A poca de ter coragem chegara. Agora no havia 
possibilidade de retrocesso, Luke precisava saber disso. Desde o comeo.

Vou pegar o prximo retorno e voltar o mais rpido possvel.

Ela estava tensa, sentada no banco de trs, imaginando se chegariam tarde demais. Mas era difcil discutir com a maneira do motorista dirigir quando ele ondeava 
para dentro e para fora das pistas, passando pelos caminhes em velocidade aterradora, tudo voando. Chegaram ao terminal vinte minutos depois de deix-lo, e ela 
desembarcou antes mesmo que o motorista parasse por completo no meio-fio. Apressou-se por entre os executivos viajantes, velhas senhoras com cachorrinhos, jovens 
com perucas e despedidas chorosas. Ofegante, olhou para conferir o nmero do porto do voo para Chicago.

Porto 14 E. Merda!... no final do terminal, quase o ltimo porto. Ela estava correndo e o seu cabelo soltou-se do n elegante e apertado. Ela riu consigo mesma 
ao empurrar as pessoas e quase atropelar crianas Os paparazzi teriam um furo com isso a herdeira Kezia Saint Martin correndo pelo aeroporto, jogando as pessoas 
no cho para receber um beijo do ex-condenado agitador Lucas Johns. Quando percorreu os ltimos metros viu que chegara a tempo. A largura dos ombros e costas estava 
enchendo a abertura do porto. Ela conseguira por um fio.

Luke!

Ele virou-se lentamente com o bilhete na mo, imaginando quem o conhecia em Nova York. E ento a viu, seu cabelo caindo livre dos grampos, pendendo soltos sobre 
o casaco vermelho brilhante, seu rosto afogueado da corrida desde o carro. Um amplo sorriso cobriu-lhe a face e ele se afastou da fila de viajantes impacientes e 
abriu caminho at ela.

Lady, voc est maluca. Pensei que estivesse de volta  cidade agora. Estava aqui pensando em voc quando tivemos que nos aprontar para embarcar.

Eu estava... a meio caminho... de volta... para a cidade.. estava feliz e ofegante, enquanto olhavam um para o outro nos olhos, mas... tive... que voltar.

Pelo amor de Deus, no v ter um ataque de corao por minha causa agora. Voc est bem, baby?

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Ela assentiu com a cabea vigorosamente e dobrou-se nos braos dele.

Muito bem. Muito obrigado por ter voltado, sua maluca. Ele sabia o que tal atitude significava. E ela resplandecia quando olhou para ele e beijou-a.

Luke sabia o que ela era e o que os jornais podiam fazer com um beijo daqueles em plena luz do dia, com um mar de gente em volta. Kezia tinha voltado. A cu aberto. 
E nesse momento ele soube o que tinha esperado, mas no acreditava completamente. Era para valer. Agora ela era dele. A ilustre Kezia Saint Martin.

Voc correu um risco danado.

Eu tinha que correr. Por minha causa. Alm disso, acontece que eu o amo.

Eu sabia disso mesmo que voc no tivesse voltado... Mas estou muito contente porque veio. Sua voz soou spera quando ele a segurou de novo. E agora preciso apanhar 
o avio. Tenho uma reunio em Chicago s trs horas.

Luke...

Ele parou e fitou-a durante um longo momento. Ela quase pediu-lhe para no ir. Mas no podia fazer isso. No podia pedir-lhe uma coisa como essa. E ele nunca teria 
ficado.

Tome muito cuidado com voc.

Voc tambm. Estaremos juntos na prxima semana. Ela assentiu e ele atravessou o porto. Tudo que pde ver a seguir foi um aceno de um longo brao levantado antes 
que ele desaparecesse na rampa.

Pela primeira vez na vida ela ficou no aeroporto e observou o avio levantar voo. Foi uma boa sensao observar o imponente avio prateado subir para o cu. Era 
bonito e ela se sentiu renovada. Pela primeira vez, que ela pudesse se lembrar, tinha tomado nas suas mos o seu destino e publicamente corrido riscos. Nunca mais 
se esconder no SoHo ou desaparecer em algum lugar perto de Antibes. Nada clandestino. Ela era uma mulher. Amando um homem. Finalmente tinha decidido arriscar. O 
nico empecilho era ser uma novata e estar brincando com a vida sem saber a que altura as apostas se elevavam. Ela no viu o homem vestido com simplicidade esmagar 
o cigarro perto do porto. Foi-se embora inconsciente da ameaa que ele representava para os dois. Kezia era uma criana andando s cegas numa selva.


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Captulo 14

Onde voc esteve, pelo amor de Deus? Whit parecia aborrecido, um luxo que ele raramente se permitia com Kezia.

Estive aqui, e os cus que me protejam, Whit, voc parece fora dos eixos.

No acho graa nenhuma, Kezia. Fiquei telefonando dias a fio.

Tive uma enxaqueca e pus o meu telefone ligado  secretria eletrnica.

Oh, queridinha, desculpe-me! Por que no me disse?

Porque eu no podia falar com ningum. Exceto Lucas. Ela passara dois dias inteiramente sozinha desde que ele fora embora. Dois dias gloriosos. Precisava desse tempo 
sozinha para absorver o que tinha acontecido. Ele telefonara duas vezes por dia, com a voz spera e cheia de riso, amor e malcia. Ela quase podia sentir suas mos 
quando falavam.

E como  que se sente agora, queridinha?

Maravilhosa. Em xtase. Esse som insinuou-se na sua voz. Mesmo com Whitney.

Certamente voc parece bem. E presumo que voc se lembra de hoje  noite, no?

Hoje  noite? O que h hoje  noite?

Pelo amor de Deus, Kezia.

Oh, que merda. O dever estava chamando.

Bem, no posso lembrar. As enxaquecas fazem isso comigo. Recorde-me o que h hoje  noite.

Os jantares para o casamento dos Sergeant comeam hoje  noite.

Puxa. E qual deles  o de hoje? Teria ela perdido algumas das festas frvolas? Esperava que assim fosse.

Hoje  o primeiro. A tia de Cassie est dando um jantar em honra deles. Black tie. Agora voc se lembra, meu amor?

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Estava lembrando, mas desejava no ter lembrado. E ele falava com ela como se fosse uma retardada.

Sim, Whit. Agora eu me lembro. Mas no sei se estou em condies para isso.

Voc me disse que se sentia maravilhosa.

Certamente, querido. Mas no sa da cama durante trs dias. Esse jantar podia ser uma tenso forte demais. Porm o jantar era tambm uma obrigao e tinha que ir 
por causa da coluna, se no por outra razo. Ela estivera fora bastante tempo. At se descuidara da coluna nos ltimos dias. Agora precisava voltar ao trabalho, 
 realidade. Mas como? Como, depois de Luke? A ideia era absurda, que realidade? De quem? De Whit? Que merda sem fim. Luke agora era a realidade.

Bem, se voc no est em condies, sugiro que explique isso  sra. Fitz Matthew falou Whit, petulante.  um jantar para cinquenta e ela vai querer saber se voc 
estava planejando perturbar os arranjos dela dos lugares.

Suponho que eu deva ir.

Acho que sim. "Filho da puta."

Muito bem, queridinho, eu irei. Havia um laivo de mrtir na voz dela. Conseguiu dominar o riso.

Voc  uma boa menina, Kezia. Eu me senti realmente assustado sem saber onde voc estava.

Eu estava aqui. E Luke tambm.

E com uma enxaqueca, coitadinha. Se eu soubesse teria lhe mandado flores.

Estou contente que no tenha mandado.

O qu?

O cheiro de rosas piora a minha dor de cabea.

Ento foi bom que eu no soubesse que voc estava doente. Muito bem. Venho busc-la s oito.

Black tie ou gravata branca?

Eu lhe disse: black. Sexta-feira  gravata branca.

O que acontece na sexta? Seu calendrio social tinha-lhe fugido da memria.

Essas dores de cabea a fazem esquecida, no  verdade? Sexta-feira  o jantar de ensaio. Voc vai ao casamento, no vai?

A pergunta era puramente retrica. Mas ela teve um choque.

Realmente no sei. Tenho um casamento em Chicago este fim-de-semana. No sei a qual devo ir.

Quem vai casar em Chicago?

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Uma velha amiga de escola.

Algum que eu conhea?

No, ningum que voc conhea, mas ela  uma moa muito boa.

Isso  muito bom. Bem, faa o que achar melhor. Mas o aborrecimento tinha voltado a sua voz. Ela era to cansativa s vezes. Apenas deixe-me saber o que voc decidiu. 
Preferia contar com voc no casamento dos Sergeant.

Voc vai resolver. Vejo-o mais tarde. Ela soprou-lhe um beijo breve e desligou, piruetando num p s descalo, com o roupo de cetim aberto revelando a carne ainda 
mais queimada. "Um casamento em Chicago." Ela riu enquanto atravessava o hall para preparar o banho. Puxa, isso era melhor que um casamento. Ela ia voar para encontrar 
Lucas.

Meu Deus, voc est espetacular, Kezia! Desta vez at mesmo Whit pareceu impressionado. Ela usava um vestido de seda fina, como uma pelcula, drapeado  grega sobre 
um ombro. Era de um matiz de coral plido e o tecido parecia flutuar quando ela andava. O cabelo penteado em duas tranas longas entremeadas de ouro e as sandlias 
de ouro fosco pareciam apenas pender dos seus ps. Ela se movia livremente como uma viso, com coral e diamantes nas suas orelhas e no pescoo. Mas havia alguma 
coisa na sua maneira de se mover que perturbou Whit enquanto a observava. Estava to impressionante naquela noite que era mesmo perturbador. Eu nunca a vi to bem 
nem to bonita.

Muito obrigada, querido.

Ela riu misteriosamente quando passou por ele rapidamente, saindo. O cheiro de lrio-do-vale pairava perto dela: Dior. Kezia parecia semplesmente extraordinria. 
E era alguma coisa mais do que o seu aspecto. Nessa noite ela parecia mais mulher do que nunca. A mudana o teria assustado se no fossem to velhos amigos.

Havia um mordomo esperando os convidados na entrada da casa da tia de Cassie. Dois porteiros estavam  disposio para peg-los  porta do carro, se no tivessem 
trazido a limusine. Alm do indmito mordomo, Georges, que j trabalhara para Ptain em Paris "nos velhos bons tempos", havia duas empregadas em uniformes pretos 
engomados, esperando impvidas para recolher os agasalhos e dirigir as senhoras ao quarto apropriado para se arrumarem e maquilarem antes de fazerem sua "apario." 
Um segundo mordomo interceptou-os a meio do caminho para comearem a noite com uma rodada de champanha.

Kezia trazia um casaquinho de pele de marta branco para entregar

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ao uniforme preto que se aproximou dela, mas no tinha necessidade ou desejo de se arrumar.

Querido? Whit segurava uma taa de champanha para ela e foi a ltima vez que a viu de perto. No resto da noite teve vises rpidas dela rindo no centro de uma roda 
de amigos, danando com homens que no via no circuito h anos, cochichando no ouvido de algum e uma vez ou duas teve a impresso de v-la sozinha no terrao olhando 
para longe, para a noite outonal no East River. Mas ela estava esquiva esta noite. Toda vez que se aproximava, ela escapava para longe. Era realmente muito aborrecido, 
essa sensao de contemplar uma viso, ou simplesmente um sonho. E as pessoas falavam dela. Os homens pelo menos falavam, e de uma maneira estranha que o perturbava. 
Era o que ele queria, no entanto, ou pensava que queria ser "consorte de Kezia Saint Martin". Ele planejara cuidadosamente anos atrs, mas no lhe agradava o jeito 
que isso estava tomando ultimamente, ou o som da voz dela ou a observao que lhe fizera esta manh. Pensava que tinham um entendimento mudo, mutuamente aceito. 
Ou seria preciso estabelec-lo para eles, afinal? Pelo menos todos achavam que ele devia. Kezia era boa a esse respeito. Ele no se preocupava com essa espcie de 
coisa, em todo caso. Whit sabia disso. Ele estava certo... ou seria Edward? Subitamente a ideia atingira-lhe a mente e no seria banida. Kezia dormindo com Edward? 
E os dois fazendo-o de bobo?

Boa noite, Whit.

O objeto de sua nova suspeita aparecera a seu lado.

Boa noite murmurou ele.

Bonita festa, no?

Pois , Edward. A querida Cassie Sergeant est se saindo com estilo.

Voc faz com que ela parea um navio. Embora eu deva dizer que a aluso no  inteiramente inepta. Edward olhou virtuosamente quando os seus olhos caram na forma 
ligeiramente rotunda da moa prestes a ser noiva enfiada como cimento em cetim cor-de-rosa.

A sra. Fitz Matthew est certamente fazendo o melhor que pode Edward sorriu vagamente para a multido em torno. O jantar fora soberbo: salmo da Nova Esccia, lagostas 
da costa do Pacfico, caviar beluga contrabandeado da Frana em quantidades tentadoras. (Voc sabe, querido, a Frana no tem essas absurdas regras a respeito de 
pr toda essa matria salgada desagradvel no caviar. Que coisa terrvel fazer isso com um bom caviar!) Os pratos de peixe foram seguidos pelas costelas de carneiro 
e um nmero quase deprimente de legumes e sufl Grand Marnier: depois queijo de Brie, uma enorme rodela encomendada

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da Fraser Morris, na Madison, o nico lugar na cidade onde se podia compr-lo.

E s Carla Fitz Matthew possivelmente teria uma equipe para organizar essa tarefa do sufl para cinquenta pessoas.

Foi um barato de jantar, no foi Whit?

Whit concordou, emburrado. Ele tinha bebido demais e no estava contente com os novos pensamentos que a sua mente descobrira.

A propsito, onde est Kezia?

Voc devia saber.

Fico lisonjeado que pense assim, Whit. Mas, na realidade, no falei com ela durante toda a noite.

Reserve-se ento para a cama hoje  noite Whitney falou j meio alto, mas no escapou a Edward.

Como assim?

Desculpe... Suponho que ela esteja em algum lugar. Voando de lado para lado. Ares muito bonitos hoje  noite.

Eu diria que voc podia dizer mais que "bonitos", Whitney. Edward sorriu bebendo o ltimo gole de vinho, meditando sobre o comentrio de Whit. No gostou do tom 
de voz do amigo, que poderia ter evitado o sentido que aparentava. Alm disso, ele estava obviamente embriagado. A moa parecia bem extraordinria. Eu os vi chegar 
juntos.

E voc no nos vai ver sair juntos. Que surpresa! Whitney ficou subitamente feio quando lanou um sorriso lbrico para Edward, virou nos calcanhares e ento parou. 
Ou isso lhe agradou mais do que surpreendeu?

Se voc planeja sair sem Kezia, acho que podia lhe dizer. Alguma coisa est errada?

Alguma coisa est certa? Boa noite, senhor. Eu a deixo para voc. Voc pode desejar-lhe boa noite por mim.

Ele desapareceu imediatamente na multido, depositando o seu copo vazio na mo de Tiffany Benjamin quando saiu. Ela estava convenientemente de p na passagem da 
porta e contemplou com entusiasmo o copo vazio, balanando-o para ser preenchido, sem notar que ela agora tinha dois copos nas mos.

Edward observou-o saindo e imaginou o que Kezia estaria pensando; fosse o que fosse estava claro que Whit no tinha gostado, embora ele no pudesse imaginar o motivo. 
Perguntas polidas tinham confirmado anos de suspeita. Whitney Hayworth III era definitivamente gay, embora no publicamente. Um pouco humilhante para Kezia, mesmo 
ela tendo aquele outro rapaz no Village. No seria um pensamento reconfortante. Mas Whitney... por que teria ele... Voc apenas

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no pode contar s pessoas. Naturalmente estas coisas ocorreram na sua juventude, especialmente entre meninos pr-universitrios. Mas nunca foi tomado a srio, ento. 
Era, por assim dizer, uma soluo intermediria, ningum pensava nisso como modo de vida. Apenas uma fase provisria antes de assentar a cabea, encontrar uma esposa 
e casar-se. Mas nunca mais... nunca mais.

Alo, amor. Por que to triste?

Triste? Triste no, apenas pensando. Edward deu um sorriso em benefcio de Kezia; era fcil sorrir por ela. E, a propsito, seu acompanhante acaba de sair. Meio 
de porre.

Ele esteve de mau humor o dia todo. Praticamente perdeu o controle comigo no telefone esta manh. Estava chateado por no ter conseguido contato comigo. Isso vai 
passar. Provavelmente muito depressa.

Ambos sabiam que a casa da sra. Fitz Matthews estava a algumas quadras da casa do amante de Whit; Edward preferiu ignorar a sugesto.

E o que voc tem feito?

Nada demais. Encontrando-me com algumas pessoas daqui. O casamento de Cassie certamente tirou todo mundo da toca. H gente aqui que eu j no encontrava h dez anos. 
Realmente  uma bonita noite e uma festa muito boa.

Rodopiou em torno dele, deu-lhe pancadinhas no brao e plantou um beijo na sua bochecha.

Pensei que voc no gostasse desses acontecimentos de gala.

De vez em quanto eu gosto. Ele olhou para ela e ento caiu irresistivelmente numa gargalhada. Ela era impossvel e to inacreditavelmente linda. No, mais do que 
linda. Estava extravagantemente linda esta noite. O fraco termo de Whitney tinha sido inadequado como elogio.

Kezia...

Sim, Edward? Ela parecia anglica, conservando seus olhos nos dele, e sem afetao. Edward tentou resistir  premncia de lhe sorrir em resposta.

Onde voc tem estado ultimamente? Whitney no  o nico que no foi capaz de encontr-la. Eu estava um pouco preocupado.
Estive muito ocupada.
O artista? O jovem do Village? Pobre coitado, ele realmente parecia preocupado. Vises de dinheiro fugindo das suas frgeis mozinhas... No  do Village, e sim 
do SoHo. No, no foi isso.
Alguma coisa mais? Ou algum mais, eu deveria dizer? Kezia quase podia sentir suas costas comearem a reagir.

- Querido, voc se preocupa demais.

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Talvez eu tenha razo para isso.

No na minha idade, voc no deve. Insinuou sua mo no brao dele e andou para um crculo de amigos, interrompendo a conversa mas sem aliviar seus temores. Ele a 
conhecia bem demais. Alguma coisa tinha acontecido. Algo que nunca acontecera antes, e estava sutilmente alterada. Ele sentia, sabia disso. Ela mostrava-se demasiado 
feliz e calma demais, como se finalmente tivesse voado para fora do seu alcance. Ela se fora agora, no estava nem mesmo na festa de Carla Fitzgerald Matthews. E 
s Edward sabia disso. A nica coisa que ele no sabia era onde ela realmente estava. Ou com quem.

Foi s meia hora depois que Edward notou que Kezia tinha deixado a festa. Perguntando aqui e ali, soube que sara sozinha. Isso o perturbou. Ela no estava vestida 
para bater pernas pela cidade sozinha e ele no sabia ao certo se Whit lhe deixara o carro. Bichinha sem-vergonha! Pelo menos poderia ter feito isso por ela.

Despediu-se e chamou um txi para lev-lo ao seu apartamento, mas de certa maneira se viu dando o endereo de Kezia ao motorista. Ficou horrorizado. Nunca antes 
tinha feito isso. Essa loucura... na idade dele. Kezia era uma mulher adulta... e talvez no estivesse sozinha... Mas... ele simplesmente no podia resistir.

Kezia? Ela respondeu ao primeiro chamado do interfone, enquanto Edward ficava embaraado junto ao porteiro.

Edward? Alguma coisa errada?

No. Estou aborrecido por fazer isso, mas posso subir?

Naturalmente. Desligou e momentos depois ele estava l em cima.

Ela esperava com a porta de entrada aberta quando ele emergiu do elevador. Parecia assustada, descala, de camisola, o cabelo solto e sem as jias. Edward sentiu-se 
um tolo.

Edward, voc est bem? Ele assentiu e ela o fez entrar no apartamento.

Kezia, desculpe... Eu no devia ter vindo, mas precisava me certificar de que voc chegou em casa bem. No gosto de pensar em voc coberta de diamantes e indo para 
casa sozinha.

Querido, querido pessimista,  s isso? Ela ria suavemente e isso o contagiou, fazendo seu rosto se abrir num sorriso. Meu Deus, meu Deus, Edward, pensei que alguma 
coisa tenebrosa tinha acontecido.

Talvez tenha. Acho que finalmente eu fiquei senil esta noite. Suponho que devia ter telefonado, em vez de aparecer.

Bem, agora que voc est aqui, o que acha de um drinque?

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Concordou que ele devia ter telefonado em vez de aparecer, mas era sempre graciosa. Pra ou framboesa? Apontou-lhe uma cadeira e se dirigiu  caixa chinesa... onde 
guardava os licores. Edward lembrava-se bem da caixa; acompanhava a me de Kezia quando ela a comprara na Sotheby's.

Pra, obrigado, querida. Afundou cansado numa das cadeiras de veludo azul e observou-a enquanto vertia num fino clice o licor forte e transparente. Voc  realmente 
muito complacente com seu velho tio Edward.

No seja tolo. Ela deu-lhe o drinque com um sorriso e deixou-se cair no cho, perto dos seus ps.

Voc faz alguma ideia de como  bonita?

Fez um gesto dispensando o elogio e acendeu um cigarro enquanto ele sorvia seu licor de pra. Ela comeava a imaginar se ele j no teria bebido demais. Parecia 
um pouco melanclico  medida que os momentos passavam. E ela esperava um telefonema de Luke.

Estou contente que voc esteja bem comeou ele e ento no pde parar mais. Kezia, o que voc est fazendo? Ele tinha que saber.

Absolutamente nada. Estou sentada aqui perto de voc e acabei de me despir e fazer algum trabalho para a coluna. Quero passar por telefone de manh... Acho que Carla 
no vai gostar de mim quando eu o fizer. Ela  muito fcil de ser ridicularizada. Eu no podia resistir.

Kezia tentava conservar o ambiente leve, mas Edward parecia envelhecido e mais cansado do que ela jamais o vira.

Ser que voc no pode ficar sria por um momento? Eu no queria dizer o que voc est fazendo agora. Eu queria dizer... bem, voc parece diferente ultimamente.

Como ultimamente?

Esta noite.

Pareo assustada, doente, infeliz, subnutrida? Que espcie de diferena?

Ela no gostava da sua pergunta e agora dava a volta por cima, virando-se rapidamente para ele. J era tempo de parar com esse absurdo. E ela no queria mais visitas 
tardias no anunciadas.

No, nada disso. Voc tem uma aparncia esplndida.

E voc est preocupado?

Estou, mas... est certo, est certo, para o diabo com isso. Voc sabe o que quero dizer, Kezia. E voc  exatamente como o danado do seu pai. Voc no diz a ningum 
coisa nenhuma at que acontea. Ento todos tm que juntar os pedaos.

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Querido, eu lhe garanto que voc nunca precisar juntar qualquer pedao, no para mim. E desde que ns dois concordamos que pareo descansada, saudvel, bem-alimentada, 
minha conta no foi estourada e eu no apareci nua no Oak Room... o que h para se preocupar? A voz dela apenas tinha um laivo de agudeza.

Voc est sendo evasiva suspirou ele. No tinha qualquer chance e sabia disso.

No, querido, estou desfrutando o direito de um pouco de privacidade, no importa o quanto eu o ame, ou que bom pai voc tem sido para mim. Eu sou adulta agora, 
amor, no pergunto se voc dorme com a sua empregada ou a sua secretria, ou que espcie de coisas voc faz sozinho no seu banheiro  noite. Alguma coisa em Edward 
lhe dizia que ele realizara rituais como esses no banheiro, onde eles se adaptam.

Kezia, voc est sendo chocante! Ele parecia zangado e penalizado. Nada andava no seu caminho agora. No com ela.

No  mais chocante do que o que voc est basicamente me perguntando. S que voc disse isso com mais gentileza do que eu.

Muito bem, compreendo.

Estou contente. J era tempo. Mas apenas para pr sua velha alma nervosa em repouso, eu posso honestamente lhe dizer que no h nada com que se preocupar agora. 
Nada.

Voc me dir quando houver?

E eu posso priv-lo de uma oportunidade de se preocupar? Ele riu e sentou-se para trs na cadeira.

Muito bem. Eu sou impossvel. Sei disso e me desculpo.No... no me desculpo. Gosto de saber que tudo est bem com a sua vida. E agora vou deix-la terminar o seu 
trabalho Voc deve ter anotado alguns itens interessantes esta noite para a coluna. O salo estava fervendo de fofocas.

Obtive muito bons itens, de fato, com histrias da opulncia orgaca de Carla. Realmente  vergonhoso gastar milhes numa festa. E naturalmente me vou incluir na 
fofoca anunciou ela com um sorriso brilhante.

Sua marota. O que  que voc vai dizer sobre si mesma? Espero que seja que estava espantosamente bonita, lgico.

No, bem, talvez uma meno ao vestido. Mas realmente escrevi sobre a encantadora sada de W hit.

Estaria zangada? Podia se incomodar?

Porqu?

Porque, para pr tudo ousadamente no lugar, o momento para brincadeiras passou. Acho que j  tempo de Whit seguir o seu caminho

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e eu o meu. E Whit no tem tutano para fazer isso, e talvez nem eu, de modo que se eu fizer constar alguma coisa embaraosa, o amigo dele de Sutton Place far isso 
por ns dois. Se ele for algum, afinal, no permitir que Whit seja ridicularizado publicamente.

Meu Deus, Kezia, o que foi que voc escreveu?

Nada indecente. Certamente no farei acusaes escandalosas na imprensa, eu no faria isso a Whit. Ou a mim mesma. A questo  que realmente no tenho tempo para 
brincar. E no  bom para Whit tambm. Tudo que disse na coluna foi que... aqui. Vou ler para voc. Ela adotou uma postura profissional e foi at a escrivaninha. 
Ele a observava, sentindo-se faminto no seu corao.

'"Os habituais pssaros amorosos eram muitos no bando, Francesco Cellini e Miranda Pavano-Casteja; Jane Robertas e Bentley Forbes; Maxwell Dart e Courtney Williamson, 
e naturalmente Kezia Saint Martin e seu consorte acompanhante, Whitney Hayworth III, embora este par fosse raramente visto junto na noite passada, porque pareciam 
voar cada um para o seu lado. Tambm se notou o que pareceu ser um acesso de pirraa. Whitney saiu sozinho, deixando Kezia no meio das pombas, falces e papagaios. 
Talvez o elegante Whitney tenha ficado cansado de seguir sua esteira. Herdeiras so pessoas to exigentes. Tambm de interesse nos sagues de Carla Fitz Matthew...' 
Bem, que lhe parece?

Subitamente, ela pareceu alegre e nada afetada pelo que tinha escrito; a voz comercial fora posta de lado com a coluna. Notcias eram notcias e fofocas, fofocas. 
Edward sabia que tudo isso a aborrecia de qualquer jeito.

Ele olhou-a com sorriso dbio.

Parece-me inconfortvel. Acho que ele no vai gostar disso.

Ele no precisa gostar. Supe-se ser um pouco aviltante. E se ele no tiver o tutano para me mandar para o inferno depois do que fiz para sua imagem pblica, ento 
seu amiguinho lhe dir que ele no tem brios. Acho que isso o atingir.

Por que voc no lhe diz que est tudo acabado?

Porque a nica razo que tenho  aquela que se supe que eu no saiba. Isso e o fato de que ele me aborrece. E, diabo, Edward, eu no sei... talvez eu seja covarde. 
Prefiro deixar isso para ele. Com um bom empurro na direo certa, da minha parte. Parece-me que qualquer coisa que eu pudesse lhe dizer diretamente seria por demais 
insultuosa.

E o que voc disse na coluna  melhor?

Certamente que no. Mas ele no sabe que eu disse.

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Edward riu pesaroso, acabando o seu drinque e pondo-se de p.

Bem, vamos ver se a sua artimanha tem algum efeito.

Vai ter. Aposto.

E ento o qu? Voc anunciar isso tambm na coluna?

No. Eu agradeo a Deus.

Kezia, voc me confunde. Mas com essa observao, minha querida, eu me despeo. Lamento ter aparecido to tarde.

Desta vez vou perdo-lo.

O telefone tocou quando ela o acompanhava at a porta e, subitamente, ela parecia excitada.

Eu saio sozinho.

Obrigada. Ela sorriu, deu-lhe um beijo rpido na face e correu de volta para sua mesa na sala de visitas com um amplo sorriso, deixando Edward fechar a porta suavemente 
e esperar sozinho pelo elevador.

Oi, minha santa. Tarde demais para telefonar? Era Luke.

Claro que no, eu estava justamente pensando em voc disse e sorriu, segurando o telefone.

Eu tambm. Senti demais a sua falta baby.

Ela foi com o telefone para o quarto. Era to bom ouvir de novo a voz dele no quarto de dormir. Era quase como se ele estivesse ali. Podia at sentir seu contato... 
ainda...

Eu o amo e sinto sua falta.

Bem, quer vir a Chicago este fim de semana?

Estava rezando para voc pedir.

Ele riu no ouvido dela e deu uma baforada num dos charutos cubanos. Ele lhe deu o nmero do voo em que ele queria que ela chegasse, soprou um beijo e desligou.

Ela parou sorrindo um momento antes de se aprontar para a cama. Que homem maravilhoso Lucas era. Edward sumira completamente da sua mente. Assim como Whit, cujo 
telefonema foi o primeiro chamado da manh.


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Captulo 15

Kezia? Whitney.

Sim querido, eu sei.

O que  que voc sabe?

Eu sei que  voc, tolo. Que horas so?

Mais de meio-dia. Eu a acordei?

Dificilmente. Eu s estava divagando. Ento tinha sado na segunda edio do dia. Ela se levantara para passar a matria pelo telefone ao raiar da manh.

Acha que poderamos almoar? Parecia muito tenso, muito formal e muito nervoso.

Agora mesmo, neste minuto? No estou vestida. Era sujeira, mas ela estava se divertindo. Ele facilmente se prestava a caoadas.

No, s quando estiver pronta, naturalmente. La Grenouille  uma hora?

Como vai ser agradvel! Eu queria telefonar de qualquer maneira. Eu tinha decidido ir para esse casamento em Chicago, neste fim de semana. E acho que realmente vou.

Penso que voc provavelmente devia. E, Kezia...

Sim, querido, o qu?

Voc leu os jornais hoje?

Obviamente, querido. Fui eu que escrevi. Pelo menos a parte que voc menciona.

No, por qu? A nao est em guerra? Realmente voc parece bastante perturbado.

Leia a coluna de Hallam. Voc vai compreender.

Oh, querido, alguma coisa chata?

Vamos discutir isso no almoo.

Est bem, querido. Vejo-o depois.

Quando desligou, ele chupava um lpis. Meu Deus, ele esperava que

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ela fosse razovel. Estava passando da conta. Armand no suportaria muito mais dessa loucura. Ele fora franco com Whitney no caf da manh e dera com um ultimato 
terrvel. Acima de tudo Whit no podia perd-lo. No podia. Ele o amava.

Sentados na mesa habitual do La Grenouille a conversa foi lenta mas direta. Ou melhor, a de Whit foi direta. Kezia manteve-se calada. Era simplesmente por se ter 
agarrado demais a ela, sentindo-se possessivo demais, e sabia que no tinha direito a isso. Ela tornara a situao bem clara. E em que posio ele ficara? E o que 
era mais: tinha to pouco a oferecer a ela neste ponto da sua vida; ele nem mesmo era scio da firma e comparado com quem ela era... e estava tudo ficando to penoso 
para ele... e compreenderia ela realmente a sua posio? Apenas ele sabia que ela nunca se casaria com ele, embora fosse sempre o amor da sua vida, ele simplesmente 
tinha que casar e ter filhos e ela no estava madura para isso... e... Oh, meu Deus, isso era terrvel!

Kezia concordou com a cabea, mantendo-se muda, e bebeu de um s gole seu Quenelles Nantua. Que faria uma moa? E, sim, ela compreendia perfeitamente e ele estava 
certo, claro, ela estava a anos luz do casamento, e possivelmente por causa da morte dos pais e sendo filha nica, na certa nunca se casaria, para preservar o nome. 
E filhos no eram algo que ela pudesse nem de longe imaginar de qualquer modo. E ela se sentiria horrvel, se o tivesse magoado, mas tudo isso era para o melhor. 
Para ambos. Ela apreciara a gentileza de ele ter falado diretamente. E permaneceriam sempre os mais queridos amigos vivos para sempre.

Whitney fez um registro mental para que Effie mandasse flores a Kezia uma vez por semana at que ela tivesse 97 anos. Graas a Deus ela havia aceitado bem. E, que 
diabo, talvez ele estivesse certo ao suspeitar que ela mantinha um caso com Edward. Nunca se sabia com Kezia, s sentia que havia muito mais com ela do que deixava 
transparecer, debaixo de toda a pose e perfeio. Mas quem se importava? Ele estava livre. Livre de todas essas noites intolerveis tendo de lev-la pelo brao. 
E para se recuperar do terrvel desgosto de tudo isso, ele no seria visto socialmente durante meses... e poderia viver uma vida em Sutton Place com Armand. J era 
tempo tambm. Armand deixara claro durante o caf da manh. Aps trs anos de espera tinha conseguido. E agora, com Whitney humilhado nos jornais... Hallam o pintara 
como se fosse um cozinho de estimao de Kezia, e talvez fosse uma boa coisa, afinal de contas. Ele tinha conseguido, no havia mais fingimentos, nada de Kezia. 
No para ele.
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Kezia saiu andando do La Grenouille como se tivesse uma mola nos seus passos e vagueou pela Quinta Avenida abaixo para dar uma olhada nas vitrines da Saks. Ela estava 
indo para Chicago... Chicago... Chicago! E finalmente estava livre de Whit e fizera da melhor maneira. Pobre sacana, ele estava prestes a chorar de alvio. Ela quase 
detestou parecer to sombria a respeito do assunto. Queria se congratular com ele e com ela. O que deviam ter feito era bater taas de champanhe e gritar com alegria 
depois de todos esses anos desperdiados, fazendo uma cena para seus amigos; e, diabo, eles nem sequer foram casados. Mas haviam sido um bom arremedo de companhia 
um para o outro. Um arremedo. Graas a Deus ela nunca casou com ele. S esse pensamento a fazia tremer.

Ento um outro tremor a atravessava. J fazia dias, uma semana.. um longo tempo... ela nem sabia quanto. Ela nem mesmo pensara nele. Mark. Mas tudo num dia? Descascar 
a pele de repente? Situaes em pratos limpos. Os dois no mesmo dia? No era demais? Ela se preocupava mais com Mark do que com Whit. Whit estava amando, tinha o 
homem dele. Mas e Mark? santo Deus. Era como se arrancasse dois dentes de siso num dia.

Mas os seus ps levavam-na irresistivelmente na direo do metro. Precisava ir. Realmente tinha de ir. E sabia disso.

O trem se desviava do seu caminho apontando para o sul e ela imaginava o motivo. Para Luke? Mas isso era loucura. Ela quase no o conhecia. E o que seria se ele 
cancelasse o fim de semana e nunca a visse mais? Ou o que seria se ela fosse para Chicago para o fim de semana, mas ele nunca mais a visse depois disso? O que seria 
se... mas ela sabia que no era por Luke. Era por Kezia. Ela tinha de fazer. No podia continuar brincando com a vida. Nem com Whit. Nem com Mark. Nem com Edward 
ou ningum... ou ela prpria. As muitas peles de cobra que constituam Kezia Saint Martin estavam descascando. Agora a haveria um artigo para a coluna.

Foi bem mais difcil com Mark. Porque ela se importava.

Voc vai embora?

Vou. Atraiu os olhos dele, queria mexer no cabelo dele, mas no poderia fazer isso. No com Mark.

Mas no vai ser diferente deste vero. Ele parecia magoado e confuso e ainda mais jovem do que era.

 diferente agora, no entanto. Talvez eu fique longe por muito tempo. Um ano, dois anos... realmente no sei.

Kezia, voc vai se casar? A pergunta era subitamente spera e ela queria dizer que sim, s para fazer as coisas mais fceis, mas tambm
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no queria mentir para ele, bastava dizer que ia embora. Era mais simples.

No, baby. No vou casar. S estou indo para longe. E, da minha maneira, eu o amo demais para sacrific-lo. Sou mais velha do que voc e ns dois temos coisas para 
fazer com as nossas vidas. Coisas diferentes, coisas separadas. J  tempo agora, Marcus, e acho que voc tambm sabe disso. Ele esvaziara a garrafa de Chianti antes 
que ela terminasse seu segundo copo. Pediram outra.

Ser que hoje posso perguntar uma coisa maluca?

O qu?

Ele sorriu para ela, hesitante; o meio sorriso infantil de que ela gostava tanto ocupava todo o seu rosto. Mas esse era o problema. Ela amava o sorriso, o cabelo, 
The Partridge e o estdio. Ela no amava realmente Mark. No profundamente. No da maneira que amava Luke. No era bastante.

Voc era a mulher chique que vi no jornal naquela ocasio? Ela esperou um longo tempo antes de responder. Alguma coisa latejava nos seus ouvidos, e ento olhou para 
ele, diretamente nos olhos.

Sim, provavelmente. E da?

Da  que eu estava curioso. Como se sente em ser assim?

Solitria. Assustada. Aborrecida a maior parte do tempo. No  to excitante.

Foi por isso que voc vinha sempre para c. Porque era chato e voc estava entediada.

No. Talvez no incio, s para fugir. Mas voc foi algum muito especial para mim, Mark.

Eu era uma escapatria?

Era. Mas podia ela dizer-lhe isso? E por que dizer agora? Oh!, pelo amor de Deus, no me deixe mago-lo... No mais do que  preciso.

No. Voc  uma pessoa. Uma pessoa bonita. Uma pessoa que amei.

Amei? No ama mais? Olhou para ela, com lgrimas boiando melancolicamente nos olhos infantis.

Os tempos mudam, Marcus. E temos de deixar que eles mudem para o bem de ambos. No  bom quando as duas pessoas se esvaziam. A ento j  tarde demais. Para o bem 
de ns dois. Agora preciso ir.

Ele concordou tristemente, dentro do seu vinho, e ela tocou-lhe a face pela ltima vez antes de se levantar e ir embora. Quase correu depois de cruzar a porta. Felizmente 
um taxi descia a rua. Ela fez sinal e entrou rpido, para que Mark no visse as lgrimas correndo por sua face. Tampouco pde ver as lgrimas no rosto dele.

Mark nunca mais a viu. S nos jornais, uma vez ou outra.

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O telefone estava tocando quando ela entrou. Sentia-se esmagada. Tinha sido afinal como dois dentes de siso. Quatro dentes de siso. Nove. Cem. E agora o qu? No 
podia ser Whit. Edward? Seu agente?

Oi, minha santa. Era Luke.

Oi, meu amor. Puxa, como  bom ouvir a sua voz. Estou aos cacos. Ela precisava terrivelmente ouvir o som da voz dele... seu contato... seus braos aconchegantes...

O que pensa em fazer hoje?

Tudo. Nada. Foi um dia horrvel.

Meu Deus, voc fala como se tivesse sido realmente terrvel.

Eu s "cuidei de negcios", como voc diria. Encaixei um pequeno artigo detestvel na coluna na ltima noite, destinado a fazer o amante de Whit ciumento. No guardava 
segredos de Luke. Ele agora sabia tudo da vida dela. O que aconteceu. Ento almoamos juntos e decidimos a coisa drasticamente. No existe mais Whitney, nem ningum 
me escoltando para ir s festas.

Voc parece perturbada. Era assim que voc queria que acontecesse?

Era. Foi por isso que agi assim. Queria fazer isso de modo que no ferisse o seu ego. Senti que lhe devia isso, depois de todos esses anos. Representamos o jogo 
at a fim. E ento fui ao SoHo e deixei tudo claro. Senti-me como a puta do ano.

Sim. Essas coisas nunca so agradveis. Lamento que tenha tido que lidar com tudo num s dia. Mas ele no parecia triste e ela sabia que ele estava aliviado, contente 
que ela o tivesse feito.

Tinha que ser feito. E  um alvio. Estou apenas cansada. E o que aconteceu com voc, meu amor? Dia muito atarefado?

No to atarefado como o seu. O que mais voc pretende fazer, baby? Nenhuma reunio fantasiosa beneficente? Ele riu no fone e ela rosnou. O que foi que eu disse 
agora?

A palavra mgica... Oh, merda. Voc acaba de me lembrar que estou comprometida para uma maldita reunio sobre a artrite s cinco horas e j so cinco agora. Oh, 
puta merda!

Martin Hallam devia ouvir isso! disse ele, rindo.

Oh, cale a boca!

Bem, tenho mais notcias boas para voc. Detesto aborrec-la com isso num dia como hoje Voc no pode vir a Chicago neste fim de semana, baby. Alguma coisa aconteceu 
e preciso ir  costa.

Que costa?

 costa Oeste, meu amor. Meu Deus, Kezia, lamento ter dito isso. Voc est bem?

156

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Sim. Estou formidvel.

Vamos, querida, seja adulta.

Ser que isso significa que no posso v-lo?

 isso mesmo.

Eu no poderia voar para encontr-lo l?

No baby, voc no pode. As coisas no estaro calmas.

Por que no, pelo amor de Deus? Ah, Luke, tive um dia tremendamente horrvel e agora isso... Por favor, deixe-me ir.

Baby, no posso. Estou indo para organizar um negocinho pesado, pode ter certeza.  um assunto muito delicado para mim e uma cena onde no quero v-la envolvida. 
Vo ser duas semanas brbaras.

Tanto tempo? Ela queria chorar.

Talvez. Vou ver.

Ela respirou fundo e engoliu em seco, tentando clarear a mente. Que dia mais puto!

Luke, voc est bem?

Ele hesitou por um momento antes de responder.

Eu estarei bem. Agora v para a sua reunio da colite, ou l o que seja, e no esquente sua linda cabecinha comigo. Sou um cara que toma conta de si mesmo. At a 
voc deve saber.

Famosas ltimas palavras.

Eu a informarei assim que estiver de volta. Lembre-se apenas de uma coisa.

Qual ?

Que eu te amo. Pelo menos houve isso.

Desligaram e Luke andou ao longo da sua suite em Chicago. Merda, ele tinha sido louco de se envolver com ela. E justamente agora, de todas as ocasies, em que as 
coisas estavam comeando a ficar quentes. Ela estava comeando a ficar dependente dele e querendo mais do que ele podia dar. Tinha outras coisas em que pensar: os 
compromissos que assumira, os homens que queria ajudar, alm de tirar o seu prprio traseiro da reta. E os fodidos o estariam seguindo durante semanas. Dias, anos, 
parecia que sempre vivera com eles no seu encalo, como abutres, chegando perto apenas o bastante para que sentisse sua presena e depois desaparecendo de novo atrs 
de uma nuvem. Mas ele sempre sabia que estavam ali. Sempre podia sentir.

Foi at um bar e serviu-se de uma grande dose de bourbon num copo. Nem gua, nem soda, nem gelo. Engoliu de uma vez, sem pousar o copo. E ento, como se soubesse 
o que fazer, deu trs longas passadas at a porta da sua suite e fez fora para abri-la com um movimento que poderia tir-la dos gonzos, mas nada aconteceu. Tremeu-lhe 
brevemente

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a mo, e ele estava l e tambm o homem no canto, que pareceu chocado ao v-lo. Tinha pulado quando a porta se abriu. Usava um chapu e andou pelo corredor, tentando 
parecer que ia a alguma parte, mas no era verdade. Ele parecia exatamente o que era: um tira com uma misso. O rabo de Lucas Johns.

Os ps de Kezia pareciam chumbo quando entrou no txi. A reunio ia se realizar na parte superior da Quinta Avenida. Com uma vista do parque. No apartamento de Tiffany. 
Um triplex na rua 92 com a Quinta Avenida. E bourbon ou scotch. Nenhuma dondoca com limonada ou xerez na sua casa. Haveria tambm gim e vodca para aqueles que preferissem. 
Em casa, Tiffany s servia black label.

Ela estava em p perto da porta quando Kezia chegou, com um duplo on the rocks na mo.

Kezia! Voc est fabulosa! E estvamos justamente comeando. Voc no perdeu nada! Certamente que no.

Que bom.

Tiffany tinha ido muito longe para notar o tom de voz de Kezia ou o olhar vago em torno dos olhos onde a maquilagem escorrera quando ela chorou. O dia tinha cobrado 
um alto imposto.

Bourbon ou scotch!

Os dois.

Tiffany pareceu momentaneamente perplexa. Ela j estava bbada desde o meio-dia.

Desculpe-me, amor. Eu no queria confundi-la. Misture scotch e soda e no se preocupe. Eu prpria vou faz-lo. Kezia andou para o bar e para essa rara ocasio ela 
acompanhou Tiffany drinque por drinque. Era a segunda vez que se embriagava por causa de Luke, mas pelo menos da ltima vez tinha sido feliz.


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Captulo 16

Kezia? Era Edward.

Oi, amor. O que h de novo?

Isso  o que queria lhe perguntar. Voc reparou que no a vi nem ouvi a seu respeito faz quase trs semanas?

No se sinta s. Ningum . Eu estive hibernando. Ela mordia uma ma enquanto falava com ele, os ps na mesa.

Voc est doente?

No, apenas atarefada.

Escrevendo?

E como.

No a tenho visto em parte alguma, estava comeando a me preocupar.

Bem, no se preocupe. Estou muito bem. Estive fora algumas vezes, apenas para atualizar minha coluna. Mas minhas aparies foram breves e espordicas, estive bem 
perto de casa.

Alguma razo particular? Ele procurava se certificar e ela continuava a morder a ma, sem se comprometer.

Nenhuma razo particular. Apenas trabalho. E eu no estava com disposio para sair mais do que o absolutamente necessrio.

Com medo de se encontrar com Whit?

No... bem... talvez um pouco. Tinha mais medo de encontrar todas aquelas bisbilhoteiras. Mas, realmente, eu estava apenas hibernando sob um monte de trabalho. Estou 
escrevendo trs artigos, todos para a prxima semana.

Estou contente que voc esteja bem. Na verdade, minha querida, eu estava imaginando se voc gostaria de almoar comigo.

Ela fez uma careta e pousou o miolo da ma. Merda.

Bem, meu amor, vou lhe dizer... Ento comeou a rir. OK, eu vou almoar com voc. Mas no nos lugares habituais.

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Meu Deus, acho que a moa est se tornando uma reclusa. Ele ria em resposta, mas ainda havia um laivo de preocupao na sua voz. Kezia, voc est certa de estar 
bem?
Maravilhosa, pode crer. Mas estaria bem mais feliz se tivesse podido ver Luke. Eles continuavam se comunicando duas vezes por dia, mas ele no podia t-la  sua 
volta. Ainda havia eventos demais. Assim, ela se enterrara no trabalho.

Muito bem. Ento, onde voc quer almoar?

Conheo um bom bar de alimentos naturais na rua 63. O que acha? disse ela.

Quer saber a verdade?

Claro. Por que no?

Repulsivo.

Ela riu ao som da voz dele.

Seja gentil, querido. Voc vai gostar.

Por voc, Kezia... at mesmo um bar de alimentos naturais. Mas, diga-me a verdade, ele  terrvel?

O que tem se for? Voc encomenda uma rosca do Lutce e a leva consigo.

No seja absurda.

Ento faa uma tentativa. Ele no  realmente ruim.

Ah, juventude!

Marcaram para as 12,30 e ela j estava l quando ele chegou. Olhou em volta, verificou que no era to ruim quanto pensara. As pessoas nas pequenas mesas de madeira 
eram uma mistura sadia de gente. Secretrios, diretores de arte, hippies, moas de jeans com pastas ao lado, rapazes com blusas de flanela e cabelos compridos e, 
aqui e ali, um homem de terno. Nem ele nem Kezia destacavam-se no ambiente e Edward ficou aliviado. Certamente no era o La Grenouille, mas graas a Deus tambm 
no era a cadeia Horn & Hardart's nem havia nada de errado com a comida... mas as pessoas. As pessoas! No eram do estilo de Edward. E ningum sabia nunca o que 
Kezia teria escondido na manga. A moa tinha um senso desafiante de humor.

Ela estava sentada numa mesa de canto quando ele se aproximou. A pde ver que ela usava jeans. Sorriu, fitou-a nos olhos e inclinou-se para beij-la quando chegou 
 mesa.

Senti sua falta, filha. Ele nunca percebera quanto tempo se passara at v-la outra vez. Era a mesma sensao que tinha todos os anos no seu primeiro almoo depois 
do vero. Tinha feito quase um ms agora tambm.

Tambm senti sua falta, amor. Puxa, no o via h anos! Ela

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deu gargalhadas e ele pesquisou-lhe o rosto quando se instalou na cadeira.

Havia alguma coisa diferente nos olhos dela... a mesma coisa diferente que notara da ltima vez que a vira. E subitamente ela estava mais magra.

Voc perdeu peso.

Sim, mas no muito. Eu como desordenadamente quando escrevo.

Voc deve levar a srio comer bem.

No L Mistral talvez? Ou ser mais sadio se alimentar na Cote Basque? Ela o estava espicaando de novo, no malcriadamente, mas com uma nova veemncia.

Kezia, filha, voc est realmente velha demais para pensar em ser hippie. Ele alfinetou de volta.

Voc est perfeitamente certo, querido. No vou nem mesmo considerar essa possibilidade. Apenas uma escrava do trabalho pesado na mquina. De repente, senti como 
se eu estivesse na minha com o meu trabalho.  um belo sentimento.

Ele concordou calado e acendeu um cigarro. Imaginava se era isso mesmo. Talvez ela fosse, oportunamente, apenas se retirar no seu trabalho. Pelo menos era respeitvel. 
Mas no parecia provvel. E ele ainda estava perturbado pelas alteraes sutis que sentia, mas no podia perceber perfeitamente. Podia ver que ela estava mais magra, 
mais angulosa, mais intensa. E falava diferente agora, como se finalmente tivesse se instalado nas suas crenas, no seu trabalho. Mas a mudana tinha sido mais profunda 
do que isso. Muito mais profunda. Ele sabia.

Ser que servem alguma coisa para beber neste lugar?

Ele olhou para o cardpio escrito a giz num quadro na parede. No havia meno de bebidas, s sucos de cenoura e de moluscos. Seu estmago se revoltou s em pensar.

Oh, Edward, no pensei num drinque para voc. Coitado! Seus olhos riam outra vez e ela deu-lhe pancadinhas na mo. Voc sabe, eu realmente senti muita falta sua. 
Mas precisava ser deixada sozinha.

Eu diria que lhe fez bem, mas no estou inteiramente seguro disso tambm. Voc parece que tem trabalhado demais.

Sim, tenho. Quero me aprofundar mais e, voc sabe, est se tornando difcil largar essa maldita coluna. Talvez eu tenha que me retirar.

Voc fala seriamente em deixar a coluna? O projeto perturbou-o. Se ela desistisse da coluna com que frequncia ele a veria entre os rostos familiares em todos os 
eventos da cidade? ""
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Vou pensar. No quero fazer nada precipitado. Mas sete anos  muito tempo. Talvez seja tempo de Martin Hallam sair.

E Kezia Saint Martin?

Ela no respondeu, mas silenciosamente encontrou os olhos dele.

Kezia, voc no est fazendo alguma besteira, no , querida? Fiquei aliviado de ouvir sua deciso sobre Whitney. Mas imaginei se isso no poderia significar...

No, terminei tambm com meu jovem amigo no SoHo. De fato foi no mesmo dia. Foi uma espcie de purgao. E no fim um alvio.

E voc est agora sozinha?

Sim, eu e o meu trabalho.

Talvez seja o que voc precisa por um tempo. Mas no leve tudo a srio e to intensamente. Isso no combina com voc.

E por que no?

Porque voc  demasiado jovem e bonita para se desperdiar numa mquina de escrever. Por um tempo est bem. Mas no se perca durante muito tempo.

No me' 'perder'', Edward? Mas sinto que finalmente me' 'encontrei".

Oh, meu Deus, este dia ia ser como aqueles em que o rosto dele parecia exatamente como o do pai. Alguma coisa lhe dizia que a moa tinha tomado uma deciso. A respeito 
de alguma coisa, qualquer que ela fosse.

Seja prudente, Kezia aconselhou ele e tornou a acender o charuto, observando-lhe os olhos profundamente. E no esquea de quem voc .

Voc tem ideia de quantas vezes ouvi isso? E como isso me pe doente agora. No se preocupe, querido, eu no poderia me esquecer. Voc no deixaria. Agora havia 
uma expresso dura nos olhos dela que lhe era desconfortvel. Bem, vamos pedir? Ela sorriu desrespeitosamente e apontou para a placa. Sugiro abacate e omelete de 
camaro.  soberbo.

Devo chamar um txi?

No, prefiro andar. Fico apaixonada por essa cidade em outubro.

Era um dia tonificante de outono, soprado pelo vento e claro. Mais um ms e j estaria frio, mas no agora. Era aquele tempo especial do ano em Nova York em que 
tudo parece limpo, brilhante e vivo, e se tem vontade de andar de uma ponta do mundo  outra. Kezia, pelo menos, assim fazia.

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Telefone-me daqui a um tempo, por favor, Kezia. Fico preocupado quando passo semanas seguidas sem ouvir notcias suas. E no quero me intrometer.

Desde quando querido? Desde quando?

Voc nunca se intrometeu e obrigada pelo almoo. E, voc v, no foi to ruim assim! Abraou-o rapidamente, beijou-lhe a face e foi embora virando-se para acenar-lhe 
quando parou junto ao sinal da esquina.

Ela andou da Terceira Avenida at a rua 60 e ento virou para oeste, para o parque. Assim, desviava-se do seu caminho, no estava com pressa de chegar em casa. Estava 
bem adiantada no seu trabalho, e era um dia bonito demais para correr para casa. Respirou fundo e sorriu para as crianas com as bochechas vermelhas na rua. Era 
raro ver crianas sadias. Elas tinham o colorido cinzento-esverdeado do pleno inverno, ou o aspecto plido e suarento do vero. A primavera era to breve em Manhattan! 
Mas o outono estava presente com as suas mas duras e apetitosas, e abboras nas barracas de frutas esperando que suas faces fossem esculpidas para o Dia das Bruxas. 
Ventos bruscos varriam o cu limpo. E as pessoas andando em ritmo acelerado. Os nova-iorquinos no sofriam no outono, gostavam dele. No estavam com excesso de calor, 
de frio ou cansados demais, ou zangados. Estavam felizes, alegres e vivos. E Kezia andava no meio deles sentindo-se bem.

As folhas varriam as caladas no parque, rodopiando em volta dos seus ps. As crianas pulavam no carrossel, dando gritinhos por uma volta mais. Os animais do zoo 
balanavam as cabeas quando ela passava, e o carrilho comeou a bater  sua aproximao. Ela parou e observou-o com todas as crianas. Foi engraado. Era uma coisa 
em que ela nunca tinha pensado antes. No para ela. Crianas. Que estranho seria ter uma a seu lado. Algum com quem rir, dar gargalhadas, e limpar o sorvete de 
chocolate do queixo, aconchegar entre os lenis depois de ler uma histria ou abraar quando ela trepasse na sua cama de manh. Mas ento teria de contar-lhe quem 
era e o que se esperava dela e o que faria quando crescesse. Se ela gostasse de voc. Essa era a razo de ela nem remotamente querer ter filhos. Por que fazer isso 
com algum? Bastava ela ter vivido com isso todos esses anos. No, nem pensar em crianas. Nunca.

O carrilho parou com sua melodia e os animais danarinos dourados pararam sua valsa mecnica. As crianas comearam a se desviar ou correr para os vendedores ambulantes. 
Ela observou-os e, sbitamente, quis um balo vermelho ela prpria. Comprou por 25 cents e amarrou-o ao boto de uma manga. O balo danava ao vento bem

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acima da sua cabea, apenas abaixo das grandes rvores, e ela riu; queria ir saltando todo o caminho para casa.

Passou pelo tanque de barcos em miniatura e relutantemente deixou o parque. Saiu andando devagar, o balo balanando enquanto seguia atrs das vovs que percorriam 
o parque empurrando carros ingleses enormes cobertos de rendas. Um grupo de babs francesas marchava como um batalho em direo a um bando de vovs inglesas. Kezia 
divertiu-se a observar a hostilidade bvia, embora disfarada com amabilidades, das duas tribos nacionais. E ela sabia que as babs americanas eram deixadas nas 
suas prprias particularidades, evitadas pelas inglesas e francesas. E as suas e alems mantinham-se  parte. E as mulheres pretas que cuidavam de bebs to suntuosamente 
vestidos como os demais no existiam. Elas eram a casta intocvel.

Kezia esperou que o trfego diminusse e oportunamente pensou em dar uma olhada nas vitrines das butiques no seu caminho para casa. Estava contente de ter andado. 
Seus pensamentos retornaram a Luke. Parecia que tinha sido assim desde que ela o vira. E esforava-se para ser boa a esse respeito. Trabalhando duro, sendo afvel, 
rindo com ele quando telefonava, mas alguma coisa se contorcia dentro dela. Era um pequeno cerne escuro de tristeza e, no importava o que ela fizesse, no podia 
se livrar dele. Era pesado e constrangedor. Como um punho. Como podia ela sentir tanta falta dele?

O porteiro abriu a porta de par em par e ela puxou seu balo para baixo, sentindo-se de repente boba quando o ascensorista tentou fingir no notar.

Boa tarde, senhorita.

Boa tarde, Sam. Ele usava o uniforme escuro do inverno e as eternas luvas brancas de algodo, e olhava para um ponto na parede. Ela imaginava se ele um dia iria 
virar-se e olhar para as pessoas que transportava para cima e para baixo o dia todo. Mas isso seria rude. E Sam no era rude. Graas a Deus. Durante 24 anos, Sam 
nunca foi rude, simplesmente levava as pessoas para cima e para baixo... para cima... para baixo... sem nunca fit-las... Bom dia, madame... Bom dia, Sam. Boa noite... 
Boa noite, Sam. Durante 24 horas com os olhos pregados num ponto da parede. No ano seguinte iriam aposent-lo, dando-lhe um relgio de placa de ouro e uma garrafa 
de gim. Se ele no morresse antes, com seus olhos grudados na parede.

Muito obrigada, Sam.

A porta do elevador fechou-se atrs dela e Kezia ento virou a chave na fechadura.

Pegou o jornal da tarde na mesa do vestbulo. Era hbito seu

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manter-se a par das notcias e em alguns dias isso a divertia. Mas hoje no era um desses dias. Os jornais tinham estado cheios de histrias medonhas durante semanas. 
Crianas que morriam. Um terremoto no Chile, matando milhares, rabes e judeus em guerra, problemas no Extremo Oriente, roubos em Manhattan, assassinatos no Bronx, 
tumultos nas prises. E isto preocupava Kezia acima de tudo.

Mas agora ela olhava preguiosamente depois da primeira pgina e de repente parou com a mo ainda na maaneta da porta. Tudo ficou muito quieto, quieto, subitamente 
compreendeu. Seu corao parou. Agora ela sabia. A manchete do jornal dizia: Greve de trabalho em San Quentin. Sete mortos. Oh, meu Deus, que tudo esteja bem com 
ele.

Como se em resposta  orao que fizera em voz alta, o telefone tocou e desviou sua ateno da manchete.

Alo disse, sem afastar os olhos do jornal.

Kezia?

O qu?

Srta. Saint Martin?

No, desculpe, ela est... Lucas?

Sim, que diabo. O que est acontecendo, Kezia? Ambos estavam completamente confusos.

E... Eu lamento, eu... Oh, Deus, voc est bem?

O sbito terror ainda a dominava, mas ela receava dizer alguma coisa comprometedora no telefone. Talvez ele estivesse num mau lugar para falar. Aquele artigo subitamente 
ensinara-lhe muito. Antes que ela suspeitasse, mas agora ela sabia. No importava o que ele dissesse, ela sabia.

Naturalmente que estou muito bem. Voc parece que viu um fantasma. Alguma coisa errada?

Foi uma descrio bastante adequada, sr. Johns. E no sei se alguma coisa est errada. Suponho que voc me diria.

Suponha que voc espere umas poucas horas e eu lhe direi tudo que queira saber, e muito mais alm disso. Dentro do razovel, naturalmente. Sua voz soava profunda 
e rouca e havia riso especando com a indisfarvel fadiga.

O que exatamente voc quer dizer? Ela segurava a respirao, esperando, desejando. Ela acabara de ter o susto da sua vida e agora soava como se... ela no ousava 
esperar. Mas ela queria que assim fosse.

Eu quero dizer: levante a bunda da, lady. Estou ficando maluco sem voc. Era isso que queria dizer. O que acha de tomar o prximo avio para c?

Para San Francisco, voc quer dizer?

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Exatamente. Eu sinto tanta falta que dificilmente posso pensar direito e acabei tudo aqui. E j faz tempo demais que no ponho as mos na sua bunda, minha santa. 
Parecem quinhentos anos!

Oh, querido, eu o amo. Se voc soubesse como senti sua falta! E justamente agora pensei... eu peguei o jornal e...

Nem se preocupe, baby. Tudo est bem. Isso era o que ela queria ouvir.

O que faremos agora?

Jogue tudo para longe e tire uns poucos dias para ver alguns amigos. Mas voc  o primeiro amigo que eu quero ver. A que horas voc pode chegar aqui?

Ela olhou para o relgio.

No sei, eu... a que horas  o prximo avio? Em Nova York passam das trs.

Existe um voo que deixa Nova York s cinco e meia. Voc pode peg-lo?

Puxa, eu teria que estar no aeroporto o mais tardar s cinco, o que significa sair daqui s quatro, o que significa... tenho uma hora para fazer as malas. Vou conseguir. 
Ps-se de p num pulo e olhou para o quarto. O que  que vou levar?

Seu delicioso corpinho!

Alm disso, bobo. Ela no ria assim h semanas. Trs semanas, para ser exata. Levara esse tempo todo sem v-lo.

Como  que vou saber o que voc deve trazer?

Est frio ou quente?

Nebuloso. E frio de noite e quente de dia, eu acho... Oh, merda, Kezia, veja isso no Times. E no traga o seu casaco de marta.

Como sabe que tenho um? Voc nunca o viu.

Apenas imaginei que voc deveria ter um. No o traga.

No estava planejando isso. Alguma recomendao mais?

S que eu te amo muito, mulher, e esta  a ltima vez que vou deix-la longe da minha vista.

Promessas, promessas! Eu espero. Ei... Voc vai se encontrar comigo?

No aeroporto? Pareceu surpreso.

H-h.

Devo ir? Ou seria mais prudente se no fosse? Voltava ao assunto outra vez. Sendo prudente, sendo sbio.

Muita calma. Eu no o vejo h quase trs semanas e te amo.

Eu vou me encontrar ele parecia absorto.

Faa o melhor.

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Sim, madame. Um riso grave bateu no seu ouvido e desligaram. Ela travara suas batalhas com a conscincia durante as ltimas semanas horrveis e tinha perdido... 
ou vencido... ele ainda no estava certo. Mas sabia que tinha que ter Kezia. Tinha que ter. No importava o resto.

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Captulo 17

O avio aterrisou s 7,14 da noite, hora de San Francisco. Ela j estava de p antes do avio parar por completo no porto. E apesar dos srios argumentos das aeromoas, 
ela estava na aglomerao nos corredores.

Para chamar menos ateno viajou na classe econmica e usou slacks de l preta e um suter preto; um impermevel pendurado no brao, culos empurrados para cima 
da cabea. Ela parecia discreta, quase discreta demais e muito bem vestida. Os homens a controlavam com os olhos, mas decidiram que ela era rica e convencional. 
As mulheres olhavam-na com inveja. As cadeiras finas, os ombros bem desenhados, o cabelo espesso, os grandes olhos. Ela no era mulher de passar despercebida, qualquer 
que fosse seu nome e apesar da baixa estatura.

Estava levando um tempo enorme para abrirem as portas. A cabine era quente e abafada. As malas dos outros passageiros batiam-lhe nas pernas. As crianas comearam 
a chorar. Finalmente, eles empurraram as portas. A multido comeou a se movimentar, a princpio imperceptivelmente e em seguida num sbito rush, o avio despejou 
seu contedo como pasta de dentes at a rampa. Kezia insinuou-se atravs dos outros passageiros e quando virou uma esquina avistou-o.

A cabea dele sobressaa acima de todas as outras. O seu cabelo negro brilhava e ela pde ver os olhos dele do ponto de onde se achava. Ele tinha um charuto na mo. 
Todo o seu ser mostrava um ar de expectativa. Ela acenou e ele a viu, a alegria passando-lhe pelo rosto, abriu caminho atravs da multido. Ele estava a seu lado 
num momento, e levantou-a do cho nos seus braos.

Minha santa, como  bom ver voc!

Oh, Lucas! Ela sorriu nos braos dele e os seus lbios se encontraram num longo e faminto beijo. Que os paparazzi se danassem. Ela estava de novo nos braos dele. 
Os outros passageiros passavam em

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volta como a gua em volta dos rochedos numa corrente, e j no havia ningum quando se puseram a caminho.

Deixe-me pegar suas malas e ir para casa.

Eles se dirigiram o sorriso habitualmente trocado entre pessoas que compartilham da mesma cama e tomaram a escada rolante para buscar a bagagem. As pessoas os observavam 
de mos dadas. Juntos, eram a espcie de pessoas que todo mundo nota. Com inveja.

Quantos volumes voc trouxe?

Dois.

Dois? Ns vamos ficar apenas trs dias! Ele riu e deu-lhe um novo abrao.

Kezia tentou no mostrar um surto de tristeza nos olhos. Trs dias? E era tudo? Ela no havia lhe perguntado antes. Mas pelo menos bastava estarem juntos outra vez.

Ele recolhera as bagagens dela da esteira rolante como uma criana pegando as moblias de uma casa de bonecas; ps uma mala debaixo do brao, segurando a outra pela 
ala na mesma mo. Manteve o outro brao em torno de Kezia, apertando-o firme.

Voc no disse muita coisa, minha santa. Cansada?

No, feliz. Ergueu os olhos de novo para ele e aninhou-se. Meu Deus, passou tanto tempo!

Foi, e no vai acontecer nunca mais. A sua ausncia me fez mal aos nervos. Mas ela sabia que poderia ser de novo por muito tempo. Ou mais ainda. Podia ser preciso. 
Esse era o seu modo de vida. Mas agora tinha passado. A lua-de-mel de trs dias mal comeara.

Onde vamos ficar? Aguardavam l fora por um txi. At a tudo bem. No houve cmeras nem reprteres, ningum chegara a saber que ela sara de Nova York. Dera um 
telefonema rpido, dizendo que passaria dois dias sem escrever a coluna. Eles podiam publicar algumas pequenas notcias extras para cobrir o espao na coluna naquela 
semana. Isso os amarraria at que sua mente voltasse a Martin Hallam.

Vamos ficar no Ritz disse ele com altivez, enquanto jogava as bagagens no banco da frente do txi.

Pra valer? Ela ria enquanto se instalava no brao dele.

Espere at ver. Ento, ele pareceu preocupado. Baby, no seria melhor o Fairmont ou o Huntington? Eles so melhores, mas pensei que voc se preocuparia...

Ser que o Ritz  mais discreto?

Oh, certamente, minha santa, seguramente  mais discreto.  uma coisa de que eu gosto no Ritz.  discreto.

O Ritz era uma grande casa cinza, desbotada, no corao das manses
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dos Pacific Heights. Fora antigamente uma casa elegante e agora... abrigava pessoas rejeitadas, velhinhas e homens idosos apagados, e circulando no meio deles o 
excesso de hspedes das casas suntuosas ali perto. Era uma mistura extravagante, e a decorao era a mesma: candelabros amassados com prismas empoeirados, cadeiras 
de veludo vermelho desbotado, cortinas de chintz, e aqui e ali uma escarradeira ornada de lato.

Os olhos de Luke danavam quando levou-a para dentro, em direo a uma mulher idosa com voz trmula, que pairava nervosamente sobre a escrivaninha. Ela usava um 
coque de cabelo tranado sobre cada uma das orelhas, e os seus dentes postios pareciam incandescentes no escuro.

Boa noite, Ernestine. E a beleza disso era que ela combinava com o nome.

Boa noite, sr. Johns. Seus olhos pousaram em Kezia com aprovao. Ela era a espcie de hspede de que gostavam. Bem vestida, de salto alto e bem polida. Afinal, 
este era o Ritz!

Ele a conduziu para dentro de um elevador manobrado por um velhinho magro que cantarolava para si mesmo enquanto subiam balanando, at o segundo andar.

Em geral venho pela escada. Mas pensei que devia lhe mostrar o show completo.

Um aviso no elevador anunciava caf da manh s sete, almoo s onze e jantar s cinco. Kezia ria, segurando a mo dele.

Muito obrigado, Joe. Luke deu-lhe gentis pancadinhas nas costas e pegou as malas.

Eu levo as malas para o senhor?

No, obrigado. Enfiou silenciosamente uma nota na mo do homem e conduziu Kezia atravs do hall. O cho tinha carpete vermelho escuro e as paredes eram providas 
de candelabros elaborados.

 esquerda, baby. Ela seguiu sua indicao at o fim do hall. Espere at voc ver a paisagem. Enfiou a chave na fechadura e girou-a duas vezes, pousou as malas, 
e ento puxou-a para perto dele.

Estou to contente que voc tenha vindo. Temia que estivesse ocupada ou alguma coisa.

No para voc, Luke. Afinal de contas, voc desta vez deve estar brincando! Bem, vamos ficar aqui toda a noite?

No. Certamente que no. Pegou-a facilmente e carregou-a pela soleira da porta do quarto de dormir, fazendo-a perder a respirao e finalmente rir. Nunca tinha visto 
tanto veludo e cetim azuis numa mesma pea.
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Luke,  irresistivelmente engraado, mas eu gosto.

Ele pousou-a com um sorriso e ela olhou para a cama com olhos muito abertos. Era uma grande cama com quatro postes e cortinas de veludo e cetim azul espalhados. 
Havia cadeiras de veludo azul, uma espreguiadeira de cetim azul, uma mesa de toalete fora de moda, uma chamin e um tapete azul florido, j muito envelhecido. E 
ento ela notou a paisagem.

Era uma grande extenso escura da baa, iluminada do outro lado pelas colinas de Sausalito, as luzes da Golden Gate brilhando enquanto o trfego corria velozmente.

Luke, que lugar fabuloso! seu rosto incandescia.

O Ritz a seus ps.

Querido, eu te amo! Andou at os braos dele e atirou longe os sapatos.

Lady, voc no poderia me amar a metade do que eu a amo. Nem mesmo a quarta parte.

Oh, cale a boca!

A boca dele inclinou-se gentilmente sobre a dela e ele carregou-a at a cama coberta de cetim azul.

Com fome?

No sei. Estou to feliz que no posso pensar rolou sonolentamente at perto dele e beijou-o no lado do pescoo.

O que acha de massa?

Mmmm... gosto... mas no fez qualquer movimento para se pr de p. Era uma hora da manh, hora de Nova York, e sentia-se contente onde estava deitada.

Vamos minha santa, levante-se.

Ah, meu Deus, um chuveiro no! Ele riu e deu-lhe uma palmada no traseiro quando puxou os lenis.

Se voc no se levantar em dois minutos vou trazer o chuveiro at aqui.

No ouse. Continuou deitada com os olhos teimosamente fechados e um sorriso sonolento no rosto.

Oh, eu no ousaria? Ele olhava para ela com os olhos cheios de amor e ternura.

Deus, voc faria. Voc  um miservel. No posso tomar um banho de banheira, em vez de uma chuveirada?

Tome o que voc quiser, mas levante a bunda da! Ela abriu os olhos e fitou-o sem se mexer um centmetro.

Nesse caso vou tomar.

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Depois que comermos. No tive tempo de almoar e estou morrendo de fome. Eu quis embrulhar tudo antes que voc sasse.

E voc fez isso? Ela apoiou-se num cotovelo e apanhou um cigarro. Esta era a oportunidade pela qual esperava, e subitamente havia tenso refletida nos seus olhos.

Sim, ns embrulhamos tudo. Os rostos dos homens mortos passaram pela sua cabea.

Lucas... ela nunca lhe tinha perguntado diretamente e ele no se dispusera espontaneamente.

Sim? Tudo nele parecia de repente na defensiva, os dois sabiam. No devo pensar nos meus prprios negcios? Ele encolheu os ombros e sacudiu a cabea. No, eu sei 
onde voc quer chegar, minha santa. E acho que  assunto seu perguntar. Voc quer saber o que estive fazendo aqui. Ela assentiu. Mas voc j sabe, no  verdade?

Ele parecia quase velho e muito cansado. Subitamente, a atmosfera de frias se apagou.

Acho que sim. Penso que sei, mas ento esta tarde... Sua voz se arrastou. Esta tarde? S esta tarde? Parece que foi h anos. Esta tarde vi o jornal e a manchete: 
greve em San Quentin. Era a sua ao, no era? Luke? Ele assentiu lentamente. O que eles vo fazer com voc por isso, Lucas?

Quem? Os porcos?

Entre os outros.

Nada. Por enquanto. Eles no podem atribuir nada a mim, minha santa. Sou um profissional. Mas isso  parte do problema tambm. Sou demasiadamente profissional. Eles 
nunca podem atribuir a mim e um dia vo me arrebentar legalmente. S por vingana. Era o primeiro alarme.

E eles podem fazer isso? Ela pareceu chocada, mas no realmente; como se tivesse entendido.

Podem, se quiserem. Depende a que ponto eles querem. Agora mesmo imagino que eles estejam bastante fodidos.

E voc no est com medo, Lucas?

Que adiantaria? Ele deu um sorrisinho cnico e sacudiu a cabea. No, linda lady, no estou com medo.

Voc est em perigo, Lucas? Quero dizer... em perigo realmente?

Voc quer dizer minha liberdade condicional ou outra espcie de perigo?

Ambos.

Ele sabia que ela tinha de saber e ento respondeu. Mais ou menos.

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No estou em perigo real, baby. Tem uns caras com muita raiva envolvidos, mas aqueles que esto mais fodidos so os que esto menos seguros com quem eu tenha alguma 
coisa a ver. Essa  a maneira como conduzo essas coisas. Os chatos da liberdade condicional no vo tentar fazer coisa alguma comigo por um tempo; at l devem ter 
esfriado. E qualquer dos esquentados envolvidos na greve que no apreciam minhas opinies esto com medo de mim. Assim, no estou em perigo real.

Mas poderia estar, na verdade? Di pensar nisso, perceber isso... admitir isso. Ela soubera a respeito dele desde o comeo. Mas agora ela estava apaixonada. Era 
diferente. No queria que ele fosse algum perturbador ostensivo, queria que levasse uma vida pacfica.

Em que est pensando? Voc parece estar a quilmetros distante de um minuto atrs. Voc nem mesmo ouve a resposta  sua pergunta.

Qual  a sua resposta?

Que eu possa estar em perigo ao atravessar a rua, por que ficar paranico agora? Voc podia estar em perigo. Podia ser raptada contra um gordo resgate. Ou ento 
ficar maluca por causa de eu estar ou no em perigo. Estou sentado aqui, estou muito bem. Eu a amo.  tudo que voc precisa saber. Agora me diga: em que estava pensando?

Que eu queria que voc fosse corretor ou agente de seguros ela sorriu e ele deu uma boa gargalhada.

Oh, minha santa, voc tirou o nmero errado!

Tudo bem, ento eu estou maluca encolheu os ombros num embarao momentneo e depois olhou para ele seriamente outra vez. Luke, por que voc ainda se envolve nas 
greves? Por que voc no deixa as coisas correrem? Voc j no est na priso. E isso pode lhe custar caro.

OK. Vou lhe dizer por qu. Porque alguns desses camaradas ganham trs centavos por hora pelo trabalho que fazem l dentro. Trabalho pesado, em condies em que voc 
no deixaria seu cachorro viver. E eles tm famlias, esposas, filhos, como todo mundo. Essas famlias esto na assistncia social, mas no precisavam se os pobres 
bandidos l dentro pudessem ganhar um salrio decente. Nem mesmo um salrio alto, bastava um salrio decente. No h razo para eles no serem capazes de pr um 
pouco de dinheiro de lado. Precisam disso como qualquer um. E trabalham pelo po de cada dia. Eles trabalham danadamente duro. Por isso ns organizamos greves de 
trabalho. Ns planejamos as greves de modo que o sistema que usamos possa ser implementado pelos internos em qualquer priso. Como desta vez. Folsom vai puxar quase 
a mesma coisa, com algumas alteraes mnimas. Provavelmente na prxima semana ele viu a expresso no rosto dela

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e abanou a cabea. No, eles no vo precisar de mim para essa, Kezia. Fiz a minha parte aqui.

Mas por que diabo tem que ser voc a fazer isso? Ela parecia quase zangada e surpreendeu-o.

Por que no?

Ser liberdade condicional em primeiro lugar. Se voc est sob condio, ento voc ainda "pertence" ao Estado. Sua sentena  de cinco anos a priso perptua, no 
?

 isso a. E ento?

Ento quer dizer que eles o possuem at o fim da vida, oficialmente. Certo?

Errado. S por dois anos e meio, quando minha liberdade condicional acaba, sabichona. Parece que voc tem estado lendo sobre o assunto acendeu um outro cigarro e 
evitou-lhe os olhos.

Eu li, e voc est cheio de merda com seus dois anos e meio. Eles podem revogar sua liberdade condicional em qualquer momento que queiram e ento o apanham outra 
vez pela vida inteira ou outros cinco anos.

Mas, Kezia... Por que quereriam fazer isso? Tentava fingir que no sabia.

Oh, pelo amor de Deus, Luke, no seja ingnuo, ou voc diz isso s para meu benefcio? Por que agitao nas prises? Isso  uma violao do acordo para a liberdade 
condicional. Voc no precisa que eu lhe diga isso. E eu no sou to idiota como voc pensa ela lera mais do que ele previra. E este era um argumento difcil de 
discutir. Afinal de contas ela estava certa.

Nunca pensei que voc fosse idiota, Kezia sua voz estava controlada. Mas eu tambm no sou. Eu lhe disse que eles nunca poderiam atribuir esse trabalho de greve 
a mim.

Quem sabe? O que pode acontecer se uma dessas pessoas para quem voc faz esse trabalho diz alguma coisa? Ento o qu? O que ser se algum desses safados fica cheio 
de voc e o mata? Algum radical, como voc diz.
Ento ns vamos nos preocupar. S ento. No agora disse Luke, deixando Kezia calada por um momento, seus olhos brilhantes de lgrimas.
Desculpe. Lucas, eu no pude evitar, no entanto eu me preocupo e sabia que tinha boas razes. Lucas no estava disposto a abandonar seu trabalho nas prises, e ele 
estava em perigo. Ambos sabiam disso.
Vamos, minha santa, vamos esquecer isso e sair para comer
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beijou-a nos olhos e na boca, puxando-a fortemente pelos braos. J bastava por ora de conversa pesada. A tenso entre eles amenizou um pouco, mas os temores de 
Kezia no tinham passado. Ela s sabia que travaria uma batalha perdida se tentasse faz-lo desistir do que estava fazendo. Ele nascera jogador. Ela s esperava 
que ele nunca perdesse.

Uma hora depois estavam novamente no saguo, l embaixo.

Aonde vamos?

Vanessi's. A melhor massa da cidade. Voc no conhece San Francisco?

No muito bem. Estive aqui quando criana e uma vez h dez anos para uma festa, mas no vi muita coisa. Jantamos num lugar polinsico, e fiquei num hotel em Nob 
Hill. Lembro-me do carro de cabo e  s isso. E estive aqui com Edward e Totie.

No parece muito divertido, meu Deus. Voc no conhece esta cidade de todo.

Nada. Mas agora eu vi o Ritz e voc pode me mostrar o resto ela apertou-lhe o brao e trocaram um sorriso pacfico.

O Vanessi's estava cheio, mesmo s dez horas. Artistas, escritores, pessoal da imprensa, uma multido depois do teatro, polticos e debutantes. Estava repleto de 
uma amostragem de tudo que havia na cidade. E Luke tinha razo. A massa era muito boa. Ela pediu nhoque e elefettucini e para sobremesa dividiram um zabaione.

Ela encostou-se para trs, com seu caf expresso, e deu uma olhadela em torno, preguiosamente.

Voc sabe, isso de certa maneira me lembra o Gino's de Nova York, mas bem melhor.

Tudo em San Francisco  melhor. Estou apaixonado por esta cidade.

Ela sorriu-lhe e sorveu um gole de caf quente.

O nico problema  que toda a cidade fica morta  meia-noite.

Meu Deus, j so duas e meia da manh na minha hora.

Voc entregou os pontos, baby. Ele parecia quase assustado. Ela era to pequena e se mostrava to frgil. Mas ele sabia que Kezia era bem mais forte do que aparentava. 
Ele j tinha percebido isso.

No. Estou apenas relaxada. Feliz e contente. E aquela cama no Ritz  como dormir nas nuvens.

 isso a, no  verdade? Esticou o brao sobre a mesa e segurou a mo dela, e ento Kezia viu que ele percebera, com as sobrancelhas cerradas, alguma coisa por 
cima do ombro dela. Virou-se para ver o que era. Apenas uma mesa de homens.


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Pessoas que voc conhece?

De certo modo todo o seu rosto se endurecera, e a sua mo parecia ter perdido o interesse na dela. Era um grupo de cinco homens, com cabelo curto, bem cortado, ternos 
elegantes e gravatas leves. Pareciam fingidamente gngsteres.

Quem so eles? Ela tornara a olhar para Luke.

Porcos disse isso com segurana.

Polcia? Ele assentiu.

Sim, investigadores de detalhes especiais, encarregados de arranjar barulho para pessoas como eu.

No seja paranico. Esto apenas jantando aqui, Luke. Como ns.

Sim, acho que  isso mas eles tinham amortecido sua disposio, pouco depois saram.

Luke... Voc nada tem a esconder. Tem?

Eles estavam agora andando pela Broodway, passando pelos funcionrios que atraam para os bares gigantescos. Mas a mesa dos tiras pesava nas suas mentes.

No, mas o camarada que estava sentado na ponta da mesa est atrs do meu rabo desde que cheguei  cidade. E estou ficando doente com isso.

Esta noite ele no o estava seguindo. Estava jantando com os amigos.

O grupo de polcias no tinha mostrado interesse na mesa deles. Ser que no estaria? Agora ela tambm estava preocupada.

No sei, minha santa. Eu apenas no gosto do grupo. Um porco  um porco lambeu uma ponta do charuto, acendeu-o e olhou para o rosto dela. Eu sou um filho da puta 
por lanar minhas ms vibraes para voc. Eu apenas no gosto de tiras, baby. Esse  o nome do jogo. E vamos enfrent-lo. Eu tenho estado representando jogos pesados, 
como a greve em San Quentin. Sete guardas foram mortos em trs semanas por um momento ele imaginou se estivera errado ficando por ali.

Eles andaram em livrarias porn, observaram turistas na rua e finalmente vagaram pela Grant Avenue, repleta de cafs e poetas, mas a polcia se mantinha nas suas 
mentes, embora no mostrassem um para o outro. E Luke estava mais uma vez sendo seguido.

Kezia tentou aliviar sua disposio fazendo-se de turista.

Parece bastante com SoHo, apenas mais amedrontador. Voc pode dizer que a atmosfera de SoHo passou aqui por um momento.

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 isso a.  a vizinhana italiana e tem uma poro de chineses Lucas comprou-lhe sorvete de creme e tomaram um txi para o Ritz. Eram quatro da manh para Kezia 
e ela caiu no sono nos braos do seu amante como uma criana. Alguma coisa perturbou-a apagadamente quando ela deslizou para o sono. Alguma coisa como a polcia... 
e Luke... e espaguete. Eles estavam tentando tirar-lhe o espaguete... ou... ela no podia imaginar. Estava demasiado cansada. E muito, muito feliz.

Ela tinha cado no sono quando ele a contemplou, com um sorriso nos lbios, acarinhou-lhe o cabelo negro que ondulava pelos ombros nus e pelas costas. Ela era to 
linda; e ele extremamente apaixonado por ela. Como iria lhe dizer agora, j? Depois que ela adormeceu, esgueirou-se em silncio da cama e foi ver a paisagem. Ele 
tinha estourado tudo, estourado todas as suas regras. Que coisa estpida para fazer. Ele no tinha direito de fazer isso com Kezia; ele no tinha direito a ningum 
at que soubesse. Mas ele a queria, tinha que a ter, a princpio como a exigncia do ego por causa de ser ela quem era. E agora? Agora era tudo diferente. Ele precisava 
dela. Queria dar-lhe alguma coisa dele... Mesmo que fossem as ltimas horas douradas antes do poente. Momentos como este no acontecem todo o dia. No mximo surgem 
uma vez na vida. Mas agora ele sabia que teria de dizer-lhe. A questo era como?

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Captulo 18

Lucas voc  uma fera! rosnou ela quando se virou na cama. Pelo amor de Deus, ainda est escuro.

No est escuro, apenas nebuloso, e o caf da manh nesta priso  s sete.

Eu passo sem ele.

No, voc no passa. Ns temos coisas a fazer.

Lucas, por favor... Ele observava a luta dela contra o sono. Ele j penteara os cabelos, escovara os dentes, seus olhos estavam brilhantes. Estava de p desde as 
cinco. Tinha uma poro de coisas na cabea.

Kezia, se voc no tirar a sua bunda da eu vou mant-la a o dia todo. E ento voc vai se arrepender. Correu a mo suavemente do busto dela at a barriga.

Quem disse que eu vou me arrepender?

No me tente. Mas vamos, baby. Eu quero mostrar-lhe a cidade.

No meio da noite? No d pra esperar um pouco?

J so sete e quinze.

Oh, meu Deus, estou morrendo.

E ento, rindo, ele pegou-a, levantando-a da cama e a colocou na banheira de gua morna que ele tinha deixado encher enquanto ela dormia.

Imaginei que voc no teria disposio para uma chuveirada esta manh.

Lucas eu o amo. A gua quente a acalentava enquanto ela ficava olhando deitada para os olhos dele. Voc me estraga, no  surpreendente que eu te ame.

Imaginei que deveria haver uma razo. E no demore muito. Eles fecham a cozinha s oito e eu quero algum alimento para o meu estmago antes que eu a arraste pela 
cidade.

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Arrastar-me? Ela fechou os olhos e mergulhou ainda mais fundo na banheira. Era uma banheira antiga, que ficava bem acima do cho, com ps de garra de folha de ouro. 
Era suficientemente grande para os dois.

O caf da manh constou de panquecas com ovos fritos e bacon. E, pela primeira manh em anos, Kezia nem se preocupou em ler os jornais. Estava de frias e no dava 
bola para o que o mundo dissesse. O "mundo" era s lamentos, e ela no estava com disposio para queixas. Sentia-se bem demais para se aborrecer com isso.

Aonde voc vai me levar?

De volta para a cama.

O qu? Voc me levantou s para voltar para a cama? Pareceu injuriada, e ele riu.

Mais tarde. Mais tarde. Em primeiro lugar, vamos dar uma volta pela cidade.

Ele a levou pelo Golden Gate Park e andaram em volta dos lagos e beijaram-se em cantos escondidos debaixo das rvores ainda em flor. Tudo ainda estava verde e florescente. 
O aspecto outonal do Leste em novembro era bem diferente e menos romntico. Tomaram ch no jardim japons, e ento foram de carro at a praia, antes de voltarem 
por Presidio para contemplar a baa. Era um deleite para ela: Fisherman's Wharf, Ghirardelli Square, The Cannery...

Comeram caranguejo e camaro frescos nas barracas do cais e divertiram-se com o barulho dos vendedores italianos. Observaram velhos jogando bocha no Parque Aqutico, 
e ela sorriu observando um homem muito idoso ensinando ao neto como se jogava. Tradio. Luke sorriu tambm, olhando para ela. Kezia tinha um modo de ver as coisas 
que ele nunca tinha pensado em ter. Para ela, as coisas tinham sempre um senso de histria, aquilo que tinha vindo antes e o que viria depois. Era alguma coisa para 
a qual ele nunca tinha dado muita ateno. Ele vivia com os ps firmemente plantados no agora. Era uma troca que faziam entre si. Ela lhe dava uma percepo do seu 
passado, e ele ensinava-lhe a viver onde ela estava.

Quando o nevoeiro se levantou, deixaram o carro emprestado no cais e tomaram o bonde para a Union Square. Isso f-la sorrir quando desceram as colinas. Pela primeira 
vez na vida, sentiu-se como turista. Habitualmente ela seguia um roteiro traado entre casas familiares, em cidades que tinha conhecido durante toda a vida, das 
casas de antigos amigos para as casas de outros amigos, onde quer que estivesse no mundo. De um mundo familiar para outro. Mas com Luke, ser turista era engraado. 
Tudo tinha sua graa. E ele gostava da maneira como

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ela apreciava o que lhe mostrava. Era uma cidade boa de ser mostrada, bonita, tranquila e no demasiadamente cheia de gente nessa poca do ano. A beleza irregular 
e natural da baa e das colinas fazia um contraste agradvel com os tesouros arquitetnicos da cidade: arranha-cus todos harmonicamente reunidos na parte baixa 
da cidade, os ornamentos vitorianos de mau gosto aninhados nas Pacific Heights, e as pequenas lojas coloridas da Union Street.

Andaram pela Golden Gate Bridge s porque ela queria ver de perto e ficou encantada.

Que linda obra, no , Luke? Os olhos dela perscrutavam, como flechas penetrando o fog.

Assim como voc.

Naquela noite, jantaram num restaurante italiano na Grant Avenue. Um lugar com quatro mesas para oito, onde se sentava ao lado de estranhos, e se fazia amigos enquanto 
a sopa era dividida e o po partido. Ela falou com todos na mesa; isso tambm era novidade para ela. Luke sorria enquanto a contemplava. Que diriam se soubessem 
que ela era Kezia Saint Martin? S a ideia o fez rir mais. Porque eles no saberiam. Eram bombeiros e estudantes, motoristas de nibus e suas mulheres. Kezia Saint 
Martin, quem? Ela estava salva. Lucas ficou contente, sabia que ela precisava de um lugar onde pudesse brincar, sem medo de reprteres e de fofocas. Ela desabrochara 
no breve tempo desde que desembarcaram naquela cidade. Kezia precisava dessa espcie de paz e de relaxamento. Ele apreciava poder lhe dar isso.

Pararam para um drinque num lugar chamado Perry's na Union Street, antes de voltar para casa. Isso lembrava-lhe um pouco o P. J.s, em Nova York. E eles decidiram 
ir andando de onde estavam para casa. Foi um agradvel passeio nas colinas entremeadas de pequenos parques por todo o caminho. As sirenes anunciadoras ao fog uivavam 
na borda da baa e ela conservou o passo ao lado dele, segurando-lhe a mo.

Puxa, Luke. Eu gostaria de viver aqui.

 um bom lugar e voc ainda no viu nada.

Nem mesmo depois do dia de hoje?

Isto  s o lado turstico. Amanh vamos ter uma viso real. Eles passaram o dia seguinte rodando para o norte, na costa Stinson

Beach, Inverness, Point Reyes. Era uma linha de costa irregular, que parecia muito com a Big Sur, mais para o sul. Ondas espatifando-se contra os rochedos, gaivotas 
e falces voando alto, grandes extenses de colinas, cortadas por sbitas praias inabitadas e parecendo quase tocveis pela mo de Deus. Kezia sabia o que Luke tinha 
querido dizer. Isto era uma distncia enorme do cais. Isto era real e incrivelmente lindo, no apenas divertida

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Jantaram cedo no restaurante chins na Grant Avenue e Kezia se sentia de astral alto. Sentaram-se numa pequena cabina com uma cortina puxada na entrada e podiam-se 
ouvir risos e murmrios de outras cabinas e alm do tilintar de pratos e do chins falado pelos garons. Kezia gostou daquele restaurante que Luke conhecia bem, 
um dos seus lugares favoritos na cidade. Ele estivera ali na noite anterior  chegada dela para acertar detalhes a respeito da greve em San Quentin. Era uma coisa 
estranha falar a respeito de homens mortos e internos por cima de um wonton frito. Parecia imoral quando ele pensava muito nisso, mas na maior parte do tempo no 
dava ateno. Aprendera a aceitar aquilo com que vivia. As realidades dos homens na priso e o custo da mudana do sistema. Custou a vida de alguns homens. Luke 
e seus amigos eram os generais, os internos, os soldados e a administrao do presdio, o inimigo. Tudo muito simples.

Voc no est me escutando, Lucas.

Hum? Levantou os olhos para ver Kezia observando-o com um sorriso.

Alguma coisa errada, querido?

Voc est brincando? Como seria possvel? Kezia perscrutava-lhe os olhos e ele afugentou pensamentos de San Quentin da sua mente, mas alguma coisa o aborrecia. Uma 
sensao de mau agouro, de... alguma coisa. Ele no sabia o qu. Eu te amo, Kezia. Foi um dia lindo. Queria afastar os pensamentos dolorosos para longe, mas era 
difcil.

Sim, foi. Mas em compensao, voc deve estar cansado de todas essas andanas.

Hoje  noite vamos ter um bom sono. Ele riu a esse pensamento, e inclinou-se para a frente para um beijo.

Foi s quando saram que observou o mesmo rosto que ele tinha visto com frequncia durante as semanas que passara em San Francisco. Olhou em redor e viu o homem 
dirigindo-se para um dos compartimentos, com um jornal debaixo do brao. Ento foi demais para ele.

Espere por mim ali na frente.

O qu?

Vai andando. Eu tenho um negcio a resolver.

Ela parecia subitamente surpresa e temerosa pela expresso do rosto dele. Alguma coisa tinha acontecido com ele, como quando uma barreira se rompe ou o momento que 
precede uma exploso... como... era assustador de ver.

Vai embora, porra! Deu-lhe um firme empurro em direo  frente do restaurante e dirigiu-se rapidamente de volta  cabina onde vira

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o homem entrar. Levou s um momento para atingi-la e puxou para trs a cortina velha e desbotada com tanta fora que ela se rasgou em cima.

Muito bem, queridinho, voc pediu. O homem levantou os olhos do jornal com uma expresso afetada de surpresa, mas seus olhos estavam desconfiados e ativos.

Sim? ele era grisalho nas tmporas mas parecia quase to forte quanto Luke. Sentou-se solenemente na cadeira como um tigre pronto para pular.

Levante-se.

O qu? Olhe, senhor...

Eu disse levante-se, filho da puta, ou voc no me ouviu? A voz de Luke era doce e macia como mel mas o seu olhar aterrador, e, quando falou, levantou o homem do 
seu assento com uma mo em cada lapela do horrendo casaco esporte. Agora, o que voc realmente deseja? A voz de Luke era apenas um sussurro.

Estou aqui para jantar, Mack e sugiro que me deixe agora mesmo. Voc quer que eu chame os tiras? Os olhos do homem eram ameaadores e suas mos estavam comeando 
a se levantar lentamente e com preciso treinada.

Chame os tiras, seu arrombado... veja se no tem um rdio no seu bolso, filho da puta. Oua, cara, eu jantei com uma lady e no quero ser seguido noite e dia em 
toda a parte onde vou. Isso me faz parecer furioso, compreendeu? Fui claro? Ento ele arquejou. A vtima de Luke tirou-lhe as mos das lapelas e deu-lhe um repentino 
soco, tudo num gesto rpido.

Isto o far parecer pior, Johns. E o que acha de ir para casa como um bom menino, ou quer que eu o acuse de tentativa de assalto? Isso pareceria bom para seu conselho 
de liberdade condicional, no? Voc est com uma puta sorte por eles no te apanharem com um presunto assassinado. Havia dio na sua voz.

Luke tomou a respirao e olhou o homem nos olhos.

Assassinato? Eles tiveram uma porrada de tempo para me envolver com isso. Uma poro de coisas, mas no assassinato.

O que voc me diz dos guardas em Q. na semana passada, ou eles no contam? Voc bem podia t-los matado em vez de mandar seus capangas fazerem o servio. A conversa 
ainda continuava num tom baixo, e Luke levantou a sobrancelha surpreso quando se ps de p lenta e dolorosamente.

 a isso que devo a honra de sua companhia a toda a parte onde vou? Voc est tentando me envolver com o assassinato daqueles canas em Quentin?

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No. Esse no  o meu problema. No  o meu objetivo. E acredite-me ou no, cara de beb, no gosto de segui-lo mais do que voc de me ter no seu rabo.

Preste ateno, voc pode me fazer gritar. Luke apanhou um copo d'agua e tomou um grande gole. Ento como fica com a perseguio? Luke pousou o copo e observou cuidadosamente, 
se perguntando por que ele no teria reagido ao soco do homem. Deus meu, estava ficando mole... diabo... ela estava mudando tudo, e isso poderia realmente custar-lhe.

Johns, voc pode achar difcil de acreditar, mas est sendo seguido para proteo.

Luke respondeu com uma exploso de riso cnico.

Que simptico. Proteo de quem?

Sua.

Realmente. To atencioso... E quem exatamente voc pensa que me atacar? E por que exatamente voc se preocupa? Pareceu em dvida, eles poderiam ter pensado numa 
histria melhor.

Eu no me preocupo e isso  o principal, mas a determinao  segui-lo at segunda ordem e manter os olhos bem abertos para atacantes.

Merda. Luke estava com raiva agora. No gostava da ideia.

Ser isso merda?

Claro. Porra, do que sei eu? Era tudo que precisava, com Kezia por perto. Merda.

A questo  que algumas das cabeas dos grupos de reforma da ala esquerda no gostam da sua atuao, no gostam de voc entrando e saindo de cena como uma espcie 
de heri visitante. Eles querem o seu rabo, homem.

Sim? Bem, ento vamos combinar dessa maneira: se estiverem procurando isso, eu te chamo. At ento posso agir sem companhia.

Eu tambm posso, mas ns no temos escolha. Belo lugar para jantar. Rolos de ovos formidveis.

Lucas sacudiu a cabea com um olhar de agravo retido e encolheu os ombros.

Fico contente que tenha apreciado. Parou por um longo momento na porta e observou o homem que lhe tinha dado um soco. Sabe de uma coisa, homem? Voc  um filho da 
puta de sorte. Se tivesse me atacado como fez numa outra ocasio, eu o teria pulverizado. E gostado disso.

Eles se fitaram durante longo momento e o outro homem encolheu os ombros e dobrou o seu jornal.

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Mas isso valeria um bilhete de ida para a priso. Voc nos poupa aborrecimentos se me chamar. Mas, de qualquer modo, preste ateno ao seu rabo, homem. Algum est 
pronto para apanh-lo. Eles no me disseram quem, mas deve ser um tipo quente porque me puseram na rua atrs de voc uma hora depois.

Luke comeava a deixar a cabina, ento subitamente voltou com uma pergunta nos olhos.

Vocs esto seguindo algum mais? Isso lhe diria alguma coisa.

Talvez.

Vamos, homem, no me conte a histria pela metade. Havia dio nos seus olhos de novo e o homem assentiu com a cabea lentamente.

Sim. OK. Ns estamos seguindo outros camaradas.

Quem?

O tira soltou um suspiro lento, olhou para os ps e ento de novo para Luke. No havia razo para fingimento e os dois sabiam. E ele sentia que tinha empurrado Luke 
to longe quanto devia, mais longe possivelmente. Lucas Johns no era homem com quem se brincasse. Levantou os olhos lentamente e desenrolou os nomes inexpressivamente.

Morrissey, Washington, Greenfield, Falkes e voc.

Meu Deus.

Os cinco eram os lderes de todos os tempos em agitaes de prises. Morrissey vivia em San Francisco, Greenfield em Vegas, Falkes tinha vindo de New Hampshire, 
mas Washington era da regio e o nico negro no grupo. Todos radicais de certa maneira mas nenhum da ala esquerda. Apenas queriam lutar pelos seus ideais e mudar 
um sistema que deveria ter morrido h anos. Nenhum deles tinha iluses selvagens de mudar o mundo. Washington era criticado pelos que se opunham a ele. As faces 
negras no entanto achavam que ele devia estar lutando com elas; no era rebelde o suficiente na opinio deles. Mas Luke pensava que ele era o melhor dos dois campos.

Vocs esto seguindo Frank Washington?

Sim. O homem bem vestido  paisana concordou.

Ento  melhor que vocs o sigam muito bem. O outro homem concordou, Luke virou de costas e saiu.

Nervosa, Kezia esperava na porta da frente.

Tudo bem?

Claro. Por que no deveria? Estava em dvida se ela teria ouvido alguma coisa, ou, ainda pior, visto alguma coisa. Estranhamente, ningum tinha passado por ali durante 
a breve luta e os garons estavam
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ocupados demais para notar a intensidade da troca de palavras subsequente.

Voc demorou tanto, Lucas... Alguma coisa errada? Ela perscrutou o rosto dele mas no achou nada.

Claro que no, apenas vi algum que eu conheo.

Negcios? Sua expresso intensa era a de uma esposa.

Sim bobinha, negcios. Eu lhe disse. Agora pense nas suas coisas e vamos voltar para o hotel. Deu-lhe um forte abrao e a ps a andar no nevoeiro da noite com um 
sorriso. Ela sabia que alguma coisa estava errada mas ele escondeu bem. Nunca havia alguma coisa onde ela pudesse pr o dedo. E Luke ia cuidar para que as coisas 
ficassem como estavam.

Mas, na manh seguinte, durante o caf da manh, no havia dvida de que alguma coisa estava errada. Ela o tinha acordado depois de encomendar um suntuoso caf que 
compartilhariam. Sacudiu-o suavemente com um beijo depois que a bandeja fora entregue no quarto.

Bom dia, mr. Johns. J  hora de levantar e eu o amo. Ele se virou com um sorriso sonolento e mal abriu os olhos puxando-a para beij-la.

Certamente,  uma boa maneira de comear o dia, minha santa. O que  que voc vai fazer to cedo?

Estava com fome, e voc disse que tinha tantas coisas a fazer hoje, de modo que levantei e organizei as coisas. Sentou-se na beira da cama com um sorriso.

Quer voltar para a cama e desorganizar tudo outra vez?

No, at depois do caf, seu assanhado. Seus ovos esto ficando frios.

Meu Deus, como voc  prtica. Que mulher de corao frio.

No, faminta apenas. Deu pancadinhas no traseiro dele, beijou-o e levantou as tampas dos pratos na bandeja.

Rapaz, como cheira bem. Eles mandaram o jornal tambm?

Sim, senhor. Estava cuidadosamente dobrado na bandeja e ela o apanhou, desdobrando e entregando-lhe com ligeira cortesia. s suas ordens, senhor.

Lady, como consegui viver sem voc antes?

Com dificuldade, sem dvida. Sorriu para ele e virou-se para encher a xcara de caf. Quando levantou os olhos, ficou chocada com a expresso do rosto dele. Estava 
sentado nu, no lado da cama, com o jornal aberto no colo e lgrimas escorrendo pelo rosto, contorcido de raiva e desgosto. Suas mos fechadas como punhos.

Lucas, querido, o que foi? Ela se dirigiu a ele hesitante e

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sentou-se a seu lado, procurando as manchetes rapidamente para ver o que tinha acontecido. A principal manchete do jornal era: Ex-padre reformador das prises fuzilado 
e morto. Pensava-se que o assassinato era devido a um grupo de esquerda radical, mas a polcia ainda no estava certa. Joseph Morrissey tinha levado oito tiros na 
cabea quando deixava sua casa com a mulher. As fotografias da primeira pgina mostravam uma mulher histrica curvada sobre a vtima disforme, Joe Morrissey. A mulher 
estava grvida de sete meses.

Merda. Foi o nico som que ela ouviu de Luke quando passou a mo suavemente nos ombros dele, com lgrimas correndo-lhe dos olhos tambm. Eram lgrimas pelo homem 
que morrera e lgrimas de medo, por causa de Lucas. Poderia ter sido Lucas.

Oh, querido, que coisa mais triste. Pareciam palavras vazias em relao ao que sentia. Voc o conhecia bem?

Ele assentiu silenciosamente e fechou os olhos.

Bem demais.

O que voc quer dizer? A voz dela era um sopro.

Ele era o meu homem de frente. Lembra-se de quando eu te disse que eu nunca entrava nas prises e ningum podia atribuir alguma coisa a mim?

Ela concordou.

Bem, eles no me podiam atribuir nada por causa de camaradas como Joe Morrissey. Ele era capelo em quatro das prises antes de deixar as ordens. Ele se manteve 
em torno disso com alguns dos reformadores do ncleo resistente. Ele apoiava os pesados. Eu principalmente. E agora... ns o matamos. Eu o matei. Estou fodido e 
mal pago. Levantou-se e andou nervosamente pelo quarto, enxugando as lgrimas do rosto. Kezia?

Sim? Era um fio de voz assustada que vinha do outro lado do quarto.

Quero que voc faa as malas e se vista imediatamente. E estou dizendo imediatamente. Vou p-la fora deste inferno.

Lucas... voc est com medo?

Ele hesitou por um instante e depois concordou.

Estou com medo.

Por mim ou por voc mesmo?

Ele quase sorriu. Nunca estivera com medo por si mesmo. Mas no era hora de envolv-la nisso.

Digamos que quero apenas ser inteligente. Agora, vamos, baby. Vamos andar.

Voc tambm vai? Ele agora estava de costas para ela.

186
Mais tarde.

O que  que voc vai fazer enquanto isso? Ela estava aterrorizada. Oh, meu Deus e se eles o matarem?

Eu vou cuidar de alguns negcios e ento levar o meu traseiro de volta a Chicago de noite. E voc vai para Nova York e esperar l. Agora cale-se e vista-se, porra. 
Virou-se para ela com uma tentativa de agressividade, mas ento seu rosto suavizou-se e viu a expresso de terror no rosto dela. Vamos, minha santa... Atravessou 
o quarto e segurou-a nos braos quando ela recomeou a chorar.

Oh, Lucas, o que se...

Psiu... Segurou-a apertado e beijou-lhe o alto da cabea suavemente. No existe "se", minha santa. Tudo vai ficar calmo.

Vai ficar calmo? Ser que ele estava fora do seu juzo? Algum acabara de ser assassinado. Seu lder, pelo amor de Deus. Ela olhou-o com expresso de choque e ele 
puxou-a suavemente da cama.

Agora quero que voc se apronte. Muitas pessoas poderiam imaginar onde ele estava. E Kezia era uma mina de ouro que ele no queria no seu bolso se algum o acusasse. 
Talvez a morte de Morrissey fosse apenas um aviso. Um aviso. Seu estmago revoltava-se com esse pensamento.

Ela comeou a se vestir jogando as coisas na mala e lanando olhares de lado a Luke. Subitamente ele parecia estar to preocupado com negcios, to afastado dela, 
to furioso...

Onde voc estar hoje, Lucas?

Fora, ocupado. Eu lhe telefono quando chegar a Chicago. E voc no vai a nenhuma festa de aniversrio, pelo amor de Deus. Ponha apenas as roupas e apresse-se.

Estou quase pronta. Um momento depois ela estava sbria, com grandes culos escuros escondendo a falta de maquilagem.

Ele olhou demoradamente para ela, a tenso ondulando por todo o corpo e ento concordou.

OK lady, eu no vou viajar com voc. Vou chamar um txi e cair fora daqui. Voc vai esperar no gabinete de Ernestine embaixo e esperar um txi com ela. Ela a levar 
para o aeroporto.

Ernestine? Kezia estava surpresa. A proprietria do Ritz no parecia a espcie de pessoa capaz de se fazer de bab de clientes adultos. E Luke estava imaginando 
a mesma coisa. Mas pensou que por cinquenta pacotes ela faria quase tudo.

Isso. Ernestine. Ir ao aeroporto com ela. Partir no primeiro avio. Eu no ligo merda nenhuma se ele parar quinze vezes at Nova York. Mas eu quero voc fora daqui. 
No quero voc rodando pelo aeroporto.
187
Est claro? Ela concordou silenciosamente.  melhor que isso se faa porque, Kezia, no estou brincando. Corto voc em pedacinhos se voc tolamente rondar por aqui. 
V-se embora da cidade, Est claro? Eu me aflijo em primeiro lugar por t-la trazido aqui. Ele parecia estar realmente aflito.

Eu no estou triste. Estou contente. Eu te amo. S tenho pena do seu amigo... A voz dela arrastou-se e os olhos ficaram maiores, quando olhou para ele e ele enterneceu-se. 
Segurou-a nos braos mais uma vez, e mais uma vez dividido em quer-la e saber que no devia levla para baixo com ele. Mas precisava dela demais.

Voc  uma coisa, lady. Beijou-a silenciosamente e depois empertigou-se. Fique pronta para partir, minha santa. Vou dizer a Ernestine para tir-la daqui em cinco 
minutos, e vou telefonar para pagar a conta. Telefono-lhe hoje em Nova York. Mas pode ser tarde. Tenho que voltar para Chicago.

Voc vai estar bem hoje? Era uma pergunta sem sentido e ela o sabia. Quem iria saber se ele estaria bem? O que ela realmente queria perguntar-lhe era quando o veria 
de novo, mas no ousava. Apenas observava-o, com olhos abertos e midos, quando silenciosamente fechou a porta do quarto. Um momento mais tarde ela o viu deixar 
o hotel num txi. E, dez minutos depois, ela e Ernestine fizeram o mesmo. Kezia embriagou-se no avio de volta para Nova York.

188
Captulo 19

Tinha se passado mais de uma semana desde que ela o deixara em San Francisco. Agora Luke estava de volta a Chicago e telefonava-lhe duas a trs vezes por dia. Mas 
vinha sempre uma sensao de terror no fundo do peito desde que o deixara. Ele dizia que tudo estava bem e qualquer dia iria a Nova York. Mas quando? E como estava 
ele realmente? Kezia estava consciente da prudncia dele no falar quando telefonava. Ele no confiava no telefone. E isso era muito pior do que da ltima vez em 
que se separaram. Na poca, ela apenas se sentira s. Agora estava assustada. Kezia procurava desesperadamente manter seu tempo e sua mente o mais ocupados possvel. 
Tinha at dado a entender a Luke que ela ia fazer um artigo sobre Alejandro.

Sobre aquele centro pulguento que ele dirige?

Sim, Simpsom diz que ele tem mercado para isso. Acho que eu gostaria de faz-lo. Voc acha que Alejandro concordaria?

Ele gostou da ideia e um pouco de publicidade poderia ajud-lo a obter fundos.

Est certo. Vou me ocupar com a matria. Fazer alguma coisa ou ficar maluca, queridinho.

OK, agora o que fao? Nunca fui entrevistado antes. Ela riu por causa da expresso nervosa do rosto dele. Ele era um homem refinado com bom senso de humor.

Bem, Alejandro, vamos ver. Na verdade, voc  minha segunda entrevista pessoal. Habitualmente fao isso com calma, sorrateiramente.

Kezia parecia uma criana, com suas trancinhas e jeans, mas uma criana limpa, coisa rara naqueles arredores.

Por que, sorrateiramente? Voc fica com medo do que escreve?

Ele abriu bem os olhos. Isso o surpreendeu. Ela era to direta; era pouco provvel que andasse se esgueirando de alguma coisa.

189
 por causa da vida maluca que eu levo. Luke compreende. Sou de uma maneira e vivo de uma poro de maneiras diferentes.

E que significa Luke para voc, Kezia? Ele  real?

Muito.  a minha antiga vida que no  real. Nunca foi e  ainda menos agora.

Voc no gosta dela?

Ela sacudiu a cabea em resposta silenciosa.

Isso  muito ruim.

Eu quase tenho vergonha disso, Alejandro.

Kezia, mas  uma loucura.  parte de voc. No pode negar.

Mas  to feia. Ela brincou com o lpis e ficou olhando para as mos.

No pode ser completamente feia. E por que feia? Para a maioria das pessoas essa vida  bastante boa. A voz dele estava bem suave.

No entanto  uma vida vazia. Toma tudo de voc e nada pe no lugar.  fingimento e brincadeira e as pessoas chantageando umas s outras, mentindo e pensando em quantos 
dlares vo gastar num vestido enquanto poderiam pr esse dinheiro numa coisa como esta. Isso no faz sentido algum para mim. Acho que sou um fracasso.

Receio no conhecer bastante desse mundo.

 melhor ficar de fora.

E voc  uma boba. Estendeu o brao e tocou-lhe a face, puxando o queixo at os seus olhos se encontrarem. Faz parte de voc, Kezia. Uma parte bonita. Graciosa. 
Voc acha mesmo que estaria muito melhor, vivendo aqui desta maneira? As pessoas mentem, abusam e roubam aqui tambm. Injetam herona. Estupram os filhos. Batem 
nas mes e nas mulheres. Ficam frustrados e com dio. No tm tempo para aprender as coisas que voc sabe. Talvez voc deva apenas utilizar bem esse conhecimento. 
No perca o seu tempo sentindo-se amargurada ou triste pelos anos que passaram. Apenas use-o bem agora.

Kezia sorriu para ele um bom tempo. Fazia sentido. E ele tinha razo. O mundo dela tinha-lhe dado alguma coisa. Era parte de sua vida.

Acho que o detesto tanto porque temo ficar presa nele no fim. Parece um polvo que no larga.

Baby, voc agora j  uma moa feita. Se no quer esse mundo, o melhor  sair fora. Calmamente. No com uma bazuca numa mo e uma granada na outra. Ningum pode 
impedi-la. Ser que voc ainda no pensou nisso? Ele parecia surpreso.

Acho que no. Nunca senti que eu tivesse uma escolha.

Certamente que tem. Todos ns temos escolhas. S que nem sempre as vemos. At eu tenho uma escolha nesta casa de merda, como

190
Luke diz. Em qualquer ocasio que isso me ponha abaixo eu posso ir embora. Mas eu no vou.

Por que no?

Porque eles precisam de mim. Eu gosto disso. Sinto-me como se no pudesse sair, mas a questo  que eu posso. Apenas no quero. Talvez voc tambm no queira sair 
do seu mundo. Talvez voc ainda no queira. Talvez ainda no esteja pronta. Pode ser que voc se sinta segura l. E por que no?  uma coisa que lhe  familiar. 
E o que  familiar  mais fcil. Mesmo que seja uma bosta.  fcil porque voc j conhece. Voc nunca sabe o inferno que vai haver l fora. Fez um gesto vago com 
o brao quando ela assentiu com a cabea. Ele compreendeu muito bem.

Voc tem razo. Mas acho que estou pronta para deixar o tero. Tambm sei que at agora no estava pronta.  embaraoso admitir. Parece que na minha idade eu j 
devia ter posto isso tudo para trs e resolvido tudo.

Bosta. Isso leva uma porrada de tempo. Eu tinha trinta anos quando tive tutano para deixar meu mundinho chicano de Los Angeles e vir para c.

Que idade voc tem agora?

Trinta e seis.

No parece disse, surpresa.

Talvez no, querida, mas, porra,  assim que me sinto. Sorriu levemente e os aguados olhos mexicanos danaram. Alguns dias, me sinto com oitenta.

Sei o que voc quer dizer, Alejandro... Ficou sria.

O que houve, baby? Ele achou que sabia o que ia acontecer.

Voc acha que Luke est bem?

Em que sentido? Oh, meu Deus, no a deixe perguntar. Ele no podia lhe dizer. Teria que ser o prprio Luke, se  que j no tivesse feito... mas j devia ter dito 
quela altura.

No sei. Ele est to bem...  to audacioso, acho que  essa a palavra. Ele faz o que faz, e  isso a. Eu me preocupo com sua liberdade condicional, a respeito 
da sua segurana, sua vida, tudo; mas parece que ele no se preocupa. Kezia no estava olhando para ele, mas Alejandro fitava as mos dela: estavam nervosas e tensas, 
brincando com a caneta.

No, ele no se preocupa com a sua condicional, com porra nenhuma. Luke  assim.

Voc acha que ele vai se meter em alguma enrascada? Como ser assassinado? Ela no podia deixar de pensar em Morrissey, e seus olhos voltaram-se para ele cheios de 
perguntas e temor.

191
Se ele tiver problemas, Kezia, vai nos contar.

Sim. Na vspera da casa desabar. Aprendera bastante sobre Luke. Ele nunca dissera uma s palavra at o ltimo minuto sobre coisa alguma. Ele no  muito de avisar.

No, Kezia. Ele no .  o jeito dele.

A gente tem de respeitar, suponho.

Ele assentiu calmamente, querendo esticar o brao e tocar na mo dela. Mas no podia. Tudo que podia fazer era falar com Luke. Achava que j era tempo.

E com isso deve acabar a histria, obrigada. Com um suspiro ela se recostou na cadeira no gabinete de Alejandro. Tinha sido um longo dia. Tinham falado durante horas.

Voc acha que conseguiu tudo? Parecia contente. Era engraado trabalhar com ela. Lucas era danado de sortudo e ele sabia disso.

Tudo e alguma coisa mais. Ser que posso convid-lo a ir ao centro da cidade para jantar? Voc merece receber uma compensao por eu lhe ter puxado pela cabea toda 
a tarde.

Ele sorriu ao pensar nisso.

Nada sei a respeito. Diabo, Kezia, se voc conseguisse uma publicidade decente para este lugar podia mudar um bocado as coisas. A aceitao da comunidade, mesmo 
que s isso.  um dos nossos maiores problemas. Eles nos detestam mais aqui do que no City Hall. Ns conseguiremos nos dois lados.

Realmente parece que  assim.

Talvez a sua histria mude a tendncia.

Eu espero, querido- Realmente eu espero. Ento, o que diz do jantar?

Vamos andando. Vou lev-la para jantar por aqui, mas Lucas nos mataria. Acho que ele no quer que voc fique rondando nesta parte da cidade.

Esnobe?

No, por uma vez na vida ele usou a cabea, Kezia, ele tem razo. No olhe para isso como se fosse a coisa mais tranquila do mundo. No .  perigoso. E muito.

Ela achou divertida a preocupao coletiva. Dois camaradas fortes protegendo a flor delicada.

Est bem, est bem, eu compreendi a mensagem. Tive um discurso completo de Luke ao telefone. Ele queria que eu viesse aqui hoje numa limusine. Ela riu.

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E voc veio? Os olhos de Alejandro ficaram arregalados. Fale-me do calor da vizinhana.

Claro que no, pateta. Vim de metro. Ele respondeu-lhe a risada com outra. Tinham cado nas discusses bem-humoradas e insultos joviais entre amigos, o que causava 
contentamento a Kezia. Alejandro era um homem muito atraente. Profundamente sensvel e ao mesmo tempo engraado. Acima de tudo, o que a impressionou de novo nele 
foi sua bondade. No fundo, Alejandro tinha razo tambm a respeito dela. O passado fazia parte da sua vida. A grandeza, o dinheiro... fugir disso no resolveria 
nada. Ela ficou tentada com Luke, mas no faria isso. Ela era Kezia Saint Martin e ele Lucas Johns e se amavam. Ele no poderia se tornar um novo Whit e ela no 
era moa de rua. Tinham vindo de lugares diferentes e se encontraram no tempo certo. Mas e agora? E o futuro? Ela no tinha imaginado isso ainda. No tinha imaginado 
mesmo. E talvez Luke tambm no.

Ei, Kezia, a propsito... o que acha de jantar no Village?

Comida italiana? Era s o que sempre comera com Luke e as massas estavam saindo pelas orelhas. Havia cozinhado espaguete para ele na noite anterior.

No, foda-se a comida italiana. Isso  coisa de Luke. Comida espanhola! Eu conheo um lugar muito bom. Riu para ela, sacudindo a cabea.

Ser que vocs nunca comem hambrguer, cachorro-quente ou bife?

Nem pensar. Justamente agora eu teria vendido minha alma por um burrito. Voc no sabe o que significa para um mexicano viver nesta cidade. Tudo  comida judia ou 
pizza. Fez uma careta e ela riu, seguindo-o para a rua.

Diga a verdade.  fantstico, no ? Kezia se instalara, comendo uma tostada enquanto ele comia uma paela.

Tenho que admitir, nada mau. E  uma mudana depois de tanto fettucine.

Este lugar  administrado por um bandido mexicano e a sua velha lady de Madri. Grande combinao.

Ela sorriu e sorveu o vinho. Tinha sido uma noite boa. Gostava da companhia de Alejandro e isso aliviava a ausncia de Luke. Tudo o que ela queria era ir para casa 
e esperar o telefonema dele.

Kezia... Alejandro parecia hesitar.

Sim?
193

Voc  boa para ele. Voc  a melhor coisa que ele j teve. Mas faa-me um favor... Fez nova pausa.

O qu, querido? Como gostava desse mexicano singular. Ele preocupava-se tanto com tudo... As crianas no seu Centro, seus amigos, e especialmente Luke, e agora ela.

Por favor, no fique magoada. Ele vive uma vida dura. Vai uma distncia muito grande entre ele e voc. Lucas  jogador. Ele joga e paga. Mas se perder... voc paga 
tambm. At os dentes, menina, pior do que qualquer coisa que voc conhea.

Sim, eu sei. Ficaram sentados por um momento  luz da vela na mesa, imersos em seus prprios pensamentos.

E quando Alejandro a levou para casa, Luke estava esperando na sala de estar.

Lucas! Correu para os braos dele e foi instantaneamente levantada do cho. Oh, querido, voc estava em casa.

 melhor que voc acredite! E o que  que este devasso desse bandido mexicano estava fazendo com a minha mulher? No havia temor nos olhos dele, apenas prazer de 
ter Kezia nos braos de novo.

Ns fizemos a entrevista hoje. Suas palavras foram amortecidas quando ela afundou seu rosto no peito dele. Ela o segurava to apertado como uma criana, agarrando-se 
com toda a segurana naqueles braos, naqueles ombros, naquele homem.

Eu no sabia onde voc poderia estar. H duas horas que cheguei.

Voc chegou h duas horas? Kezia parecia mais infantil do que nunca, os dias de preocupao desaparecendo dela como mgica. Alejandro ficou ali e observava a cena 
com um sorriso. Ns jantamos num lugarzinho bonito, espanhol, no Village.

Oh, Deus, ele levou-a a esse lugar? Voc no ficou com azia? Kezia sorriu-lhe de novo enquanto se livrava dos sapatos e espreguiava com um ar de malcia nos olhos. 
Lucas estava em casa e estava salvo!

Nada mau. Era agradvel. Alejandro foi bom comigo.

 o melhor camarada que conheo. Lucas escarrapachou-se no sof com um olhar de gratido ao amigo, que estava se aprontando para deix-los.

Voc no quer caf, Alejandro?

Neca. Vou deixar os pombinhos sozinhos.

Inteligente da sua parte, Al. Ela tem que fazer as malas. Ns vamos para Chicago amanh de manh.

Ns vamos? Oh, Lucas, como eu te amo! Quanto tempo vamos ficar? Desta vez queria saber quanto tempo ficariam.

194


Que tal at o dia de Ao de Graas? Olhou para ela feliz, com os olhos semicerrados.

Juntos? Trs semanas? Lucas, voc est maluco! Como  que eu posso ficar fora tanto tempo? A coluna... Oh, merda.

Voc faz isso no vero, no ? Ela assentiu.

Sim, mas eu cubro fatos l e ningum est aqui no vero. Ele riu e Kezia notou uma pergunta nos olhos dele.

O que  to engraado?

A maneira como voc fala "ningum". Voc no pode cobrir algumas festas chiques em Chicago?

Sim. Eu acho que posso. Ela queria ir.

Ento por que no pode? Talvez eu possa adiantar as coisas em menos de trs semanas. No h razo para eu no trabalhar em Nova York. Que diabo... e tudo que eu 
realmente preciso  uma semana l para resolver algumas coisas. Posso viajar pra l e pra c se for preciso.

Ser que ns no poderamos ir e vir? Os olhos dela piscavam como estrelas.

Decerto que podemos, minha santa. Ns dois. Eu resolvi no avio, quando vinha para c. Eu lhe disse que nunca mais seria igual  ltima vez, e no ser. No posso 
passar sem voc.

Lucas, meu amor, o adoro. Curvou-se calmamente para beij-lo.

Ento leve-me para a cama. Boa noite, Alejandro.

O amigo riu consigo mesmo quando saiu sozinho. Lucas j estava dormindo quando ela apagou as luzes. Olhou-o profundamente adormecido a seu lado. Lucas Johns. O seu 
homem, o centro da sua vida. E ali estava ela, seguindo-o de cidade em cidade como uma cigana. Era engraado, gostava daquilo, mas cedo ou tarde teria de tomar algumas 
decises... a coluna... ela no fora a uma nica festa h semanas... e agora estava de partida para Chicago... e o que mais? Pelo menos, Lucas estava com ela. So 
e salvo. Quem se preocupava com festas? Ela ficara com medo pela vida dele.

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Captulo 20

Kezia, quando voc vai voltar?

Ela j estava falando pelo telefone interurbano com Edward em Nova York h mais de meia hora.

Provavelmente, semana que vem. Ainda estou trabalhando nesta histria aqui. Havia aparecido em dois acontecimentos sociais, mas ali era mais difcil. No era a sua 
cidade. Levava muito mais tempo de pesquisa para apurar as fofocas. Alm disso, querido, estou gostando de Chicago. Isso confirmava a pior das suspeitas dele. Ela 
parecia estar muito feliz. E no era da espcie que ficava maravilhada com Chicago; no era o seu ambiente. Excessivamente Meio-Oeste, excessivamente americano, 
demasiadamente Sears Roebuck e no suficientemente o ar rarefeito de Bergdorf e Bendel. Devia haver algum em Chicago. Algum recente? Ele s esperava que fosse 
algum que valesse a pena. E responsvel.

Li seu ltimo artigo no Harper's. Belo artigo. E ouvi Simpson dizer no outro dia que voc tinha alguma coisa para ser publicada daqui a poucas semanas no Times de 
domingo.

Eu tenho. Qual delas?

Alguma coisa sobre um centro de reabilitao de drogas no Harlem. Eu no sabia que voc tinha escrito.

Foi quando sa da cidade. Guarde-o para mim quando for publicado. Subitamente surgiu um constrangimento no declarado entre os dois. Ambos sentiram isso.

Kezia, voc est bem?

E agora aquilo voltava de novo.

Sim, Edward, estou muito bem. Srio. Vamos almoar juntos semana que vem, quando eu voltar e voc poder ver por si mesmo. Eu at vou encontrar com voc no La Cote 
Basque.

Querida lady, como voc  amvel.

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Ela sorriu e desligaram, depois de alguns momentos de conversa de negcios; tinham novas isenes de imposto para discutir.

Luke levantou os olhos da sua leitura com um olhar impertinente.

Quem era? Sabia que tinha que ser Edward ou Simpson.

Edward.

Voc pode lhe dizer que vai almoar com ele mais cedo. Se quiser.

Est me mandando embora? Eles tinham sado havia dez dias.

No, sua estpida. Riu da expresso do rosto dela. Apenas achei que ns voltaramos amanh. Voc tem que pensar no seu trabalho e eu tenho que ir e vir de Columbia 
pelo resto da semana. Existe uma srie de reunies marcadas a que quero assistir e posso arranjar um compromisso ou dois de discursar l. Parece que Washington me 
ama. Os cheques vinham com agradvel regularidade. Apenas pensei que nos instalaramos em Nova York por algumas semanas.

Ela riu aliviada.

Voc acredita que pode aguentar esse tempo todo em algum lugar?

Certamente vou tentar. Deu-lhe uma palmada na bunda, enquanto se dirigia ao bar e se servia de um bourbon com gua.

Luke? Ela estava deitada na cama, parecendo pensativa.

Sim?

O que  que vou fazer com a coluna?

Voc  quem decide, baby. Tem que resolver da sua prpria cabea. Voc aprecia escrev-la?

Uma vez ou outra. Mas ultimamente no. No, e h muito tempo.

Ento talvez esteja na hora de deix-la para o seu prprio bem. Mas no a deixe por minha causa. Faa o que quiser. E se voc acha que precisa ficar em volta de 
Nova York cobrindo as festas de fantasia, ento faa a coluna. Voc tem que cuidar dos seus negcios tambm. No se esquea disso.

Vou ver o que sinto a.respeito da coluna depois da prxima semana. Vou fazer as mesmas coisas quando voltarmos para Nova York. Ento vejo como  que fica. Com Luke 
indo e vindo de Washington, ela teria bastante tempo para atingir o seu velho circuito.

Depois de quatro dias em Nova York, ela j tinha ido  estreia de uma pea, ao fechamento de um teatro, a dois almoos com mulheres de embaixadores e a um show de 
moda, de caridade. Doam-lhe os ps. Doalhe a cabea e os ouvidos estavam cheios pelo fluxo constante dos mexericos ociosos. Quem se importava? Kezia no. Nem mais 
ningum.

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Lucas, se eu ouvir a palavra "divino" outra vez acho que vou me atirar.

Voc parece cansada. Parecia mais do que cansada. Parecia exausta e se sentia assim.

Estou cansada e detesto toda essa merda de fofoca. Tinha acabado de fazer isso numa reunio para o baile dos artrticos. Tiffany tinha desmaiado no banheiro. E ela 
nem podia usar esse fato na coluna. A nica informao que apanhara fora o prximo casamento de Marina e Halpern. Mas e da? Quem se importava?

O que vamos fazer este fim de semana? Se ele dissesse que iam para Chicago ela teria um ataque histrico. No queria ir a parte alguma exceto  cama.

Nada. Talvez eu v l em cima ver Al. Voc quer jantar com ele?

Lucas estava sentado na beira baixa da cama e parecia to cansado quanto ela.

Eu gostaria. Vou fazer alguma coisa para comer. Ele sorriu com a mudana domstica e ela percebeu em que ele estaria pensando.

 bom no , Luke? s vezes imagino se voc gosta de ficar em casa tanto quanto eu. Nunca tive vida domstica.

Ele sorriu, sabendo o quanto era verdade.

Voc sabe o que quero dizer.

Sei. E provavelmente ainda goste mais de ficar em casa do que voc. Estou comeando a imaginar como sobrevivi sem voc antes. Ele se insinuou na cama ao lado dela 
e apagou a luz. Ele tinha suas prprias chaves do apartamento e usava o servio de respostas de chamadas telefnicas como se fosse dele, ela esvaziara um closet 
para ele e a empregada finalmente chegara mesmo a sorrir-lhe uma vez. Chamava-o de "Mister Luke".

Sabe uma coisa, querido? Ns temos muita sorte. Sorte demais.

Kezia estava contente consigo mesma, como se tivesse apanhado uma estrela cadente nas mos.

Sim, baby, temos sim. Mesmo que fosse apenas por ora...

Bem, senhores, proponho um brinde pela demisso de Martin Hallam.

Lucas, o que  que ela est dizendo? Alejandro parecia perplexo e Luke olhava para Kezia com curiosidade. Era a primeira vez que ouvia isso.

Kezia, o que voc disse significa o que eu penso?

Sim, senhor. Significa. Depois de escrever sete anos a coluna de Martin Hallam, eu saio. Fiz isso hoje.

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Luke olhou para ela chocado.

O que eles disseram?

Ainda no sabem. Eu disse a Simpson hoje e ele vai tratar do resto. Eles vo saber amanh.

Voc tem certeza? No seria tarde demais para reverter a deciso?

Nunca estive to segura em minha vida. No tenho mais tempo para esse lixo. Ou inclinao para desperdiar meu tempo fazendo a coluna. Ela viu um olhar estranho 
passar entre Luke e Alejandro e ficou imaginando por que nenhum dos dois se impressionou. Bem, vocs dois so certamente uma audincia pulguenta para a minha declarao 
to importante. Aqui,  pra vocs!

Alejandro e Luke riram.

Eu acho que ns ficamos de certo modo chocados, baby. E subitamente imaginei que voc estivesse fazendo isso por minha causa.

No, realmente, querido.  a minha deciso. No quero ter que ir a essas festas de merda o resto da minha vida. Voc viu como eu fiquei cansada esta semana. E para 
qu? Essa vida no  mais meu assunto.

Voc contou a Edward? Ele parecia assustado e Alejandro

olhava-o com ar furioso.

No. Vou contar-lhe amanh. Vocs foram os primeiros a saber depois de Simpson. E vocs so um par de inteis.

Lamento, baby. Foi uma espcie de choque. Levantou, ento, o seu copo para ela, com um sorriso nervoso. Ento, a Martin

Hallam!

Alejandro levantou seu copo em resposta, mas seus olhos no se afastaram do rosto de Lucas.

A Martin Hallam, que repouse em paz.

Amm. Kezia esvaziou o copo de uma s vez.

No, Edward, estou certa. E Simpson concorda.  uma diverso para a qual no tenho mais tempo. Quero continuar com temas srios.

Mas  um passo to drstico, Kezia. Voc estava habituada  coluna. Todo mundo estava habituado. Tinha se tornado uma instituio. Ser que voc pensou bastante 
antes de tomar essa deciso?

Claro que sim. H meses. E o fato, querido,  que no quero ser "uma instituio". No essa espcie de instituio. Quero ser uma escritora, uma boa, no uma importuna 
com mexericos tolos. Realmente, querido, voc vai ver.  a melhor deciso possvel.

Kezia, voc est me pondo nervoso.

No seja ridculo. Por qu? Balanou o p quando se sentou

199
 sua mesa. Ela telefonara para Edward assim que Luke deixara a casa para uma manh de reunies. Pelo menos Luke acomodara-se depois do primeiro choque. E Simpson 
aplaudira a deciso, dizendo que era mais do que tempo.

Eu gostaria de saber por que voc me pe nervoso. Acho que  porque tenho a sensao de que no sei o que voc est aprontando, no que seja realmente da minha conta. 
Mas queria que fosse. Essa era a questo.

Edward, voc vai se tornar senil preocupando-se com bobagens. Ele estava comeando a aborrec-la. Constantemente.

O que voc pensa fazer no dia de Ao de Graas? Era quase uma acusao.

Vou para fora. Ele no ousou perguntar para onde. E ela no lhe deu a mnima informao. Eles estariam voltando para Chicago.

Muito bem. Muito bem. Que se dane, Kezia. Desculpe. Penso o tempo todo que voc ainda  uma criana.

Eu sempre o amarei, e voc sempre se preocupar muito. Por nada.

No entanto, ele fez com que ela se sentisse desconfortvel. Depois de desligarem, Kezia sentou-se silenciosa, pensativa. Estaria ela maluca abandonando a coluna? 
Numa poca tinha sido to importante para ela. Mas no era mais. Mas ainda... estaria ela perdendo contato com quem e com o que ela era? De certo modo fizera isso 
por Luke. E para si prpria, porque queria ficar livre para andar por toda a parte com ele e, alm disso, tinha superado a coluna h anos.

Subitamente quis discutir o assunto com Luke, mas ele sara e passaria o dia todo fora. Podia chamar Alejandro, mas no gostava de aborrec-lo. Era uma sensao 
desconfortvel, como deixar o cais no nevoeiro dirigindo-se para um destino desconhecido. Mas j tinha tomado a deciso. Ela viveria de acordo. Martin Hallam estava 
morto. Fora uma deciso simples, realmente. A coluna estava terminada.

Ela sentou-se  sua mesa, espreguiando-se e decidiu sair para um passeio. Era um dia cinzento de novembro e havia uma pitada de inverno no ar. Essa sensao deu-lhe 
a ideia de jogar uma echarpe de l em torno do pescoo e correr para o parque. Subitamente sentiu-se livre de uma carga desgastante. O peso de Martin Hallam tinha 
finalmente escorregado dos seus ombros.

Kezia desencavou um velho casaco de pele de carneiro do closet e calou botas pretas feitas sob medida, debaixo dos seus jeans bem passados. Tirou um pequeno bon 
tricotado vermelho do bolso do casaco e pegou um par de luvas de uma prateleira. Ela se sentia nova outra vez.

200
Queria ser uma escritora de qualquer coisa e no uma desencavadora de tristes migalhas sociais. Um sorriso pairava nos lbios e havia um brilho malicioso nos olhos 
quando se dirigiu para o parque a passos largos. Que dia maravilhoso, e ainda no era nem hora do almoo. Pensou em comprar algo para comer no parque, mas decidiu 
no se incomodar. Em vez disso comprou s um saquinho de castanhas assadas, ainda quentes, de um encanecido velho que empurrava uma carrocinha fumegante pela Quinta 
Avenida. Ele sorriu para ela com a boca desdentada enquanto Kezia lhe acenava por cima do ombro. Ele era uma pessoa meiga, realmente. Todo mundo era. Todo mundo 
subitamente parecia to novo como ela se sentia.

Kezia j estava no parque e na metade das castanhas quando, olhando para a frente, viu uma mulher tropear e cair junto ao meiofio. Ela se esparramou na rua, perto 
das patas de um cavalo velho puxando um tlburi decadente pelo parque. A mulher ficou cada muito quieta por um momento e o charreteiro de p, puxando as rdeas 
do cavalo, que parecia nem ter notado o feixe de roupas perto dos seus cascos. A mulher usava um casaco de peles escuro e o seu cabelo era muito louro. Foi tudo 
que Kezia pde ver. Franziu a testa e apressou o passo, enfiando as castanhas no bolso, enquanto o condutor do tlburi pulava da sua plataforma ainda segurando as 
rdeas. A mulher se mexeu, ajoelhou e rolou para diante, no meio das patas do cavalo desta vez. O cavalo assustou-se e o seu dono empurrou a mulher para fora. Ela 
sentou-se pesadamente no asfalto, livre, por fim, das patas do cavalo.

Por que no fica em casa, porra?! Voc  maluca? Os olhos do homem saam das rbitas, furiosamente, enquanto ele continuava a puxar para trs o cavalo e contemplar 
a mulher. De onde estava, Kezia s via a cabea da mulher quando ela a sacudia, silenciosamente. O condutor voltou ao estribo e estalou a lngua, pondo de novo o 
cavalo em movimento, com um ltimo golpe de seu dedo mdio para a mulher ainda sentada. Puta estpida! Seus passageiros estavam pouco visveis do outro lado da janela 
esfumaada e arranhada da carruagem e o velho cavalo continuou se deslocando pesadamente, to habituado a seu caminho que bombas podiam explodir ao lado das suas 
patas que ele continuaria na pista, bem desgastada, por onde trotava h anos.

Kezia viu a mulher sacudir a cabea indistintamente e ajoelhar-se lentamente no asfalto. Apressou o passo, imaginando se a mulher estaria ferida e o que provocara 
a queda. O casaco de peles estava aberto em leque atrs dela agora, e era bvio que se tratava de um longo e esplndido mink. Kezia ouviu a tossezinha seca da mulher 
exatamente quando chegava e viu-a virar a cabea. Ficou parada, chocada por ser

201
quem era, como estava arrasada. Era Tiffany, sua face encaveirada, ainda inchada, os olhos empapuados com rugas dolorosas perto dos olhos e da boca. Ainda no era 
meio-dia e ela j estava bbada.

Tiffany? Kezia ajoelhou-se ao seu lado e alisou-lhe os cabelos. Estavam despenteados e emaranhados e no havia maquilagem no rosto desfeito.

Tiffie... sou eu, Kezia.

Oi. Tiffany parecia olhar para algum lugar alm do ouvido esquerdo de Kezia, inconsciente, sem ver, sem se preocupar. Onde est o tio Kee? Ela queria dizer o pai 
de Kezia.

TioKee. Ela no ouvira esse nome h tanto tempo... Tio Kee... Papai.

Tiffie, voc est ferida?

Ferida? Ela olhou vagamente, parecendo no ter compreendido.

O cavalo, Tiffie. No a machucou?

Cavalo? Tinha agora um sorriso infantil e parecia compreender. Oh, o cavalo. Oh no, eu cavalguei o tempo todo. Ficou de p, vacilando, e sacudiu a poeira das mos 
e da frente do seu longo casaco de mink. Kezia olhou para baixo e viu meias cinzentas enroladas e um sapato Gucci de suede preto arranhado. O casaco abriu um pouco 
dando uma rpida viso de uma saia preta de veludo e uma blusa de cetim branco, com vrias fileiras de grandes prolas cinzentas e brancas. No era uma roupa para 
se andar no parque nem para essa hora do dia. Kezia ficou na dvida se ela teria estado em casa na noite anterior.

Aonde voc vai?

Para a casa dos Lombards. Para jantar. Ento era onde ela tinha estado. Kezia tambm fora convidada, mas recusara o convite semanas antes. Os Lombards. Mas ento 
fora na noite passada. O que teria acontecido desde ento?

O que acha de eu lev-la at em casa?

Para a minha casa? Tiffany parecia de repente enlouquecida.

Claro. Kezia tentava dar um tom natural  conversa, enquanto segurava Tiffany firme pelo cotovelo.

No. Para minha casa no! No... Libertou-se, tropeou e ficou imediatamente enjoada, vomitando nos ps de Kezia e em cima dos prprios sapatos. Sentou-se novamente 
no asfalto e comeou a chorar, com o mink preto arrastando-se tristemente na sua prpria bile.

Kezia sentiu lgrimas quentes queimarem-lhe os olhos quando se abaixou para sua amiga, tentando p-la de p outra vez.

Venha. Tiffie... Vamos.


202


No... Eu... Oh, meu Deus, Kezia por favor... Agarrou-se s pernas de Kezia e olhou para cima, com olhos virados por milhares de demnios. Kezia curvou-se suavemente 
sobre ela e levantou-a de novo quando viu um txi contornar rpido a curva da qual o tlburi havia aparecido momentos antes. Levantou a mo rapidamente, chamou-o 
e trouxe Tiffany para perto. No! Era um lamento angustiado de uma criana de corao partido e Kezia sentiu sua amiga tremendo nos seus braos.

Venha, vamos para minha casa.

Eu vou vomitar. Fechou os olhos e desmoronou na direo de Kezia de novo, quando o txi abriu a porta.

No, voc no vai. Vamos entrar. Ela conseguiu conduzir Tiffany ao assento de trs, deu ao motorista seu prprio endereo e abaixou as duas vidraas para dar mais 
ar  amiga. Foi ento que reparou que Tiffany no tinha qualquer bolsa nas mos.

Tiffie, voc tinha uma bolsa? A moa olhou em volta, plida, por um momento, e ento encolheu os ombros, deixando sua cabea pender para trs no banco, enquanto 
fechava os olhos e o ar soprava no seu rosto.

O qu? As palavras foram to baixas que Kezia mal as ouvia.

Hmm?

Bolsa,.. o qu? Ela encolheu os ombros e parecia quase cair no sono, mas um momento depois a sua mo procurou s cegas a mo de Kezia e agarrou-se a ela, apertando-a 
enquanto duas lgrimas isoladas rolaram faces abaixo. Kezia deu uma pancadinha na mo fina e fria e olhou com horror para a grande esmeralda em forma de pra flanqueada 
por baguetes de diamantes. Se algum tivesse roubado a bolsa de Tiffany tinha perdido a melhor parte. Esse pensamento fez Kezia estremecer. Tiffany estava pronta 
para ser vtima de qualquer um. Andei... a noite inteira... A voz era apenas um coaxar doloroso e Kezia viu-se imaginando se no fora "uma bebedeira a noite inteira". 
Era bvio que no voltara para casa depois dos Lombards.

Onde voc andou? No queria comear uma conversa pesada dentro do txi. Em primeiro lugar, teria que pr Tiffany na cama, telefonar para a casa dela, dizer  governanta 
que a sra. Benjamin estava bem, e depois falariam. No queria histerias embriagadas dentro do txi... O motorista podia decidir que ele tinha uma histria quente... 
Meu Deus, era exatamente disso que Kezia no precisava.

Igreja... a noite toda... andando... dormi na igreja... Mantinha os olhos fechados e parecia se desviar entre as palavras. Mas no afrouxava a presso na mo de 
Kezia. Passaram-se alguns minutos at

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chegarem defronte  casa de Kezia e, solidrio, o porteiro ajudou Kezia a levar Tiffany at o elevador, onde o ascensorista ajudou-a a entrar. O apartamento estava 
vazio. Luke estava fora e no era dia de faxineira. Kezia apreciou a solido quando levou a amiga para seu quarto de dormir. No queria dar explicaes a Luke, mesmo 
no estado em que Tiffany se encontrava. Tivera uma puta sorte em traz-la, pois no podia pensar em nenhum outro lugar.

Tiffany sentou-se sonolenta na beira da cama e olhou em volta.

Onde est o tio Kee?

Seu pai outra vez... Meu Deus.

Ele saiu, Tiff. Por que no se deita enquanto telefono para sua casa e digo que voc ir mais tarde?

No!... Diga-lhes... Diga... Diga a ela que v para o inferno! Tiffany comeou a soluar e todo o corpo se sacudiu da cabea aos ps, violentamente. Kezia sentiu 
um frio arrepio correr-lhe pela espinha com as palavras e o tom da voz... alguma coisa... tinha tocado numa corda de sua memria e subitamente ficou assustada. Tiffany, 
agora, olhava para ela com olhos arregalados, sacudindo a cabea. As lgrimas brotando, escorrendo pelas faces. Kezia ficou de p junto ao telefone, olhando para 
a amiga, querendo ajud-la, mas receando chegar perto. Alguma coisa dentro de si tinha virado.

No deveria contar-me alguma coisa? As duas mulheres ficaram assim durante um momento, com Tiffany lentamente sacudindo a cabea.

No... divrcio...

Bill? Kezia olhou para ela perplexa. Tiffany concordou com a cabea.

Bill pediu divrcio?

Ela fez que sim com a cabea e depois fez que no. Ento respirou fundo.

A me Benjamin... Ela telefonou ontem de noite... depois do jantar dos Lombards. Chamou-me de uma... uma... bbada... uma alcolatra... uma... as crianas, e fazer 
Bill... fazer Bill... Arquejava, engolindo mais soluos, e ento teve breves vmitos secos.

Fazer Bill se divorciar de voc?

Tiffany arquejou de novo e assentiu, enquanto Kezia continuava a olh-la, ainda temendo aproximar-se.

Mas ela no pode "fazer" Bill se divorciar de voc, pelo amor de Deus. Ele  um homem adulto.

Mas Tiffany sacudiu a cabea e olhou para cima, com olhos vazios e inchados.

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A confiana. A grande confiana. A vida inteira dele... depende... depende da confiana. E as crianas... a confiana delas... Ele.. Ela podia... ele divorciaria.

No, ele no faria. Ele te ama. Voc  a mulher dele.

Ela  a me dele.

E da, porra? Seja razovel Tiffany. Ele no vai se divorciar de voc... Mas subitamente Kezia se perguntou. Ele divorciaria? O que seria se o grosso da sua fortuna 
dependesse disso? A que ponto ele gostava de Tiffany? O suficiente para sacrificar a riqueza? Quando voltou a observar Tiffany viu que ela estava certa. A me Benjamin 
tinha a faca e o queijo na mo. E o que aconteceria s crianas? Viu a resposta nos olhos de Tiffany.

Ela... ela... eles... Tiffany estava atormentada por novos soluos e agarrou a coberta da cama por baixo de si, como se lutasse para terminar. Ela.,. eles. Eles 
foram embora na noite passada depois... do jantar dos Lombards... e... Bill... Bill... Em Bruxelas... Ela disse... eu... Oh, meu Deus, algum, me ajude por favor...

Era um lamento de morte e Kezia se viu tremendo do outro lado do quarto e lentamente comeou a andar na direo da amiga. Mas era como se estivesse ouvindo de novo... 
ouvindo... as coisas comearam a voltar a ela. Havia lgrimas agora na sua prpria face, e havia aquela terrvel compulso de esbofetear a moa sentada na sua cama... 
Uma compulso de varr-la dali, de sacudi-la, de... Oh, meu Deus, no...

Kezia estava de p diante de Tiffany e as palavras pareciam explodir atravs da sua alma, como se fossem de outra pessoa, urradas para um fantasma h muito desaparecido.

Por que  que voc tinha de ser uma fodida de uma bbada, porra... por qu... por qu? Deixou-se cair na cama ao lado de Tiffany, e ento cada uma agarrou-se  outra, 
enquanto choravam. Parecia que estavam chorando h anos e desta vez a impresso era a de que Tiffany  quem a consolava. Havia uma intemporalidade nos braos cobertos 
de mink preto. Eram braos que tinham abraado Kezia antes. Braos de quem tinha ouvido essas palavras antes, vinte anos antes. Por qu?

Meu Deus... Desculpe-me Tiff. Voc... trouxe de volta uma coisa to dolorosa para mim... Levantou os olhos para sua amiga concordando cansadamente, parecendo mais 
sbria do que h uma hora antes. Talvez dias.

Eu sei. Desculpe, eu sou um baixo-astral s. As lgrimas continuaram a brotar dos olhos dela mas a voz soava quase normal.

No, no . E eu estou to triste a respeito das crianas e pela cagada que a sra. Benjamin fez. O que voc vai fazer?

205
Tiffany encolheu os ombros, olhando para as mos.

Ser que voc no pode lutar? Mas ambas sabiam que no era possvel. A menos que ela mudasse radicalmente de um dia para o outro. E se voc fosse para uma clnica?

Sim, e quando eu sasse ela teria o domnio das crianas, independente de eu estar curada ou no. Ela se apoderou de mim, Kezia. Ela se apoderou da minha alma... 
do meu corao... meu... Fechou os olhos de novo, com uma expresso de sofrimento intolervel... Kezia tornou a pr os braos em volta da amiga. Parecia to magra 
e frgil, mesmo sob o espesso casaco de peles. Quase no se podia dizer nada. Era como se Tiffany j tivesse perdido. E ela sabia disso.

Por que voc no se deita e tenta dormir um pouco?

E depois? Seus olhos pareciam assombrados.

Depois voc toma um banho e come alguma coisa, e eu levo-a para casa.

E depois? No havia nada que Kezia pudesse dizer. Sabia o que a amiga queria dizer. Tiffany levantou-se lentamente e dirigiu-se cambaleante para a janela. Acho que 
j  hora de eu ir para casa.

Parecia estar olhando para muito alm, para muito longe. E Kezia censurou-se silenciosamente pela onda de alvio que sentiu. Queria Tiffany fora da sua casa. Antes 
que Luke voltasse, antes que ela desmoronasse de novo, antes que dissesse alguma coisa que lhe recordasse o instante de horror; queria que a outra fosse embora. 
Tiffany a fazia insuportavelmente nervosa. Ela a assustava. Era um fantasma vivo. A reencarnao de Liane Holmes Aubrey Saint Martin. Sua me... a bbada... Ela 
no fez por menos.

Voc quer que eu a leve at em casa? Esperava que a amiga dissesse no.

Tiffany desviou o olhar da janela com um sorriso gentil e calmamente sacudiu a cabea.

No, eu tenho que ir sozinha. Saiu do quarto, passou pela sala de visitas e parou na porta da frente, olhando para trs, para Kezia que se balanava insegura na 
porta do quarto. Kezia no estava certa se deveria deix-la ir sozinha, mas era o que ela queria. S queria que a amiga fosse para casa. Fosse embora. Olharam-se 
um momento e Tiffany levantou a mo numa saudao militar, puxou seu casaco mais justo ao corpo e disse "Vejo-a logo", que nem nos tempos de escola. "At mais" e 
foi-se embora. A porta fechou-se suavemente e um momento depois Kezia ouviu o elevador lev-la para baixo. Sabia que a amiga no tinha dinheiro para ir para casa, 
mas sabia tambm que o porteiro da casa de Tiffany pagaria o txi, os muito ricos podem viajar quase para

206
qualquer lugar com as mos vazias. Todo mundo os conhece. Os porteiros ficam contentes de pagar pelos seus txis. Dobram seu dinheiro em gorjetas. Kezia sabia que 
Tiffany estava em segurana. E pelo menos estava fora de sua casa. Havia um odor pesado deixado no ar, um cheiro de perfume misturado com suor e vmito.

Kezia ficou na janela por bastante tempo pensando na amiga e na sua me, amando e detestando ambas. Depois de algum tempo, as duas pareciam se misturar numa s. 
Eram to parecidas, to... to... Foi preciso um banho quente demorado e um soninho para Kezia se sentir humana outra vez. A excitao e a liberdade da manh, de 
se ver livre daquela droga de coluna fora manchada pela agonia de ver Tiffany esparramada na rua s patas do cavalo, injuriada pelo condutor do tlburi e chorando, 
vagando perdida e confusa... sacaneada pela sogra... roubada dos seus filhos com um marido que no ligava. Porra, ele provavelmente deixaria sua me convenc-lo 
do divrcio. E no seria preciso muito tempo de conversa. Essa ideia fez o estmago de Kezia revirar outra vez e, quando por fim se deitou para um cochilo, dormiu 
mal, mas pelo menos quando acordou as coisas pareceram melhores outra vez. Muito melhores. Ela levantou os olhos para ver Luke de p na beira da cama. Olhou de relance 
para o relgio de cabeceira. Era muito mais tarde do que ela pensava.

Oi! bunda-mole. O que  que voc fez? Dormiu o dia inteiro? Sorriu para ele um momento e depois ficou sria, quando se sentou e abriu os braos. Lucas inclinou-se 
para beij-la e ela esfregou o nariz no pescoo dele.

Tive um dia duro.

Um contrato?

No, uma amiga. Ela no queria dizer mais nada. Voc quer um drinque? Vou fazer ch, estou gelada. Estremeceu ligeiramente e Luke olhou para a janela e o cu noturno 
alm.

No surpreende, com a janela aberta desse jeito. Abrira tudo para afastar o cheiro. Voc quer me fazer um caf, baby!

Certamente. Trocaram um beijo fortuito e um sorriso, e ela pegou o jornal aos ps da cama, onde ele tinha deixado quando se inclinara para beij-la quando chegara.

Essa moa no jornal  alguma pessoa que voc conhece?

Quem? Estava andando descala na sala de estar, bocejando.

A moa da sociedade na primeira pgina.

Vou ver. Acendeu a luz da cozinha e olhou para o jornal em suas mos. A cozinha girou em torno dela quando viu. ... ... eu... meu Deus, Lucas, me ajude... Escorregou 
lentamente ao lado da porta

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fitando a fotografia de Tiffany Benjamin. Pulara da janela do seu apartamento pouco depois das duas. "Vejo-a logo... vejo-a logo". Subitamente as palavras soaram 
nos seus ouvidos. "Vejo-a"... Com essa pequena saudao que ela fazia durante todo o perodo da escola. Kezia mal sentiu os braos de Lucas levando-a para o sof 
para se sentar.

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Captulo 21

Voc quer que eu a acompanhe? Kezia sacudiu a cabea enquanto fechava o zper do vestido preto e enfiava os sapatos pretos de crocodilo que comprara no vero anterior 
em Madri.

No, amor, obrigada, estou bem.

Est mesmo?

Sorriu para ele e ps o chapu de mink.

Juro.

Vou dizer uma coisa, voc est elegante pra cacete. Olhou para Kezia apreciativamente e ela sorriu-lhe.

No estou certa de estar como devia. Sabia que estava muito bem-arrumada. Estava em dvida se devia usar seu casaco de mink ou o casaco preto de Saint Laurent. Decidiu-se 
pelo preto.

Voc parece muito bem. E oua, lady, se a coisa for pesada demais para voc, d o fora, certo?

Vou ver.

No foi isso o que eu disse. Foi at o espelho e puxou-a para olh-la de frente. Ainda no estava satisfeito com o olhar dela...

Se ficar muito pesado voc vem para casa. Ou isso ou eu vou com voc. Sabia que essa possibilidade era fora de questo. O funeral de Tiffany ia ser um dos "eventos" 
da temporada. Mas queria saber se Kezia estava consciente da situao. No era culpa dela se Tiffany se suicidara. Ela no tinha matado Tiffany. No tinha matado 
a me. Tinha feito o melhor. Eles tinham falado e falado e falado disso e ele queria estar certo de que ela no teria uma recada agora. Era um azar ter acontecido, 
mas no era culpa dela. Kezia insinuou-se nos braos dele calmamente e agarrou-se a ele mais apertado do que de costume.

Estou contente que voc esteja aqui, Lucas.

Eu tambm. Agora posso contar com a sua promessa? Ela



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assentiu e levantou o rosto para receber um beijo, que ele deu com grande violncia.

Meu Deus, nesse ritmo, eu nunca sairei daqui.

Isso me conviria muito. Passou a mo dentro do decote em V do vestido e ela recuou, com um riso.

Lucas!

s suas ordens, madame.

Voc  terrvel.

Terrivelmente teimoso. Fitou-a com um sorriso enquanto ela prendia nas orelhas simples brincos de prolas. Ele estava sendo irreverente para aliviar a tenso. Tentou 
ter uma aparncia casual quando se sentou para observ-la passar o batom e dar um ltimo toque de perfume. Edward vai com voc? Ela sacudiu a cabea e pegou a bolsa 
de crocodilo negro e luvas curtas brancas de pelica fina. A echarpe de seda espessa preta e branca de Dior dava o nico ponto claro  sua toalete.

Eu disse a Edward que o encontraria l. E pare de se preocupar comigo. Sou uma mulher adulta, estou bem e gosto de voc e voc cuida de mim melhor do que qualquer 
outro neste mundo. Olhou para ele com um sorriso que parecia mais com a Kezia que podia tomar conta de si mesma e ele comeou a se sentir melhor.

Meu Deus, como voc parece bem. Se no estivesse com pressa...

Lucas, voc no  de nada. Virara-se e atravessara a sala de visitas para pegar o casaco quando ele veio silenciosamente por trs e levantou-a do cho.

De nada, eu? Oua aqui sua putinha.

Lucas! Lucas! Porra. Ponha-me no cho, Lucas! Ele a fez girar de volta para o cho e ela caiu rindo sem respirao nos braos dele, que sorria satisfeito. Voc  
o pior, mais miservel, impossvel... Ele encontrou os seus lbios com os dela e depois de um momento ela empurrou-o suavemente, com um olhar ao mesmo tempo feliz 
e triste. Luke... eu tenho que ir.

Eu sei. Ele tambm estava srio agora e ajudou-a a vestir o casaco. No d muita importncia. Ela concordou, beijou-o e foi-se embora.

A igreja j estava cheia quando chegou, e Edward esperava-a discretamente. Ela se juntou a ele insinuando a mo no seu brao.

Voc est linda. A voz dele era um sussurro e ela fez um gesto de acordo, quando ento ele apertou o brao dela. Foram conduzidos pela nave principal e Kezia tentou 
no ver o caixo envolto numa coberta de rosas brancas. A me Benjamin estava sentada piedosamente

210
na primeira fila, com seu filho vivo e seus dois netos. Kezia sentiu a respirao presa na garganta quando os viu, e a vontade de gritar "Assassina" para a cabea 
curvada da sogra da sua amiga. "Assassina, voc a matou com as suas ameaas de divrcio e tomar as crianas... voc...
Muito obrigado. Ela ouviu a voz baixa de Edward quando o mestre-de-cerimnias mostrou um banco no meio. Whit estava trs bancos  frente.

Parecia mais magro e sutilmente mais efeminado, com um super bem-talhado terno de Cardin, que pendia na cintura e parecia cair justo demais nas costas. Ela suspeitou 
que a roupa tivesse sido presente do seu amigo. No era a espcie de coisa que Whit tivesse comprado.

Marina tambm estava l com Halpern, parecendo embaraosamente feliz, apesar da situao. Eles se casariam no Ano-Novo em Palm Beach. Marina dava a impresso de 
que tinha resolvido os seus problemas.

Kezia achou difcil no surpreender o olho de Martin Hallam procurando as pessoas, boatos e histrias. Mas ela j no podia se esconder por trs dele. Agora ele 
estava morto tambm. E ela era apenas Kezia Saint Martin velando sua amiga. As lgrimas corriam livremente pelo seu rosto quando carregaram o caixo pela nave para 
a limusine gren que esperava do lado de fora. Dois guardas tinham sido encarregados de organizar o trfego em torno da linha sinuosa das limusines, nenhuma delas 
alugada. E, como seria de esperar, um exrcito de jornalistas esperava pelos presentes  medida que deixavam a igreja.

Era difcil acreditar que tudo estava acabado. Elas tinham se divertido tanto na escola, tinham escrito tanto uma para a outra das respectivas faculdades... Kezia 
tinha sido dama de honra do casamento de Tiffany com Bill, tinha rido dela quando estava grvida. Quando comeara o fim? Quando a bebida a tornara uma bbada? Teria 
sido depois do primeiro beb ou do segundo? Teria sido mais tarde? Teria sido antes? A coisa terrvel era que agora parecia que Tiff tinha sido sempre desse jeito, 
sempre cambaleante, vaga, deixando cair muitos "divino" como se fossem bolinhas de coco de coelho em toda a parte onde ela ia. Essa Tiffany surgia na mente, a bbada, 
vomitando, a confusa Tiffany... no a menina engraada da escola... que fizera uma saudao de brincadeira no ltimo dia... "vejo-a logo, vejo-a logo, vejo-a logo".

Kezia viu-se olhando estarrecida as costas das pessoas e Edward guiando-a lentamente para fora do banco. Era uma longa espera na fila dos cumprimentos com diversos 
parentes. Bill dava a impresso oficiosa e solene distribuindo pequenos sorrisos e cumprimentos de compreenso como um agente funerrio em vez de marido. As crianas 
pareciam

211
confusas. Em toda a parte as pessoas olhavam em volta para conferir quem estava presente e abanando e sacudindo as cabeas pensando em Tiffany... Tiffany bbada... 
Tiffany embriagada, Tiffany a... amiga. E tudo foi to parecido demais com o funeral da sua me que se tornou insuportvel. No s para ela, mas para Edward tambm. 
Eleestavadesolado quando afinal deixaram a igreja. Kezia respirou, deu pancadinhas na mo dele e olhou para cima, para o cu.

Edward, quando eu morrer quero que voc cuide de me jogar no rio Hudson ou outra coisa igualmente simples e agradvel. Se voc fizer uma cerimnia como essa para 
mim eu vou persegui-lo como fantasma pelo resto da vida. Ela no estava brincando inteiramente. Mas Edward olhava para ela com uma expresso infeliz.

Espero no estar por perto para me preocupar com isso. Voc quer ir ao cemitrio? Ela hesitou por um momento e depois sacudiu a cabea lembrando-se da promessa feita 
a Luke. J fora bastante ruim.

No, eu no quero. Voc vai? Ele assentiu dolorosamente.

Por qu? Porque ele tinha que ir. Ela sabia a resposta muito bem. Era o que matava as pessoas como Tiffany. Ter de fazer.

Realmente, Kezia, uma pessoa tem... Ela no esperou ouvir o final da frase. Simplesmente inclinou-se, beijou-lhe o rosto e ps-se a descer os degraus da escada.

Eu sei, Edward. Tome cuidado.

Ele queria perguntar o que ela faria mais tarde, mas no teve a oportunidade e no queria se impor. Era uma coisa que ele nunca fazia. No lhe parecia correto perturb-la. 
Ela tinha sua prpria vida, mas fora um dia terrvel. Um dia ruim para ele tambm. Tudo recordava-lhe Liane. Aquele dia horroroso, insuportvel, quando... Ele observava 
Kezia insinuarse to facilmente num txi e enxugar uma lgrima rapidamente da face, Ele sorria um sorriso apropriado quando ela olhou-o pela janela de trs.

Como foi? Luke a estava esperando com um ch quente.

Horrvel. Muito obrigada, querido. Sorveu um gole de ch antes de tirar o casaco Saint Laurent preto e com sua mo livre puxou o chapu de mink preto da cabea. 
Foi tenebroso. A sogra dela teve o mau gosto de levar as crianas. Mas Kezia tinha ido ao funeral da sua me tambm. Talvez essa fosse a maneira certa. O mais doloroso 
possvel para fazer as coisas parecerem reais.

Voc quer sair para jantar, ou encomendar alguma coisa? Ela encolheu os ombros, realmente no fazendo questo. Alguma

coisa a aborrecia. Tudo aborrecia.

212
Baby, o que est errado? Isso lhe desgostou tanto? Eu lhe disse... Olhou para ela triste.

Eu sei, eu sei. Mas isso perturba... e talvez outra coisa esteja me aborrecendo. No sei o que ; talvez por ter visto todos esses fsseis que ainda pensam que me 
possuem. Talvez sejam desgostos crescentes. Depois eu melhoro. Provavelmente devo estar deprimida por causa de Tiffany.

Voc tem certeza de que no  outra coisa? Ele estava mais perturbado do que podia supor.

Eu j disse, eu no sei. Mas no  nada de importante. Houve uma poro de mudanas ultimamente... deixar a coluna... voc sabe. J  tempo de ficar adulta, e nunca 
 fcil. Ela tentou sorrir mas os olhos no correspondiam.

Kezia, eu estou fazendo voc infeliz?

Oh, querido, no! Ficou horrorizada, que pensamento ridculo. E, porra, o que o tinha preocupado a tarde toda, ela se perguntava. Ele parecia fodido.

Voc tem certeza?

Naturalmente que tenho. Sou positiva, Lucas. Srio. Inclinou-se sobre ele para beij-lo e viu tristeza nos seus olhos. Talvez fosse pena dela, mas o que viu sensibilizou-a 
profundamente.

Voc est triste por ter abandonado a coluna?

No, Estou contente. Honestamente, contente. S me sinto estranha quando as coisas mudam. Faz sentir insegurana. A mim pelo menos.

Sim. Ele assentiu e ficou calado durante algum tempo, enquanto ela terminava o ch. Agora com seu casaco jogado numa cadeira, o vestido preto fazia-a parecer mais 
sria. Ele a observava e levou muito tempo at que ele falasse outra vez. Havia um tom estranho na sua voz quando falou. As brincadeiras tinham desaparecido.

Kezia, h uma coisa que tenho que contar a voc.

Ela levantou os olhos cheios de inocncia, tentando sorrir e brincou.

Voc  secretamente casado e tem quinze filhos? Falou com a confiana de uma mulher que sabe que no h segredos... s um.

No, voc, sua bandida. No sou casado. Mas h uma outra coisa.

D-me uma dica. Ela no parecia preocupada. No podia ser importante ou ele no levantaria o assunto naquele instante. Ele sabia que ela estava perturbada com Tittany.

Baby. No sei como dizer, exatamente. Mas eu tenho que dizer. No posso esperar mais. Estou sendo chamado para uma audincia de revogao.

213
As palavras caram na sala como uma bomba. Tudo se espatifou e ento o tempo parou.

O qu? Ela no podia ter ouvido corretamente... no podia. Estava sonhando. Era um dos seus pesadelos e ela tinha ouvido por engano.

Uma audincia. Fui chamado para uma audincia a respeito da minha liberdade condicional. Eles querem revog-la por conspirao para provocar distrbios nas prises. 
Em outras palavras, agitao.

Meu Deus, Lucas... diz que voc est brincando. Fechou os olhos e sentou-se muito quieta, como se estivesse esperando, mas ele podia ver as mos dela crispadas, 
tremendo.

No, baby, no estou brincando, desejaria que fosse mas no estou brincando. Ele aproximou-se e tomou-lhe as pequenas mos nas dele, os olhos dela abriram-se lentamente 
afogados em lgrimas.

H quanto tempo voc sabe?

Houve uma ameaa a princpio. Desde antes que eu encontrasse com voc, de fato. Mas nunca acreditei que pudesse acontecer. Tive a confirmao da audincia hoje. 
Acho que foi a greve trabalhista em San Quentin o estopim para isso. Eles ficaram putos da vida para me pegar desta vez. Isso, e matarem Morrissey.

Cristo, o que faremos? O rosto dela parecia acabrunhado, enquanto as lgrimas fluam em silncio. Ser que eles podem provar que voc esteve envolvido nessa greve?

Ele sacudiu a cabea em resposta, mas no parecia convencido.

No, esta  a razo de eles estarem to putos. Agora vo tentar me apanhar sob qualquer pretexto. Mas ns vamos fazer o maior esforo possvel. Temos um bom advogado. 
Temos sorte. H alguns anos no se podia ter um advogado em audincias para revogar a liberdade condicional. Era apenas voc e o Conselho. Ento anime-se, as coisas 
poderiam ser piores. Ns temos um bom advogado e temos um ao outro. E eles no podem objetar contra nosso estilo de vida,  to limpo como eles vem. Temos de fazer 
o que se faz nessas ocasies. Esperaremos at a audincia e ento armaremos uma boa briga.

Mas sabiam que a chave da questo no era lutar nem seu estilo de vida. Ele era acusado de agitao. E tudo era verdade.

Vamos, minha santa, seja forte. Inclinou-se para beij-la, tomando-a nos braos, mas o corpo dela estava rgido e no cedia, seu rosto se contorcia enquanto as lgrimas 
continuavam a fluir. Ele viu os joelhos dela tremerem quando olhou para baixo. Ele sentia como se a tivesse matado. E de certa maneira estava certo.

Quando  a audincia? Ela estava na expectativa de que fosse no dia seguinte.

214


Daqui a mais de seis semanas. Oito de janeiro, em San Francisco.

E ento?

O que voc quer dizer com "ento?" Estava sentada to quieta que o assustou.

E se eles fazem voc voltar?

Isso no vai acontecer. A voz dele era profunda e resignada.

Mas se isso acontecer, porra? Seu grito de dor e medo golpeou o silncio.

Kezia, no vai acontecer. Baixou a voz, procurando acalm-la enquanto lutava contra o seu prprio desespero. Isto no era, de modo algum, o que tinha planejado. 
Mas qual era a sua expectativa? Ele devia saber isso desde o comeo. Ele a tinha levado gentilmente da casa dela para a dele, e agora estava ali sentado dizendo 
que a casa deles podia pegar fogo. O olhar dela fazia-a parecer uma rf outra vez. E a dor dela era obra dele. Sentia o peso disso como um saco de cimento sobre 
seu corao.

Querida, no vai acontecer de repente. E se for,  apenas uma condio, "se", ento vamos viver com isso, ns dois temos tutano para aguentar. Se tivermos que passar 
por isso... Ele sabia que tinha, mas e ela? No da maneira que ela estava agora.

Lucas... no! A voz dela era um sopro apenas audvel.

Baby, sinto muito... No havia mais nada que pudesse dizer. O que temera por tanto tempo, afinal, ia acontecer. Engraado 

que antes de Kezia ele no temera da mesma maneira. No temera absolutamente nada. Considerava essa hiptese um preo potencial a pagar, uma inconvenincia possvel. 
Ele nada tinha a perder... E agora tinha tudo... e tudo estava na reta. E ele tinha que pagar o preo. Mas tinha que contar a ela. Alejandro tinha lhe dito h semanas 
e ele demorara, fora evasivo e mentira a si mesmo. No havia mentira possvel agora. A notificao estava numa bola amarfanhada na escrivaninha. Tinham lhe tirado 
o caso das mos... e agora veja-se a confuso... Levantou o queixo dela gentilmente com a mo e buscou seus lbios ternamente. Era tudo o que lhe podia dar, o que 
sentia, o que ele era, como a amava. Eles ainda tinham seis semanas. Se ningum o matasse antes.

215
Captulo 22

No dia de Ao de Graas, eles comeram sanduches de peru no quarto do hotel de Chicago. A revogao pendia sobre suas cabeas, mas tinham batalhado duro para ignor-la. 
Raramente discutiam sobre isso, a no ser uma vez ou outra, tarde da noite. Tinham seis semanas at a audincia, e Kezia estava determinada a no deixar a ameaa 
arruinar suas vidas. Ela lutava com uma determinao quase insuportvel. Lucas sabia o que lhe estava acontecendo mas era muito pouco o que podia fazer. Ele no 
podia protelar a audincia. Os seus prprios pesadelos estavam de volta e ele no gostava da aparncia de Kezia. Ela comeara a perder peso mas continuava em forma. 
Fazia as brincadeiras de sempre, divertiam-se bastante. s vezes faziam amor duas a trs vezes por dia, s vezes quatro, como se quisessem estocar o que poderiam 
perder. Seis semanas eram to pouco. Quando voltaram para Nova York s lhes restavam cinco.

Kezia, voc no parece estar bem. Voc no est bem de todo.

Edward, meu querido, voc est me deixando louca.

Quero saber o que est acontecendo. Os garons passavam e serviam mais champanha Louis Roederer.

Voc est sondando?

Sim, estou. Ele parecia amargurado e velho e o mesmo ocorria com Kezia.

Est bem, estou apaixonada.

Presumi que fosse isso. E ele  casado?

Por que voc sempre pensa que os homens com quem saio so casados? Por que eu sou discreta? Inferno, tenho direito de ser discreta, aprendi isso com os anos.

Mas voc no tem o direito de se entregar  pura loucura.

No, s tenho direito  desgraa, querido, e a ficar na merda.

216
No  verdade, Edward? Claro. Ou  um direito ao dever e ao sofrimento? Loucura, neste caso, querido Edward,  um homem lindo que eu adoro. Estivemos mais ou menos 
morando e viajando juntos por mais de dois meses. E exatamente antes do dia de Ao de Graas descobrimos... que... Sua voz se prendeu e seu corao balanou quando 
ela pensou no que estava fazendo. Ns descobrimos que ele estava doente. Terrivelmente doente.

Edward franziu o cenho.

Que espcie de doena?

No estamos certos. Ela agora j dominava a situao. Era mais fcil do que a verdade e tiraria o peso dele de suas costas por um tempo. Esto tentando um tratamento 
e atualmente ele tem uma chance de 50 por cento de vida. Essa a razo por que eu no pareo bem. Contente? A voz dela estava cheia de amargura, seus olhos embaciados 
de lgrimas.

Kezia, lamento. Ele ... ... algum que eu conhea?

No, nada na sua esfera, querido. Quase teve vontade de rir.

No, voc no o conhece. Encontramo-nos em Chicago.

Eu imaginava. Ele  jovem?

Bastante moo, mas mais velho do que eu. Estava calma agora. De certa maneira, tinha-lhe dito a verdade. Mandar Lucas de volta  priso seria conden-lo  morte. 
Homens demais odiavam-no ou amavam-no. Ele era conhecido demais, tinha agitado demais. San Quentin o mataria. Algum o mataria. Se no fosse um interno, um guarda 
o faria.

No sei o que dizer. Mas seu rosto dizia o que suas palavras no podiam exprimir. Havia um fantasma nos olhos dele. O fantasma de Liane Saint Martin. Esse homem... 
vai... viria... para Nova York?

Buscava hesitantemente um critrio a que Kezia no reagisse furiosa, mas no havia nenhum. Em que escola ele esteve? O que faz? Onde vive? Quem  ele? Kezia teria 
explodido a qualquer dessas perguntas, mas ele queria saber. Devia isso a ela... a ele prprio.

Sim, ele vem a Nova York. Esteve aqui comigo

Ele fica no seu apartamento? Subitamente lembrou-se de que ela dissera que tinham morado juntos. Meu Deus, como ela pde?

Sim, no meu apartamento

Kezia... ele ... ele .. Ele queria saber se era algum decente, respeitvel, no um caador de fortunas, ou... ou "tutor", mas simplesmente no podia perguntar 
e ela no deixaria. Edward sentiu que estava  beira de perd-la para sempre. Kezia...

Ela olhou-o com lgrimas nas faces e, em silncio, sacudiu a cabea.

217
Edward... eu... eu no posso fazer isso hoje. Lamento. Beijou-o gentilmente na face, apanhou sua bolsa e se ps de p. Ele

no a impediu. No podia. Apenas observou sua retirada em direo  porta e apertou as mos fortemente durante um momento, antes de fazer sinal para pedir a conta.

No mais amargo frio da tarde de inverno ela foi de metro para o Harlem. Alejandro era o nico que poderia ajud-la. Ela estava comeando a entrar em pnico. Tinha 
que v-lo.

Andou rapidamente do metro para o Centro, esquecida da impresso que dava com seu casaco longo, vermelho, de Paris e o chapu completamente branco de mink. Pouco 
lhe importava o que parecia. Nas ruas em que andava ziguezagueando entre latas de lixo e crianas correndo, olhavam para ela como se fosse uma estranha apario. 
O vento era frio e havia neve no ar. Ningum tinha tempo de se preocupar. Deixavam-na de lado.

Havia uma moa no gabinete de Alejandro quando Kezia chegou. Eles estavam rindo e nem notaram Kezia parada na entrada da porta. Ela tinha batido mas as gargalhadas 
abafaram o som.

Al, voc est ocupado? Era raro cham-lo pelo apelido que Luke costumava chamar.

Eu... no... Pilar, voc me permite? A moa pulou da cadeira e passou raspando por Kezia, com um olhar de admirao nos olhos. Kezia parecia uma viso acabando de 
sair da Vogue, ou algum de um filme.

Desculpe-me aparecer dessa maneira. Os olhos dela pareciam agonizar debaixo da pele branca

Est bem. Eu estava... Kezia?

Ela desmanchava-se em lgrimas diante dele, arrasada, estendendo os braos, sua bolsa cada ao lado, no cho, a ltima capacidade de controle dissolvida.

Kezia... pobrecita... baby.. No se desespere...

Oh, meu Deus, Alejandro... eu no aguento! Ela se deixou cair nos braos dele e escondeu o rosto no seu ombro. Que  que podemos fazer? Eles vo peg-lo de volta, 
eu sei. Fungou e se afastou para ver os olhos dele. Eles vo, no  verdade?

Eles podem.

- Voc tambm acha, no ? No sei.

Sim, voc acha, droga. Diga-me Algum tem de me dizer a verdade!

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Eu no sei a verdade, dane-se voc.

Ela gritava e ele gritava mais alto ainda. As paredes pareciam ecoar com o que ambos tinham manifestado: medo, raiva e frustrao.

Sim, talvez eles o peguem de volta. Mas pelo amor de Deus, no desanime at que eles digam. O que voc vai fazer? Se matar? Desistir dele? Se destruir? Espere at 
ouvir, pelo amor de Deus, ento pense. O quarto enchera-se com sua voz e ela pde ouvir as lgrimas surgindo nele tambm. Ele a fizera voltar a controlar os sentidos.

Talvez voc tenha razo, eu apenas estou me cagando de medo. Alejandro, no sei o que fazer para aguentar mais... Fiquei em pnico com a bile subindo no meu estmago.

No h nada que voc possa fazer, a no ser tentar ser razovel e se controlar. Tente no entrar em pnico.

O que aconteceria se ns fugssemos? Voc acha que eles o encontrariam.

Sim, e ento o matariam. Alm do mais, ele nunca faria isso.

Eu sei. Ele aproximou-se dela de novo e segurou-a nos braos. Kezia ainda estava com o casaco e o chapu de peles e o rosto riscado de maquilagem e lgrimas. O pior 
disso  que eu no sei o que fazer para ajud-lo, o que fazer para facilitar as coisas. Ele est sob um estresse danado.

Voc no pode mudar. Tudo que pode fazer  estar do lado dele. E tomar cuidado consigo mesma. No vai ajudar nada se voc desmoronar. Lembre-se disso: voc no pode 
abandonar sua vida inteira por ele, ou sua sanidade, e Kezia... no desista, por enquanto. Pelo menos at que eles dem a ltima palavra, se eles a derem.

Sim. Ela fez-lhe um gesto de assentimento e inclinou-se para trs, recostando-se. Claro.

Eu no imaginava que voc fosse to frouxa.

No sou.

Ento no aja como uma. Junte seus pedaos, mulher. Voc tem pela frente um caminho ngreme, mas ningum disse que era o fim do caminho. No  para Luke.

Est bem, sr. Bond boca, entendi o seu ponto de vista. Tentou uma amostra de sorriso.

Ento comece a agir como se no fosse desistir. Esse grandalho te ama desesperadamente. Foi at ela e abraou-a. E eu te amo tambm, criana... eu tambm. As lgrimas, 
recomearam a escorrer dos olhos dela e Kezia balanou a cabea em negativa.

No seja bom para mim, seno eu vou chorar de novo. Riu em meio s lgrimas e ele acariciou-lhe os cabelos.

219
Voc est muito elegante, lady. Onde  que esteve? Compras? S agora ele notara.

No, fui almoar com um amigo.

No deve ter sido sanduche e Coca, pelo aspecto.

Alejandro, voc  louco. Compartilharam um momento de riso, e ela pegou o casaco atrs da porta.

Vou lev-la em casa.

At o Centro da cidade? No seja tolo! Mas ficou comovida pela ideia.

Trabalhei aqui o bastante para um dia inteiro. Quer fazer gazeta comigo? Parecia um adolescente quando fez o convite, os olhos danando, o sorriso de um garoto brincalho.

Falando a verdade, isso me parece muito bom.

Saram do Centro de braos dados, o casaco vermelho dela junto ao casaco caqui dele, com capuz de sobras do exrcito. Ele lhe deu um aperto e ela riu um riso sincero. 
Ela estava contente de ter vindo v-lo. Precisava dele diferentemente, mas quase tanto quanto de Luke.

Saram do metro na rua 86. Pararam num bar alemo para tomar uma xcara de chocolate quente com schlag, grandes nuvens de creme batido. Uma banda do tipo oom-pa-pa 
fazia o melhor que podia e l fora as luzes de Natal j brilhavam antecipadamente. Nada disseram sobre a revogao mas falaram de outros tempos. Natal, Califrnia, 
a famlia dele, o pai dela. Era engraado; ela pensara bastante no pai ultimamente e queria repartir isso com algum. Era to difcil falar com Luke agora... toda 
passagem da conversa levava-os de volta  confuso emocionalmente tensa da revogao.

Alguma coisa me diz que voc  muito parecida com seu pai, Kezia, e que ele no era um conformista tambm, se voc abrir um pouco o jogo.

Ela sorriu para o creme batido se derretendo no chocolate.

Ele no era, mas tinha uma maneira tima de mostrar tudo isso, a julgar pelo que me disseram e do que me lembro. Suspeito de que ele no era to compelido a fazer 
escolhas.

Eram outros tempos. Ele no tinha as mesmas escolhas. Isso devia ter alguma coisa a ver. Como  o seu tutor?

Edward? Ele  amvel. E slido at os ossos em cada coisa em que foi criado para ser. E acho que ele  solitrio como o inferno.

E apaixonado por voc.

No sei. Nunca pensei nisso. No acho que esteja.

Aposto que  engano seu. Ele sorriu e tomou um gole da bebida
220
doce, os lbios lambuzados de creme. Acho que h muita coisa que voc no v. Sobre si mesma e sobre o efeito que provoca nos outros. Voc  ingnua nesse sentido.

 mesmo? Sorriu para Alejandro. Era agradvel estar com ele. E ela precisava de algum com quem falar. Anos atrs, ela conversara assim com Edward mas no agora. 
De maneira estranha, Alejandro o estava substituindo. Era para Alejandro que ela se voltava quando no podia falar com Edward, ou mesmo Luke. Era Alejandro que lhe 
dava consolo e conselhos paternais. Ento lhe veio um pensamento engraado. Olhou para cima e riu. Desconfio que voc tambm esteja apaixonado por mim.

Quem sabe?

Seu louco! Ela sabia que ele no queria dizer isso, e se recostaram e ouviram o ritmo da msica fora de moda. O restaurante estava cheio, mas eles sentaram afastados 
do barulho e do movimento, to isolados como os velhos lendo os jornais sozinhos nas suas mesas.

O que  que vocs dois esto pretendendo fazer para o Natal?

No sei. Voc conhece Lucas, acho que ainda no decidiu. Ou se j decidiu nada me disse. Voc vai ficar aqui?

Vou. Eu queria ir para casa em Los Angeles, mas tenho muito que fazer no Centro e a viagem  dispendiosa. Existe uma instalao que eu quero conhecer em San Francisco. 
Talvez na prxima primavera.

Que espcie de instalao? Ela acendeu um cigarro e relaxou na sua cadeira. A tarde se transformara numa coisa deliciosa.

Eles chamam de comunidades teraputicas. As mesmas que as do Centro, com a diferena que os pacientes vivem dentro delas, o que lhes d uma chance muito maior de 
sucesso. Olhou para o relgio e ficou surpreso com a hora. Passava das cinco.

Voc quer vir jantar conosco? Ele sacudiu a cabea com pena.

No, vou deixar os dois pssaros apaixonados em paz. Alm disso, tenho "um artigo". Quero verificar mais de perto em casa. Ele riu maliciosamente.

Grande estrago no Harlem? Quem  ela?

Uma amiga de um amigo. Ela trabalha num Centro de Tratamento de dia e provavelmente tem tetas grandes, mau hlito e acne.

Voc tem alguma coisa contra tetas grandes? Ela sorriu.

No, s contra as outras duas coisas. Mas faz um gnero. Existem duas ou trs assim que trabalham no Centro. , eu sou esnobe. A respeito de mulheres. Fez sinal 
pedindo a conta.

Kezia riu para ele.,,,.

221
Como  que voc ainda no tem uma esposa? Nunca lhe tinham perguntado antes.

Porque eu sou muito feio, ou demasiado medocre. No estou bem certo por qual das duas coisas.

Merda, qual  a causa real?

Quem sabe, hija. Talvez o meu trabalho. Voc estava no caminho de volta quando... Luke e eu temos bastante em comum nesse sentido. As causas vm na frente.  difcil 
para uma mulher conviver com isso a menos que ela tenha passado pelo pior. De mais a mais, sou muito exigente.

Aposto que . E no meio disso, era provvel que estivesse a verdade. Porque ele, com toda a certeza, no era feio nem medocre. Ela achava-o estranhamente atraente 
e apreciava a relao que se estabelecera entre ambos. Ento o que vai fazer com essa lady hoje  noite?

Eu vou ver. Ele estava sutilmente se esquivando, mas Kezia mostrava-se curiosa.

Que idade ela tem?

Vinte e um, vinte e dois. Mais ou menos isso.

Eu j a detesto.

Voc devia ficar preocupada. Ele olhava para a pele de porcelana enquadrada pelo chapu de plo branco. Seus olhos sobressaam como duas safiras.

Sim. Mas eu estou completando os trinta.  uma boa diferena para vinte e dois.

E voc est bem melhor. Ela pensou sobre isso um momento e assentiu. Os vinte e dois dela no tinham tido muita emoo. Tinha comeado a ser interessante entretanto 
depois que se iniciara como escritora. Antes, fora uma merda. Insegura para onde ir, do que estava fazendo e de quem queria ser, ao mesmo tempo tendo que exibir 
uma aparncia inabalvel de segurana e poder.

Voc devia ter-me conhecido dez anos antes, Alejandro. Voc teria rido.

Voc acha que nessa idade eu era melhor?

Provavelmente. Voc era mais livre.

Talvez, mas ainda no suficientemente dono do meu nariz. Porra! H dez anos eu usava cabelo de marinheiro cimentado no lugar com leo para crianas. E eu apostaria 
que voc no estava usando cabelo  marinheira.

No, cabelo de pajem. E prolas. Eu era adorvel. A coisa mais quente do mercado. Venham e peguem-na, senhoras e senhores, uma herdeira intocada, no usada, quase 
perfeita. Ela anda, fala, canta e dana. D-lhe corda e ela toca Deus salve a Amrica na harpa.

222
Voc tocava harpa?

No, bobo, mas fazia tudo mais. Era absolutamente "maravilhosa", mas no era feliz.

Ento agora voc  feliz.  muita coisa para ficar grato.

Eu sou. Seus pensamentos voaram para Luke... e a audincia. Alejandro observou as transies nos seus olhos e se esforou para trazer de volta a conversa leve de 
antes.

Como aconteceu de voc no tocar harpa? As herdeiras so obrigatoriamente harpistas? Ele era todo inocncia.

No, so os anjos. So eles que tocam harpa.

Voc quer dizer que no so a mesma coisa? Ela jogou para trs a cabea e riu.

No, querido. Eles no so a mesma coisa. Mas eu toco piano.  um pr-requisito para as suas asas de herdeira. Umas poucas tocam violino, mas a maioria ataca o piano 
numa idade precoce e abandona mais ou menos aos doze. Chopin.

Eu ainda gostaria que voc tocasse harpa.

No cu, sr. Vidal! Ela sorriu e ele fingiu-se chocado

Kezia! E voc  uma herdeira? Que chocante. No... o qu?

Voc me ouviu, meu senhor. Agora vamos para casa. Lucas vai ficar preocupado.

Vestiram os casacos. Ele deixou a gorjeta sobre a mesa e saram para o ar frio, de braos dados. A tarde tinha sido bem vivida. Ela sentia-se recuperada.

Quando chegaram em casa, Lucas estava esperando na sala de estar, bourbon na mo e um sorriso no rosto.

Muito bem, o que estiveram fazendo? Ele gostava de ver os dois juntos, mas Kezia notou alguma coisa pinada nos olhos dele. Cimes?

Samos para tomar uma xcara de chocolate quente.

Uma histria provvel. Mas eu perdoo a vocs. Desta vez.

Muito generoso da sua parte querido. Kezia andou at perto dele e inclinou-se para beij-lo.

Ele tirou um charuto do bolso e fez sinal a Alejandro, enquanto passava o brao em torno da cintura dela.

Por que voc no ofereceu ao nosso amigo uma cerveja?

Provavelmente porque ele vomitaria depois de todo o chocolate quente que bebeu... com schlag Ela sorriu para Alejandro.

O que  isso? A voz de Luke soou inusitadamente elevada. Como se ele estivesse nervoso.

Creme batido.

223


Que nojo. D-lhe uma cerveja.

Lucas... De repente, ela se perguntou se ele tinha alguma coisa a dizer a Alejandro, ele parecia to estranho... e um pouco doente.

Vai logo.

Kezia olhou estranhamente e depois virou-se para Alejandro.

Voc quer uma cerveja?

O amigo abriu os dois braos e levantou os ombros.

No, mas com um camarada deste tamanho quem discute? Todos trs riram e Kezia desapareceu na cozinha.

Ela falou por sobre o ombro quando acendeu a luz.

Vou fazer caf para vocs. No posso suportar a ideia de cerveja depois de todo aquele chocolate gostoso.

 pra j! Alejandro parecia distrado quando respondeu e Kezia ficou imaginando o que estava acontecendo. Lucas dava a impresso de um menino. Ou a expresso de 
um homem com um segredo. Ela sorriu para si mesma imaginando se era alguma coisa a ver com ela. Talvez um presente, alguma coisa boba, uma sada, um jantar. Luke 
era assim mesmo. Ela no se permitiria imaginar se era alguma coisa com a audincia. No podia ser. Ele dava a impresso de estar muito contente com ele mesmo, e 
um pouco grogue.

Voltou para a sala, alguns minutos depois, com o caf. Duas xcaras. Luke olhou como se ele pudesse usar uma.

Olhe para isto, cara, ela quer que fiquemos sbrios. O tom

de Lucas era jovial, mas Alejandro no parecia precisar de sobriedade.
Parecia tenso e infeliz, como se alguma coisa drstica tivesse acontecido nos momentos em que ela estivera fora da sala. Kezia olhou-o de frente e depois para o 
rosto de Luke, e ento pousou as duas xcaras e sentou-se no sof.

OK queridinho, a brincadeira acabou. O que est acontecendo? Sua voz era leve, nervosa e fria, e suas mos comearam a tremer. Era alguma coisa a ver com a audincia. 
Afinal, no havia nada de engraado. Agora ela podia dizer. O que est errado?

Por que alguma coisa tem que estar errada?

Por uma razo ela desviou o olhar dele e desculpando-se para o amigo, se voc me permite virou-se de novo para Luke, porque voc est bbado, Lucas. Como aconteceu? 
No estou bbado. Ah est. E parece assustado. Ou puto. Ou algo parecido. E eu quero saber que porra  essa. Voc contou a Al, agora me conte.

O que lhe faz pensar que contei a Al alguma coisa? Ele estava visivelmente nervoso, e Kezia estava comeando a ficar com raiva.

224

Olhe aqui, no fode! Deixe de me enganar. Eu tenho exatamente o mesmo tempo para enfrentar toda essa bosta com voc. Agora conte-me o que aconteceu.

Oh, pelo amor de Deus, voc vai aguentar ouvir isso, Al? Olhou para os dois com um sorriso amarelo no rosto e cruzou uma perna sobre a outra, enquanto Alejandro 
parecia muito perturbado.

Kezia olhava de Lucas para ele.

OK Alejandro, voc vai me dizer o que est acontecendo? A voz dela se elevou a um nvel insuportvel, prximo da histeria. Mas Lucas irrompeu com um olhar de impacincia, 
levantando-se da cadeira e ficando instantaneamente plido quando ficou de p.

Aguenta firme, minha santa. Vou contar eu mesmo mas quando se virou para ela a sala rodopiou e ele caiu de joelhos. Alejandro precipitou-se para o lado dele e tomou-lhe 
o copo meio vazio das mos. A maior parte do bourbon se espalhara no tapete e o rosto de Luke estava agora assustadoramente plido.

Calma, irmo. Sustentava-o com o brao e Kezia precipitou-se para o lado dele.

Lucas! O olhar dela era de desespero quando Luke sentou-se pesadamente no cho ao seu lado e pousou a cabea nos seus joelhos. Estava embriagado e em estado de choque. 
Mas lentamente virou o rosto em direo a ela com uma expresso terna.

Minha santa, no  nada importante. Algum tentou me matar hoje. Por pouco no acertaram. Fechou os olhos com as ltimas palavras, como se estivesse com medo dos 
olhos dela.

Algum o qu? Ela segurou-lhe o rosto com as duas mos e lentamente ele levantou os olhos de novo para ela. Isso ainda no estava registrado no rosto dela.

Algum tentou me matar, eu acho, Kezia. Ou me assustar. De um jeito ou de outro est tudo calmo. Eu estou apenas um pouco afetado,  tudo.

Ela pensou instantaneamente em Morrissey e sabia que Lucas tambm...

Meu Deus... Lucas... Quem fez isso? Ela estava sentada ao seu lado.

No sei.  difcil dizer. Encolheu os ombros e de repente pareceu muito cansado.

Venha, homem, vamos p-lo na cama. Alejandro ajudou-o a se pr de p, no sabendo ao certo se devia apoiar Lucas ou Kezia. Ela parecia pior.

Voc consegue andar, Luke?

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Voc est brincando? Eu no estou ferido, cara. Estou cheio de gs. Riu orgulhosamente por um momento enquanto ia para o quarto. Alejandro sacudiu a cabea com o 
sobrecenho preocupado enquanto Kezia instalava Luke nos travesseiros. Pelo amor de Deus, Kezia, eu no estou morrendo, no exagere. E traga-me um outro drinque, 
por favor.

Ser que deve?

Ele riu ao ouvir a pergunta, fez um olhar atravessado e arreganhou os dentes.

Oh, minha santa, ser que devo! O sorriso que ela retribuiu foi o primeiro nos ltimos dez minutos, mas sentia seus joelhos tremendo quando caiu sentada na beira 
da cama.

Meu Deus, como aconteceu isso?

Eu no sei. Fui falar com alguns camaradas no Harlem espanhol hoje, e estvamos andando pela rua depois do encontro, e vap, algum quase me despachou. O filho da 
puta deve ter estado mirando meu corao, mas teve m pontaria.

Kezia sentou-se, fitou-o chocada, poderia ter sido como no caso de Morrissey. Ele podia estar morto. Teve arrepios na espinha quando pensou nisso.

Mais algum sabia do encontro? Alejandro parecia assustado e conivente ali de p, olhando para o amigo.

Poucas pessoas.

Quantas?

No foram suficientemente poucas.

Oh Deus, Lucas... quem fez isso? Subitamente a cabea de Kezia curvou-se e ela comeou a soluar sentada ali. Luke inclinou-se para a frente e rodeou-a com seu brao 
direito, puxando-a.

Vamos, minha santa. Fique calma. Poderia ter sido qualquer um. Apenas algum garoto maluco s para brincar. Ou talvez tenha sido algum que me conhecesse. Podia ser 
algum da direita radical que no quer a reforma das prises. Podia ser algum esquerdista furioso que acha que no chego a ser um irmo''. Que diferena faz? Eles 
tentaram. No me apanharam. Eu estou bem. Voc est bem. Ento... nenhuma tragdia, por favor. Est bem? Deixou-se cair nos travesseiros com um sorriso ofuscante. 
Mas nem Kezia, nem Alejandro ficaram abalados pela bravata.

Vou lhe buscar um outro drinque. Alejandro deixou o quarto e tomou ele prprio um drinque na cozinha. Merda. Estava voltando a situao agora. E com Kezia no quadro. 
Terrvel. Soltou um longo suspiro quando voltou para o quarto com um copo grande de bourbon para Luke. Kezia continuava chorando, quando ele entrou no quarto, mas

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desta vez suavemente. Os dois homens trocaram um olhar por sobre a cabea dela e Luke assentiu lentamente. Tinha sido um dia duro. E os dois ficaram imaginando se 
seria assim o tempo todo at a audincia, podia ter sido um cana, por tudo o que sabiam, embora nada dissessem a Kezia. Mas a realidade era que Lucas s era popular 
com aqueles com quem trabalhava do lado de fora, ou os presidirios em todo o pas que se beneficiavam diretamente de tudo que ele fazia. No eram muitos os outros 
que o compreendiam. E por mais amado que fosse, tambm era odiado.

Eu vou contratar um guarda-costas. Ela levantou os olhos, fungando, enquanto Luke tomava um longo trago do seu bourbon e Alejandro sentava-se numa cadeira perto 
da cama. Ela continuou sentada perto de Luke.

No, voc no vai, minha linda. Guarda-costas, porra nenhuma. Isso aconteceu uma vez, no vai acontecer de novo.

Como  que voc sabe?

Baby... no me force. Deixe-me comandar o espetculo. Tudo o que quero de voc  o seu lindo sorriso e o seu amor. Deu pancadinhas na mo dela e tomou outro trago 
do bourbon que Alejandro lhe dera. Tudo o que quero de voc  o que voc j me d.

Sim, e no o meu conselho. Disse isso tristemente, com os ombros curvados. Por que voc no me deixa contratar um guarda-costas?

Porque j tenho um.

Voc contratou algum? Por que no lhe dizia alguma coisa mais?

No exatamente. Mas eu tenho sido seguido pelos tiras h algum tempo.

Pelos tiras? Por que por eles?

Porra, o que  que voc acha, minha santa? Porque eles pensam que eu sou uma ameaa. Isso deu um aspecto s coisas de que ela no gostava. E subitamente veio-lhe 
a ideia de que em certo sentido Luke era considerado fora-da-lei, e que vivendo com ele estava do mesmo lado desfavorvel da lei. De certa maneira, no absorvera 
totalmente sua posio em tudo isso antes. E no se iluda, queridinha, pode muito bem ter sido um tira que tentou tirar um pedao de mim hoje.

Est falando srio? Ficou ainda mais plida. Ser que eles fariam isso, Luke?

Porra, lgico! Se pensassem que podiam se livrar de mim, fariam num segundo. E gostariam disso.

Oh, Deus! A polcia atirando em Luke? Supostamente deviam
227
dar proteo a cidados decentes. Mas a estava o xis da questo. E Kezia finalmente descobriu. Em relao aos tiras, Luke no era "decente' '. S era decente aos 
olhos dela, de Al e de amigos, no aos olhos da classe rural branca do Sul e da Adult Authority e da lei.

Luke trocou um rpido olhar com Alejandro, que lentamente e cheio de infelicidade sacudiu a cabea. Coisas ruins estavam vindo. Ele podia senti-las.

Mas eu vou lhe dizer uma coisa, Kezia. No quero porra nenhuma vinda de voc. Daqui pra frente, voc vai fazer exatamente o que eu disser. Nada de visitas a Al no 
Harlem. Nada de passeios extravagantes no parque sozinha. Nada de desaparecimento no metro. Nada, exceto o que eu disser que pode. Est claro? Luke tinha a expresso 
de um general quando disse: "Est claro?"

Sim, mas...

No! Estava rugindo agora. Oua-me pelo menos uma vez na vida, porra, porque se voc no ouvir, sua babaca... porque se voc no... A voz dele comeou a tremer e 
Kezia ficou chocada de ver lgrimas nos seus olhos. Talvez eles a peguem em meu lugar. E se eles lhe pegarem... A voz dele comeou a ficar mais suave. Baixou os 
olhos. Se lhe pegarem... eu no poderia... suportar...

Ela foi na direo dele com lgrimas nas faces, envolveu-o com os braos e deixou-o pousar a cabea no peito dela. Ficaram assim pelo que pareceu horas, com Luke 
chorando nos braos dela e o que ela no sabia era que ele estava se torturando pelo que lhe estava fazendo.

Oh Deus... como tinha podido fazer isso  mulher que amava... Kezia.

Por fim adormeceu nos braos dela e, quando Kezia deixou-o escorregar para o travesseiro e apagou a luz, lembrou-se de Alejandro sentado na cadeira. Ela virou-se 
na direo do amigo, mas ele tinha ido embora h muito tempo, com pesar no corao e sem uma Kezia em cujos braos pudesse chorar. E, como Luke, as lgrimas que 
chorou foram por ela.



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Captulo 23

Lucas pousou o fone com uma expresso de desnimo, e Kezia notou logo.

Quem era? No precisava nem perguntar. Ela sabia que, fosse quem fosse, qualquer que fosse a cidade, no tinha importncia. Ele sempre tinha aquela expresso e ficava 
daquela maneira quando os telefonemas eram a respeito de prises. Mas, agora, quando o Natal estava to perto...

Foi um dos meus amigos malucos em Chino.

E a? Nem esperou que ele tirasse a mo do fone.

E... Passou a mo pelos cabelos e cortou com os dentes a ponta de um charuto que tinha ficado pousado na mesa. Era quase meia-noite e ele estivera andando pela casa 
de bermudas, descalo e de peito nu. E a... querem que eu v l. Voc acha que aguenta isso, minha santa?

Voc quer dizer ir com voc? Era a primeira vez que ela perguntava.

No, eu quero dizer ficar aqui. Voltarei no Natal. Mas... parece que eles precisam de mim. Ou pelo menos pensam que precisam. Havia alguma coisa spera na voz dele, 
coisa tpica de macho. E um acorde vibrante de excitao corria-lhe pelas palavras, por mais que se esforasse para escond-lo. Ele gostava do que fazia. As reunies, 
os homens, as greves, a causa. Gostava de voltar para os "porcos" e ajudar os irmos. Era para isso que vivia e no havia lugar para Kezia nesse mundo. Era um mundo 
de homens que tinham vivido sem mulheres tanto tempo que sabiam poder continuar sem elas se fosse preciso. Ele no consideraria lev-la com ele nem um instante sequer. 
No, quando envolvia perigo. No, depois da ltima vez, em San Francisco. No, depois de ter sido quase fuzilado, e Kezia percebeu que tinha sido louca em esperar 
que ele a estivesse convidando naquela hora. No estava.

229


Sim, posso agiientar, Luke. Mas vou sentir muito sua falta

Tentou retirar a tristeza e o terror da voz. Olhou para ele e levantou os ombros. Que remdio. Voc tem certeza de vir para o Natal?

To certo quanto possvel. Eles esto com medo de que surjam motins. Mas acho que vamos ter tudo acertado antes que aconteam.

Talvez. Se. Kezia se perguntava se ele realmente queria ou, melhor, gostava de brincar com fogos de artifcio. Mas sabia que aquilo no era direito. Lamento, minha 
santa.

Eu tambm, mas vai dar tudo certo. Andou at Luke e insinuou os braos em torno do pescoo dele. Beijou-o suavemente nos cabelos, sentindo o cheiro forte do charuto. 
Ele estava indo para a "guerra". De novo. Lucas... hesitou em dizer, mas tinha que faz-lo.

O que baby!

Voc  louco em fazer isso agora. Com a audincia pendente. E... Ela estava com medo de falar de todos os seus temores, mas ele os conhecia... Eram iguais aos que 
sentia.

Cristo! Kezia, no recomece. Se desprendeu dela e ficou de p, andando no quarto, seminu e dando baforadas no charuto, com um olhar feroz no rosto. Apenas tome cuidado. 
E que diferena faz o que eu faa agora com o monto de bosta que eles esto querendo atirar em mim na audincia? Venho fazendo isso desde que sa da priso. Voc 
acha que uma vez a mais vai fazer diferena?

Talvez. Ps-se de p imvel e conservou seus olhos nos dele.

Talvez esta nica vez possa fazer diferena entre revogao e liberdade. Ou entre viver ou morrer.

Bosta. E de qualquer modo... Eu tenho que fazer, e  tudo. Bateu com a porta do quarto e Kezia ficou imaginando como estava perto da verdade. Ele no tinha direito 
de fazer isso com ela, atrapalhar a prpria vida e a dela com isso. Se essa viagem custasse-lhe a liberdade ou a vida, o que ser que ele pensava que isso faria 
a ela, ou ser que no pensava? O filho da puta...

Kezia seguiu-o at o quarto e ficou olhando-o, enquanto Luke puxava uma mala do closet. Ela o observava com dio nos olhos e um peso de chumbo no corao.

Lucas... Ele no respondeu. Ele sabia. No v... por favor, Luke... no por minha causa. Por voc. Ele virou-se para fit-la, sem trocar nenhuma palavra. Ela percebeu 
que perdera.

J era o dia vinte e trs quando Kezia recebeu o telefonema que tanto temia. Ele no viria para o Natal. Ficaria fora por mais uma semana. Quatro homens j tinham 
morrido na greve de Chino, e a ltima coisa

230
na mente dele era o Natal ou voltar para casa. Durante um momento, Kezia desejou dizer-lhe que ele era um bandido, mas no conseguiu. Ele no era. Era simplesmente 
Luke.

No queria revelar para Edward que ia passar o Natal sozinha. Era uma admisso de solido, era admitir uma derrota. Ele tentaria ser doce com ela, insistindo em 
lev-la para passar o Natal com ele em Palm Beach, o que ela detestaria. Queria passar os feriados com Luke, no com Edward ou Hilary. Tinha at brincado com a ideia 
de voar para a Califrnia e surpreend-lo, mas sabia que no seria bem recebida. Quando ele estava envolvido com seu trabalho era assim. Ele no ficaria satisfeito 
ou contente com o gesto dela e provavelmente no seria capaz de passar tempo algum com ela.

Ou seja, estava sozinha. Com uma pilha de convites e notas em verde e vermelho sugerindo uma parada para um drinque, ou aparecer nas melhores festas de feriados 
da cidade, a espcie de convites que as pessoas dariam o brao direito, os olhos e os dentes por eles: eggnong, ponche, caviar, pat, presentes divertidos numa meia 
da BendeFs ou Cardin. Os bailes de debutantes estavam em grande movimento se ela quisesse conferir as debutantes da estao, o que ela no queria. Havia uma febre 
de bailes de caridade, uma festa de black-tie no Opera, uma festa de patinao no Rockefeller Center para celebrar o casamento de Halpern Medley e Marina Walters. 
O El Morocco estaria vivo, com esprito de feriado. Ou haveria sempre Gstaad ou Chamonix... Courchevelles ou Klosters... Atenas... Roma... Palm Beach. Mas nada disso 
a atraa; nenhum desses lugares.

Depois de cogitar sobre cada lugar de maneira superficial, Kezia decidiu que se sentiria menos solitria estando sozinha, do que perdida no meio daquela hilaridade 
vazia. No estava se sentindo com esprito festivo. Pensou a princpio em convidar algum amigo para ajud-la a passar o dia de Natal, mas no conseguiu suficiente 
nimo para convidar algum em particular e no conseguiu pensar em ningum que realmente quisesse convidar... exceto Lucas. At porque, os outros j estariam ocupados, 
com os planos que tivessem feito, comprando no Bergdorfs ou no Sacks, calcinhas rosa-shocking ou vestidos verde-papagaio, ou bebendo rum no Oak Room ou ajudando 
suas mes a ficarem prontas em Filadlfia, Boston, Bronxville ou Greenwich. Todo mundo comprometido a estar em alguma parte, e ela realmente s. Ela e um exrcito 
de porteiros e homens da manuteno, cada qual tendo recebido o que lhe era devido para o Natal. O supervisor discretamente deixara uma folha mimeografada no correio 
por volta do dia 15 de dezembro: 22 nomes, todos esperando receber gorjetas. Feliz Natal.

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Era a tarde do dia 24 e Kezia nada tinha a fazer. Andava ao longo do seu apartamento com seu roupo de cetim creme, sorrindo para si mesma. Havia cerrao e neve 
do lado de fora.

Feliz Natal, meu amor. As palavras sussurradas eram para Lucas. Ele mantivera a palavra telefonando todos os dias e ela sabia que ele telefonaria mais tarde outra 
vez. Natal pelo telefone. Era melhor do que nada. Mas no muito. As caixas embrulhadas de papel prata em cima da mesa eram para ele: uma gravata, um cinto, uma garrafa 
de gua-de-colnia, uma pasta e dois pares de sapatos. Uma coleo de presentes mundanos que o fariam rir, tinha certeza. Ela havia lhe explicado todos os smbolos 
da moda quando se viram pela primeira vez. Era como traduzir a linguagem do mundo em que ela vivia. Status. As gravatas Dior, os sapatos Gucci, as malas Vuitton, 
e seu feio LV colado em toda a parte sobre a superfcie cor de mostarda.

Isso o fez rir na ocasio.

Voc quer dizer que esses camaradas usam os mesmos sapatos? Ela assentira rindo e explicara que as mulheres tambm os usavam.

Um estilo para as mulheres e um para os homens. Estilos variados criariam insegurana, ento s havia um. As pessoas teriam a escolha das cores, naturalmente. Tudo 
era terrivelmente original, no era? Mas tinha-se tornado uma brincadeira-padro entre eles e ningum conseguia manter um ar sisudo no rosto quando passava por um 
par de Guccis na rua ou um vestido Pucci numa mulher. O conjunto Pucci-Gucci. Era alguma coisa a mais que eles compartilhavam do seu ponto de observao particular. 
Essa era a razo pela qual ela comprara isso para ele no Natal. Uma gravata Pucci, um cinto Gucci, uma gua-de-colnia Monsieur Rochas (que ela na verdade conclura 
que gostava bastante), uma pasta Vuitton e os imprescindveis sapatos Gucci de couro preto, modelo padro e, naturalmente, um par duplicata em camura marrom. Ela 
sorriu pensando nele abrindo todos, adivinhando a expresso no rosto dele.

Mas seu sorriso intensificou-se quando pensou nos presentes reais que comprara para ele e deixara na bolsa da pasta Vuitton. Esses eram os que contavam para ela 
e que, sem dvida, contariam para ele. O anel com sinete, com a pedra azul-escuro gravada com letras finssimas pelo lado de dentro, com as iniciais dele e dela 
e a data. Cuidadosamente envolto em papel de seda, havia um livro de poemas encadernado de couro, que fora do seu pai e ocupara um lugar de honra na escrivaninha 
dele por tanto tempo quanto se lembrasse. Sentia-se feliz em saber que agora o livro pertencia a Luke. Significava muito para ela. Era uma tradio.

232
Bebeu uma xcara de chocolate quente enquanto olhava para a neve do lado de fora. Estava frio, muito frio, da maneira que s Nova York e umas poucas outras cidades 
podem ser. A qualidade de enregelamento que faz voc se sentir como se tivesse levado um sopapo quando sai  porta. Os ventos gelados varrem as pernas e escovam 
as faces como palha de ao e o gelo no parapeito da janela congela em forma de renda.

O telefone tocou enquanto ela estava sozinha no quarto silencioso. Podia ser Luke. Ela no ousava ignorar isso.

Alo.

Kezia? No era a voz de Luke e ela no estava certa de a quem pertencia. S havia a mera indicao de um sotaque. O que  que voc est fazendo?

Oh, Alejandro!

Quem voc est esperando? Papai Noel?

De certa maneira. Eu pensei que poderia ser Luke. Ele sorriu com a comparao. S ela poderia vir com isso.

Tive uma suspeita de que voc estaria aqui. Li os jornais e tive ideia do que deve estar acontecendo em Chino. Imaginei ento que ele no quisesse voc por l. Ento, 
o que tenciona fazer? Um monto de festas?

No, nenhuma. E voc tem razo, ele no me quer l. Est ocupado demais.

E  tambm porque aquilo no  um mar de rosas. Alejandro estava srio.

, mas tambm no  um mar de rosas para ele. Ele  louco por estar metido nisso agora. S vai acrescentar mais lenha  fogueira na audincia. Mas Luke nunca ouve.

E no mais? O que voc est fazendo no Natal?

Oh, acho que vou dependurar minha meia na chamin e botar biscoitos e um copo de leite para Papai Noel e...

Leite? Qu horror!

E o que voc sugere?

Tequila, naturalmente! Nossa, se esse filho da puta tivesse de beber leite pelo mundo afora, seria espantoso se ele se preocupasse com a ressaca.

Ela riu e acendeu algumas luzes. Estivera de p na escurido incipiente no crepsculo do inverno.

Voc supe que seja tarde demais para encontrar ainda um pouco de tequila.

Baby, nunca  tarde demais para encontrar! Ela riu outra vez da seriedade com que ele falou.

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E o que pensa fazer no Natal? Mais trabalho no Centro?

Sim, bastante.  melhor do que ficar sentado em casa. O Natal com a minha famlia  sempre um grande problema. De alguma maneira me deprime estar longe de tudo aquilo, 
a menos que eu me mantenha ocupado. O que a faz no ir a todas as festas de fantasia?

Porque elas me deprimiriam. Preferi ficar sozinha este ano. Estava pensando novamente no dia da audincia. Era estranho que ultimamente as coisas com Luke parecessem 
normais. O primeiro choque da audincia fora embora. Quase no parecia real. Apenas uma reunio a que ele teria que ir, nada mais. Nada poderia afetar o crculo 
mgico em torno de Kezia e Luke. No uma audincia.

Ento voc est sentada a, sozinha?

Parece que sim.

O que voc quer dizer com esse "parece que sim"?

Bem, OK. Eu estou sozinha. Mas no  a mesma coisa que dizer que estou chorando todas as minhas lgrimas. Apenas estou gostando de estar em paz em casa.

Verdade? Com presentes para Luke por toda a casa e uma rvore de Natal que voc no se preocupou em decorar, e sem atender o telefone, a menos quando voc pensa 
que pode ser Luke. Oua, moa,  uma maneira escrota de passar o Natal. Estou certo? Ele sabia que estava. Agora j a conhecia bem.

S parcialmente, padre Alejandro. Cara, voc gosta de dar sermo! Riu do tom da voz dele. E os presentes para Luke no esto espalhados pela casa toda, esto empilhados 
direitinho na minha mesa.

E o que me diz da rvore?

No comprei nenhuma. A voz dela ficou subitamente suave.

Que sacrilgio!

Ela riu novamente e sentiu-se tola.

Est certo, vou comprar uma. E depois o que fao?

Voc no faz nada. Voc tem pipoca em casa?

Hmmm... Tenho sim. Havia ainda uma sobra de milho da ltima vez que Luke e ela fizeram pipoca no quarto, na lareira, s trs da manh.

OK. Ento faa pipoca, chocolate quente ou qualquer coisa e eu estarei a daqui a uma hora. Ou voc tem outros planos?

Nenhum. Apenas esperar Papai Noel.

Ele vai pegar o metro e estar a em uma hora.

Mesmo que eu no tenha tequila em casa? Fazia pirraa, contente que ele viesse

No se preocupe, eu levo. Imagine s, no ter uma rvore!

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Um tom amigavelmente ofendido passou pela voz dele. Est bem, Kezia, vejo voc mais tarde. J parecia atarefado quando desligou.

Ele chegou uma hora mais tarde, arrastando um enorme pinheiro escocs.

No Harlem, voc consegue os pinheiros mais baratos, especialmente na vspera de Natal. Aqui embaixo, ele custaria vinte paus, consegui por seis. Al parecia enregelado, 
arrepiado e contente. Era uma rvore bonita. Era uma cabea mais alta do que ele e seus galhos se espalharam todos quando ele tirou a corda que os amarrava. Onde 
 que eu coloco? Kezia apontou para um canto e ento, inesperadamente, aproximou-se dele e beijou-o na face.

Alejandro, voc  o melhor amigo do mundo.  uma bela rvore. Voc trouxe sua tequila? Pendurou o casaco dele no closet e virou-se para a rvore. Agora estava comeando 
a parecer Natal. Com Luke no planejando vir para casa, ela no tinha feito nada das coisas que habitualmente gostava de fazer. Nem rvore, nem festo de Natal, 
nem arranjo e muito pouco esprito natalino.

Meu Deus, esqueci da tequila!

Que pena... o que acha de conhaque?

Eu tomo. Sorriu ao oferecimento com bvio prazer.

Ela serviu-o de um copo de conhaque e foi procurar a caixa de adornos de Natal na prateleira de cima do closet. Eram enfeites antigos, alguns do seu av. Pegou-os 
com todo o cuidado e deu a Alejandro para ver.

Para mim so bem decorativos!

No, apenas velhos.

Ela acompanhou-o com um copo de conhaque e juntos eles amarraram lmpadas e bolas at que nada houvesse na caixa.

A rvore est mesmo bonita, no acha? O rosto dela se iluminou como o de uma criana e ele se aproximou e deu-lhe um abrao. Sentaram-se lado a lado no cho, com 
seus copos de conhaque e uma tigela de cristal cheia de pipoca do lado.

Eu diria que fizemos um barato de trabalho. Ele estava um pouco alegre dos drinques e os olhos pareciam suaves e vivos.

Ei!... voc quer fazer uma coroa? Ela estava justamente pensando nas que tinha feito todos os anos quando criana.

Fazer uma coroa? Com qu?

Tudo do que precisamos  um ramo de rvore... e algumas frutas... e... vejamos, arame... Olhava em volta, organizando-se. Foi para a cozinha e voltou com uma faca 
e uma tesoura. Voc corta um

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ramo, um dos mais baixos, de modo que no d para perceber. Deixe o resto comigo.

Sim, madame. O show  seu.

Espere at ver. A alegria no olhar dele era contagiante, agora os olhos dela tambm brilhavam, enquanto reunia o que precisava. Eles iam ter um Natal!

Em poucos minutos, estava tudo espalhado na mesa da cozinha. Ela limpou as mos no jeans, enrolou as mangas do suter, e se ps ao trabalho enquanto Alejandro observava, 
entretido. Ela parecia bem melhor do que h duas horas antes. Estava com um olhar perdido e triste quando ele chegou, e ele no tinha gostado da voz dela ao telefone. 
Ele havia cancelado um encontro, um jantar e duas promessas de "aparecer", mas devia isto a Luke. E a Kezia. Era uma loucura! Ela, com todos os seus amigos milionrios, 
estava no seu apartamento elegante, sozinha no Natal. Como uma criana rf. Ele no poderia deixar as coisas como estavam. Ficou contente de ter cancelado seus 
planos e ter vindo. Por um momento, no esteve certo se ela o deixaria vir.

Voc vai fazer uma salada de frutas? Havia mas, pras, avels e uvas espalhadas perto do galho.

No, seu bobo, voc vai ver.

Kezia, voc est maluca?

No estou... ou talvez esteja. Mas sei como fazer uma coroa, de qualquer modo. Eu costumava fazer a nossa todos os anos.

Com frutas?

Com frutas. Eu lhe disse, voc vai ver. E ele viu. Com dedos destros, ela amarrou o galho com arame e, cuidadosamente, prendeu cada fruta  coroa. O produto final 
parecia algo como uma pintura da Renascena. O espesso galho estava coberto com um belo crculo de frutas, as nozes espalhadas aqui e ali, toda a coisa mantida junta, 
com uma invisvel teia de fino arame. Era um belo ornamento e Alejandro gostou do olhar no rosto dela. Veja, agora onde vamos coloc-la?

Num prato? Ainda parece uma salada de frutas para mim.

Voc  um brbaro.

Ele riu e puxou-a para os seus braos. Estava quente e confortvel ali.

Voc nunca conseguiria sair com uma coroa igual a essa numa vizinhana pobre. As frutas seriam arrancadas inteiramente num instante. Mas eu admito... Gosto dela. 
 uma bela coroa para uma salada de frutas.

Merda!

Ei, isso  para mim? Ela se sentiu confortavelmente instalada

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nos braos dele enquanto falava. Sentia-se segura ali; gostava disso. Ele se afastou relutantemente um pouco depois e os olhos dos dois se encontraram com risos.

E o que acha de um jantarzinho, Kezia? Ou voc vai servir a coroa?

Se voc der uma dentada nela eu vou abrir a sua cabea. Um dos irmos da minha amiga fez isso certa vez e chorei durante uma semana.

Ele deve ter sido um garoto sensato, mas eu no suporto mulheres em lgrimas.  melhor ns arranjarmos uma pizza.

No Natal? Estava chocada.

Bem, eles no vendem tacos nesta parte do mundo, seno eu sugeriria isso. Voc poderia sugerir alguma coisa melhor?

Certamente. Ainda tinha as duas galinhas Rock Cornish, que guardara para o jantar de Luke, se ele viesse para casa. O que acha de um jantar realmente de Natal?

E o que acha de guard-lo para amanh? O convite ainda estaria valendo?

Certamente. Por qu?... voc tem que ir embora? Talvez ele estivesse com muita pressa e da a sugesto de uma pizza. O rosto dela caiu subitamente e tentou olhar 
como se nada tivesse acontecido. Mas queria que ele ficasse. Estava sendo uma noite muito agradvel.

No, eu no preciso sair. Mas acabo de ter uma ideia. Voc quer patinar?

Gostaria muito.

Ela ps um suter por cima da que estava usando, espessas meias de l vermelhas, botas de camura marrom, e abafou-se num casaco e chapu de lince.

Kezia, voc parece uma atriz de cinema. Ela ostentava o tipo de beleza que o atraa. Luke era sortudo paca.

Ela comunicou ao servio de recados telefnicos quando estaria de volta, caso Lucas telefonasse, e juntos desafiaram o ar glido da noite. No havia vento, s um 
frio amargo que cortava os pulmes e os olhos.

Pararam para comprar hambrgueres e ch quente, e ela riu quando ele lhe contou o caos que costumava haver em casas mexicanas do Natal. Uma poro de crianas de 
ps descalos e todas as mulheres cozinhando, os maridos bbados e festas em todas as casas. Ela contou-lhe do que gostava do Natal na sua infncia.

Voc sabe, eu nunca ganhei o vestido de ouro com lantejoulas prpura. Ainda parecia quase surpresa. Vira-o num magazine quando tinha seis anos e escrevera a Papai 
Noel pedindo-o.

O que voc recebeu em vez dele? Um casaco de minkl Ele disse isso de gozao, sem malcia.

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No querido, um Rolls Royce. Ela olhou para baixo, sob o grande chapu de peles.

E um motorista, naturalmente.

No, eu no tive um at os sete anos de idade. Um motorista

particular com dois escudeiros de libr. Sorriu para ele por baixo do chapu. Merda. Alejandro, eles costumavam me deixar a trs quadras da escola quando eu era 
criana e ento seguiam-me. Mas eu tinha que andar o ltimo quarteiro porque achavam que no pegava bem chegar  escola com um motorista.

Isso  engraado. Meus pais sentiam a mesma coisa. Eu tinha

que andar tambm.  triste quando as crianas tm que passar por isso no ? A expresso dele era de troa.

Ah, cale a boca!

Ele atirou a cabea para trs e riu. Flocos de gelo voavam da sua boca no ar frio da noite.

Kezia, eu a amo. Voc  realmente uma lady maluca.

Talvez seja. Ela estava pensando em Lucas.

Cara, eu desejaria ter trazido tequila. Vai ficar mais frio do que merda no gelo. Kezia sorriu, parecendo uma criana com um segredo.

Pico contente que voc ache isso to engraado. Eu no estou usando peles e, se eu cair de bunda no cho, o que vai acontecer? Vou ficar com um bom caso de congelamento. 
Ela riu de novo e, com a mo enluvada em cashmere branco, puxou um frasco de prata do bolso. O que

 isso?

Isolamento instantneo. Conhaque. O frasco era do meu av.

O camarada no era nada tolo. Isso  um frasco extremamente fino. Um barato, voc pode usar isso na roupa e ningum vai descobrir... muito bem pensado.

De braos dados, eles andaram no parque e comearam a cantar "Noite Feliz" Ela desarrolhou o frasco e cada um deles tomou um gole, sentindo-se muito melhor. Era 
uma dessas raras noites em Nova York, quando a cidade parecia encolher. Os carros quase todos tinham desaparecido, os nibus pareciam menos barulhentos, mais raros, 
as pessoas no estavam mais naquela correria e realmente aproveitavam um ou dois segundos extras para sorrir aos transeuntes. Todo mundo tinha viajado ou estava 
em casa, escondendo-se do feroz frio do inverno, mas aqui e ali grupos cantavam. Kezia e Alejandro sorriam para os outros casais com que cruzavam e de vez em quando 
alguns se juntavam  sua cantoria. Quando chegaram ao rinque de patinao, tinham esgotado seus conhecimentos de canes de Natal e tomaram vrios goles do frasco.

 disso que eu gosto, uma mulher que viaja equipada. Um frasco

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cheio de conhaque. Sabe, voc  louca, mas uma loucura sadia, definitivamente uma loucura sadia. Ele voou diante dela no gelo com um largo sorriso, pretendendo se 
exibir, e em vez disso caiu de bunda no cho.

Cara, eu acho que voc est de porre.

Voc deve saber, voc  o meu barman. Sorriu para ela bem-humorado quando se levantou.

Quer um pouco mais?

No, eu j me inscrevi nos Alcolicos Annimos.

Informante do partido.

Bbado!

Riram um para o outro e cantaram Deck the Halls e patinaram umas voltas, de braos dados. O rinque estava quase deserto e os outros patinadores compartilhavam do 
esprito de Natal. A msica da gaita era alegre e ligeira, canes de Natal misturadas com valsas. Era uma linda noite. E j passavam das onze quando decidiram que 
j bastava. Apesar do conhaque, seus rostos estavam dormentes de frio.

O que me diz da missa da meia-noite em Saint Patrick? Ou seria um mau negcio? Voc no  catlica, ?

No, episcopal, mas nada tenho contra Saint Patrick. A missa no  diferente da nossa. Eu gostaria de ir. Houve um momento de preocupao no rosto dela quando pensou 
que poderia perder um telefonema de Luke. Mas a sugesto da igreja atraa, e Alejandro acompanhou-a. Ele suspeitava do que ela teria pensado. Ir para casa e sentar 
ao lado do telefone agiria negativamente sobre tudo o que tinham feito. Estava se tornando um Natal passvel e ele no ia deixar que ela o estragasse. Mesmo por 
causa de Luke.

Andaram pela Quinta Avenida deserta passando por todas as vitrines ornamentadas, as luzes e as rvores. Havia um ar alegre. Saint Patrick estava repleta, quente 
e cheirava fortemente a incenso. Eles se insinuaram para o fundo da igreja, no puderam se aproximar das fileiras da frente, seria o caso de ficar de p nos ombros 
dos outros e andar sobre as cabeas. Muitas pessoas tinham vindo de quilmetros de distncia. A missa da meia-noite em Saint Patrick era uma tradio para muitos.

O rgo era lgubre e majestoso, a igreja escura, a no ser a luz dos milhares de velas. Era uma missa solene, e era uma e meia da madrugada quando saram.

Cansada? Segurou-lhe o brao quando comearam a descer as escadas. O ar frio foi um choque depois do calor cheirando a incenso da igreja.

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Mais para sonolenta. Acho que foi o incenso.

 claro que o conhaque e a patinao nada tm a ver com isso. Os olhos dele riam afavelmente para ela.

Ela chamou um txi, e o porteiro do edifcio cambaleava no trajeto at a porta.

Parece que ele se divertiu.

Voc tambm teria se tivesse ganho tanto dinheiro quanto ele e os outros camaradas. Todos receberam um envelope de todo mundo do edifcio. Ela pensou o que Alejandro 
devia ter feito no Centro e se encolheu com a comparao. Quer subir para um drinque?

No deveria... Sabia que ela estava cansada.

Mas voc vai. Venha Al, no seja to lento.

Talvez eu suba s por um minuto, para dar uma mordida na salada de frutas.

Toque na minha coroa e voc vai se arrepender. E no v dizer que no avisei. Brandiu o frasco quase vazio para ele, que se abaixou. Eles davam gargalhadas quando 
saram do elevador de braos dados. O apartamento estava quente e confortvel e a rvore bonita, brilhando a um canto. Ela foi para a cozinha enquanto ele se sentou 
no sof.

Ei, Kezia?

O qu?

Faz outro chocolate quente. Tinha bebido bastante conhaque e ela tambm.

Vou fazer.

Ela veio com duas xcaras fumegantes cobertas de marshmallow que se dissolveu rapidamente e sentaram-se lado a lado, olhando para a rvore.

Feliz Natal, sr. Vidal

Feliz Natal, srta. Saint Martin. Era um momento solene e por um tempo que foi sentido como muito longo nenhum deles falou. Seus pensamentos estavam se desviando 
separadamente para outras pessoas e nos seus prprios caminhos cada um deles viu seus pensamentos vagando de volta para Luke e o presente.

Voc sabe o que devia fazer, Alejandro?

O qu? Ele tinha se deitado no cho com os olhos fechados, o corao quente. Cada vez gostava mais dela e estava contente de ter mudado os seus planos. Tornara-se 
um belo Natal. Eu devia fazer o qu?

Dormir no sof. Parece estpido retornar a esta hora. Vou lhe dar lenis e um cobertor e voc pode ficar aqui E ento no terei
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que acordar numa casa vazia amanh de manh, e poderemos dar gargalhadas e rir e passear no parque. Por favor, por favor, fique... por favor...

No seria uma chatice para voc se eu ficasse?

No, eu gostaria. O olhar dela dizia que precisava da presena dele ali e, sem saber por qu, ele tambm precisava.

Tem certeza?

Muita. Sei que Lucas no se importaria. Sabia que podia confiar nele e tinha sido uma noite to boa que ela agora desejava desesperadamente no ficar sozinha. Era 
Natal. Finalmente o Natal amanhecera nela, uma ocasio para as famlias e amigos e pessoas que se amam. Uma ocasio para as crianas e os grandes ces andando pela 
casa e brincando com os embrulhos dos presentes que esto sendo abertos. Em vez disso, ela mandara para Edward um conjunto de livros sem graa para sua biblioteca 
e descansos de prato acolchoados franceses para a tia Hil, para acrescentar  pilha j crescente de linho de Londres nos closets. E por sua vez Hilary tinha-lhe 
mandado perfume e uma echarpe de Hardy Amies. Edward dera-lhe uma pulseira que era muito larga e no do seu estilo. E Totie mandara-lhe um chapu tricotado por ela, 
que no combinava com nada que Kezia tinha, possivelmente adequava-se a ela quando tinha dez anos. Totie envelhecera. No tinham todos envelhecido? E a troca de 
presentes fora muito sem sentido quele ano, pelo correio, para pessoas a quem ela devia presentear por ritual e tradio e no realmente pelo corao. Estava contente 
por ela e Alejandro no terem tentado levantar o assunto de presentes um para o outro naquela noite. Deram um ao outro alguma coisa muito melhor. A amizade. E agora 
queria que ele ficasse. Afora Luke, parecia-lhe que o nico amigo era ele.

Voc vai ficar? Olhou para ele deitado no cho ao seu lado.

Com prazer. Ele abriu um olho e estendeu a mo para a mo dela. Voc pode ser maluca, mas ainda  uma mulher bonita.

Obrigada.

Ela beijou-o suavemente na testa e foi pelo hall, buscar lenis. Poucos minutos depois, ela fechou a porta do quarto com cuidado, com um ltimo "Feliz Natal", sussurrado, 
que significava "Obrigada".

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Captulo 24

Kezia sara s compras. Deixara de ficar sentada no apartamento apenas esperando por Luke. Estava ficando louca. Ento vasculhou a Bedel's, vagueou pelas butiques 
na Madison Avenue durante uma hora naquela tarde, e, quando abriu a porta, na volta, a mala de Luke transbordava seu contedo nervosamente pelo cho: escova, pente, 
gilete, camisas amarrotadas, suteres espalhados, dois charutos partidos, um cinto e um sapato, cuja palmilha estava faltando: Lucas estava em casa.

Ele acenou-lhe da escrivaninha quando ela entrou. Estava ao telefone, mas um largo sorriso espalhou-se pelo seu rosto e ela dirigiu-se rapidamente para o lado dele, 
correspondendo com um sorriso, e envolveu-lhe os largos ombros com os braos. Era to bom afag-lo de novo... Ele era to grande e to bonito, seu cabelo cheirava 
a limpo e parecia de seda ao contato da mo dela, seda preta, macia no pescoo. Ele virou a cadeira para segurar-lhe o rosto nas mos e olhar nos olhos que amava.

Nossa, voc me parece bem, minha santa. Havia alguma coisa fervorosa nos olhos dele e suas mos estavam quase speras.

Querido, como senti sua falta!

Baby, eu tambm. Sinto muito pelo Natal. Mergulhou o rosto no peito de Kezia e beijou-lhe suavemente o seio esquerdo.

Estou to contente que voc esteja em casa... e o Natal foi muito bom. Mesmo sem voc. Alejandro tomou conta de mim como um irmo.

Ele  um homem bom.

 sim. Mas os pensamentos dela estavam longe de Alejandro Vidal, estavam voltados para o homem  sua frente. Lucas Johns era o seu homem. E ela, a mulher dele. Era 
o melhor sentimento que tinha. Oh, meu Deus, como senti sua falta, Lucas. Ele riu com prazer com o apelo na voz dela e puxou-a, levantando-a e pegando-a como a uma 
criana nos braos. Beijou-a resolutamente na boca, no disse nenhuma
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palavra e levou-a direto para o quarto, enquanto Kezia ria furtivamente. Ele passou por cima da mala, das roupas, dos charutos, deu um pontap na porta do quarto, 
fechou-a com o p e tornou a sua presena ampla e rapidamente viva. Lucas estava mesmo em casa.

Ele trouxera um bracelete navajo turquesa, de uma beleza elaborada e intrincada, e riu dos presentes de Natal que ela lhe deu... e ento ficou calado sobre o livro 
que tinha sido do pai dela. Sabia o que devia ter significado para ela desfazer-se dele e sentiu calor por trs dos olhos. Ele s olhou para ela com um gesto de 
cabea e um ar grave e sereno. Ela beijou-o com ternura e a maneira como os seus lbios se tocaram dizia-lhes o que j sabiam, quanto ele a amava e quanto ela o 
amava.

Uma hora depois, ele estava de novo ao telefone, com um bourbon na mo. E meia hora mais tarde, anunciava que tinha de sair. S voltou ao apartamento s nove e foi 
direto para o telefone outra vez. Quando finalmente foi para a cama, s duas da manh, Kezia j dormia h muito tempo. Quando ela acordou na manh seguinte, ele 
j estava de p e vestido. Eram dias tensos. E agora havia sempre detetives  paisana em toda parte em que Lucas estivesse. At mesmo Kezia os reconhecia.

Meu Deus, querido. Tenho a impresso que nem tive tempo de falar com voc ontem. Voc j vai sair?

Sim, mas hoje vou voltar cedo.  s porque tenho muito o que fazer e preciso estar de volta a San Francisco em trs dias.

Trs dias! De onde ela tirou a ideia de que eles passariam o tempo sozinhos em Nova York? Tempo para passear no parque e falar, para ficar na cama de noite e pensar 
alto, tempo para sorrir diante da lareira e dar risadas fazendo pipocas. No ia ser exatamente como pensara. J no era. A audincia seria em menos de uma semana 
e, por insistncia dele, ela ficava sempre perto de casa. Era inflexvel a respeito disso. Ele tinha bastante em que pensar sem se preocupar com ela.

Ele saiu dez minutos depois e a promessa de que estaria de volta cedo ficou no esquecimento. S voltou s dez da noite, parecendo cansado, nervoso, desgastado e 
impregnado do cheiro de bourbon e charuto, com olheiras escuras.

Lucas, voc no pode tirar um dia de folga? Voc precisa tanto descansar! Ele abanou a cabea enquanto jogava o casaco nas costas da cadeira. Nem apenas uma tarde? 
Ou uma noite?

Droga, Kezia! No me pressione! J tenho uma porrada de coisas para fazer. L se foi o sonho de paz antes da audincia. No haveria paz, nem tempo sozinhos, nem 
descanso, nem jantares  luz de velas. Haveria Luke indo e vindo, parecendo arrasado, de p de madrugada,
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bbado ao meio-dia e sbrio outra vez e pregado ao final da noite. E pesadelos quando ele finalmente se permitisse umas poucas horas de sono.

Um abismo tinha-se aberto entre eles, um espao em torno dele do qual ela nem podia comear a se aproximar. Ele no deixaria.

Na ltima noite em Nova York ela ouviu a chave de Luke na porta e virou-se na cadeira da sua escrivaninha. Ele parecia pateticamente cansado. Estava sozinho.

Oi, santa. O que  que foi?

Nada, meu amor. Voc parece que teve um dia de merda.

 verdade. O sorriso era envelhecido e desgostoso, as rugas em volta dos olhos tinham se aprofundado nos ltimos poucos dias. Luke visivelmente inclinava-se na cadeira. 
Estava derrotado.

Voc quer um drinque? Ele sacudiu a cabea. Mesmo cansado, conservava um brilho familiar nos olhos. Era como se afinal o antigo Luke tivesse voltado para casa... 
aquele por quem tinha ela esperado semanas. Ele estava desgastado, exausto, mas sbrio e sozinho. Ela caminhou na direo dele e foi recebida com um abrao.

Me desculpe. Tenho sido um filho da puta.

No tem no. Eu o amo... de monto. Olhou para baixo, para o rosto dele e sorriram.

Sabe, Kezia, o lance  que no importa o quanto voc corra, no se pode fugir disso. Mas eu fiz alguma coisa. Acho que foi alguma coisa, afinal. Era a primeira vez 
que ele dava alguma indicao do quanto tambm estava assustado. Era como um trem vindo na direo da vida dos dois. Seus ps estavam enraizados na linha enquanto 
o trem continuava vindo... e vindo e vindo e vindo... e...

Kezia...

Sim, meu amor?

Vamos para a cama. Tomou-a pela mo e foram calmamente para o quarto. A rvore de Natal ainda estava no canto da sala, deixando cair folhas no cho, os galhos comeando 
a se inclinar, secos, com o peso dos ornamentos. Eu queria desarrumar a rvore esta semana para voc.

Podemos fazer isso na volta. Ele fez um gesto com a cabea e depois parou na porta, olhando para alguma coisa acima da cabea dela, mas ainda segurando-lhe a mo.

Kezia, quero que voc compreenda uma coisa. Eles podem me levar na audincia, quero que voc saiba e aceite, porque, se acontecer, no quero que voc fique acabrunhada.

No vou ficar. A voz dela estava abalada e fina.

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Noblesse oblige? O tom dele era engraado e ela sorriu. As palavras queriam dizer "a nobreza obriga"; ela crescera com isso. A obrigao de manter o queixo levantado, 
no dependendo de quem lhe serrava as pernas no joelho; a capacidade de servir ch com o telhado desabando em torno dos seus ouvidos, o charme de desenvolver lcera 
ao mesmo tempo em que voc sorria. Noblesse oblige.

Sim, noblesse oblige, e em parte alguma coisa a mais. A voz dela estava forte de novo. Acho que poderia aguentar porque eu o amo at esse ponto. No se preocupe, 
no vou desmoronar. Mas ela no compreendia nem podia aceitar. No podia acontecer com eles. E talvez no acontecesse... ou talvez sim.

Voc  uma linda lady, doce Kezia. Ele a envolveu com os braos e os dois ficaram na porta do quarto por um longo, longo tempo.

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Captulo 25

A disposio deles no avio era festiva. Decidiram viajar de primeira classe
Primeira classe, todo o percurso.  a minha namorada. Carregava sua nova pasta Vuitton bem  vista, usando ostensivamente os sapatos Gucci de camura marrom. Concordaram 
em que a camura marrom era o que dava a impresso mais chique.

Lucas, ponha os ps para dentro. Ela deu uma risadinha, Luke estava deliberadamente balanando um dos ps no corredor.

Mas assim eles no vo ver os meus sapatos. Acendeu um charuto da nova remessa de Romanoff e bateu com a gravata Pucci no rosto dela.

Voc  um louco, sr. Johns.

Voc tambm. Trocaram um longo beijo, a aeromoa olhou e sorriu. Faziam um casal de boa aparncia. E estavam quase ridculos de to felizes.

Quer champanha? Estava procurando atabalhoadamente dentro da pasta.

Acho que no servem antes de levantar voo.

Isso  problema deles, minha santa. Eu trouxe o meu. Sorriu abertamente para ela.

Lucas, voc no trouxe.

Claro que trouxe. Tirou uma garrafa da safra de Mot et Chandon, dois copos de plstico e tambm uma pequena lata de caviar. Em quatro meses, desenvolvera afeio 
pelo modo de vida dela, embora conservando seu prprio ponto de vista e perspectiva. Juntos, filtravam o melhor de ambos os mundos e faziam o deles prprios. Principalmente, 
as coisas especialmente chiques o divertiam, mas havia certas coisas de que ele verdadeiramente gostava. Caviar era uma delas. E pat tambm. Os sapatos Gucci eram 
uma brincadeira divertida e Kezia sabia que era assim que ele se sentiria, razo pela qual os comprara.

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Quer champanha? Ela assentiu, sorrindo, e pegou um dos dois copos de plstico.

Por que voc est to estranha?

Quem? Eu? Comeou a rir, inclinou-se para ele e beijou-o. Porque eu tambm trouxe. Abriu a sacola e apontou para a garrafa colocada bem em cima. Louis Roederer, 
embora no fosse de uma safra boa como o Mot et Chandon dele, mesmo assim no era m. Querido, que chiques que ns somos!

 uma festa de degustao de vinhos! Furtivamente, entregaram-se ao champanha e ao caviar; abraaram-se e beijaram-se durante o filme e contaram velhas piadas que 
se tornam tolas com o tempo e a bebida. Era como se estivessem partindo em frias. E ele prometera que seria todo dela no dia seguinte. Nada de compromissos, reunies, 
ou amigos. O dia seria deles. Ela fizera reserva no Fairmont, s para o barato do dia, uma suite na torre por 186 dlares, a diria

O avio aterrissou suavemente em San Francisco um pouco antes das trs horas. Tinham o resto da tarde e a noite diante de si. A limusine alugada estava esperando 
e o motorista pegou os tiquetes das bagagens, e puderam ir direto para o carro. Luke estava to ansioso quanto Kezia para evitar a publicidade. No era momento para 
isso.

Voc acha que notaram meus sapatos?

Ela olhou para os sapatos e ficou pensativa um momento.

, eu devia ter comprado sapatos vermelhos.

Talvez eu devesse fazer amor com voc durante o filme. Ningum teria visto.

O que acha de fazer no carro? Ela instalou-se recostada ao assento e automaticamente apertou o boto para subir o vidro entre o banco deles e o do motorista. Ele 
ainda estava caando as malas.

Baby, a vidraa pode impedir que nos oua, mas se voc vai fazer amor ele ainda tem um amplo ngulo de viso.

E riram ao pensar nisso.

Quer mais champanha, Lucas?

Voc quer dizer que ainda tem? Ela assentiu, sorrindo e virou o restante da garrafa de Roederer. A de Mot et Chandon havia acabado. Ele tirou os dois copos de plstico 
e tiveram uma nova rodada.

Pode crer, Lucas, ns realmente temos muita classe. Ou e mera ostentao? Possivelmente... estilo. Ela estava pensando sobre isso, o copo tremia ligeiramente numa 
das mos.

Acho que voc est bbada.

E eu acho que voc est esplndido, e, o que  melhor: acho que o amo. Ela fez uma investida apaixonada para Lucas e ele resmungou,
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porque o champanha dela bateu na janela e o dele se esparramou no cho.

Voc no s est bbada mas uma bbada desleixada. Olhe s para a ilustre srta. Kezia Saint Martin.

Por que no posso ser Kezia Johns? Afundou para trs no canto com seu copo vazio e esperou que ele tornasse a encher e comeou a fazer beicinho. Ele fitou-a curioso 
por um longo momento e virou a cabea para o lado.

Voc est falando srio ou est bbada, Kezia? Para ele era importante saber.

Ambos. E quero me casar. Parecia que ela ia acrescentar "Agora mesmo" mas no o fez.

Quando?

Agora. Vamos casar j. Voc quer voar para Vegas? Ela se animou com a ideia. Ou para Reno? Eu nunca me casei antes. Voc sabia que sou uma solteirona? Riu afetadamente 
como se tivesse revelado um segredo maravilhoso.

Meu Deus, baby, voc est num porre...

Claro que no! Como voc ousa dizer uma coisa dessas?

Porque fui eu quem serviu o champanha, Kezia. Fique sria um minuto. Voc quer casar mesmo?

Sim, agora mesmo.

No, agora mesmo no, sua louca. Talvez mais tarde... esta semana. Dependendo de... bem, vamos ver. Kezia nem notara a referncia acidental  audincia iminente 
e ele ficou contente com isso. Ela estava completamente embriagada.

Voc no quer casar comigo. Kezia quase chorava enquanto Luke se esforava para no rir.

No quero casar com voc assim, bbada, estpida. Seria imoral. Mas havia um sorriso especial no rosto dele. Meu Deus, ela quer se casar comigo. Kezia Saint Martin, 
a moa que aparece nos jornais. E ali estava ele, numa limusine, usando sapatos Gucci e a caminho de uma suite no Hotel Fairmont. Sentiu-se como uma criana que 
acaba de ganhar um trem eltrico. Lady, eu a amo, mesmo de porre.

Eu quero fazer amor.

Oh, Deus. Luke revirou os olhos e o motorista insinuou-se no assento por trs do volante. Um momento mais tarde, o carro afastou-se do meio-fio. Nenhum deles viu 
o carro no identificado segui-los. Estavam sendo acompanhados outra vez, mas agora j era hbito. Era uma coisa fixa. Aonde vamos?

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Ao Fairmont, voc se lembra?

No para a igreja?

Por que merda ns vamos querer ir para a igreja?

Para casar.

Oh, essa espciede igreja... Mais tarde. E se ficssemos noivos? Ele estava olhando para o anel com sinete na mo. Ficara contente com esse presente. Kezia viu a 
expresso nos olhos dele e previu o que ele tinha em mente.

Voc no pode me dar isso. Eu lhe dei. Parece presente de ndio, d e toma, e no um noivado apropriado... noivado de ndio? Em todo caso no acredito que seja para 
valer. Ela parecia arrogante.

No acredito que voc esteja falando para valer, minha santa. Mas, tudo bem. Se este no serve, vamos parar e comprar um anel de noivado apropriado. Espero que seja 
alguma coisa menor do que um diamante de dez quilates.

Isso seria vulgar.

Que alvio. Sorriu e ela trocou o ar arrogante por um sorriso.

Acho que gostaria de alguma coisa azul.

Oh, como turquesa? Ele estava fazendo pirraa, mas ela estava bbada demais para notar.

Seria muito bonito... um lapis patchouli.

Acho que voc queria dizer lpis-lazli.

Sim, era o que eu queria dizer. Safiras tambm so bonitas, mas muito caras, e racham. Minha av tinha uma safira que... Calou-a com um beijo enquanto pressionava 
o boto para baixar o vidro que os separava do motorista.

Existe uma loja Tiffany aqui? Agora ele j conhecia os nomes certos. Para um homem que no sabia a diferena entre um Pucci e um cozinho de estimao h quatro 
meses atrs, ele at que aprendera o dialeto particular das classes superiores com espantosa rapidez. Bendel, Cartier, Park Bernet, Gucci, Pucci, Van Cleef e naturalmente... 
Tiffany, o supermercado de diamantes favorito de todo mundo. E outras pedras preciosas... indubitavelmente eles comprariam alguma coisa azul, que no fosse turquesa.

Sim, senhor. H uma loja Tiffany aqui, na Grant Avenue.

Ento nos leve l antes do hotel. Obrigado Subiu a vidraa novamente. Aprendera isso tambm.

Meu Deus, Lucas, estamos ficando noivos? Pra valer? As lgrimas pulavam dos seus olhos enquanto sorria.

Sim, mas voc vai ficar no carro. Os jornais gostariam deste espetculo.
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Kezia Saint Martin ficando noiva na Tiffany, e visivelrnent embriagada.

Visivelmente de porre ela corrigiu.

Desculpe-me gentilmente aliviou-a do copo vazio que continuava segurando, e beijou-a. Continuaram a viagem sentados agarradinhos no banco de trs, o brao dele rodeando-a, 
um sorriso beatfico no rosto dela e uma expresso de paz no dele que no existia h semanas

Feliz, minha santa?

Muito.

Eu tambm.

O motorista parou defronte  fachada de mrmore cinza da Tiffany da Grant Avenue. Luke deu um rpido beijo em Kezia e saiu do carro correndo, recomendando que ela 
ficasse ali.

Volto logo. No v embora sem mim. E no deixe o carro em circunstncia alguma, voc cairia de bunda no cho. Ento, numa reflexo tardia, enfiou a cabea pela janela 
e apontou o dedo para os olhos dela ligeiramente enevoados: E fique longe do champanha.

V para o inferno!

Eu tambm a amo. Acenou-lhe rapidamente por sobre o ombro quando correu para a loja. Parecia terem transcorrido s cinco minutos at ele voltar.

Mostre-me o que voc comprou! Kezia estava excitada de tal forma que no se mantinha sentada quieta. Diferentemente de outras mulheres da sua idade, esta era a primeira 
vez que ficava noiva.

Lamento, baby. No tinham nada que me agradasse, ento no comprei.

No? Ela parecia esmagada.

No... e, para lhe dizer a verdade, eles no tinham nada que eu pudesse comprar.

Que, merda!

Querida, sinto muito. Ele parecia desanimado e segurou-a bem junto.

Lucas, tadinho, que coisa horrvel para voc. De repente, eu no preciso de um anel. Subitamente, se animou e tentou manter o desapontamento longe da voz, mas estava 
to embriagada que lhe era difcil conservar tudo sob controle.

Voc acha que ns podemos ficar noivos sem anel? indagou num tom quase humilde.

Claro. Eu agora o declaro noivo. Brandiu uma varinha de condo imaginria, sorrindo com felicidade dentro dos olhos dele. Que tal?

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- Fantstico! Ei, legal! Veja o que achei no meu bolso! Puxou um cubo de veludo azul-escuro.  azul, no era isso que voc queria? Uma caixa de veludo.

Oh voc... voc! Voc comprou um anel!

No, apenas a caixa! Ele a jogou no colo dela e ela abriu a tampa e engasgou.

Oh, Lucas,  maravilhoso! ... incrvel! Adorei. Era uma gua-marinha, em corte esmeralda, com um pequeno diamante de cada lado. Deve ter custado uma fortuna. Ah, 
querido. Adorei.

Foi? D no dedo? Ele tirou-o da caixa e com todo cuidado deslizou-o pelo dedo dela. Fazendo isso, ambos tiveram um pressgio, como se quando o anel chegasse  base 
do dedo alguma coisa mgica acontecesse. Ficaram noivos. Nossa, que barato!

Deu certo? Os olhos dela vibravam quando levantou a mo olhando-o de todos os ngulos possveis. Era uma bela pedra.

Merda. Parece que ficou frouxo. Est largo demais?

No, no est. No est no. Srio.

Mentirosa. Mas eu a amo. Vamos acert-lo amanh.

Estou noiva.

Ei, interessante, lady. Eu tambm. Qual  o seu nome?

Mildred, Mildred Schwartz.

Mildred, eu a amo. Mas  estranho entretanto. Pensei que seu nome fosse Kate. No costumava ser chamada assim? Seus olhos emitiam uma luz terna, lembrando-se do 
primeiro dia em que se encontrara com ela.

No foi o que eu lhe disse quando nos encontramos? Ela estava um pouco bbada, para ter certeza.

Foi, voc j era uma mentirosa desde aquele tempo.

Eu j o amava naquela poca tambm. Sem tirar nem pr. Mergulhou nos braos dele de novo, lembrando-se dos primeiros dias.

Voc me amava naquela poca? Ficou surpreso. Pensava que tinha demorado mais tempo. Ela fora to fugidia no princpio...

Exatamente. Achava voc o mximo. Mas temia que descobrisse quem eu era.

Bem, pelo menos agora eu sei: Mildred Schwartz. E isso, meu amor,  o Fairmont. Acabavam de subir na calada e dois carregadores se aproximaram para ajudar o motorista 
com as malas. Voc quer que eu a carregue?

S quando nos casarmos. Estamos s noivos. Exibiu o anel para ele com um sorriso que o encantou.

Por favor, desculpe-me a impertinncia. Mas eu no estou certo de que voc seja capaz de andar

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Queira me perdoar, Lucas, claro que posso. Entretanto, ela balanou tremendamente quando os seus ps tocaram o cho.

Fique calada e sorria, minha santa.

Ele pegou-a nos braos, fez um gesto de cabea para os porteiros e mencionou fraqueza e uma longa viagem de avio enquanto ela mordiscava-lhe a orelha.

Pare com isso!

No vou parar.

Voc vai ou a deixo cair no cho aqui mesmo. Que acha de uma bunda amassada como presente de noivado?

V se foder, Lucas.

Shh... abaixe a voz. Mas ele no estava muito mais sbrio do que ela; s se controlava melhor.

Ponha-me no cho ou vou process-lo.

Voc no pode. Est noiva. Ele andou meio saguo com Kezia nos braos.

 um anel to bonito tambm... Lucas, se voc ao menos soubesse quanto eu o amo. Deixou cair a cabea no ombro dele e observou o anel. Enquanto isso, ele a carregava 
facilmente, como a uma boneca de trapo ou uma criana muito pequena.

Ser que devido  fraqueza da sra. Johns e a sua indisposio causada pelo voo, eles mandariam os formulrios de registro para o quarto? O casal subiu rapidamente 
pelo elevador. Kezia cuidadosamente encostada num canto e Luke observando-a com um sorriso.

Eu ando at o quarto, obrigado. Olhou para ele imperiosamente e tropeou quando saiu do elevador. Ele segurou-a antes que casse e ofereceu-lhe o brao, tentando 
manter um rosto srio.

Madame?

Muito obrigada, senhor. Andaram cautelosamente pelo hall, com Luke sustentando a maior parte do peso dela e finalmente chegaram ao quarto.

Sabe de uma coisa, Lucas? Quando ela estava bbada tinha voz de Palm Beach, Londres e Paris.

O que, querida? Podiam fazer esse jogo.

Quando subimos no elevador, me senti como se ns pudssemos ver o mundo inteiro, at mesmo o cu, a Golden Gate Bridge... tudo.  isso o que voc sente por estar 
noivo?

No. Isso  a sensao que um elevador de vidro lhe d, subindo pelo lado de fora do edifcio com voc bbada dentro dele. Sabe, tipo efeitos especiais... Exibiu 
o mais encantador sorriso para ela.

V para o inferno.

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O porteiro esperava por eles  porta da suite, e Luke deu-lhe uma alta gorjeta, fechando a porta atrs de si.

Sugiro que voc se deite, ou tome uma chuveirada. Provavelmente ambos.

No, eu quero... Andou lentamente at ele com um brilho malicioso nos olhos.

Para falar a verdade, minha santa, eu tambm.

Ei, lady,  um bonito dia.

J?

H horas.

Acho que vou morrer.

Voc est de ressaca. Pedi caf para voc. Ele sorriu com o aspecto dela. Tinham feito as coisas piorarem com uma terceira garrafa de champanha depois do jantar. 
Fora uma noite para celebraes interminveis. O noivado deles. Fora mais do que uma pequena loucura. Ele sabia bem demais que no dia seguinte poderia estar na priso, 
fato no qual no tinha nem pensado em Reno ou Vegas. Mas isso era uma coisa que no faria com ela. Se revogassem sua condicional se separariam. Ele no iria humilh-la 
como sua mulher. Gostava demais dela para fazer isso com ela.

Ela lutou com o caf e se sentiu melhor depois do chuveiro., Talvez eu no v morrer, afinal. No estou bem certa ainda.

A gente nunca sabe, com a sua fraqueza.

Que fraqueza? Olhava-o como se ele estivesse louco.

Foi o que eu disse quando tive que carreg-la no saguo.

Voc me carregou?

No se lembra?

No me lembro de ter sido carregada. Lembro-me de me sentir voando.

Isso foi no elevador.

Meu Deus, eu devia estar realmente bombardeada.

Mais do que isso. A propsito... voc se lembra de ter ficado noiva?

Vrias vezes. Sorriu e maliciosamente passou a mo pela perna dele.

Eu quero dizer com um anel no dedo, sua puta rampeira. Que vergonha!

Vergonha de qu? Se me lembro corretamente...

Esquece. Voc se lembra de ter ficado noiva?

A expresso do rosto dela suavizou-se quando ela viu que ele estava falando srio

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Sim, querido. E o anel  incrvel. Ela acenou com o anel a ele, ambos sorriram e ela beijou-o.  um anel magnfico.

Para uma mulher magnfica. Eu queria lhe comprar uma safira mas elas estavam longe das minhas posses.

Eu gosto mais deste. Minha av tinha uma safira que...

Oh, no venha com essa outra vez. Ele comeou a rir e ela pareceu surpresa.

Eu j tinha contado a voc?

Vrias vezes. Ela sorriu e encolheu os ombros estreitos. Usava apenas o anel dele. Agora vamos ficar sentados aqui o dia todo fazendo amor e descansando, ou vamos 
sair?

Voc acha que devamos sair? Ela preferia a primeira ideia.

Talvez nos fizesse bem. Podemos voltar para fazer amor, mais tarde.

 uma promessa?

Voc costuma ter que me forar, meu amor?

No exatamente. Ela sorriu com afetao e foi para o closet. Aonde vamos?

Aonde voc quer ir?

Podemos dar um passeio de carro? Eu adoraria. Pelo litoral, ou alguma coisa bonita e agradvel como essa.

Com o motorista? A ideia no o atraa muito. No com o motorista.

No, seu bobo, sozinhos, naturalmente. Podemos alugar um carro no hotel.

Certamente, eu gostaria tambm.

Ela estava gastando grandes somas de dinheiro nessa viagem. A suite no Fairmont. As passagens de primeira classe no avio, a limusine, o servio elaborado das refeies 
no quarto e agora ainda um novo carro alugado para o prazer dele. Queria que tudo fosse especial. Queria amenizar a bomba da audincia ou pelo menos ter alguma diverso, 
razo pela qual estava ali. Por trs do ar de frias estava o tipo de alegria que se procura para uma criana que est morrendo de cncer: circo, teatro de marionetes, 
bonecas, TV colorida, Disneylndia e sorvete de creme durante todo o dia, porque cedo, muito cedo... Kezia tinha saudades dos dias de sua primeira viagem a San Francisco, 
dos primeiros dias em Nova York. Agora, nada era natural; tudo terrivelmente luxuoso, mas no era a mesma coisa. Era forado.

O porteiro alugou o carro para eles, um Mustang vermelho brilhante com uma alavanca de mudana que agradou a Luke. Ele disparou colina acima no trajeto para a ponte.

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Era uma corrida agradvel para uma tarde de inverno ensolarada. No fazia muito frio em San Francisco. Havia uma brisa brusca mas o ar era quente e tudo em volta 
deles era verde, uma grande diferena da paisagem rida que deixavam.

Passearam toda a tarde, parando aqui e ali na praia, andaram at a beira dos penhascos, sentaram-se num rochedo e conversaram, mas no falaram sobre o que pesava 
em seus coraes. Era tarde demais para falar e nada havia a dizer. O dia da audincia estava prximo. E os dois tinham dito tudo, de todas as maneiras que sabiam, 
com seus corpos, seus presentes, beijos, olhares. Tudo o que podiam fazer agora era esperar.

Um Ford verde-claro seguiu-os o dia todo e Luke ficou deprimido ao perceber que estava sendo vigiado de to perto. Nada disse a Kezia, mas alguma coisa na atitude 
dela levou-o a suspeitar de que ela tambm havia notado. Havia mais do que um ar de desafio, cada um deles tentando dar confiana ao outro, pretendendo no ver os 
terrores em torno de si... ou simplesmente deixando o tempo passar. Talvez pela proximidade da audincia os tiras andassem mais perto, como se pensassem que, de 
repente, ele escapasse e fugisse. Mas para onde? Ele sabia o bastante para no fugir. Quanto tempo poderia ficar impune fugindo? Alm disso, no poderia levar Kezia. 
E no poderia deix-la. Eles o tinham, no precisavam respirar no pescoo dele.

No caminho de volta, pararam para jantar num restaurante chins, e depois foram para o hotel para relaxar. Tinham que esperar o avio de Alejandro naquela noite 
s dez.

O avio chegou na hora e Alejandro foi dos primeiros a sair.

Ei, irmo, por que tanta pressa? Lucas estava preguiosamente encostado  parede.

Deve ser Nova York. Tomou conta de mim. Como vo as coisas, cara?

Alejandro parecia preocupado e cansado e se sentiu subitamente desconcertado quando viu a expresso dos rostos deles: felizes, relaxados, com o bronzeado do vento 
de inverno e as faces cor-de-rosa do sol. Era como se ele tivesse vindo sem nenhuma razo. O que poderia haver de errado na vida de duas pessoas com aquela aparncia?

Ei! Adivinhe! Os olhos de Kezia brilhavam. Ns ficamos noivos. Ela levantou o anel para que ele inspecionasse.

Maravilha. Parabns! Vamos ter que beber em honra disso. Luke revirou os olhos e Kezia rosnou.

Ns bebemos ontem  noite.

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"Ns" Meu cacete! Ela bebeu. Um porre danado.

Kezia? Alejandro parecia divertido

Champanha. Bebi quase duas garrafas sozinha disse ela com orgulho.

Do seu frasco?

Ela riu  lembrana do Natal e abanou a cabea quando eles foram buscar a bagagem. Trouxeram a limusine, pois o Mustang fora devolvido. A brincadeira no carro a 
caminho da cidade era leve e relaxante, piadas, lembranas bobas. Alejandro dizendo como fora agitada sua viagem, com uma mulher em trabalho de parto, e outra, que 
levara um poodle francs a bordo, sob o casaco, e ento ameaou ataques histricos quando a aeromoa tentou tomar-lhe o co.

Por que eu sempre pego esses voos?

Voc devia tentar a primeira classe.

De certo, irmo, pode crer. Ei, o que foi feito dos sapatos marrons escandalosos? Kezia riu e Lucas pareceu magoado.

Cara, voc no tem classe nenhuma. So sapatos Gucci.

Parecem sapatos feitos de frutas para mim. Os trs riram e o carro parou diante do hotel.

No  l grande coisa, mas ns chamamos a isso nossa casa. Luke estava de astral alto quando acenou para o enorme palcio que era o Fairmont.

Vocs dois sem dvida viajaram em grande estilo. Eles ofereceram o sof da sala da suite a Al. Ele se abria formando uma cama extra.

Sabe, Al. eles arranjaram um coroa que fica dando voltas no saguo fazendo efes na areia dos cinzeiros. Alejandro revirou os olhos e os trs riram outra vez. So 
essas pequenas coisas que fazem a diferena.

Ah, v se foder, cara!

Por favor, no na frente da minha noiva. Luke parecia caoar afetadamente.

Vocs esto noivos mesmo? No duro?

No duro confirmou Kezia. Vamos nos casar.

Havia coragem na voz dela e esperana; e vida e lgrimas e temor. Eles iam se casar se tivessem chance.

Nenhum deles mencionou a audincia e s quando Kezia comeou a bocejar foi que Luke comeou a parecer srio.

Por que voc no vai para a cama, baby. Eu vou daqui a pouco. Ele queria falar com Alejandro sozinho e era fcil de saber sobre o qu. Por que ele no compartilhava 
seus temores com ela? Mas de nada valia parecer magoada, no teria objetivo nenhum.

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Tudo bem, querido. Mas no demore muito. Beijou-o ternamente no pescoo e soprou um beijo para Alejandro. No fiquem embriagados demais, crianas.

Olha s quem fala... Luke ria ao pensar.

Aquilo foi diferente. Eu estava celebrando o meu noivado. Tentou parecer arrogante mas comeou a rir quando ele deu uma palmada no seu bumbum e lhe deu um beijo.

Eu o amo. Agora sarta fora!

Boa noite para vocs, meninos.

Ela estava deitada acordada, na cama e observara a linha de luz sob a porta do quarto at trs horas. Queria ir para l dizer-lhes que ela tambm estava assustada. 
Mas no podia fazer isso. No podia fazer isso com Luke. Tinha que aguentar sem se queixar. Noblesse oblige, e aquela porra toda.

Viu na manh seguinte que Luke no fora para a cama; s seis da manh adormecera onde estava sentado e Alejandro calmamente se deitara no sof. Tinham que estar 
de p s oito.

A audincia era s duas e o advogado de Luke devia chegar ao Fairmont s nove para dar instrues. Provavelmente, era a primeira vez que Alejandro ouviria tudo direito. 
Luke tinha um modo de ocultar as questes para poupar temores aos amigos. E ele sabia que Kezia no se permitiria falar o que pensava. Alejandro nada conseguiria 
saber de Kezia e muito menos de Luke, a no ser arrogncia e besteira. A nica coisa real que ouvira fora "Cuide de Kezia, se for o caso". E isso no seria nada 
fcil. Aquela moa ia sofrer o diabo se ele casse.

Por um breve momento, antes de dormir, Alejandro quase desejou no ter vindo. No queria ver o fato. No queria contemplar o que Luke ia sofrer nem ver o rosto de 
Kezia caso a condicional fosse revogada.

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Captulo 26

O advogado chegou s nove trazendo muita tenso com ele. Kezia recebeu-o com um "bom-dia" formal e fez a apresentao:

Nosso amigo, sr. Vidal.

Ela serviu caf e comentou sobre o dia bonito que estava fazendo. Foi a que as coisas comearam a azedar. O advogado deu um risinho discreto que ps os nervos de 
Kezia  flor da pele. Ela suspeitava dele. O advogado era reputado por sua habilidade em audincias como a de Luke, pelo que cobrara cinco mil dlares. Lucas insistiu 
em pag-lo, ele mesmo, com suas prprias economias. Para isso, tinha reservado algum dinheiro. Mas Kezia no gostava do jeito do homem: muito autoconfiante, caro 
e arrogante. Esnobava demais.

O advogado olhou em volta, sentindo a indiferena de Kezia e ento fez as coisas piorarem, metendo os ps pelas mos. Ela era uma moa facilmente irritvel.

Meu pai costumava dizer que manhs como esta "podem ser um belo dia para morrer". O rosto de Kezia tornou-se plido e tenso e Luke lanou-lhe um olhar que dizia 
"Kezia, no exploda!" Ela no explodiu, em considerao a Luke, mas fumou duas vezes mais do que costumava. Luke no fez por menos: s nove da manh estava bebendo 
bourbon puro. Alejandro bebia um caf atrs do outro, caf frio. A festa acabara.

A reunio durou duas horas e no fim eles no sabiam nada mais do que antes. Ningum sabia o que estava para acontecer. No havia como. Tudo dependeria da Adult Authority 
e do juiz. Ningum podia ler as suas mentes. Lucas estava com sua liberdade em perigo de ser revogada por "instigar" intranquilidade nas prises, agitando e misturando-se 
no departamento de liberdade condicional e autoridades carcerrias, o que no era da sua alada. Eles tinham o direito de cass-la por muito menos e no havia como 
negar a agitao que fazia Lucas. Todo mundo sabia disso, at mesmo a imprensa. Ele no tinha sido nada discreto nos

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anos em liberdade. Seus discursos, seu livro, suas reunies, seu papel na suspenso de atividades nas prises, seu dedo nas greves trabalhistas de presdios por 
todo o pas. Apostara a sua vida, com base em suas convices e agora tinham que ver o preo que era. Pior ainda, segundo a jurisprudncia vigente na Califrnia, 
uma vez sua liberdade condicional revogada, a Adult Authority poderia ret-lo por quanto tempo quisesse. A opinio do advogado de que seria provavelmente por dois 
ou trs anos s aumentou o desnimo coletivo. Ningum tinha muitas esperanas. Agora, nem mesmo Luke. Kezia estava calada.

O advogado saiu pouco depois das onze e eles combinaram de se encontrar no tribunal  uma e trinta. At l estavam livres.

Vocs querem almoar? A sugesto partiu de Alejandro.

Quem consegue comer? Kezia estava tendo cada vez mais dificuldade para danar conforme a msica. Nunca tinha estado to plida e de repente ela queria chamar Edward 
ou Totie, at mesmo Hilary ou Whit. Algum... qualquer um... mas algum que ela conhecesse bem. Era como esperar no corredor do hospital para descobrir se o paciente 
ia sobreviver... e o que seria... o que seria se ele no escapasse... o que seria... oh! Deus!

Vamos pessoal. Vamos sair. Luke mantinha a situao sob controle, a no ser pelo quase imperceptvel tremor nas mos.

Almoaram no Trader Vic's. Era bom e bonito. Terrivelmente elegante, segundo Luke, e a comida excelente, mas nenhum deles notou. Parecia no estar nada certo. Tudo 
era to ilusrio, to afetado, to falso e faziam um esforo danado para manter a calma e no dar a menor bola  audincia enquanto comiam. Por que Fairmont e Trader 
Vic's? Por que no comiam cachorros-quentes ou faziam um piquenique ou, ainda, seguiam vivendo depois daquele dia? Kezia sentia um peso enorme, como se levasse o 
mundo nas costas. Ela queria voltar para o hotel para deitar e relaxar, para chorar, para fazer alguma coisa, qualquer coisa, menos sentar naquele restaurante e 
comer uma sobremesas cujo gosto ela nem mesmo podia sentir. A conversa transcorria montona, os trs falavam sem dizer nada. Quando serviram o caf, eles estavam 
em silncio. O nico som era o produzido por Luke, tamborilando de leve sobre a mesa. S Kezia ouvia e sentia o som ondulando atravs dela como um tiquetaque de 
um relgio. Ela se sentia amarrada  medula dos ossos de Luke, presa ao crebro dele, ao corao dele. Se eles o pegassem por que no peg-los todos juntos?

Alejandro olhou para o relgio e Luke fez um aceno de cabea.

Sim, est mais ou menos na hora. Fez um sinal pedindo a conta e Alejandro fez meno de pegar sua carteira. Com um olhar

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agudo, Luke abanou a cabea. E no era dia para discutir com ele. Deixou o dinheiro no pratinho de vime que o garom deixara com a conta e eles afastaram a mesa. 
Kezia sentiu-se como se pudesse ouvir o rufar de um tambor quando eles saram para embarcar na limusine. Ela se sentia como atriz coadjuvante num filme de segunda 
categoria. No podiam ser pessoas reais, no podiam estar a uma hora da audincia, no podia lhes estar acontecendo. Nada daquilo parecia real. E ento, quando a 
limusine partiu, ela comeou a rir, histrica.

Qual  a graa?

Luke estava tenso e Alejandro mantinha-se calado. A risada dela soou discordante. Havia alguma coisa se desintegrando, alguma coisa insuportavelmente dolorosa. No 
era uma risada verdadeira.

Tudo  to engraado, Luke. Tudo isso.  mesmo, ... eu... tudo  to absurdo... Continuou rindo at que ele pegou a mo dela, segurando-a com fora. Ento ela parou, 
lgrimas sbitas tentando ocupar o espao do riso. Tudo era to absurdo, todas as pessoas ridculas no Trader Vic's... iriam para um concerto depois do almoo, ou 
para o cabeleireiro, ou reunies de diretoria ou. Magnin's ou chs festivos e costureiros... Levando suas vidas perfeitamente normais. Mas o que era normal, isso 
ou aquilo? Nada fazia sentido. Quase voltou a rir, mas se conteve. Sabia que se risse de novo ia chorar e talvez at uivar. Era o que ela queria fazer: uivar como 
um co.

Viraram para oeste na tarde de sol plido e depois ao sul na Van Ness Avenue, passando por carros usados, novos e o plstico azul do Jack Tar Hotel. A viagem parecia 
no acabar. Pessoas atarefadas, correndo, andando, vivendo, e, depressa demais, a fachada do City Hall brilhou diante deles, se destacando aterrorizadora. City Hall. 
Um pouco mais adiante, outras limusines estavam chegando para a sinfonia na Opera House. Nada fazia sentido algum.

Kezia sentiu-se vaga e confusa, quase bbada, embora s tivesse tomado caf. E s a presena constante de Luke de um lado e de Alejandro de outro conservava seus 
ps em movimento. Subir os degraus, passar pelas portas, entrar no edifcio, passar pelas pessoas... oh, Deus... oh, Deus, no!

Eu preciso de cigarros. Luke deu largas passadas se afastando, e eles o seguiram atravs dos vastos halls de mrmore. Ele andou daquela maneira determinada que ela 
conhecia to bem e, em silncio, Kezia segurou a mo de Alejandro.

Voc est bem, Kezia?

Ela respondeu com uma pergunta nos olhos: Eu no sei. Ser que estou?


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Estou. Deu um sorriso frio e olhou para cima, para a fachada do prdio. Como seria possvel acontecerem coisas feias neste lugar? Parece Viena ou Roma, as colunas, 
os frisos e os arcos, a galeria junto ao teto. O dia chegara finalmente. Oito de janeiro. A audincia. E Kezia teria que enfrentar aquele dia com coragem. Realidade 
brutal.

Segurava firmemente a mo de Luke quando subiram no elevador, e permanecia to perto quanto podia dele... mais perto... mais apertado, mais prximo... mais... Queria 
se insinuar na pele dele, enterrar-se no seu corao.

O elevador parou no quarto andar e eles seguiram pelos corredores at a biblioteca jurdica, onde o advogado dissera que deviam se encontrar. Passaram por uma sala 
do tribunal e subitamente Luke empurrou-a para o lado, quase jogando-a de encontro a Alejandro.

O que...

Bandos de filhos da puta! Luke ficou vermelho de raiva e Alejandro entendeu antes dela. Apertaram o passo e ele envolveu os ombros dela com o brao.

Alejandro, o que foi...?

Calma, baby, falaremos sobre isso depois. Os dois homens trocaram um olhar sobre a cabea dela e quando ela viu as cmeras de televiso esperando entendeu logo. 
Ento era isso. Lucas seria notcia.

Contornaram os reprteres sem serem notados e, por fim, insinuaram-se na biblioteca para esperar. Em poucos minutos o advogado se juntou a eles com um espesso fichrio 
nas mos e um olhar tenso no rosto. Mas alguma coisa na sua atitude impressionou Kezia mais do que no hotel.

Todo mundo pronto? Tentou parecer jovial e falhou.

Agora? J? Ainda no eram duas horas e Kezia comeava a entrar em pnico, mas Alejandro ainda mantinha a mo firme nos ombros dela. Luke dava largas passadas na 
frente de uma parede coberta de livros.

No. Vai ser daqui a alguns minutos. Vou encontr-los aqui e avisar quando o juiz entrar no tribunal.

H outra maneira de entrar no tribunal? Alejandro estava perturbado.

Eu... ... por qu? O advogado olhou perplexo.

Vocs no passaram pela sala do tribunal ainda? No. Ainda no.

Est apinhada de reprteres. Cmeras de televiso, equipamentos.

O juiz no os deixar entrar. No  preciso se preocupar.

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Sim. Mas ns j tivemos de passar entre eles.

No, ns no vamos. Luke voltara para junto deles. Ou melhor: Kezia no passar de maneira alguma, se  isso que o preocupa Al.

Claro que vou passar, Lucas. Pequena como era, ela parecia estar a ponto de bater nele.

Voc no vai e pronto. No era o momento para discutir com Luke. A expresso no rosto dele mostrava isso claramente. Eu quero voc aqui, e quando tiver acabado virei 
apanh-la.

Mas eu quero estar l com voc.

Na TV? Seu tom era irnico, e nada afvel.

Voc ouviu o que ele disse. Eles no estaro no tribunal.

Eles no precisam estar na sala. Vo apanh-la entrando e saindo. E voc no precisa disso. Nem eu. No vou discutir com voc, Kezia. Voc vai ficar aqui na biblioteca 
ou pode voltar para o hotel. Agora. Est claro?

Tudo bem.

O advogado deixou-os e Luke comeou a andar outra vez. Subitamente parou e quando voltou a andar, o fez lentamente na direo de Kezia, seus olhos fixos nos dela, 
com um jeito terno e familiar. Era como se tivessem tirado um punhal da sua espinha. Alejandro, percebendo o jeito do amigo, encaminhou-se lentamente para uma pilha 
distante de livros grens e dourados.

Baby... Luke estava a um s passo dela mas no fez menso de toc-la; s olhou, observando-a como se estivesse contando cada fio do cabelo dela, cada detalhe do 
seu vestido. Tocou tudo nela e seus olhos buscaram o mais fundo da sua alma.

Lucas, eu o amo.

Minha santa. Nunca a amei tanto. Voc sabe disso, no sabe?

Sim. E voc sabe o quanto eu o amo?

Ele fez que sim, com um sentimento ainda profundo nos olhos.

Por que esto fazendo isso conosco?

Porque decidi correr riscos h muito tempo antes de conhecer voc. Acho que teria feito diferente se voc surgisse na minha vida antes. No sei. Eu sou um lanador 
de merda, Kezia. Voc sabe disso. Eu sei disso. Eles sabem disso.  por uma boa causa, mas eu sou um espinho do lado deles. Sempre pensei que valesse a pena se pudesse 
mudar as coisas para melhor... Mas eu no sabia ento que eu faria isto para voc.

Ainda vale a pena para voc, no me incluindo? Mesmo sem consider-la, como seria agora? Mas a resposta dele surpreendeu-a.

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Sim. Os olhos dele no vacilaram, mas havia alguma coisa triste e velha neles que ela nunca tinha visto antes. Ele era um homem que estava pagando um preo alto, 
mesmo se eles no revogassem a condicional. J lhe tinha custado muito.

Vale a pena mesmo agora, Lucas?

Vale, mesmo agora. A nica coisa que me deixa na merda  voc. Eu no devia t-la arrastado por toda essa porcaria. Eu sabia disso desde o incio.

Lucas, voc  o nico homem que eu amei. Talvez o nico ser humano que amei. Se voc no me tivesse arrastado por tudo o que passei, minha vida teria sido uma boa 
droga. E eu posso conviver com o que est acontecendo. Por um momento, ela estava to forte quanto ele; era como se a fora dele a tivesse inundado para catalisar 
a dela prpria.

E se eu me for?

Voc no vai; eu no vou deixar...

Eu posso... Ele parecia quase solto, como se estivesse pronto para partir se tivesse de ir.

Ento eu vou suportar isso tambm.

Cuide-se, mocinha. Voc  a nica mulher de quem gostei desse jeito. No vou deixar que nada a destrua. Nem mesmo eu. Recorde-se disso. E seja o que for que eu faa, 
voc tem que saber que eu sei o que  melhor. Para ns dois.

Querido, o que voc quer dizer? A voz dela era um sussurro. Estava com medo.

Apenas confie em mim. Ento, sem mais palavras, deu o ltimo passo entre eles, puxou-a entre os braos, segurando-a bem perto. Kezia, exatamente agora sinto-me como 
o homem mais feliz do mundo. Mesmo aqui.

Exatamente o mais amado. As lgrimas passavam pelos clios enquanto ela encostava a cabea no peito dele. Alejandro tinha sido esquecido... a biblioteca jurdica 
desaparecera em torno deles. A nica coisa que importava e era real era cada um deles.

Pronto? O rosto do advogado parecia a viso de um pesadelo. Nenhum dos dois o ouvira chegar. Nem tinham visto Alejandro observando-os com lgrimas escorrendo pela 
face... Ele as enxugou e andou na direo do casal.

Sim, eu estou pronto.

Lucas... Kezia se agarrou a ele por um momento, sendo afastada suavemente.

Tenha calma, santa, vou voltar num minuto. Deu-lhe um sorriso
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enviesado e apertou-lhe a mo com firmeza. Ela queria desesperadamente abra-lo, faz-lo parar, segur-lo apertado e nunca deix-lo ir...

 melhor irmos... falou o advogado, olhando acintosamente para o relgio.

Estamos indo. Fez um sinal para Alejandro, deu em Kezia um ltimo abrao apertado, impetuoso, e foi a passos largos para a porta, seu advogado e seu amigo atrs. 
Kezia ficou onde ele a deixara.

Lucas! Ele virou-se na porta quando a voz dela ecoou nas pilhas silenciosas de livros. Vai com Deus!

Eu a amo. Essas trs palavras ecoaram nos ouvidos de Kezia quando a porta se fechou lentamente.

No havia som algum, nem mesmo o do relgio fazendo tiquetaque. Nada. Silncio. Kezia sentou-se numa cadeira de espaldar reto e observou um raio de sol iluminando 
o cho. No fumou. No chorou. Apenas esperou. Foi a mais longa meia hora da sua vida. Sua mente parecia adormecida como o sol no cho. A cadeira era desconfortvel 
mas ela no sentia. Ela no pensava, no sentia, no via, no ouvia. Nem mesmo os passos que finalmente surgiram. Ela estava entorpecida.

Viu uns ps apontando para os dela antes que olhasse o rosto. Mas eram os ps errados, sapatos errados, de cor diferente e muito pequenos, botas... Alejandro... 
Onde estava Luke?

Os olhos dela correram pelas pernas at que atingiram o rosto dele. Os olhos estavam tristes e vazios. Ele nada disse, s ficou ali.

Onde est Lucas? As palavras eram pequenas e precisas. O corpo inteiro tinha parado.

E ele respondeu num flego s.

Cancelaram, Kezia. Ele est sob custdia.

O qu? Ela se ps subitamente de p. Tinha comeado tudo de novo, mas agora vindo depressa demais. Meu Deus, Alejandro. Onde est ele?

Ainda est na sala do tribunal, Kezia. No, no v... Ela estava indo para a porta, seus ps correndo sobre o cho de mrmore cinzento. Kezia!

V para o inferno! falou, voando para fora da sala no momento em que Alejandro a deteve pelo brao. Largue-me! Preciso v-lo.

Est bem. Ento, vamos. Segurou a mo dela com fora e, de mos dadas, saram pelo corredor. Ele j deve ter ido.

Ela no respondeu, s corria mais depressa, seus sapatos batendo

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como seu corao, vibrando no cho enquanto corriam. O nmero de reprteres tinha diminudo. J tinham a histria que interessava. Lucas Johns estava de volta a 
Quentin. Deu nisso. Pobre-diabo.

Kezia abriu caminho entre dois homens que bloqueavam a porta da sala do tribunal. E Alejandro insinuou-se atrs dela. O juiz estava deixando o assento e tudo que 
ela conseguiu ver foi um homem, calmamente sentado, sozinho, de costas para ela, olhando esttico para a frente.

Lucas? Diminuiu o passo e se aproximou dele. Ele voltou a cabea para ela e no havia nenhuma expresso no seu rosto. Era uma mscara. Um homem diferente daquele 
que conhecera. Uma parede de ao com dois olhos. Dois olhos que continham lgrimas mas nada diziam.

Querido, eu o amo. Ela estava com os braos em torno dele. Luke se inclinou lentamente at ela, deixando que sua cabea repousasse-lhe no peito, deixando-se vergar 
por todo o peso do corpo. Mas os braos no se mexiam para abra-la e ento ela viu por qu. Ele j estava de algemas. No tinham perdido muito tempo. Sua carteira 
e nqueis estavam na mesa diante dele e entre eles estavam as chaves do apartamento de Nova York e o anel que ela lhe dera no Natal. Lucas, por que fizeram isso?

Tinham que fazer. Agora v para casa.

No, no vou at que voc parta. No fale. Oh, Deus, Lucas... eu o amo. Lutava com as lgrimas. Ele no a veria chorar. Se ele era forte, ela tambm o seria. Mas 
por dentro estava morrendo.

Eu tambm a amo, ento faa-me um favor e v embora. Porra! Saia daqui! As lgrimas tinham desaparecido do rosto dele e Kezia cobriu a boca dele com a sua como resposta. 
Ela estava se inclinando para ele e suas mos pequeninas e seus braos finos tentavam envolver-lhe o corpo inteiro, como se ele fosse uma criana que tivesse crescido 
demais. Por que tinham feito aquilo? Por que ela no podia afastar aquela coisa dele? Por que no podia compr-los? Por qu? Todo aquele sofrimento e a feira das 
algemas... Por que no havia nada que ela pudesse fazer? Filho da puta de conselho de liberdade condicional, de juiz e...

OK, sr. Johns. Havia uma inflexo repugnante na voz que vinha de trs dela.

Kezia, v! Era o comando de um general e no um apelo de um derrotado.

Para onde vo levar voc? Quando seus olhos se abriram de raiva e medo sentiu as mos de Alejandro nos ombros, puxando-a para trs.

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Para a cadeia municipal. Alejandro sabe. E depois para Quentin. Agora, fora daqui! Agora! Levantou-se e encarou o guarda que iria lev-lo.

Ela ps-se na ponta dos ps rapidamente e beijou-o, e s ento, quase s cegas, deixou que Alejandro a levasse da sala do tribunal. Ainda ficou um momento no hall 
e ento, como numa viso distante do outro lado, viu quando ele saiu, com um guarda de cada lado, as mos algemadas para a frente. Ele no olhou para trs nenhuma 
vez, e muito tempo depois que ele se fora ela comeou a sentir a boca se abrir, e um longo som penetrante encheu o ar. Uma mulher estava gritando, mas Kezia no 
sabia quem era. No podia ser algum que conhecesse. Pessoas civilizadas no gritavam. Mas o som no parava, e os braos de algum a seguravam firmes, enquanto os 
flashes comearam a espocar no seu rosto e vozes estranhas a assaltaram.

E ento, de repente, se sentiu voando por sobre a cidade numa gaiola de vidro. Depois, levada para um quarto estranho e, posta na cama, sentiu frio. Muito frio. 
Um homem empilhou cobertores sobre ela e um outro, com estranhos culos e um bigode, aplicou-lhe uma injeo. Comeou a rir para ele porque achou-o muito engraado, 
mas ento aqueles sons aterradores voltaram outra vez. A mulher estava gritando. Que mulher? Era um uivo longo e interminvel que encheu o quarto at que a luz fosse 
retirada dos seus olhos e tudo ficasse negro.


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Captulo 27

Quando Kezia acordou, Alejandro estava sentado observando-a. Estava escuro. Ele tinha o ar cansado, amarfanhado e estava cercado de xcaras vazias. Parecia ter passado 
a noite na cadeira, e tinha.

Ela observou-o um longo tempo; seus olhos estavam abertos e era difcil piscar. Os olhos se sentiam maiores do que tinham sido.

J est acordada? A voz dele era um sopro rouco. Os cinzeiros estavam cheios at a borda.

Ela concordou.

No consigo fechar os olhos.

Ele sorriu.

Acho que voc ainda no acordou. Por que no dorme outra vez?

Ela apenas abanou a cabea e ento as lgrimas lavaram-lhe os olhos. Nem mesmo isso ajudou-a.

Eu quero levantar.

E fazer o qu? Ela o deixava muito nervoso.

Fazer pipi respondeu rindo e engasgando entre novas lgrimas.

Oh! O sorriso era fraterno e cansado.

Sabe de uma coisa? Olhava-o com curiosidade.

O qu?

Voc est horrvel. Ficou acordado a noite toda, no foi?

Eu cochilei, no se preocupe comigo.

Por que no? Levantou-se cambaleando da cama e se dirigiu ao banheiro. Parou na porta. Alejandro, quando eu vou poder ver Luke?

No antes de amanh. Ento ela j estava se lembrando. Ele temera ter de comear tudo de novo depois da injeo da noite anterior. Agora eram seis da manh.

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Voc quer dizer hoje ou amanh?

Quero dizer amanh.

Por que no vou poder v-lo at amanh?

A priso do condado tem s dois dias de visita. Quarta-feira e domingo. Amanh  quarta-feira. As regras so deles.

Putos. Bateu com a porta do banheiro e Alejandro acendeu mais um cigarro. J estava no quarto mao desde que a noite comeara. Que noite infernal. E ela ainda no 
tinha visto a sujeira nos jornais. Edward telefonara quatro vezes naquela noite. Ele vira as notcias em Nova York. Estava desorientado.

Quando voltou, Kezia sentou-se na beira da cama e acendeu um cigarro do mao dele. Parecia cansada, tonta e plida. O bronzeado parecia ter-se desbotado instantaneamente, 
e bordas pretas contornavam os olhos, como sombra prpura para olhos tornados selvagens.

Lady, parece que voc no est muito quente. Acho melhor ficar na cama.

Ela no respondeu, apenas continuou fumando e balanando o p, com a cabea virada para o outro lado.

Kezia?

Sim? Estava chorando outra vez quando virou a cabea para ele e se sentiu como uma criana muito pequena, se derretendo nos braos de Alejandro. Oh Deus, Alejandro. 
Por qu? Como podem fazer isso conosco? Com ele?

Porque s vezes acontece. Chame a isso destino, se quiser.

Chamo isso de pularia. Ele sorriu extenuado e ento suspirou.

Baby.. Ela tinha que saber, mas detestava dizer-lhe.
- Sim?

Eu no sei se voc se lembra, mas os rapazes da imprensa tiraram uma poro de fotografias quando levaram Luke embora. Prendeu a respirao e observou a expresso 
do rosto dela. Pde ver que ela no se lembrava.

Esses merdas, por que no podiam deixar-lhe o ltimo frangalho de dignidade? Miserveis, podres...

Alejandro abanou a cabea.

Kezia... eles te fotografaram. As palavras caram como uma bomba.

A mim? Ele fez que sim.

Meu Deus.

Eles pensaram que voc fosse uma velha amiga, e eu pedi ao advogado
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de Luke para cham-los e pedir que no publicassem as fotografias ou o seu nome. Mas a essa hora j sabiam quem voc era. Algum reconheceu as fotografias quando 
estavam sendo reveladas. Houve muita falta de sorte.

Eles publicaram as fotografias? Sentou-se muito quieta.

Aqui, esto na primeira pgina. Em Nova York, na pgina quatro. Edward telefonou algumas vezes. Kezia jogou a cabea para trs e comeou a rir. Era um riso histrico, 
nervoso, e no a reao que ele esperava.

Homem. Ns realmente procuramos isso desta vez, no ? Edward deve estar morrendo, pobre coitado. Mas ela no parecia nem um pouco preocupada com o tutor, parecia 
alheia.

Para no dizer coisa pior. Alejandro quase sentiu pena do homem. Ele parecia to constrangido. To trado.

Bem, aqui voc faz, aqui voc paga, como dizem. As fotografias esto muito ruins?

To ruins quanto voc na hora. Ela estava histrica quando os fotgrafos as tiraram.

Alejandro puxou a edio noturna do Examiner de debaixo da cama e mostrou-a. Na primeira pgina, havia uma foto de Kezia desmoronando nos braos de Alejandro. Ela 
aninhou-se com medo quando leu o texto de relance: "Herdeira da sociedade, Kezia Saint Martin, amante do ex-condenado Lucas Johns, desmaia fora da sala do tribunal 
depois..." Era pior do que temiam.

Acho que Edward est preocupado com o seu estado agora.

Dou meu cu, se estiver. Est tendo um ataque do corao com a histria, voc no conhece Edward. Parecia uma criana com medo do pai. Isso pareceu estranho a Alejandro.

Ele sabia a respeito de Luke?

No desse modo. Realmente sabia que eu o tinha entrevistado e sabia tambm que havia algum importante na minha vida, nestes ltimos meses. Bem, mais cedo ou mais 
tarde, tinha que vir  tona. Fomos felizes at agora. Entretanto, foi um azar que tivesse sido assim. Os jornais telefonaram depois disso?

Umas poucas vezes. Disse que no havia histria e voc viajara de volta para Nova York hoje. Eu pensei que isso os afastaria daqui e ficassem ocupados, vigiando 
o aeroporto.

E o saguo.

Ele no pensara nisso. Que maneira insana de viver!

Ns temos que chamar o gerente e combinar para sair daqui. Quero me mudar para o Ritz. No nos encontraro l.

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No, mas voc tem que contar com fotgrafos se quiser ver Luke amanh na cadeia.

Ela ficou de p e fitou-o com um olhar gelado nos olhos.

No, Alejandro, no  "se",  "quando". E se eles quiserem ser porcos a respeito disso que se fodam.

O dia se passara numa neblina de silncio e fumaa de cigarros. A mudana deles para o Ritz ocorrera sem problemas. Um presente de cinquenta dlares ao gerente encorajou-o 
a conduzi-los para fora pela porta dos fundos e conservar a boca fechada depois disso. Aparentemente, cumprira a promessa. No houve telefonemas para eles no Ritz.

Kezia ficou sentada com os seus prprios pensamentos, raramente falando. Pensava em Luke e a expresso dele quando o levaram embora... e antes disso como ele estava 
na biblioteca do tribunal. Fora um homem livre naqueles ltimos preciosos momentos.

Ela telefonou para Edward e discutiram numa conversa breve e angustiada. Os dois choraram. Edward continuou repetindo: "Como  que voc pde fazer isso?" Ele no 
chegou a dizer "para mim", mas as palavras estavam l. Queria que ela tomasse um avio de volta, ou que o deixasse ir ao encontro dela. Acabou explodindo quando 
ela recusou.

Edward, por favor no faa isso comigo, pelo amor de Deus. No me pressione agora! gritou em meio a lgrimas, imaginando brevemente por que eles estavam se culpando 
um ao outro. Quem se importava com quem estava fazendo o qu, e com quem? Acontecera a Kezia e Luke, mas no por culpa de Edward. E Kezia nada tinha feito a Edward. 
Eles foram apanhados nos dentes de uma engrenagem e ningum podia fazer nada ou para-la.

Voc tem de voltar para casa, Kezia! Pense no que vo fazer com voc a.

J fizeram e se estiver nos jornais em Nova York no far diferena alguma o lugar onde eu esteja. Podia voar para Tnger, pelo amor de Deus, e eles ainda iam querer 
saber mais da histria.

 realmente inacreditvel, no compreendo... e Kezia... bom Deus, moa, voc devia saber que isso aconteceria com ele. Essa histria que voc me contou de ele estar 
doente... isso era o que voc queria dizer, no era?

Ela assentiu silenciosamente no fone e a voz dele voltou mais aguda.

No era?

Era respondeu num sussurro, com a voz entrecortada e triste.

Por que voc no me disse?

Como  que eu podia? Houve um longo momento de silncio quando os dois compreenderam a verdade.,:,.,,

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Eu ainda no compreendo como voc pde se deixar envolver. Voc disse no artigo sobre ele que havia essa possibilidade. Como...

Ah, foda-se, Edward... eu disse. E da? Eu disse. E pare de cacarejar como uma galinha. Eu disse, e fiquei magoada, ns dois ficamos magoados, e, acredite-me, ele 
est muito mais magoado, sentado numa cela. Houve um silncio mortal e a voz de Edward voltou com um rancor comedido, que era totalmente estranho a ele... exceto 
uma vez antes.

O sr. Johns est habituado  cadeia, Kezia. Ela quis desligar na cara de Edward, mas no ousou. Cortar aquela conexo seria cortar alguma coisa mais. Alguma coisa 
mais profunda, e ela ainda precisava daquilo, talvez um pouquinho, mas precisava. Edward era tudo o que ela possua, de certa maneira, exceto Luke.

Voc tem alguma coisa mais para dizer? A voz dela era quase to maldosa quanto a dele tinha sido instantes antes. Ela estava querendo, lhe dar um pontap. Mas no 
despach-lo completamente.

Sim. Venha para casa imediatamente.

No vou. Alguma coisa mais?

Eu no sei quanto tempo levar para voc voltar aos seus sentidos, Kezia, mas sugiro que faa um esforo para se tornar racional o mais depressa possvel. Voc vai 
lamentar isso toda a sua vida.

Vou, mas no pelas razes que voc pensa, Edward.

Voc no tem ideia de como uma coisa destas pode prejudicar... A voz dele se arrastava pesarosa. Por um momento, ele no estava falando com Kezia, mas com o fantasma 
da me dela, e ambos sabiam disso. Agora Kezia estava convencida. Agora ela sabia que ele falara sobre a me e o instrutor. Agora ela sabia tudo.

Prejudicar o qu? Minha "posio"? Minha "importncia social" como a tia Hil diria? Atrapalhar as minhas chances de encontrar um marido? Voc pensa que eu dou qualquer 
importncia a tudo isso agora? Que se danem. Eu me preocupo com Luke, Edward. Eu me preocupo com Lucas Johns. Eu o amo! Ela estava gritando de novo.

A quatro quilmetros de distncia, as lgrimas corriam silenciosamente pela face de Edward.

Diga-me se h alguma coisa que eu possa fazer por voc. Era a voz do advogado, do procurador, do seu guardio. No do amigo. Alguma coisa tinha finalmente rompido. 
O vo entre eles estava se alargando at um grau assustador para ambos.

Eu direi. No trocaram despedidas e Edward desligou. Kezia ficou sentada um longo momento segurando o telefone mudo nas mos, enquanto Alejandro a observava.,

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Lgrimas de despedida rolaram pelas suas faces. Eram dois em dois dias. De uma ou de outra forma ela tinha perdido os dois homens que amara, depois de seu pai. Trs 
homens perdidos no espao de uma vida. Ela sabia que, de certa maneira, tinha perdido Edward, apenas. Ela o tinha trado. Aquilo que ele mais procurara evitar acontecera 
finalmente.

Edward, sentado no seu gabinete, sabia disso tambm. Andou solenemente at a porta, fechou-a cuidadosamente, voltou e ligou o interfone, informando sua secretria 
no mais seco dos tons que no queria ser perturbado at segunda ordem. Ento, pondo cuidadosamente de lado a correspondncia sobre a mesa, pousou a cabea nos braos 
e irrompeu em soluos de partir o corao. Ele a perdera... perdera as duas... e para homens que no valiam a pena. Enquanto esteve ali acabrunhado, imaginou por 
que as nicas mulheres que mais amara tinham desvios to brutais de carter... o instrutor... e agora esse... esse frequentador de prises... esse joo-ningum! 
Ele se viu gritando essa palavra. E ento, surpreso consigo mesmo, parou de chorar, levantou a cabea, recostou-se  cadeira e contemplou-se. Havia vezes que ele 
simplesmente no compreendia. Ningum seguia as regras agora. Nem Kezia, e fora ele mesmo quem as ensinara. Abanou a cabea lentamente, assoou o nariz e voltou  
mesa para olhar a correspondncia.

Jack Simpson foi solidrio quando telefonou para ela. Mas o agente no melhorou as coisas em nada, sentindo-se culpado por t-la apresentado a Luke. Ela garantiu-lhe 
que ele lhe dera o melhor presente da vida, mas as lgrimas na voz dela no consolaram nenhum dos dois.

Alejandro tentou coagi-la a um passeio, porm ela no quis, e ficou todo o tempo sentada no quarto do hotel, com as persianas abaixadas, fumando, bebendo ch, caf, 
gua, usque, quase sem comer, apenas pensando, com os olhos cheios d'agua, mos trmulas e frgeis. Ela estava com medo de sair, com medo da imprensa e com medo 
de perder um chamado de Luke.

Talvez ele telefone.

Kezia, ele no pode telefonar da cadeia do condado. Eles no vo deixar.

Talvez deixem.

Era intil discutir com ela; era como se ela no ouvisse. E qualquer coisa que ouvisse ela no atenderia. Os nicos sons que lhe penetravam eram as suas vozes interiores 
e os ecos de Luke.

J era meia-noite quando Alejandro, finalmente, conseguiu faz-la ir para a cama.

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O que  que voc est fazendo? Podia ver o perfil dele na cadeira do canto. A sua voz soou estranhamente envelhecida.

Vou ficar sentado aqui mais um pouco. Isso a impede de dormir?

Ela queria abrir os braos para ele no escuro e tocar-lhe na mo. Ainda no conseguia encontrar as palavras de novo, tudo o que podia fazer era sacudir a cabea 
e chorar. Fora um dia insuportvel, no to tenso como o anterior, porm mais desgastante. A presso infinita do sofrimento.

Ele ouviu os soluos abafados no travesseiro e foi para mais perto,

sentar-se na beira da cama.

Kezia, no... Passou-lhe a mo por seus cabelos, seu brao, sua mo, enquanto todo o corpo dela sacudia, com os soluos. Ela chorava a falta de Luke. Oh, baby... 
menininha, como  que isso foi acontecer com voc? Kezia estava to despreparada, to desacostumada a coisas que no pudesse controlar, e nunca vira nada como aquilo; 
havia lgrimas nos olhos dele de novo, mas ela no podia v-las.

No aconteceu comigo, Alejandro. Aconteceu com ele. A voz estava amarga e cansada em meio s lgrimas.

Ele ficou alisando-lhe o cabelo durante um tempo que lhe pareceu horas, at que finalmente ela adormeceu. Alisou as cobertas em torno dela e tocou-lhe a face o mais 
gentilmente possvel. Parecia de novo jovem, dormindo; a raiva desaparecera do rosto. A amargura do que podia acontecer na vida naquele mundo grande, mau e feio, 
tinha vindo como um choque para ela. Estava aprendendo da maneira mais dura com seu corao e com suas entranhas.

Ele ouviu sua batida suave na porta e levantou a cabea do travesseiro. O sono tinha demorado a chegar na noite anterior e agora eram apenas seis horas.

Quem ?

Eu, Kezia.

H alguma coisa de errado?

S pensei que podamos levantar. Era o dia em que iam ver Lucas. Alejandro sorriu extenuado quando se levantou para abrir a porta, enfiando as calas.

Kezia, voc est maluca? Por que voc no vai dormir mais um pouco?

Ela estava de p ali, numa camisola de flanela azul e com um roupo de cetim branco. Os ps descalos, os cabelos soltos, longos e negros. Os olhos estavam vivos 
de novo numa face muito plida.

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No consigo dormir e estou com fome. Ser que eu o acordei?

No, claro que no. Eu sempre me levanto s seis. Na verdade, estou acordado desde as quatro. Olhou para ela com um olhar de censura que a fez rir.

OK, OK, compreendi a mensagem.  cedo demais para pedir caf para voc e ch para mim?

Corao, isto no  o Fairmont. Voc realmente precisa se apressar tanto?

Ela assentiu.

Quando podemos v-lo?

Acho que no deixaro voc visit-lo at s onze ou meio-dia. Caramba, eles poderiam ter tido mais quatro horas de sono. Alejandro, silenciosamente, lastimou as 
horas perdidas. Ele estava meio morto.

Bem, j que estamos acordados agora, poderamos tambm levantar, certo?!

Maravilha. Era exatamente o que eu queria ouvir, Kezia. Se eu no a amasse tanto e o seu homem no fosse aquele sacana daquele gigante, eu lhe daria um pontap na 
bunda.

Ela sorriu encantada para ele.

Eu tambm o amo.

Ele sorriu, sentou-se e acendeu um cigarro. Kezia j estava fumando e ele notou que a mo ainda tremia, mas fora isso, o olhar agudo e a palidez do seu rosto, ela 
parecia melhor. Algumas centelhas tinham-lhe voltado aos olhos, uma indicao de vida e da Kezia de sempre. Sem dvida alguma, a moa era uma batalhadora.

Alejandro desapareceu no banheiro. Quando voltou, estava com o cabelo penteado, dentes escovados e uma camisa limpa.

Nossa, como voc est bonito! Kezia estava bem desperta e com um timo humor naquela manh. Havia uma grande diferena da manh anterior. Pelo menos isso j era 
um alvio.

Voc est procurando sarna para se coar, no est? Nunca ningum lhe disse para no amolar um homem antes que ele tome uma xcara de caf?

Pobrecito

Ele apontou-lhe o dedo e ela riu.

E agora que voc me arrancou da cama quentinha, suponho que vai levar duas horas para se vestir falou, acenando para a camisola e o roupo.

Conte com cinco minutos.

Ela estava to desperta como dizia. Mexia-se muito rapidamente esta manh, como uma criana que espera pela primeira ida ao circo,

274
acordando de madrugada, nervosa, saltitante e j cansada no caf da manh. E ainda tinham cinco horas para ocupar at poderem ver Luke.

Os pensamentos de Alejandro desviavam-se agora constantemente para Luke. Como estaria ele enfrentando a situao? Estaria bem? Em que estaria pensando? Teria voltado 
para a conversa sem sentido da cadeia,  indiferena fria de esperanas perdidas ou ainda era Luke? E se tivesse voltado ao que fora, que choque terrvel para Kezia. 
E como ela se adaptaria  visita? Alejandro sabia disso bem demais, mas sabia que esse no era o caso dela. Visitar atravs de uma janela de vidro grosso, falando 
num fone dominado pela esttica, com Luke usando infame macaco laranja que mal lhe chegaria aos cotovelos e aos joelhos. Ele estaria vivendo numa cela com meia 
dzia de outros homens, comendo feijo, po ranoso e uma imitao de carne, bebendo caf modo e cagando sem papel higinico. Era um inferno de lugar para levar 
Kezia, misturando-se com proxenetas, prostitutas, ladres, mes degeneradas e moas hippies que trariam crianas esfarrapadas nos braos ou nas costas. Haveria barulho, 
mau cheiro e agonia. Quanto ela poderia suportar? At aonde Luke a levaria nesse mundo? E agora isso estava nas costas dele. Era o beb de Alejandro. Tomar conta 
de Kezia.

Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos, Kezia de novo. Vestida e pronta para sair.

Rapaz, voc certamente parece sombrio como o inferno. Os pensamentos dele deviam estar  mostra.

De manh no  a melhor hora para mim. Mas eu no posso dizer a mesma coisa de voc. Parece perfeitamente bem para tomar ch numa parada de caminho.

Ela, como de hbito, usava roupas caras. E havia uma animao nela toda que estava comeando a deix-lo nervoso. O que seria dela se ela desmoronasse?

Vamos chamar um txi? Haviam dispensado a limusine quando pagaram, ao chegar no Ritz, novamente uma boa gorjeta para comprar o silncio do motorista.

Ns podemos andar, eu conheo um lugar, alguns quarteires adiante.

Eles se dirigiram para o sul, no ar mido, e subiram as colinas ngremes de mos dadas.

 realmente uma linda cidade, no , Al? Talvez possamos dar um passeio mais tarde, ainda hoje.

Ele esperava que no. Torcia para que L uke lhe dissesse para pr a bunda num avio para Nova York. No fim da semana ele estaria de volta a Quentin e no havia razo 
para ela esperar por isso. Ela no poderia
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visit-lo enquanto no recebesse um certificado de permisso e isso levaria semanas. E mais cedo ou mais tarde ela teria que voltar para casa Antes cedo do que tarde.

A parada de caminho no estava to cheia, a sala quente e o caca-nqueis funcionando. O aroma do caf misturava-se ao cheiro de homens cansados, fumaa de cigarros 
e charutos. Ela era a nica mulher presente mas s provocou alguns olhares desinteressados.

Alejandro forou-a a encomendar um caf completo e ela fez uma careta. Ele no cedia. Dois ovos estrelados, bacon, batatas e torradas.

Pelo amor de Deus, Alejandro, no como isso tudo no jantar.

D pra notar, magricela da classe alta. Agora no seja esnobe. Ela comeu uma fatia de bacon e brincou com a torrada. E os ovos intocados olhavam para ela como dois 
olhos com ictercia.

Voc no est comendo.

No estou com fome.

E voc est fumando demais.

Sim, papai. Alguma coisa mais?

Isso  com voc, lady. Oua,  melhor tomar cuidado consigo mesma ou eu vou reclamar ao chefe.

Voc contaria a Luke?

Se for preciso. Um tremular de preocupao passou pelos olhos dela.

Oua, Alejandro, srio...

Sim? Riu da maneira como ela estava comeando a se contorcer.

Estou falando srio. No perturbe Luke com coisa nenhuma. Se ele viu aquela horrenda fotografia no jornal j foi bastante aporrinhao.

Alejandro assentiu, sbrio, no brincando mais. Eles tinham visto o pequeno item na pgina trs do Chronicle naquela manh. "A srta. Saint Martin ainda no voltou 
para Nova York; admite-se que esteja escondida em alguma parte da cidade. H at alguma especulao sobre se foi hospitalizada por distrbio nervoso.'' Ela certamente 
parecia bem prximo disso, nos jornais. Mas tambm sugeriam que, se ela estivesse na cidade, provavelmente se mostraria no dia da visita para ver Luke, a menos que 
tivesse mexido os pauzinhos para uma visita privilegiada ao sr. Johns".

Ih, nem pensei nisso.
Voc quer tentar? Pode lhe poupar alguns aborrecimentos com a imprensa. Parece bem certo que estaro esperando por voc nos dias de visita.
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Vamos deix-los. Vou nos mesmos dias, como todo mundo, e visito como todo mundo faz.

Alejandro assentiu. As horas que faltavam at a visita comear teriam que ser digeridas. Pareciam semanas, antes de dar quinze para o meio-dia.

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Captulo 28

Pronta para ir?

Ela fez que sim e pegou a bolsa

Kezia, voc  curiosa

Ela aparentava uma mulher extremamente jovem, linda e sem nenhuma preocupao com o mundo. A maquilagem ajudava, mas era a maneira como andava, a mscara que tinha 
colocado no lugar

Obrigada, senhor Parecia tensa, mas bonita e totalmente diferente da mulher chorosa que ele havia segurado nos braos no corredor do City Hall ha dois dias. Era, 
em cada centmetro, uma lady e perfeitamente controlada

S o tremor das mos a denunciava, no fosse isso, ela pareceria imperturbvel. Alejandro ficou meditando quando a observou ento  isso que  a marca registrada 
de classe, nunca mostrar o que se sente, como se voc no tivesse sentido nenhum momento de tristeza. Apenas pentear o cabelo, p-lo num elegante nozinho, p-de-arroz 
no nariz, um ligeiro sorriso no rosto e falar numa voz baixa e controlada. Lembrar-se de dizer "obrigada" e "por favor" e sorrir ao porteiro A marca de bero Como 
um co de circo ou um bem treinado cavalo

Voc vem, Alejandro? Estava com pressa de deixar o hotel

Meu Deus, mulher Eu mal consigo colocar a cabea no lugar e voc est a, como se fosse para um ch beneficente! Como consegue isso?

Prtica E uma maneira de viver

No pode ser sadio

No e  por essa razo que a metade das pessoas com quem eu cresci hoje so alcolatras. As outras vivem de plulas e em poucos anos vrias morrero de ataque cardaco 
Algumas j cuidaram de morrer.

Uma viso de Tiffany passou pela sua cabea. Escondem-se toda a vida e um dia explodem

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E voc? indagou, seguimdo-a nas mal iluminadas escadas do hotel.

Eu estou bem. Eu me desabafo com os meus escritos. E posso ser eu mesma com Luke... e agora com voc.

Ningum mais?

No at agora.

No  maneira de se viver.

Voc sabe, Alejandro disse ela quando subia para o txi, o problema de viver fingindo o tempo todo  que s vezes voc esquece quem  e o que sente. Voc se transforma 
na imagem.

Como foi que voc no se transformou, baby Mas quando ele a observou ficou na dvida. Ela estava assustadoramente calma.

Meu texto, eu acho. Me ajuda a tirar os grilos da cabea. Me d um lugar em que posso ser eu. De outra maneira, guardando tudo dentro, mais cedo ou mais tarde a 
alma apodrece. Pensou mais uma vez em Tiffany. Foi o que acontecera a ela e a outros no curso dos anos. Duas das amigas de Kezia tinham-se suicidado desde os tempos 
de colgio.

Luke vai se sentir melhor quando a vir. E isso valia a pena. Mas Alejandro sabia por que ela estava usando o casaco preto bem talhado, os slacks de gabardine preta 
e os sapatos pretos de camura. No era para Lucas. Mas para ter a certeza de que a prxima fotografia no jornal a mostraria com tudo sob controle. Elegante, bem-arrumada 
e distinta. No haveria desmaio na cadeia.

Voc acha que vai haver imprensa quando chegarmos l?

Acho que no, no sei.

Havia. Kezia e Alejandro saltaram do txi na entrada, na Bryant Street,
850. O Hall of Justice era um edifcio cinzento, sem expresso e sem a majestade do City Hall. Do lado de fora, dois sentinelas do Examiner aguardavam a chegada 
dela. Outros dois andavam diante da entrada dos fundos. Kezia tinha faro para reprteres, como Luke para policiais. Pendurou-se com fora no brao de Alejandro, 
parecendo que apenas o segurava, e calmamente botou os culos escuros. Exibia um sorriso apagado no rosto.

Ela passou rapidamente por uma voz chamando o seu nome, enquanto um reprter falou num transmissor de bolso. Agora sabiam o que tinham diante de si. Alejandro estudou-lhe 
o rosto enquanto um guarda examinava a bolsa dela, mas Kezia parecia surpreendentemente calma. Um fotgrafo tirou uma fotografia deles e, com as cabeas baixas, 
entraram rapidamente no elevador, nos halls de mrmore salmo.

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Impressionou Kezia, quando as portas se fecharam, que as paredes fossem da mesma cor dos gladolos nos funerais italianos, e ela riu.

No sexto andar, Alejandro passou rapidamente com ela por outra porta, e subiram por um lano de escada estranhamente arejado.

Uma brisa do rio Styx de Dante, talvez? Havia ironia e malcia na voz dela. Ele no podia compreender. Seria essa a Kezia que ele conhecia?

Ela conservou os culos escuros e ele tomou-lhe a mo enquanto esperavam em fila. O homem na frente deles estava bbado e fedia. A negra mais adiante era obesa e 
chorava. Mais  frente, na fila, umas poucas crianas choramingavam e um bando de hippies encostara-se  parede, rindo. Ficaram numa comprida e estreita fila nas 
escadas, um por um, chegando a uma mesa no alto da escada. Identificao do visitante, nome do interno, e ento um pequeno tquete rosa, com um nmero vazado, e 
um nmero em algarismos romanos indicando o grupo. Eles estavam no grupo II. O primeiro grupo j tinha entrado. A escada estava repleta, mas no havia reprteres 
 vista.

Entraram numa sala iluminada a non que ostentava outra mesa, dois guardas e trs fileiras de bancos. Adiante, podiam ver um longo hall com janelas a toda a volta 
ao longo das quais havia uma prateleira com fones a pequenos intervalos e um banco para o visitante sentar. Era desajeitado e desconfortvel. O grupo I estava no 
meio de uma visita que durava cinco ou vinte minutos, dependendo da disposio dos guardas. As fisionomias eram animadas, mulheres davam gargalhadas e depois choravam, 
os internos pareciam tensos, e determinados e seus rostos se derretiam  vista de um filho de trs anos. Era o bastante para rasgar o corao.

Alejandro olhava para Kezia meio sem jeito. Ela estava impvida Nada demonstrava. Sorriu para ele e acendeu outro cigarro. E de repente os fotgrafos cercaram-nos 
como um enxame Trs cinegrafistas e dois reprteres, e at mesmo a representante local do Women's Wear estava com eles.

Alejandro sentiu uma onda de claustrofobia envolv-lo Como suportaria aquilo? Os outros visitantes olharam assustados e alguns recuaram, enquanto outros lanaram-se 
 frente, para ver o que estava acontecendo. Subitamente instaurou-se o caos, com Kezia no centro da tempestade, cuO los escuros, boca fechada, olhando sria mas 
com calma inabalvel.

Voc est sob sedao? Voc falou com Lucas Johns desde a audincia? Voc est... voc fez... voc far... por qu? Ela nada disse, s abanando a cabea.

No tenho comentrio algum a fazer. Nada a dizer. Alejandro sentia-se intil ao lado de Kezia. Ela permanecia sentada

280
no seu lugar e de cabea abaixada, como se no os vendo eles pudessem desaparecer. Mas, de repente, ela ps-se de p e falou em voz baixa e controlada.

Acho que agora basta. Eu lhes disse que nada tenho a declarar.

Uma exploso as flashes irrompeu no rosto dela e dois guardas apareceram. A imprensa devia esperar do lado de fora. Estava atrapalhando a visita. At os internos 
que recebiam visitas pararam de falar e observavam o grupo em torno de Kezia e os flashes especando.

Um guarda chamou-a de lado, enquanto os fotgrafos relutantemente saam. Alejandro juntou-se a ela, percebendo que Kezia nada tinha dito desde que a investida comeara. 
Sentiu-se perdido na confuso. Ele nunca mesmo pensara em ter que lidar com uma coisa daquelas, mas ela sabia como lidar. O que o surpreendeu. No houvera traos 
de pnico, mas tambm nada era novo para ela.

O chefe da guarda inclinou-se perto deles e fez uma sugesto. Um guarda poderia acompanh-los quando sassem. Podiam tomar um elevador diretamente para a garagem 
da polcia no subsolo onde um txi poderia esperar. Alejandro agradou-se da ideia e Kezia, agradecida, concordou. Ela estava ainda mais plida e o tremor nas mos 
estava agora constantemente variando. O ataque dos paparazzi tinha deixado marcas.

O senhor supe que eu poderia ver o sr. Johns numa sala particular aqui? Estava rapidamente abandonando sua determinao de evitar favores especiais. A multido 
curiosa tornava-se quase to opressiva quanto a imprensa. Mas o pedido foi negado. Entretanto, um jovem guarda foi encarregado de ficar por ali.

Uma voz declarou encerrada a primeira visita e os guardas conduziram o grupo I para um compartimento onde poderiam esperar o elevador sem perturbar o segundo grupo. 
Foi estranho observar a diferena nos rostos quando saram: sofridos, chocados, silenciosos; o momento de riso deles acabara. As mulheres agarravam, apertados, pedacinhos 
de papel com encomendas, ordens e pedidos: pasta de dentes, meias, o nome do advogado que um companheiro de cela sugerira.

Grupo II! A voz ressoou nos seus pensamentos e Alejandro segurou Kezia pelo cotovelo. O pedacinho de papel cor-de-rosa estava amarfanhado e desintegrando-se, mas 
eles conferiram para saber o nmero da janela em que visitariam Luke.

Haveria outros visitantes muito prximos de um lado e de outro, mas o guarda prometido estava ao lado deles. Parecia uma longa espera. Dez minutos, talvez quinze. 
Parecia uma eternidade. Ento eles vieram. De trs de uma porta de ao, surgiu uma fila de roupas laranja, sujas e amarrotadas, barbas por fazer, dentes mal escovados, 
risos amplos.

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Lucas era o quinto na fila. Alejandro deu uma olhada e viu que ele estava bem, e ento observou Kezia. Inconscientemente, ela se levantou quando o viu, ficou muito 
ereta, esticada ao mximo, com um sorriso reprovador no rosto. Seus olhos tornaram-se vivos. Estava inacreditavelmente bonita. E ela devia ter parecido ainda melhor 
para Luke. Os olhos dos dois encontraram-se e se fixaram, e ela quase danou naquele momento. At que finalmente ele pegou o fone.

Por que o cana atrs de voc?

Lucas!

Est bem, o guarda. Trocaram um sorriso.

Para conservar afastados os curiosos.

Algum problema?

Paparazzi. Luke fez que sim.

Algum disse que havia uma estrela de cinema aqui e um bando de reprteres tirando a fotografia dela. Acho que foi voc.

Ela confirmou com um gesto.

Voc est bem?

Estou muito bem. Ele no questionou e ela nunca confessaria estar outra coisa seno muito bem. Os olhos dele procuraram Alejandro momentaneamente, que lhe acenou 
e sorriu.

Aquela sua fotografia no jornal, minha santa, foi uma cagada.

Pois foi.

Eu me transtornei quando a vi. Parecia que voc estava tendo um ataque.

No seja tolo. E eu voltei outra vez a estar bem agora.

Esse furo chegou a Nova York? Ela disse que sim com a cabea.

Meu Deus, voc deve ter ouvido de Edward...

Voc pode imaginar. Mas ele sobreviver. Sorriu sem graa

E voc?

Ela fez que sim enquanto ele perscrutava-lhe o rosto.

O que foi que ele disse?

Nada que no fosse esperado. Ficou apenas preocupado.

Que foda para voc. Ter que passar por isso alm de tudo mais. Era estranho o modo como conversavam, como se estivessem sentados um ao lado do outro num sof.

Bosta. Alm disso, fomos realmente felizes at agora. Isso podia ter acontecido h muito tempo.

Sim, mas poderamos ter tido cobertura da imprensa em circunstncias bem melhores.

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Ela concordou com um sorriso, ansiosa para passar para outros assuntos. Tinham to pouco tempo...

Voc est bem, querido? Realmente?

Baby, estou habituado a essa merda, estou muitssimo bem.

Ainda est'amos noivos, voc sabe, sr. Johns.

Minha santa, eu a amo.

Eu o adoro. Todo o rosto dela se iluminou quando se derreteu ao olhar dele.

Discutiram uma srie de procedimentos legais e ele deu a ela uma lista de telefonemas para serem feitos, mas basicamente ele cuidara dos seus prprios assuntos antes 
de vir para a audincia. Ele soubera das chances que tinha melhor do que ela.

O resto da visita passou-se em banalidades, brincadeiras, pirraas, descries sarcsticas da comida, mas ele parecia surpreendentemente bem. As crueldades eram-lhe 
familiares. Falou com Alejandro uns minutos e ento apontou de novo para Kezia. Ela tirou um brinco de novo e pegou no fone enquanto Luke olhou por cima do ombro 
em direo a uma voz que ela no podia ouvir.

Acho que  isso. A visita est quase acabando.

Oh. Uma luz diminuta brilhou nos olhos dela. Luke...

Oua, baby, quero que voc faa uma coisa para mim. Quero que voc volte para Nova York hoje  noite. Eu j falei com Alejandro.

Lucas, por qu?

O que voc vai fazer aqui? Esperar at que eu v para Quentin e ento esperar trs semanas de carncia para visitas e me ver uma vez por semana por uma hora? No 
seja tola, baby, eu quero voc em casa. Alm do mais, seria mais seguro, ainda que agora ela no estivesse realmente em perigo. Agora que ele estava de molho, todas 
as faces adversrias ficariam apaziguadas. Kezia no representava interesse real. Mas ainda assim ele no queria correr riscos com ela.

Ir para Nova York e depois, Luke?

Faa o que voc costuma fazer, santa. Escreva, trabalhe, viva. Voc no est aqui, eu estou. No se esquea disso.

Lucas, voc... querido, eu o amo. Eu quero ficar aqui em San Francisco.

Ela era voluntariosa mas ele era mais.

Voc vai embora. Eu estou indo para Quentin na sexta-feira. Vou inscrev-la para visitas. Quando estiver tudo pronto, voc pode voltar. Calcule trs semanas. Eu 
vou lhe dizer quando.

Posso lhe escrever?

Um urso faz coco na floresta? Ele sorriu para ela.

283
Lucas! A tenso acabou em gargalhadas. Voc deve estar bem.

E estou. Ento voc fique tambm. E diga a esse idiota do meu amigo que  melhor ele tomar conta de voc ou ser um mexicano morto quando eu sair.

Que recado encantador. Estou certa de que ele ficar emocionado. E ento de repente tudo tinha acabado. Um guarda chamou alguma coisa do lado de Lucas da parede 
de vidro, e um outro guarda disse aos dois que estava terminado, no lado dos visitantes. Ela sentiu a mo de Alejandro no brao e Lucas ficou em p.

 isso a. Eu vou escrever.

Eu o amo.

Eu a amo tambm.

O mundo pareceu parar com essas palavras. Era como se ele as colocasse uma por uma no corao dela, atravs dos olhos. Ele as dissera e a prendia pertinho com o 
olhar e ento pousou suavemente o fone. Os olhos dela no o deixaram enquanto ele passava de volta pela porta, e desta vez ele olhou para trs, com um sorriso corajoso 
e um aceno. Kezia respondeu com outro e o seu mais valente sorriso. E a ele se fora.

O guarda que estava por trs deles agora os conduzia para o lado e mostrava o caminho para o elevador separado. Um txi fora chamado e esperava na garagem. No havia 
reprteres  vista. Rapidinho, eles estavam dentro do txi e abandonavam o edifcio e Luke. Estavam sozinhos outra vez, Alejandro e Kezia, e agora ela nada tinha 
diante de si. A visita acabara. E as palavras de Luke soavam nos seus ouvidos enquanto a imagem dele enchia os olhos da sua imaginao. Ela queria ficar sozinha 
com os sonhos do passado recente e distante. A ainda nova gua-marinha brilhava na sua mo trmula quando acendeu um cigarro e lutou por se controlar.

Ele quer que voltemos para Nova York. Falou com Alejandro, sem olhar para ele e a sua voz parecia rouca.

Eu sei. Esperava briga. Ficou surpreso de ouvi-la dizer isso to cruamente. Voc est disposta a retornar? Seria melhor que estivesse para afastar aquele inferno 
e deixar que ela juntasse os pedaos em casa e no no Ritz.

Estou bem. Acho que tem um avio s quatro. Vamos tom-lo.

Teremos que correr pra burro. Ele olhou para o relgio e discretamente assoou o nariz.

Acho que conseguiremos. A voz dela manteve-o a quilmetros de distncia e foi a ltima vez que se falaram at subir no avio.

284

Captulo 29

A voz ao telefone tornara-se familiar e querida.

Estou com fome. Alguma chance de encontrar comida na sua casa? Era Alejandro. Estavam de volta a Nova York h uma semana. Uma semana de constantes telefonemas dele, 
visitas inesperadas, pequenos ramos de flores. Problemas que ele supostamente precisava que ela o ajudasse a resolver. Espertezas, desculpas e ternura.

Suponho que poderia anunciar uma surpresa de atum.

Isso  o que comem na Park Avenue? Merda. Eu como melhor no subrbio. Mas a companhia no  to boa como a. Alm do mais eu tenho um problema.

Mais um? Bosta. Honestamente, amor, eu estou bem. Voc no precisa vir aqui de novo.

E se eu quiser?

Ento vou me regozijar com o prazer de v-lo. Ele sorriu no telefone.

To formal assim... e ainda servindo surpresas de atum. Alguma notcia de Luke?

Sim. Duas grandes cartas e um formulrio de visita para eu preencher. Aleluia! Mais quinze dias e ento eu posso visit-lo.

Aguenta firme. Ele disse mais alguma coisa? Ou s um monte de merda que eu no quero ouvir?

Montes. E tambm disse que estava numa cela de um metro e vinte por dois e setenta com um outro camarada. Parece confortvel, no ?

Muito. Alguma notcia boa? No tinha gostado da voz dela. A amargura comeara a substituir a tristeza.

No muita coisa fora disso. Ele mandou-lhe lembranas.

Estou lhe devendo uma carta. Vou escrev-la esta semana. E O que voc est fazendo hoje? Escrevendo alguma coisa sexy

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Ela riu ao pensar nisso.

Sim, fiz a crtica de uns livros muito sexy para o Washington Post.

Fantstico. Voc pode l-la para mim quando chegar a.

Ele chegou duas horas depois com uma pequena planta e um saco de castanhas quentes.

Como vo as coisas no Centro? Hummm... gostoso... pegue outra. Ela descascava as castanhas quentes no colo, diante do fogo.

O Centro no vai mal. J esteve pior. Mas no muito. Ele no queria contar-lhe agora. Do jeito que as coisas iam, ele partiria em um ms, talvez dois. Porm Kezia 
passara por muitas mudanas recentemente para ter que ouvir as dele.

Ento qual  o problema que voc queria discutir comigo?

Problema? Oh! Aquele problema.

Mentiroso... mas voc  um mentiroso adorvel. E um bom amigo.

Est certo, eu confesso. Eu s queria uma desculpa para ver voc. Abaixou a cabea como uma criana.

Bajulao, querido, Alejandro... adoro isso. Sorriu e jogou-lhe outra castanha.

Ele observou-a quando ela inclinou as costas na cadeira, aquecendo os ps junto ao fogo. Havia um sorriso nos lbios dela. Mas o brilho dos olhos desaparecera. Diariamente, 
sua aparncia piorava. Perdera peso, estava terrivelmente plida e suas mos ainda tremiam constantemente. Ele no estava gostando da situao. No gostava mesmo.

Quanto tempo faz que voc no sai, Kezia?

Sai de onde?

No se faa de tola comigo, sua bundona. Voc sabe o que eu quero dizer. Desta casa. L fora... ar fresco. Fitou-a nos olhos, mas ela evitou o olhar dele.

Ora, isso. Realmente, h algum tempo.

Quanto durou esse algum tempo? Trs dias. Uma semana?

No sei. Alguns dias, acho. Principalmente, por ter estado com medo de ser cercada pela imprensa.

Bosta. Voc me disse que h trs dias no estavam mais telefonando, que no andavam em volta do edifcio. A histria est morta e voc sabe. Ento o que a prende 
em casa?

Letargia, fadiga, medo.

Medo de qu?. Ainda no sei.

Olha, baby, uma poro de coisas mudou para voc, de uma

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forma brutal e sbita, mas voc tem que voltar a fazer alguma coisa. Saia, veja pessoas, apanhe ar. Inferno. V fazer compras se isso a faz se mexer, mas no se 
feche aqui. Voc est comeando a ficar verde.

Muito chique. Mas ela compreendera o recado.

Voc quer sair para um passeio, agora. Ela no queria mas sabia que devia.

OK.

Eles vagaram em direo ao parque, em silncio, de mos dadas e ela conservou os olhos baixos. Estavam quase no zoo quando Kezia comeou a falar.

Alejandro, o que  que eu vou fazer?

A respeito de qu? Ele sabia mas queria ouvir dela.

Minha vida.

D tempo a voc mesma para se ajustar. Ento imagine. Ainda  muito recente. Em certo sentido, voc est em estado de choque.

 o que me parece. Fico andando por a, como uma tonta. Esqueo de comer, esqueo da correspondncia que chegou. No posso me lembrar em que dia da semana estou. 
Comeo a trabalhar, e ento minha mente voa e, quando me dou conta, j se passaram duas horas e ainda no acabei a frase que estava batendo a mquina.  uma coisa 
louca. Sinto-me como essas velhinhas que se retraem em suas casas e  preciso que algum as lembre de pr a outra meia, ou que acabem de tomar a sopa.

Voc ainda no est to ruim. Acabou com as castanhas bem depressa.

No, mas eu vou chegar l, Alejandro. Sinto-me to vaga... e to perdida...

Tudo que voc precisa fazer  ser boa consigo mesma e esperar at que se sinta mais segura.

Sim, e nesse meio tempo olho para as coisas dele no closet. Fico deitada na cama e espero ouvir o barulho da chave na porta, mentindo para mim mesma, dizendo que 
ele est em Chicago e vai voltar amanh de manh. Essas coisas esto me pondo louca.

No  de surpreender. Olhe, baby, ele no est morto.

No, mas foi embora. E eu me habituei a confiar tanto nele ele... Em trinta anos, ou dez bem vividos, enfim, nunca contei com um homem. Mas, com Luke, eu me entreguei. 
Rompi as barreiras. Apoiei-me toda nele e agora... eu me sinto como se fosse cair.

Agora? Ele tentou imstig-la um pouco.

Oh. Cale a boca.

Est certo. Mas o fato  que ele foi embora e voc no. Voc tem que retomar a sua vida. Mais cedo ou mais tarde.

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Ela concordou, afundando as mos nos bolsos, e puseram-se a andar. Tinham chegado s carruagens puxadas a cavalo, ao Plaza, antes que ela levantasse os olhos.

Deve ser um hotel e tanto falou Alejandro. De certo modo, me lembra o Fairmont.

Voc j esteve nele? S para dar uma olhada? Ficou surpresa quando ele abanou a cabea.

Nunca. No ouve razo para isso. Esta no  exatamente a minha parte da cidade.

Ela sorriu e escorregou a mo pelo brao dele.

Venha, vamos entrar.

Eu no estou com gravata. A ideia o deixava nervoso.

E eu pareo uma desleixada. Mas eles me conhecem e vo nos deixar entrar.

Aposto que vo. Riu e subiram os degraus do Plaza, como se a travessura tivesse comeado.

Passaram por senhoras idosas empoadas comendo doces ao som dos violinos no ptio das palmeiras e Kezia o guiava com percia pelos halls misteriosos. Ouviram japons, 
espanhol, sueco, e uma confuso de francs e uma msica, que lembrava a Alejandro os antigos filmes de Greta Garbo. O Plaza era mais grandioso que o Fairmont e tinha 
muito mais vida.

Pararam numa porta, enquanto Kezia espiava para dentro. A sala era grande e opulenta, com revestimento contnuo de carvalho, que lhe tinha dado o nome. Havia um 
bar comprido e elaborado e uma bela vista para o parque.

Louis? Ela fez sinal para o chefe dos garons quando ele se aproximou com um sorriso.

Mademoiselle Saint Martin, comment a v! Quel plaisir.

Ol, Louis. Voc acha que pode nos instalar numa mesa calma? No estamos vestidos de acordo.

Aucune importance. Isso no  problema! Garantiu to magnnimo que Alejandro ficou convencido de que eles poderiam ter chegado completamente nus.

Sentaram-se a uma mesinha no canto e Kezia apreciou as nozes.

Bem. O que acha?

Notvel Ele olhava um pouco receoso. Voc vem aqui muitas vezes?

No. Estou habituada. O mximo que se pode. As mulheres s so aceitas em certas ocasies.

Um stag bar, no ? S para homens!

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Voc est perto. Rima com... Ela deu uma gargalhada fag, querido, fags bichas. Penso que se pode dizer que este  o mais elegante bar gay em Nova York.

Ele riu em resposta e olhou em volta. Ela tinha razo. Havia uma poro de gays espalhados aqui e ali. Eram, de longe, os homens mais elegantes na sala. Os outros 
todos pareciam homens de negcios e chatos.

Sabe, Kezia, quando vejo um lugar como este, entendo por que voc se enroscou com Luke. Eu imagino. No que haja alguma coisa errada com Lucas. Mas esperaria que 
voc se agarrasse a algum advogado de Wall Street.

Por um tempo tentei, era gay.

Jesus.

Pois . Mas o que  que voc queria dizer com "quando vejo um lugar como este?"

Apenas que os homens do seu crculo no me surpreendem.

Ah, bem. Eles tambm no me surpreendem. Foi sempre esse o problema.

E agora? Voc vai voltar para o seu antigo mundo?

No sei se posso, ou por que eu deva me preocupar com isso. Penso que  muito mais provvel eu esperar pela sada de Luke.

Ele no disse nada e encomendaram outra rodada de scotch.

E seu amigo, Edward? Voc fez as pazes com ele? Alejandro ainda estremecia ao se lembrar da voz aturdida no fone do Fairmont, aps a audincia.

De certo modo, no acho que ele v realmente me perdoar pelo escndalo. Sente-se um fracasso, j que num certo sentido foi ele quem me criou. Mas, afinal, os jornais 
acabaram esfriando. E as pessoas se esquecem. Eu j sou notcia velha. Encolheu os ombros e sorveu mais um gole do scotch. Alm do mais, as pessoas me deixaram sair 
numa boa. Se a pessoa tem bastante dinheiro, eles a chamam de excntrica e acham engraada. Se no tem grana, chamam de pervertida e puta.  revoltante, mas  verdade. 
Voc ficaria chocado com certas coisas que meus amigos fazem. Nada mais mundano do que o meu caso de amor ultrajante com Luke.

Voc se importa se as pessoas ficam perturbadas com Luke?

No, mesmo.  problema meu, no deles. Uma poro de gente mudou nos ltimos meses. Principalmente eu. Tanto faz. Edward, por exemplo, tem essa iluso de que ainda 
sou criana.

Alejandro queria dizer "Eu tambm", mas no disse. Kezia tinha essa qualidade, alguma coisa a ver com o seu tamanho e a sua aparente fragilidade.

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Saram depois da terceira rodada de scotch, estmagos vazios, ambos de pileque.

Voc sabe o que  mais engraado? Ria tanto que quase no se mantinha de p, embora o ar frio os fizesse um pouco sbrios.

O qu?

No sei... tudo... Ela tornou a rir, enquanto ele enxugava lgrimas de frio e de contentamento.

Ei, quer dar um passeio de charrete?

Sim!

Subiram e Alejandro instruiu o condutor para lev-los para a casa de Kezia. Era uma carruagem confortvel, com uma manta velha felpuda. Eles se aconchegaram debaixo 
dela e riram durante todo o caminho at em casa, isolados pela manta e pelo scotch.

Posso lhe contar um segredo, Alejandro?

Claro. Eu gosto de segredos Segurou-a rente, para que ela no casse. Era uma boa desculpa.

Eu fiquei embriagada todas as noites desde que voltei.

Ele olhou para ela atravs da nuvem de scotch e sacudiu a cabea.

Isso  asneira. No vou deixar voc fazer essa bobagem consigo mesma.

Voc  um homem bom, Alejandro. Eu gosto de voc.

Eu tambm gosto de voc.

Continuaram o resto do caminho em silncio. Ele pagou o tlburi e foram para o apartamento rindo, no elevador.

Sabe, acho que estou bbada demais para cozinhar.

Tanto faz. Acho que estou bbado demais para comer.

Eu tambm.

Kezia, voc deve comer...

Mais tarde. Voc quer vir jantar amanh?

Estarei aqui. Com um sermo. Tentou parecer srio mas no conseguiu e ela riu.

Ento no deixo voc entrar.

Ento me irritarei, arquejarei e bufarei. Os dois caram na gargalhada e ele beijou-lhe a ponta do nariz. Vou ter que ir. Mas amanh venho lhe ver. E voc me promete?

O qu? De repente, ele ficara to srio.

Nenhum drinque mais hoje de noite, Kezia. Promete?

Eu... ah... sim... est bem. Mas era uma promessa que no estava planejando cumprir.

Ela acompanhou-o at o elevador, e acenou animada quando a porta se fechou, antes de voltar para a cozinha levando o resto da garrafa
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do scotch que abrira na noite anterior. Ficou surpresa de ver que s restava uns centmetros.

Era estranho, mas quando verteu o que restava na garrafa num copinho com um cubo de gelo, a viso do funeral de Tiffany passou-lhe pela mente. Era uma estpida maneira 
de morrer, mas todas as outras provocavam tanta confuso. Pelo menos, beber no era complicado, no realmente... no muito... ou era? Realmente no se importava 
quando sorriu para si mesma e esvaziou o copo.

O telefone estava tocando mas nem se incomodou em atender. No podia ser Luke. Mesmo bria, isso ela sabia. Luke estava fora, numa viagem... noTaiti... num safari... 
e no havia telefones l, mas estaria de volta no fim de semana. Estava certa disso. Sexta-feira. E vejamos... que dia  hoje? Tera-feira? Segunda-feira? Quinta! 
Ele estaria em casa amanh. Abriu uma nova garrafa. Bourbon, desta vez. Para Lucas. Ele viria muito breve.

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Captulo 30

Menina, voc est terrivelmente magra.

Marina chama a isso "divinamente esbelta". Ela e Halpern acabaram de passar. O casamento realizara-se no feriado de Ano-Novo em Palm Beach.

Edward insinuou-se na banqueta ao lado dela. Era o primeiro almoo em quase dois meses. E agora ela estava to diferente que ele ficou chocado.

Com profundas olheiras, a pele parecia esticada sobre os ossos da face e no havia nem mesmo brilho naqueles olhos onde antes havia fogo. Que preo ela pagara. E 
para qu? Edward estava horrorizado, mas tinha prometido no discutir isso com ela; fora a condio dela para aceitar o convite para almoar. E ele queria tanto 
v-la... talvez ainda houvesse uma chance de recuperar o que perdera.

Desculpe, atrasei-me, Kezia.

No se preocupe, meu amor. Bebi um drinque enquanto esperava.

Aquilo tambm era novidade. Mas pelo menos ela ainda estava impecavelmente arranjada. Ainda mais do que de hbito, de fato. Parecia quase formal. O casaco de mink 
que s raramente usava estava atirado na cadeira.

Por que vestida to formalmente hoje, querida? Vai a algum lugar depois do almoo? Normalmente ela no dava importncia  aparncia, porm o raro aparecimento do 
casaco de mink surpreendeu-o.

Eu estou virando uma nova pgina. Indo para casa para me recolher, para me empoleirar, como dizem.

A carta de Luke, que recebera naquela manh, tinha insistido para que ela pelo menos experimentasse seus velhos ambientes de novo. Era melhor do que ficar sentada 
em casa, enfarada, ou bebendo, um novo hbito do qual ele ainda no sabia. Mas ela decidira experimentar o conselho
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dele. Por essa razo aceitara o almoo com Edward e trouxera o casaco de peles. Mas ela sentia-se fodida, ou como Tiffany, tentando disfarar o desastre com hlito 
de hortel e peles caras.

O que voc quer dizer com "virar uma nova pgina"?

Ele no ousava mencionar o assunto Johns, ela poderia se retirar no mesmo instante. E ele estava com medo disso. Acenou para o garom com o pedido habitual: champanha 
Louis Roederer. O garom, embora muito atarefado, mostrou que compreendera com um sorriso.

Oh, digamos que estou fazendo um esforo para ser uma boa moa e ver alguns dos meus velhos amigos.

Whitney? Edward ficou um pouco surpreso.

Eu disse que estava querendo ser boa moa, no ridcula, querido. No, eu apenas pensei em voltar e dar uma olhadela em torno.

Chegou o champanha e foi servido pelo garom. Edward experimentou e deu a sua aprovao. As taas foram enchidas e Edward levantou a sua, num brinde.

Ento deixe-me dizer bem-vinda  casa. Queria perguntar se ela havia aprendido a lio, mas no ousou. Talvez tivesse, entretanto... talvez tivesse. E em todo caso 
seu pequeno contratempo certamente a teria amadurecido. Ela parecia cinco anos mais velha, especialmente no vestido simples de l lils, com as notveis prolas 
da sua av. E ento ele notou o anel. Olhou para a jia e fez um gesto de aprovao. Muito bonito,  novo?

Sim. Luke comprou-o para mim em San Francisco. Uma expresso atormentada apareceu no rosto dele de novo. Amargura. Raiva.

Compreendo. No houve outro comentrio e Kezia terminou seu drinque enquanto Edward sorvia seu champanha.

Como vo seus textos nestes dias?

Vo indo. Por enquanto, no escrevi coisa alguma de que gostasse. E, tudo bem, Edward, eu sei. Mas olhar para mim como voc olha no muda nada. Eu sei tudo a respeito. 
Subitamente, sentiu-se farta do constante arco nas sobrancelhas dele. Est certo, querido. Eu no estou escrevendo to bem como deveria. Perdi seis quilos desde 
a ltima vez que voc me viu. Fechei-me em casa porque estava aterrorizada com os reprteres, e pareo dez anos mais velha. Sei disso tudo. Ns dois sabemos que 
passei maus pedaos. E ns dois sabemos por qu, ento deixe de olhar para mim com ar to danadamente chocado e desaprovador, porra. Realmente  um p no saco.

Kezia

Sim, Edward?

Ento percebeu no olhar dela que havia mais bebida do que pensara.
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Ficou to petrificado que se virou no assento e fitou-a intensamente.

OK, querido, o que  agora? O rmel est torto?

Voc est bbada. A voz dele no passou de um sussurro.

Estou sim. Sussurrou-lhe de volta, com um sorriso amargo. E eu vou virar alcolatra. Que tal para um dia como este?

Ele recostou-se na cadeira com um suspiro, em busca das palavras certas. S ento ele a viu: a reprter do Women's Wear Daily, fitando-os do outro lado da sala.

Maldio!

 s isso o que voc pode dizer, amor? Estou me transformando numa alcolatra e tudo o que voc consegue pensar para dizer  "maldio"? Estava brincando com ele, 
maldosamente, sordidamente, mas no podia evitar. Ficou chocada quando sentiu o belisco que ele lhe deu no brao.

Kezia, aquela mulher do Women's Wear est ali e se voc fizer alguma coisa para chamar-lhe a ateno ou antagoniz-la eu... voc vai se arrepender.

Kezia deu uma gargalhada, uma gargalhada profunda e beijou-lhe a face. Achou engraado, enquanto Edward tinha a sensao de perder o controle dos acontecimentos. 
Ela queria ser o centro das atraes. No queria voltar "para casa" como dissera. Ela nem mesmo sabia onde era a casa. E estava bem pior do que Liane. To mais discreta, 
to mais forte, mais dura, mais voluntariosa... e to mais bela. Ele nunca a tinha amado mais do que naquele momento e tudo o que queria era sacudi-la ou esbofete-la, 
e depois fazer amor com ela. At no meio do La Grenouille, se fosse preciso. As ideias subitamente correndo pela sua mente chocaram-no e ele sacudiu a cabea como 
que para clare-la. Sentiu a mo de Kezia dando-lhe pancadinhas na mo.

No fique com medo da velha idiota da Sally, Edward, ela no morde. S quer uma histria. Ele se viu na dvida se devia sair antes do almoo. Mas isso tambm chamaria 
a ateno. Estava preso numa armadilha.

Kezia... Estava quase tremendo de medo e tudo o que podia fazer era tomar a mo dela na sua, olh-la nos olhos e rezar para que ela se comportasse e no fizesse 
uma cena. Por favor.

Kezia viu o sofrimento nos olhos dele e isso foi como lanar leo escaldante na sua alma. Ela no queria ver os sentimentos dele, no agora. No conseguia controlar 
os dela para no falar nos dele.

Est certo, est certo, Edward. Olhava para longe, com a voz controlada de novo e notou que a reprter da WWD tomava notas num bloquinho. Mas no haveria novas histrias. 
Apenas tinham sido vistos.
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Ela no ia provocar encrenca. Eles j tinham tido bastante. Lamento disse Kezia com um jeito de criana, recostando-se na banqueta, enquanto um suspiro de alvio 
passou por Edward. Ento sentiu-se terno de novo.

Kezia, por que no posso ajud-la?

Porque ningum pode. Havia lgrimas tremendo nos clios dela. Apenas tente aceitar que no existe porra nenhuma que voc possa fazer por mim agora. O presente  
o que , e o passado aconteceu, e o futuro... bem, eu no vejo claramente agora. Talvez seja esse o problema.

Ela frequentemente se via imaginando se era o que Tiffany sentira. Como se algum lhe tivesse roubado o futuro. Tinham lhe deixado o enorme anel de esmeralda e as 
prolas, mas nenhum futuro. Isso era difcil de explicar a Edward. Ele estava sempre to certo de tudo... Isso o fazia parecer afastado tambm.

Voc se arrepende do passado, Kezia? Mas levantou os olhos horrorizados com a reao nos olhos dela. Dissera outra vez a coisa errada. Meu Deus, era difcil conversar 
com a moa. Um almoo torturante.

Se voc est se referindo a Lucas, Edward, claro que no estou arrependida. Ele foi a nica coisa decente que me aconteceu nos ltimos dez ou vinte anos ou talvez 
trinta. O que lamento  a cassao da condicional. No h nada que eu possa fazer agora. No h nada que algum possa fazer agora. No se pode apelar para uma revogao 
de liberdade condicional.  totalmente intil.

Compreendo. No fazia ideia que voc estivesse to envolvida nesse... nesse problema. Pensei que depois...

Ela cortou-lhe a palavra com um olhar de extrema irritao.

Voc pensou errado. E s para que voc no morra com o choque se ler nos jornais, eu vou voltar l muito brevemente.

Para que, em nome de Deus? Ele estava falando com ela baixo, de modo que ningum ouvisse, mas Kezia falava com voz normal.

Para visit-lo, obviamente. E eu lhe disse que no quero discutir esse assunto. E sabe de uma coisa, Edward? Estou achando esse assunto inteiramente inadequado para 
voc e este almoo insuportavelmente aborrecido. Realmente, querido, eu penso que j acabei. A voz dela estava subindo para um timbre desagradvel e Edward podia 
sentirse contorcido dentro do colarinho engomado. Detestava cada minuto da situao. Ela esvaziou o copo, olhou em torno da sala por um minuto e depois para ele, 
com olhar estranho.

Kezia, voc est bem? Ficou muito plida, de repente. Ele estava terrivelmente preocupado.

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No, realmente estou bem.

Devo pedir um txi para voc?

Sim, talvez eu deva ir. Para lhe dizer a verdade  tenso. Aquela puta da Women's Wear esteve nos observando desde que nos sentamos e de repente me senti como se 
toda a sala estivesse me observando para ver como  que eu estou. E tudo o que posso fazer  no me levantar e dizer a todos eles para irem se foder.

Edward empalideceu.

No, Kezia, no acho que voc deva fazer isso.

Ai, porra, querido, por que no? S de sacanagem!

Ela estava brincando outra vez com ele e cruelmente. Por qu? Por que tinha que fazer isso com ele? Ela no sabia que ele se preocupava? Que o despedaava v-la 
naquele estado... que ele no era feito somente de camisas brancas e ternos escuros... que algum vivia dentro do elegante terno, um corao... um corpo... um homem. 
As lgrimas queimavam-lhe os olhos e havia uma aspereza na voz dele quando, calmamente, ficou de p e tomou o brao de Kezia. Estava parecendo diferente, e ela tambm 
sentiu. A brincadeira tinha terminado.

Kezia, voc vai sair agora. Ela dificilmente ouvia as palavras dele mas podia sentir o tom em que eram ditas do outro lado da sala. Ela estava sendo despachada como 
uma criana maldosa.

Voc est com muita raiva? sussurrou-lhe enquanto ele a ajudava a vestir o casaco de mink. Ela agora estava assustada. S queria brincar... queria... magoar. Os 
dois sabiam disso.

No, apenas muito triste. Por sua causa falou e a conduziu at a porta, mantendo-a bem segura pelo cotovelo. Ela no teria chance de se comportar mal entre a mesa 
e a porta. A brincadeira terminara. E Kezia sentiu-se estranhamente submissa a seu lado.

Edward recebeu uns poucos sorrisos frios  direita e  esquerda no seu caminho para fora. Ele no queria que ningum pensasse que houvera um problema e Kezia parecesse 
ameaadora.

Ficaram alguns momentos no vestirio, enquanto esperavam que a moa trouxesse o casaco dele e o chapu de feltro Homburg.

Edward, eu... Comeou a chorar, agarrando-se fortemente ao brao dele.

Kezia, aqui no. Ele no podia suportar mais.

Ela enxugou as lgrimas com a mo enluvada de camura preta e tentou um sorriso.

Para onde voc est indo agora? Para casa para se deitar, eu espro. E se controlar. Ele no disse isso mas estava nos seus olhos,

quando ps o chapu na cabea.

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Realmente, eu estava me preparando para aparecer na reunio do baile dos artrticos hoje. Mas no sei se estou disposta.

Acho que voc no est.

Sim. Mas eu no o frequento h tanto tempo...

E agora havia o lugar de Tiffany para preencher como a bbada da sociedade local... Seus filhos da puta... Oh, meu Deus, o que teria acontecido se ela tivesse dito... 
o que se... o que se... Ela sentiu um fluxo de calor seguir-se  onda de palidez verde e imaginou se ia desmaiar ou vomitar. Bela histria para o WWD.

Edward sustentou-a pelo cotovelo de novo, levando-a at a rua. O ar frio pareceu restaur-la. Respirou fundo e sentiu-se melhor.

Voc tem ideia do que  ver voc fazer isso a si mesma? E para... para... Os olhos dela buscaram os dele, mas ele no parou. Para nada. Para aquele... aquele joo-ningum, 
Kezia, pelo amor de Deus, pare agora. Escreva-lhe e diga-lhe que no quer v-lo mais. Diga-lhe...

As palavras dela congelaram-no.

Voc est me dizendo que isso  uma escolha? Ficou silenciosa observando-o.

O que voc quer dizer? Ele sentiu um arrepio gelado nas costas abaixo.

Voc sabe exatamente o que eu quero dizer. Isso  uma escolha, Edward? Nossa amizade ou o amor dele?

No mocinha, meu amor ou o dele. Mas no podia dizer-lhe isso.

Porque se for isso que voc est dizendo... ento eu estou dizendo adeus. Ela retirou o brao antes que ele pudesse responder e fez sinal para um txi que estava 
passando. O veculo parou, rangendo, alm do toldo.

No, Kezia, eu...

Vejo-o breve, querido. Beliscou-lhe a bochecha antes que ele pudesse se recompor e insinuou-se rapidamente no txi. Antes que ele se desse conta, ela fora embora. 
Fora embora... ento estou dizendo adeus. Como  que ela conseguiu? E to sem corao, sem emoo nos olhos?

Mas o que Edward no sabia  que ela no podia abandonar Luke. No por qualquer um. Nem mesmo por ele. Luke era a via de salvao do mundo que a perseguira. Luke 
lhe mostrara a sada, agora tinha que se manter presa a ele. No podia lhe virar as costas. Nem mesmo por Edward. Sozinha no txi, ela s pensava em morrer. Ela 
fizera isso. Ela o matara. Matara Edward. Era como matar o pai... como matar Tiffany de novo. Por que sempre era preciso que algum sasse mutilado? Kezia imaginou 
enquanto ia para a cidade alta lutando contra os soluos.
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E por que Edward? Por que ele? Ele s tinha a ela, e ela sabia disso. Mas talvez tivesse que ser. Ela no podia deixar Luke, era uma questo de lealdade... Edward 
podia suportar a sua ausncia. Ele era to firme... Sempre sobreviveu ao que precisou suportar. Era bom nessas coisas. Ele compreendia.

Kezia s no sabia que ele ia passar o resto do dia andando, olhando para as pessoas, para as mulheres e pensando nela.

O txi parou Quinta Avenida, no endereo que Kezia lhe dera. Ela chegou bem na hora da reunio. O comit estaria comeando a se reunir. Pensou nos rostos das senhoras 
quando pagou ao motorista a corrida... Todas aquelas caras... casacos de mink... safiras... e esmeraldas... e... sentiu uma onda de pnico passar por ela. O almoo 
com Edward a deixara esgotada, e no se sentiu capaz de aguentar. Parou um monento antes de entrar no edifcio. E ento compreendeu que no podia entrar. Os olhos 
bisbilhoteiros na La Grenouille tinham sido bastante ruins. Mas pelo menos tinham que guardar distncia. As mulheres do comit no precisavam e num instante estariam 
todas em cima dela por falso interesse e apartes sarcsticos. E, claro, todas viram as fotografias dela desmaiando no tribunal e leram cada palavra da histria. 
Era simplesmente demais para suportar.

A neve rangia sob seus ps enquanto andava at a esquina para chamar outro txi e voltar para casa. Queria fugir. Tinha voltado  roda-viva insana da sua vida antes 
de Luke. E mesmo por um nico dia enervara-a. De txi para txi, de almoo para reunio, para nenhum lugar, para nada, para beber, beber demais, ficar bbada. Imaginou 
o que, em nome de Deus, estaria fazendo.

Nevava. Kezia estava sem chapu e sem botas, mas puxou o casaco de mink bem junto ao corpo e afundou as mos enluvadas nos bolsos. Eram apenas uns doze quarteires 
at sua casa e ela precisava de ar.

Percorreu com dificuldade todo o caminho, os sapatos de suede encharcados, o cabelo mido, e quando chegou em casa suas faces estavam queimando, suas pernas geladas 
e dormentes, mas sentiu-se viva e sbria novamente. Puxara o cabelo do n e deixara cair em torno dos ombros, juntando uma mantilha de neve. O porteiro correu at 
ela com seu guarda-chuva meio quebrado quando a viu surgir da neve e da escurido e ela riu a essa cena.

No, no Thomas, eu estou bem! Sentia-se como uma criana outra vez e os sapatos encharcados no tinham importncia. Era a espcie de bravata que tinha vencido nos 
seus dias de criana. Totie at a acusaria de uma coisa dessas a Edward. Mas Totie era uma coisa do

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passado, como Edward, Ela percebera hoje. Podia andar na neve a noite inteira se quisesse. Realmente no importava. Nada tinha importncia. Exceto Luke.

Finalmente o zumbido deixara sua cabea, seus ombros j no pesavam tanto, sua mente estava clara. At mesmo os drinques tinham evaporado com o frio e a neve.

A campainha tocou exatamente quando ela tirara as meias e pusera os ps gelados debaixo da torneira quente da banheira. Eles formigavam, doam e ficaram vermelhos. 
Ficou na dvida se abria a porta e decidiu rapidamente no faz-lo. Obviamente era o ascensorista com um embrulho; se fosse visitante, a teriam chamado l de baixo 
para pedir permisso para mandar subir. Mas a campainha era persistente e finalmente ela enxugou os ps numa das grandes toalhas com monograma e correu para a porta.

Sim? Quem ?

Cesar Chavez.

Quem?

Alejandro, sua bobinha. Ela abriu a porta inteiramente.

Meu Deus, voc parece Frosty, o boneco de neve. Veio a p?

O caminho todo. Parecia contente consigo mesmo. Acho que afinal gosto de Nova York. Quando neva, pelo menos. No  um barato?

Ela concordou com um amplo sorriso.

Entre!

Eu estava esperando que voc dissesse isso. Eles tocaram a campainha uma poro de vezes, mas voc no respondia. O camarada dizia que voc estava em casa. E eu 
devo parecer honesto ou perfeito, porque ele me deixou subir.

Eu estava com os ps na banheira. Olhou para baixo, para os ps nus que estavam quase prpura pelo retorno da circulao aps o choque da banheira. Eu tambm vim 
andando para casa.  formidvel.

O que  que houve? No conseguiu um txi?

No. Apenas vontade de andar. Foi um dia meio louco e eu precisava me soltar.

O que aconteceu? Olhou visivelmente preocupado.

Nada de importante. Tive um daqueles insuportveis almoos com Edward e foi um inferno de tenso. Entre o fracasso dele de no conseguir esconder a desaprovao 
e os olhares do resto do pessoal que estava l, para no mencionar uma reprter do Women's Wear nos rodando...
299
eu tive uns fricotes. E ento, para fazer as coisas ainda piores, fui para uma reunio beneficente e desanimei antes de entrar. Foi a que decidi voltar andando 
para casa.

Parece que voc precisava disso.

. Realmente estou em outra. No consigo nem mesmo transar o absurdo de ter uma vida dupla de novo, e no vou recomear. Essa vida simplesmente no me serve. Antes, 
ficar aqui sozinha.

Voc est me dizendo para ir embora?

No seja estpido.

Ele riu, enquanto Kezia tomava-lhe o palet encharcado, pendurando-o na porta da cozinha.

Tenho que admitir que esse barato todo  bem estranho.

Pior... mas, querido, como voc est divino, no  isso o wet look Cardin... oh, e o seu anel. Ela pegou na mo em que ele tinha uma rude turquesa indiana. Mas o 
anel  um David Webb naturalmente... sua nova coleo, querrriiiddo? Ah, e naturalmente os tnis so do Macy's. Que ideia original! Fez uma careta e revirou os olhos. 
Eu quero dizer, meu Deus, Alejandro, como pode algum respirar debaixo dessa merda?

Use um tubo respiratrio.

Voc  impossvel. Eu estou falando srio.

Perdoe-me. Ele instalou-se no sof depois de ter se livrado dos sapatos. Porra, voc se habituou a viver essa vida com bastante sucesso, no foi?

Claro. Enquanto me esgueirava nos metros para encontrar meu amante no SoHo ou voava para encontrar Luke em Chicago. Alm disso, eu tinha que escrever aquele monte 
de bobagens para a coluna.

Bosta. Voc no "tinha que escrever", apenas voc queria, ou no teria feito.

Isso no  necessariamente verdade. Mas, de qualquer forma, eu no quero fazer mais, e no vou fazer. Alm disso, todo mundo sabe que eu no quero entrar mais nessa, 
ento por que tentar fingir? Mas a questo : o que fazer agora? Eu no me encaixo naquilo, Luke no est aqui, o que me faz sentir... sem rumo. Acho que  a melhor 
maneira de dizer isso. Alguma sugesto?

Sim. Faa-me uma xcara de chocolate quente. Ento vou resolver todos os seus problemas.

 um acordo. Voc quer um pouco de conhaque misturado?

No. Vou beber conhaque puro, obrigado. No queria dar uma desculpa a ela para comear a beber. Ela no precisava muito das desculpas, mas ele pensou que ela podia 
recusar beber sozinha. Acertou.

300
Voc no est muito engraado, mas nesse caso eu tambm vou beber o meu puro. Acho que tenho bebido demais ultimamente.

Sem brincadeira. Quando voc notou isso? Depois que os A.A. atraram voc com uma subscrio grtis, ou antes?

No seja chato.

O que  que voc quer que eu faa? Que eu fique de boca calada at voc aparecer com cirrose?

Isso parece bonito.

Jesus, Kezia, isso nem mesmo  engraado. Voc realmente me deixa arrasado. Era esta a aparncia dele quando ela foi para a cozinha.

Poucos minutos depois, ela aparecia com duas canecas de chocolate quente.

E como foi o seu dia?

Uma droga, obrigado. Tive uma pequena discusso com a diretoria. Pelo menos pensaram que era pequena. Eu quase pedi demisso.

Voc fez isso? Como foi?

O lixo habitual. Atribuio de fundos. Fiquei to aborrecido que disse a eles que ia passar dois dias fora.

Isso deve ter lhes agradado. O que  que voc vai fazer com esses dois dias.

Voar para San Francisco com voc para ver Luke. Quando voc vai?

Meu Deus, Alejandro! Ser que voc pode fazer isso? Estava deliciada, mas ele acabara de gastar tanto dinheiro para ir  audincia...

Claro que sim. Mas no na primeira classe. Voc topa se sentar com os camponeses no fundo do nibus?

Acho que suporto. Voc joga gamo? Posso levar meu conjunto pequeno.

O que  que voc me diz de pquer?

Voc est de porre. Para dizer a verdade, estou contente de que voc venha... estava pensando nisso, esta manh, e acho que estou com medo mortal dessa viagem.

Por qu? Ficou surpreso.

San Quentin. Soa horrivelmente. E eu nunca estive num lugar como esse.

No  exatamente uma viagem de prazer mas tambm no  uma masmorra. Voc vai se sair bem. Mas s para ter certeza, ele iria junto, Luke fizera questo de que ele 
fosse com ela. E Alejandro sabia que ele no pediria se no tivesse um motivo qualquer. Alguma coisa estava acontecendo.

301
Oua, voc vai s por que imagina que estou com medo de ir sozinha? A ideia a deixava aturdida.

No seja to egosta. Acontece que ele  meu amigo tambm. Ela corou ligeiramente e ele puxou-lhe uma mecha do cabelo negro emaranhado. Alm disso, depois de tudo 
o que eu vi voc atravessar, tenho a sensao de que se eles estivessem atirando msseis M-16 por cima da sua cabea voc s prenderia os seus brincos, poria as 
luvas e marcharia em linha reta.

Eu sou to ruim assim?

Ruim, no, baby... impressionante. Extremamente impressionante, e, a propsito, enquanto ns estivermos fora eu quero fazer uma entrevista para um emprego numa comunidade 
teraputica que eu mencionei uma vez.

Voc est falando srio, em arranjar um novo emprego? Muita coisa estava mudando.

Ainda no sei, mas vale a pena ir vendo.

Bem, sejam quais forem suas razes, estou contente de irmos l juntos. E Luke vai ficar contente de ver voc. Que surpresa para ele!

Quando vamos?

Quando voc pode sair do Centro?

Quase sempre a qualquer hora que eu queira.

Que acha de amanh  noite? Recebi uma carta de Luke hoje de manh que dizia que eu terei permisso em dois dias. Ento amanh  noite seria timo para mim. E para 
voc?

Parece perfeito.

Instalaram-se com o chocolate quente e aconchegaram-se no sof, contando velhas histrias, falando de Luke. Ela riu de novo como no tivera ocasio em semanas e 
 meia-noite ela o induziu a jogar dados por quase uma hora.

Voc sabe de uma coisa que eu no transo mais?

Sei, com dados. Lady, voc joga muito mal. Mas ela gostou do jogo e ele tambm estava se divertindo.

No, cale a boca, estou falando srio.

Desculpe-me.

Estou, realmente. A coisa com que eu no transo mais  a presso de fingir, e todo esse modo de vida em que eu cresci,  fingimento agora. No posso falar abertamente 
de Lukc sem criar escndalo. No posso mostrar a ningum, que magoa. Nem posso ser eu mesma. Tenho que ser a ilustre Kezia Saint Martin.

Talvez porque acontea de voc ser a ilustre Kezia Saint Martin. Nunca pensou nisso? Rolava os dados na mo.

302


Sim, mas eu no sou "aquela" Kezia Saint Martin. No mais. Eu sou eu. E fico sempre preocupada pensando se vou deixar escapar a verdade ou chamar algum de filho 
da puta, ou jogar uma quiche lorraine no rosto de algum.

Parece engraado. Por que no tenta? Ela rosnou com gargalhadas quando se sentaram defronte do fogo, ela sobre as pernas.

Algum dia eu poderia tentar. Mas isso, meu amigo, seria o grand finale definitivo. Voc j imaginou como sairia na Tunel Kezia Saint Martin, numa festa na sexta-feira, 
com um gesto sbito, atirou uma torta de limo com suspiro que respingou em cinco convidados. As vtimas da insanidade temporria da srta. Saint Martin, a condessa 
de... e etc. etc. etc.

Servem torta de limo com suspiro nessas festas? Ele parecia fingidamente curioso.

No, acho que devia me arranjar com baked Alaska.

Ele deu gargalhadas com a ideia, estendeu a mo e passou-a pelos cabelos dela, agora secos. Estavam quentinhos do fogo.

Kezia, amor, voc tem que engordar um pouco.

, eu sei. Trocaram-se risinhos ternos e ento, com um brilho nos olhos, ele rolou os dados na mo, soprou neles e lanou-os, fechando os olhos.

Ou vai ou racha.

Kezia riu  socapa com os resultados, beliscou-lhe o nariz e sussurrou nos ouvidos dele.

Neste caso, sr. Vidal,  racha. Ei, seu babaca, abra os olhos. Mas em vez disso ele se aproximou inesperadamente e passou o brao em volta da cintura dela. O que 
 que voc est fazendo, seu louco? O rosto dele estava a apenas uma pequena distncia do dela e Kezia pensou que era brincadeira. Mas no era brincadeira para ele.

O que  que estou fazendo? Me fazendo de babaca, claro. Abriu os olhos e fez uma careta de palhao, conferiu os dados, encolheu os ombros, mas havia um laivo de 
sofrimento nos olhos dele. Como ela podia ser to burra? Mas talvez tivesse sido para melhor.

Ele se ps de p e se esticou lentamente defronte do fogo vendo as chamas lamberem as toras de madeira. Estava de costas para Kezia que ainda ria  socapa.

Sabe de uma coisa, menina? Voc tinha razo, eu tambm no suporto mais a presso do fingimento.

 uma foda, no ? Mostrava-se solidria, enquanto mordiscava um biscoito. Era a primeira vez em semanas que passava a noite inteira sem um drinque.

303
Sim...  uma foda, a "presso do fingimento", como voc bem definiu. Ela pensou que ele estivesse se referindo ao emprego dele.

Sou perita no assunto. Mas no estava com disposio para coisas srias. No com ele. Tinham tido uma noite muito feliz. O que trouxe esse pensamento  sua cabea? 
As palavras eram truncadas pelas migalhas de biscoito. Ela levantou os olhos mas ele ainda estava de costas.

Nada, apenas um pensamento.

304
Captulo 31

Eles viajaram em segunda classe e o voo foi cacete. O filme Kezia j vira com Luke, e Alejandro trouxera alguns jornais para ler. Conversaram durante a refeio 
mas o resto do tempo ele a deixou sozinha. Sabia a que ponto ela estava tensa e no achou nada divertido quando ela trouxe o frasco.

Kezia, acho que voc no devia.

Por que no? Ela olhou meio sem graa.

Beba o que eles servirem, deve ser suficiente. Ele no estava dando sermo mas parecia irredutvel. O tom da voz dele embaraou-a mais do que as palavras e ela abandonou 
o frasco. Quando os drinques foram servidos, ela pediu um scotch e recusou o segundo.

Satisfeito?

A vida no  minha, irm.  sua. Voltara s leituras e ela a seus prprios pensamentos. Ele era um homem estranho por vezes. Independente, perdido nos seus afazeres 
e noutras ocasies tinha tantos cuidados com ela. Ela mais do que suspeitava que ele estaria fazendo a viagem principalmente por ela, para se certificar de que ela 
estaria bem, e ele poderia perder o emprego por causa disso.

Tinham feito reservas no Ritz e ela sentiu um arrepio de excitao correr pelo corpo quando se dirigiram  cidade. A linha do horizonte comeou a aparecer quando 
passaram a ltima curva, e ento de repente l estava: a catedral moderna no Gough, a silhueta castanha cor de alcauz do edifcio do Bank of America e um farrapo 
dezog rolando da baa. Ela percebia agora quanto tinha suspirado para ver isso outra vez. A baa, a Golden Gate Bridge com Sausalito e Belvedere e Tiburon brilhante 
como uma floresta de rvores de Natal  noite, se no houvesse fog demais. E se houvesse, ela fecharia os olhos, respiraria fundo o ar fresco do mar e ouviria o 
toque isolado das sirenes. Ela sabia disso quando as ouviu outra vez. Lucas estaria ouvindo tambm.


305
Alejandro a observou enquanto rodavam e ficou comovido por v-la daquele modo. Excitada, tensa, penteando a cidade com os olhos, como se estivesse procurando alguma 
coisa preciosa que l deixara.

Voc tambm gosta desta cidade, no , Kezia?

Gosto. Sentou-se recostada e olhou com prazer, como se fosse ela prpria que a tivesse construdo.

Foi por que Luke a trouxe aqui?

Em parte. Mas tambm existe outra coisa. A cidade em si, eu acho.  to abominavelmente bonita...

Ele sorriu e olhou para ela.

Abominavelmente, hem?

OK, OK, pode rir de mim. Tudo o que eu sei  que estou feliz aqui. Apesar das coisas brutais que aconteceram, ela amava a cidade. Tinha alguma coisa diferente das 
outras. Seus pensamentos desviaram-se novamente para Luke e ela no conseguiu esconder um sorriso. Sabe,  incrvel. Viajei mais de mil quilmetros para ver Luke 
por uma hora.

E alguma coisa me diz que voc viajaria seis mil se fosse preciso.

Talvez mesmo doze mil.

Mesmo doze mil? Voc tem certeza? Ele a provocava de novo e ela gostava daquilo. Ele era uma boa companhia.

Alejandro, voc  uma peste. Mas uma peste tima.

Eu tambm a amo.

Era uma da manh em San Francisco e quatro da manh para eles, por causa do fuso horrio, mas no estavam sonolentos.

Voc quer sair para tomar um drinque, Alejandro?

No, prefiro um passeio.

A sociedade de temperana s suas ordens. Que delcia! Ela fez um gesto afetado com a boca e ele riu. Cuide da sua vida. Depois que deixarmos as coisas no hotel, 
vamos at  baa.

Eles tinham alugado um carro no aeroporto e Alejandro estava guiando.

s ordens, madame. No  a isso que voc est habituada?

Sim e no. Mas uma coisa  certa, no estou habituada a amigos extraordinrios como voc. Voc  realmente surpreendente. A voz dela tornara-se bem macia. Acho que 
ningum jamais fez tanto por mim quanto voc. Nem mesmo Edward. Ele costumava cuidar de mim, mas nunca estivemos  vontade um com o outro. Eu gosto dele mas de um 
modo diferente. Ele sempre esperou tanto de mim...

Como, por exemplo?

Oh... que eu fosse tudo o que eu tinha nascido para ser, suponho.

306
E voc ?

No, no mesmo. O computador deve ter combinado as coisas diferentemente em mim. Algumas peas no se encaixam, pelos padres dele.

Voc compreendeu mal;  a sua cabea o que importa. Sua alma, seu corao.

No querido, voc  que compreendeu mal. So as festas a que se vai, as roupas que se usa, os comits a que se pertence.

Voc est louca.

No estou mais. Mas eu costumava ser. Ficou subitamente sria, mas o momento tinha escapado quando chegaram ao Ritz.

Ernestine, usando um roupo de banho de flanela escocesa, registrou a entrada deles, olhando com ar desaprovador ao ver Kezia com Alejandro e no Luke. Mas os quartos 
separados nas extremidades opostas do hall pareceram apazigu-la. Voltou com passos abafados para a cama e eles saram, para o carro.

Para a baa! Ele estava to excitado quanto ela.

Obrigada, Jeeves.

Certamente, madame. Riram juntos e deixaram o carro mover-se aos solavancos para as colinas na Divisadero Street. Parecia a montanha-russa quando os solavancos os 
levantavam do assento.

Voc quer parar para um taco Ela sorriu em resposta e fez que sim.

A mim,  a baa que me atrai. A voc, so essas panquecas. Bem-vindos  casa.

E nenhuma pizza  vista.

Eles no tm pizza aqui? Ele fez uma careta em resposta.

Sim, mas ns as temos sob controle. No  como em Nova York. Um dia desses, um ataque de pizzas enlouquecidas assumir o controle da cidade. Fez caretas monstruosas 
e ela riu.

Voc  um louco! Nossa, olhe aquele carro! Tinham penetrado num drive-in para comidas em Lombard, e esperando na janela estava um carro de competio com a traseira 
toda remendada. A impresso que d  de que eles no ganham nada com aquilo.

Claro que no. Que beleza... vrummmmm. Ele fazia os sons adequados e sorria abertamente. Voc j tinha visto um igual?

No que me lembre, exceto num filme. Que horror!

Taco, espcie de panqueca. (N. do T.)

307
Horror?  uma beleza! Lave a sua boca com sabo! Ela ria e sacudia a cabea.

No me diga que voc tem um como este. Eu ficaria chocada!

Bem, eu tive. Um lowrider, especial. Meu primeiro carro. Depois me apertei e consegui um VW de segunda mo. A vida nunca  a mesma.

Parece trgico.

Era. Voc j teve um carro quando criana? Ela sacudiu a cabea e os olhos se abriram com descrena.

Voc no teve? Meu Deus, todos os adolescentes tm carros quando chegam aos dezesseis. Aposto que voc est mentindo. Aposto que voc tinha um Rolls Royce. Vamos, 
diga a verdade.

Ela deu uma risada sacudindo a cabea furiosamente e chegaram at a janela para encomendar os tacos.

 bom que voc saiba, sr. Vidal, que no tive um Rolls Royce. Pedi emprestado um Fiat arrebentado quando estive em Paris e foi s isso. Eu nunca tive carro na minha 
vida.

Que desgraa, mas a sua famlia tinha um, certo? Ela concordou. Ah! E ele era...

Ora, apenas um carro. Voc sabe, quatro rodas, quatro portas, alavanca de embreagem, o costume.

Voc est me dizendo que era um Rolls?

No era. Ela riu e deu-lhe os tacos que acabavam de aparecer na janela. Era um Bentley. Mas a minha tia possua um Rolls, se isso o faz se sentir melhor.

Muito. Agora d-me esses tacos. Voc pode ter viajado trs mil quilmetros para ver o seu gato, mas eu vim pelos tacos. Um Bentley... caramba! Deu uma dentada no 
taco e suspirou emocionado. Kezia recostou-se no assento. Era timo estar com ele, no tinha que representar. Podia ser apenas ela mesma.

Voc conhece alguma coisa engraada, Alejandro?

Sei. Voc. Ele comeava a comer o terceiro taco.

No. Estou falando srio.

? Desde quando?

Ah, pelo amor de Deus. Voc come um taco e fica cheio de si.

No, cheio de gases.

Alejandro!

U, eu fico. Vai me dizer que voc no fica. Ser que voc nunca peidou na vida?

Ela corou enquanto ria.

Me recuso a responder a esta pergunta nos termos...

308


Eu aposto que voc solta peidos na cama,

Alejandro. Voc  terrvel.  um comentrio altamente inadequado.

Pobrecita. Era um provocador constante quando estava em boa disposio, mas ela gostava disso. Tinha estado to silencioso no avio, mas agora a atmosfera era novamente 
festiva.

O que eu estava tentando lhe dizer, sr. Vidal, antes que voc ficasse to ultrajante...

Ultrajante? Imagine s! Ele tinha passado dos tacos para a root beer, uma bebida  base de razes, e tomou um longo gole.

O que eu estou tentando dizer... ela abaixou a voz,  que eu realmente cheguei a precisar de voc. No  estranho? Quero dizer, eu estaria totalmente perdida sem 
voc.  to bom pensar que voc est

por perto...

Ele ficou em silncio, com um olhar distante.

, eu tambm me sinto assim disse finalmente. Sinto-me estranho quando fico dois dias sem a ver. Gosto de saber que voc est

bem.

 bom saber que voc se preocupa. Acho que  o que eu sinto, e faz bem. E eu me preocupo que de repente algum a tenha matado no metro, quando voc no telefona.

Sabe,  uma coisa de que eu gosto em voc.

O qu?

Seu otimismo infalvel. Sua f na raa humana... assassinado no metro... babaca. Por que  que eu seria assassinado no metro?

Todo mundo pode. Por que no voc?

P, fantstico! Voc sabe o que eu acho, Kezia?

O qu?

Que voc peida na cama.

Oh, voltamos a isso outra vez, no ? Alejandro, voc  um merda. E um merda rude e ultrajante. Agora leve-me at a baa. E tem mais: eu no solto peidos na cama.

Voc solta.

Eu no...

Voc solta.

Pergunte a Luke!

Vou perguntar.

Voc no ousa!

Ah! Ento ele vai me dizer a verdade, no vai? Voc solta!

Eu no. Que se foda.

A discusso continuou enquanto saam do drve-in e finalmente

309
dissolveu-se em rajadas de risos. Eles davam risadas durante os quarteires restantes at a baa, quando ento ficaram calados. A baa pairava serena diante deles, 
como um veludo do mais escuro azul e havia um vu de fog bem acima das cabeas, no to baixo que obstrusse a vista do outro lado, mas bastante denso, de modo a 
ficar suspenso nas lanas da ponte. A sirene de fog uivava tristemente ao longe e as luzes em torno da orla da praia brilhavam.

Lady, um dia desses, vou me mudar para c.

No, voc no vai. Voc est apaixonado pelo seu trabalho no Centro do Harlern.

Isso  o que voc pensa. Aquela bosta est me enchendo as medidas, a cada dia que passa. As pessoas no ficam to malucas aqui. Nunca se sabe, talvez aquela entrevista 
que eu planejei aqui v resolver.

E ento o qu?

Vamos ver.

Ela concordou pensativamente, enervada pela ideia de que ele pudesse deixar Nova York. Provavelmente era s conversa para desabafar. Ela decidiu ignorar o que ele 
disse. Era mais garantido assim.

Quando vejo uma coisa como essa, queria fazer parar o tempo e ficar nesse momento para sempre.

Louca. A gente no deve desejar uma coisa dessas. Voc j veio aqui alguma vez de madrugada? Ela sacudiu a cabea.  melhor ainda. Esta cidade  como uma mulher 
bonita. Muda, tem caprichos, tudo se torna cinzento e de olhos compridos e depois fica bonita e voc se apaixona por ela de novo.

Alejandro, a quem  que voc ama? Ela no tinha pensado nisso desde aquele chocolate quente que compartilharam em Yorkville. Ele estava quase sempre sozinho ou com 
ela.

 uma pergunta estranha.

No. No . No existe algum? Mesmo uma velha chama do passado?

No, nada disso. Oh, eu no sei, Kezia. Amo muitas pessoas, algumas das crianas com quem trabalho, voc Luke, outros amigos minha famlia. Uma poro de gente.

 mais seguro amar muitas pessoas.  muito difcil amar uma s. Eu nunca... at Luke. Ele me ensinou tanta coisa... Ele no tem medo de amar como eu tinha... e talvez 
voc tenha. No existe mesmo uma mulher que voc ame como mulher? Ou talvez algumas? Ela no tinha direito de perguntar e sabia disso, mas queria saber.

No. Ultimamente no. Talvez um dia desses.

Voc devia pensar um pouco nisso. Talvez voc encontre algum

310
algum dia. Do fundo do corao, ela esperava que ele no encontrasse. Ele merecia a melhor espcie de mulher que houvesse, uma que pudesse lhe dar de volta tudo 
que ele dava. Mas secretamente esperava que ele no a encontrasse agora, j. Ela no estava pronta para perd-lo. As coisas estavam muito boas assim. E se ele tivesse 
algum ela o perderia. Seria inevitvel.

Em que voc estava pensando, criana? Parece to triste. Ele achou que soubesse por qu, mas no sabia.

S coisas bobas passando pela minha cabea. Nada de importante.

No se preocupe tanto. Voc vai v-lo amanh. Ela apenas sorriu em resposta.

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Captulo 32

Eles a viram quando fizeram uma curva na via expressa para San Quentin. Do outro lado da extenso de gua, numa enseada que penetrava em terra firme, l estava ela 
 beira-mar, feia e crua. Kezia no a tirou de vista o resto do caminho, at que finalmente desapareceu de novo, quando deixaram a via expressa e seguiram uma velha 
estrada municipal, com vrias curvas.

A fortaleza gigantesca que era San Quentin tirou-lhes a respirao quando a viram aparecer outra vez. Parecia projetar seu corpo sobre eles, como um rufio gigantesco 
ou uma criatura do mal, num pesadelo. As pessoas sentiam-se ans sob aqueles torrees, torres e muralhas interminveis, que pairavam bem alto, marcados apenas aqui 
e ali pelas diminutas janelas. Era construda como uma masmorra, com a cor de mostarda ranosa. No era apenas assustadora, exalava raiva e terror, solido, tristeza, 
perda. Cercas de metal elevadas, encimadas de arame farpado, cercavam tudo, e em todas as direes havia guaritas suspensas, com guardas equipados com metralhadoras. 
Guardas patrulhavam a entrada, e as pessoas emergiam com rostos tristes, algumas enxugando os olhos com as pontas dos lenos. Era um lugar que no se podia esquecer 
nunca. Ostentava at um longo fosso seco com pontes levadias ainda ativas, para as torres de tiro que conservavam os guardas seguros contra qualquer ataque.

Quando olhou para o lugar, Kezia se perguntou como  que eles podiam ser to temerosos. Quem poderia fugir daquela fortaleza. No entanto, apesar de toda a segurana, 
vez por outra algum conseguia. E, vendo o lugar, Kezia entendeu logo por que tentavam qualquer coisa, at a morte, para escapar. Assim, compreendeu o que Luke fizera 
para ajudar os homens a quem chamava de irmos. Prisioneiros de prises como aquela tinham que ser lembrados por algum. Ela s estava triste por ter sido Luke a 
lembrar.

312


Ela tambm viu uma fileira de casas bem tratadas, com canteiros de flores. As casas estavam do lado de dentro da cerca com arame farpado na sombra das torres de 
tiro aos ps da priso. E adivinhou que eram as casas dos guardas, suas mulheres e filhos. O pensamento a fez estremecer. Seria como viver num cemitrio. O setor 
para estacionamento era sulcado por rodas de carros e coberto de lixo. S havia duas vagas livres quando chegaram, e uma longa fila de pessoas serpenteava, passando 
pela casa do guarda do porto principal. Levaram duas horas e meia para chegar  frente da fila, onde foram superficialmente examinados e ento seguiram como rebanho 
para o porto seguinte, para uma nova e humilhante revista.

Os guardas nas torres de tiro estavam atentos, quando entraram no edifcio principal para sentarem-se com o resto dos visitantes numa sala de espera cheia de fumaa, 
superaquecida, que mais parecia uma estao ferroviria. No havia sons de riso, nem trechos de conversa sussurrados aos ouvidos, apenas o tilintar ocasional de 
moedas na mquina de fazer caf, o barulho da torneira, ou o breve estalido de um fsforo. Cada visitante acalentava seus prprios temores e pensamentos.

A mente de Kezia estava ocupada com Luke. Ela e Alejandro no tinham falado desde que entraram no edifcio. Nada havia a dizer. Como os outros, estavam preocupados 
com a espera. Outras duas horas naqueles bancos... e havia tanto tempo que ela no o via, tocava-lhe a mo, o rosto, beijava-o, agarrava-o ou era agarrada do jeito 
que s Luke sabia agarrar. Era diferente ser beijada daquela altura dele, ou assim parecia. Tudo era diferente. Era um homem que ela podia olhar de mil maneiras. 
O primeiro homem para quem ela olhou com vontade.

Ao todo, ela e Alejandro esperaram quase cinco horas e pareceu um sonho quando o interfone grasnou o nome dele.

Visita para Johns... Lucas Johns...

Ela pulou e correu para a porta da sala onde fariam a visita. Luke j esperava l, enchendo a abertura da porta, com um sorriso calmo no rosto. Ele estava numa sala 
cinzenta, cujo nico adorno era um relgio. Havia mesas compridas de refeitrio com internos de um lado e visitantes do outro, enquanto os guardas vagavam e patrulhavam 
com seus fuzis  mostra ostensivamente. Podia-se beijar na entrada e na sada e segurar as mos durante a visita. S isso. Toda a cena tinha uma irrealidade arrepiante, 
como se no pudesse existir, no para eles. Luke morava na Park Avenue com ela, comia com garfo e faca, dizia piadas, beijava-a na nuca. Ele no pertencia quilo. 
No fazia sentido. Os outros rostos em redor pareciam dissonantes e ferozes, zangados, cansados e desgastados. Mas agora Luke tambm parecia assim. Alguma coisa 
havia mudado.
313
Quando foi para os braos dele, sentiu um misto de pavor e claustrofobia prender-lhe a garganta... Eles estavam perdidos nas entranhas daquele tmulo... Mas, uma 
vez nos braos de Luke, ela estaria salva e o resto podia desaparecer. Ela estava esquecida, absorta de tudo, exceto dos olhos dele. Esquecera completamente de Alejandro 
a seu lado.

Luke levantou-a nos braos e a fora do seu abrao chegou a provocar falta de ar. Ele segurou-a no ar um momento, no afrouxando seu abrao, e depois instalou-a 
suavemente no cho, procurando-lhe ansiosamente os lbios mais uma vez. Havia um desespero nele todo e seus braos pareciam mais finos. Ela sentiu ossos nos ombros 
onde, semanas antes, havia tanta carne. Usava blue-jeans e uma camisa de trabalho e sapatos ordinrios, que pareciam pequenos demais. Eles tinham despachado os Guccis 
e tudo mais de volta para Nova York. Kezia estava l quando o embrulho chegara, tudo amarrotado e a camisa muito rasgada. Dava uma ideia de como fora arrancada das 
suas costas. No por um criado mas na ponta de uma espingarda. Na poca, ela chorara, mas agora no havia mais lgrimas. Estava contente demais por v-lo. S Alejandro 
tinha lgrimas nos olhos observando-os, com um sorriso radiante para esconder o pnico, e um olhar carente do amigo. Aps um momento, Luke reconheceu Alejandro. 
Era um olhar de gratido, que Alejandro no se lembrava de ter visto antes. Como Kezia, ele notou que alguma coisa estava diferente e lembrou o pedido premente nas 
cartas de Luke, para vir com Kezia. Alejandro sabia que algo ia acontecer, mas no sabia o qu.

Luke levou Kezia pela mo para uma das mesas do longo refeitrio e deu a volta para se sentar, enquanto Alejandro pegou outra cadeira ao lado dela. Kezia ainda sorriu 
mais quando viu Luke tomar o lugar dele.

Nossa,  to bom apenas observar voc andar. Oh, querido, como senti sua falta.

Luke sorriu silenciosamente e tocou-lhe suavemente a face com a mo spera pelo trabalho. Os calos tinham voltado depressa.

Eu o amo, Lucas. Ela disse estas palavras cuidadosamente, como trs presentes separados que tivesse embrulhado para ele e, em resposta, os olhos deles brilharam 
estranhamente.

Eu tambm a amo, baby. Voc me faz um favor?

Qual?

Solte os seus cabelos para mim. Ela sorriu e rapidamente puxou os grampos. Era um pequeno prazer que lhe concederia, o mnimo gesto de repente significava tanto 
para ele. Assim est melhor. Sentiu a maciez sedosa do cabelo dela e olhou como um homem passando

314
as mos em diamantes ou ouro puro. Oh, minha santa, como eu a amo.

Voc est bem?

No d para notar?

No estou certa.

Mas para Alejandro dava muito mais do que para qualquer dos dois. Cada qual estava cego pelo que desejava ver.

Acho que voc est bem. S um pouco mais magro.

Olha quem est falando. Voc parece um palito. Mas os olhos dele diziam que ela estava com uma boa aparncia. Pensei que voc me tinha dito que ia tomar conta dela, 
Al.

Olhou de um para o outro e surgiu um laivo de riso h muito desaparecido. Quase parecia o Lucas de sempre.

Oua, homem, voc sabe como esta mulher  difcil de intimidar.

A mim que voc diz? Os dois homens trocaram um velho sorriso familiar. E os olhos de Luke novamente se acenderam quando voltaram-se para Kezia, que segurava as mos 
dele com tanta fora que os dedos dela doam, ficando at entorpecidos.

Era uma visita estranha, cheia de vibraes conflitivas. Luke e Kezia pareciam ter uma necessidade apaixonada e faminta amplamente mtua. Entretanto, ele conseguia 
se controlar. Ela sentiu isso, no sabia o que era. Uma hesitao, uma retrao. E esperava que ele dissesse alguma coisa para que ela se sentisse  vontade outra 
vez.

Subitamente a hora tinha passado. O guarda fez sinal e Luke ficou de p rapidamente, levando-a de volta  frente da sala, para um nico beijo regulamentar de despedida.

Querido, estarei de volta assim que deixarem.

Ela estava pensando em ficar fora uma semana e voltar para v-lo de novo. Mas agora mesmo ela se sentia nervosa  vista do guarda, e Alejandro parecia estar perto, 
se aproximando. Tudo estava acontecendo depressa demais. Ela queria mais tempo com Lucas... os momentos tinham voado.

Minha santa... Os olhos de Luke pareciam devorar cada centmetro do rosto dela. Voc no vai voltar aqui.

Eles vo lhe transferir? Ele sacudiu a cabea.

No, mas voc no pode voltar mais.

Isso  ridculo. Eu... os papis no esto em ordem? Subitamente ficou aterrorizada. Tinha de voltar. Precisava v-lo. Eles no tinham o direito de fazer aquilo.

Os papis esto em ordem. Para hoje. Mas eu vou tir-la da minha
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lista de visitas hoje  noite. A voz dele era to baixa que ela mal podia ouvir. Porm Alejandro podia e sabia o que Lucas estava fazendo. S agora compreendia por 
que Lucas queria que ele viesse.

Voc est maluco? Por que est me tirando da sua lista de visitantes? Lgrimas quentes queimavam-lhe os olhos enquanto se agarrava s mos dele. Ela no compreendia. 
Nada tinha feito de errado. E ela o amava.

Porque voc no pertence a este ambiente. E no  vida para voc. Baby, voc aprendeu uma poro de coisas nos ltimos meses e fez uma poro de coisas que nunca 
faria se no tivesse se encontrado comigo. Algumas foram boas para voc. Mas esta no. Eu sei o que isso faz e vai fazer para voc. Na ocasio em que eu sair, voc 
ter se destrudo. Olhe para voc agora, magra, nervosa, voc est um trapo. Volte para aquilo que voc tem que fazer e faa-o direito.

Lucas, como voc pode fazer isso? As lgrimas comearam a rolar pelas faces dela.

Porque tenho que fazer... porque eu a amo... agora seja uma boa moa e v.

No, eu no vou. E vou voltar. Eu... oh, Lucas, por favor! Os olhos de Lucas procuravam os de Alejandro e houve um acordo

claramente perceptvel. Luke curvou-se para beij-la e apertar-lhe os ombros e ento rapidamente virou-se e deu um passo na direo do guarda.

Lucas, no! Estendeu os braos pronta para se agarrar a ele, que se virou de costas para ela com um rosto como se fosse esculpido em pedra.

Pare com isso, Kezia. No se esquea de quem voc .

Eu no sou nada sem voc. Andou em direo a ele, olhando-o nos olhos.

Nisso  que voc est enganada. Voc  Kezia Saint Martin e voc sabe quem ela  agora. Trate bem dela. Ento, com um sinal ao guarda, foi embora.

Uma porta de ao engoliu o homem de quem ela gostava. Ele no se virou mais para um ltimo olhar ou outro adeus. Nada tinha dito a Alejandro quando saiu. Nada tinha 
a dizer. O curto gesto de acordo no final dizia tudo. Confiara-a aos cuidados de Alejandro. Ele saberia que ela estava segura e era tudo o que poderia fazer. Era 
tudo o que lhe restava para dar.

Kezia ficou de p na rea de visitas, entorpecida, inconsciente dos olhos que se viravam para ela. Fora uma cena agonizante para os poucos que assistiram. Fez os 
prisioneiros se encolherem e os seus visitantes empalidecerem. Podia ter acontecido com eles mas no aconteceu E sim com ela.

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Eu... Alej... eu podia... Ela estava desorientada, petrificada, perdida.

Vamos meu amor, vamos para casa.

Sim, por favor.

Ela parecia ter encolhido naqueles ltimos minutos sombrios. Seu rosto estava assustadoramente plido. Desta vez, Alejandro sabia que no adiantava perguntar como 
ela se sentia. Era facilmente visvel. Saiu com ela o mais depressa possvel do edifcio e alcanou o porto principal. Queria tir-la daquele inferno antes que 
ela desmoronasse. Conduziu-a depressa pelos lugares marcados no setor de estacionamento e facilitou-lhe a entrada no carro. Sentia-se quase to chocado quanto ela. 
Sabia que alguma coisa estava errada, mas no tinha ideia do que Luke tinha em mente. E sabia como devia ter sido foda. Lucas precisava dela, das visitas, do amor, 
do apoio. Mas sabia tambm o que isso faria a ela. Ela ficaria dependente dele durante anos, destruindo-se, talvez se entregando  bebida at morrer, enquanto esperava. 
No funcionaria e Luke sabia. Kezia tinha dado certo no incio. Lucas Johns era um homem de colho. Alejandro sabia que ele prprio no teria coragem para tanto. 
Muito poucos homens teriam, mas poucos homens enfrentaram o que Luke estava enfrentando: a sobrevivncia num lugar em que sua vida tinha sido marcada. E Kezia sendo 
quem era, os homens podiam ter ido para ela primeiro. Esse tinha sido o maior dos temores de Luke. Mas agora tudo acabara. Tudo estava acabado para Luke.

Eu... aonde  que vamos? Kezia parecia assustadoramente confusa quando Alejandro deu a partida no carro.

Para casa. Ns vamos para casa. E tudo vai melhorar. Falou com ela como algum falaria a uma criana pequena, ou a algum muito doente. Agora ela era as duas coisas.

Eu vou voltar aqui, voc sabe... Vou voltar. Voc sabe disto, no sabe? Ele no queria dizer realmente isso... eu... Alejandro? No havia emoo na voz dela, apenas 
confuso.

Alejandro sabia que ela no voltaria. Luke era um homem para ser levado a srio. Naquela tarde mesmo, o nome dela seria inexoravelmente cancelado da lista. Isso 
no lhe deixaria alternativa. No poderia restabelecer o nome por seis meses, e ento muita coisa teria mudado. Seis meses poderiam mudar bastante uma vida. Seis 
meses antes, Kezia encontrara Luke.

Ela j no chorava quando foram embora, apenas estava sentada muito quieta no carro e depois no quarto do hotel, onde ele a deixou sob a guarda cuidadosa de uma 
empregada, enquanto comparecia  entrevista em que no podia continuar pensando. Tinha sido um inferno de

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dia para ter de se preocupar com esse assunto. Apressou-se na entrevista e voltou logo ao Ritz. Ao chegar, soube que Kezia, o tempo todo, no se mexera nem falara. 
Apenas ficara sentada na cadeira em que ele a deixara olhando fixo para o nada.

Com apreenso, ele reservara passagem para o voo das seis da tarde e rezava que ela no sasse do estado de choque at que a levasse para casa e para sua prpria 
cama. Kezia era como uma criana, em transe, e uma coisa era certa: ele no queria estar em San Francisco quando ela sasse do estado de choque. Tinha que lev-la 
de volta a Nova York.

Ela no comeu nada da bandeja que a aeromoa trouxe e assentiu sem compreender quando Alejandro lhe ofereceu os fones de msica. Instalou-os na cabea dela e observou-a, 
quando Kezia os removeu perdida, cinco minutos depois. Cantarolou consigo mesma por um tempo e depois voltou ao silncio. A aeromoa fitou-a estranhamente, e Alejandro 
fez-lhe um gesto com um sorriso, esperando que ningum fizesse comentrios e rezando para que Kezia no fosse reconhecida. Ela estava com um olhar vago, desalinhada, 
podendo ser facilmente reconhecida, e pouco se preocuparia com a imprensa no estado em que se encontrava. Eles podiam abal-la a ponto de ela liberar o fluxo de 
realidade que estava segurando, em choque. Parecia drogada, embriagada ou maluca. O voo parecia um pesadelo, e Alejandro desejava v-lo terminado o mais rapidamente 
possvel, pois aquilo tinha sido a gota d'agua, e ele sofria pensando em Lucas. Doa-lhe pelos dois.

Estamos em casa, Kezia. Tudo est bem.

Estou suja, preciso de um banho. Sentou-se na sala de visitas numa cadeira, no parecendo compreender onde estava.

Vou preparar o banho para voc.

Totie faz isso. Sorriu para ele vagamente.

Ele banhou-a gentilmente, como fizera s suas sobrinhas h muito tempo, enquanto Kezia ficava sentada, olhando fixo para as torneiras ornadas com o golfinho dourado 
na parede de mrmore branco. O fato de ser ela em quem ele estava dando banho nem o afetou. Ele queria toc-la, segur-la, mas ela no estava nem a. Seu esprito 
vagava em algum lugar, nalgum lugar distante, escondido do mundo esfacelado que acabara de deixar.

Ele a embrulhou numa toalha, e Kezia obedientemente ps a camisola, sendo, a seguir, levada para a cama.

Agora voc vai dormir, no vai?

Sim. Onde est Luke? Os olhos vazios procuraram pelos dele, alguma coisa neles ameaando rebentar e despejar tudo no cho.

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Ele saiu. Kezia no estava em condies de lidar com a verdade. Nem ele.

Oh. Que bom. Sorriu inspida para ele e subiu na cama, desajeitadamente, como as crianas fazem, os ps lutando para encontrar o caminho entre os lenis. Ele a 
ajudou a deitar-se e apagou as luzes.

Kezia, voc quer Totie? Sabia que encontraria o telefone dela na caderneta de endereos de Kezia. Pensou tambm em procurar o nome do mdico de Kezia mas tudo parecia 
sob controle naquele momento.

No, obrigada. Vou esperar Luke.

Chame, se precisar de mim. Estarei aqui ao lado.

Obrigada, Edward. Foi um choque perceber que ela no sabia quem ele era.

Alejandro se instalou para uma longa viglia noturna no sof, esperando pelo grito que certamente viria. Mas no veio. Em vez disso, ela se levantou s seis e apareceu 
na sala, de camisola e ps descalos. No parecia ter alguma dvida sobre a volta para casa, ou sobre quem a pusera na cama. E ele ficou petrificado quando percebeu 
que ela estava lcida. Totalmente.

Alejandro, eu o amo, mas quero que voc v para casa.

Por qu? Ele no tinha confiana em deix-la sozinha.

Porque estou bem agora. Acordei s quatro da manh e fiquei pensando em tudo de novo durante as duas ltimas horas. Compreendo o que aconteceu e agora tenho que 
aprender a viver com isso. E o tempo para fazer isso  exatamente agora. Voc no pode sentar aqui e me tratar como uma invlida, amor, no est certo. Voc tem 
coisas melhores a fazer da sua vida. Seu olhar dizia-lhe que estava inabalvel na sua vontade de ficar sozinha.

No, se voc precisar de mim.

Eu no preciso... no dessa maneira... veja, por favor. V embora. Preciso ser eu mesma.

Voc est me dizendo que est me jogando fora? Tentou fazer com que essas palavras parecessem leves, mas no conseguiu. Os dois estavam demasiado cansados para brincar. 
Ela parecia pior, embora ele no tivesse dormido um instante sequer.

No, no o estou lhe jogando fora e voc sabe disso. Estou apenas lhe dizendo para voltar para o que voc tem de fazer. E me deixar agir sozinha.

O que  que voc vai fazer? Ele estava assustado.

Nada drstico. No se preocupe com isso. Mergulhou numa das cadeiras de veludo e pegou um dos cigarros dele. Acho que no

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sou bastante corajosa para me suicidar. S quero ficar sozinha por enquanto.

Ele se levantou cansado do sof, com todos os ossos, msculos, fibras e nervos doendo.

Est bem. Mas vou telefonar.

No, Alejandro. No faa isso.

Vou ter que telefonar. Eu ficaria fodido se fosse para a cidade alta sem saber se voc est morta ou viva. Se voc no quiser falar comigo, ento, diga ao seu servio 
de recados como est e eu telefonarei para l. Virou-se para ela com o casaco na mo.

Por que  to importante? Por que Luke lhe pediu? Os olhos dela despejaram-se nos dele.

No. Porque eu quero. Voc pode no ter notado ainda, mas acontece que eu me preocupo com o que acontece com voc. Voc pode dizer mesmo que eu a amo.

Eu tambm o amo, mas preciso ficar sozinha.

Se eu fizer isso voc vai me telefonar?

Sim, daqui a um tempo. Quando eu conseguir me equilibrar um pouco. Acho que, no ntimo, eu sabia que tudo estava acabado desde o instante em que ele saiu da biblioteca 
jurdica no dia da audincia. Foi ali que tudo deve ter acabado. Mas nenhum de ns teve estmago para assumir o fato. Eu pelo menos no tive. E a foda disso tudo 
 que eu ainda o amo.

Ele tambm a ama, ou no teria feito o que fez ontem. Acho que s fez isso porque gosta de voc.

Ela ficou em silncio e deu-lhe as costas, de modo que no lhe pudesse ver o rosto.

Sim, e tudo que tenho de fazer agora  aprender a viver com isso.

Bem, se voc precisar de algum para conversar... grite. Eu virei correndo.

Voc sempre vem. Virou-se, um sorriso apareceu nos lbios dela e depois desapareceu.

Ele andou at a porta com os ombros cados, carregando a mala da viagem, o palet e o casaco sobre o ombro. Virou-se e compreendeu, s durante o mais breve dos segundos, 
como Luke deve ter se sentido antes de mand-la embora.

Juzo, hem.

Sim, voc tambm.

Ele fez que sim e a porta se fechou suavemente.

Durante cinco semanas, Kezia se embriagou dia e noite. At mesmo a faxineira deixou de ir e ela mandou a secretria embora na primeira semana.
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Estava sozinha com suas garrafas vazias e pratos com alimentos comidos pela metade, usando o mesmo roupo sujo. S o entregador da loja de bebida era um "visitante" 
regular. Ele tocava duas vezes e depositava a encomenda na porta.

Alejandro no telefonou at que as notcias bateram nos jornais. Tinha que telefonar ento. Tinha que saber como ela estava. Estava bbada quando ligou e ele disse 
que iria imediatamente. Tomou um txi, temendo que ela visse os jornais antes da sua chegada. Mas quando chegou  porta dela viu os jornais de cinco semanas no 
lidos e acumulados no hall. Ficou petrificado com as condies do apartamento. Parecia um chiqueiro... garrafas... sujeira... pratos... cinzeiros transbordando... 
caos e desordem. E Kezia. Nem parecia a mesma mulher. Olhos inchados de tanto chorar, cambaleante e bbada. Mas ela ainda no sabia.

Alejandro procurou faz-la voltar  sobriedade antes de contar. Da melhor maneira que pudesse. Mas s depois da quarta xcara de caf e de abrir as janelas para 
arejar. As manchetes se encarregaram de revelar, quando os olhos dela percorreram as folhas dos jornais. Olhou no rosto dele, e ele notou que ela compreendera. Nada 
poderia ser pior para ela agora.

Luke estava morto. Apunhalado no ptio, assim diziam. "Um distrbio racial... bem conhecido agitador de prises, Lucas Johns..." Sua irm requisitara o corpo e o 
funeral estava se realizando em Bakersfield naquele dia mesmo em que Kezia lia as notcias. No tinha importncia. No mudava nada. Funerais no faziam o gnero 
de Luke. Nem irms. Ele nunca a mencionara. A nica coisa que importava era que ele tinha ido para sempre.

Voc sabe quando ele morreu, Alejandro? Ela ainda aparentava bebedeira, mas ele sabia que j estava lcida.

E isso importa?

Sim.

No, eu no sei exatamente. Acho que posso descobrir.

Eu j sei. Ele morreu no dia da audincia no tribunal. Eles o mataram. Mas naquele dia, o dia em que realmente ele morreu, ele morreu bonito, orgulhoso e forte. 
Ele foi para a audincia como um homem. O que eles fizeram a ele depois disso est nas mos deles.

Suponho que voc esteja com a razo. As lgrimas comearam a rolar pelo rosto dele. Por aquilo que acontecera a Luke. Por aquilo que acontecera a ela. Ela j estava 
to morta quanto Lucas,  sua prpria maneira. Bbada, suja, doente, cansada, devastada pelas lembranas e agora a morte dele. Ele se lembrava de Lucas na biblioteca 
jurdica antes de entrar na audincia. Ela estava certa, ele caminhava altivo e ela to

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segura e intensa ao lado dele. Tinham alguma coisa que ele nunca vira antes. E agora um estava morto e o outro estava morrendo. Sentiu-se enjoado. Tudo como se vivesse 
um pesadelo; seu melhor amigo estava morto e ele apaixonado pela mulher de Luke. E no havia maneira de dizer a ela agora. No agora que Lucas estava morto.

No chore, Alejandro. Ela passou a mo pelo rosto dele, alisando-o para enxugar-lhe as lgrimas e depois passou-a pelos cabelos. Por favor, no chore. Mas ele chorava 
tanto por si mesmo quanto por eles, e ela no podia saber disso. Kezia virou o rosto dele em sua direo e segurou-o to gentilmente que ele mal sentia a mo dela 
no ombro. Ela olhou-o nos olhos e ento lentamente, silenciosamente, curvou-se e beijou-o, de leve na boca. O engraado  que eu tambm o amo.  realmente muito 
confuso. De fato, eu o amei durante muito tempo. No  estranho?

Ela lhe pareceu ligeiramente bbada e ele no soube o que dizer. Talvez ela tivesse enlouquecido com os constantes choques e o desgosto. Ou ele. Talvez ela no o 
tivesse nem mesmo beijado... talvez fosse apenas sonho.

Alejandro, eu o amo.

Kezia. O nome dela soava estranho nos lbios dele. Ela era de Luke e, agora, Luke estava morto. Mas como era possvel que Luke estivesse morto? E como  que ela 
podia amar os dois? Tudo era to totalmente louco... Kezia?

Voc me ouviu. Eu o amo. No sentido de estar apaixonada por voc.

Ele olhou para ela durante um tempo que lhe pareceu muito longo, as lgrimas ainda midas nas faces.

Eu tambm a amo. Eu a amei desde o primeiro dia em que ele a levou para se encontrar comigo. Mas eu nunca pensei... eu s...

Eu nunca pensei tampouco.  o tipo de coisa que se l nos maus romances. E  muito, muito confuso disse Kezia.

Conduziu-o at o sof, sentou-se ao seu lado, encostou a cabea para trs e fechou os olhos.

Tambm  muito confuso para mim. Enquanto falava, Alejandro a observava sentar-se.

Ento por que no deixamos um ao outro sozinhos por um tempo?

Assim voc poder beber at morrer um pouco mais depressa? A voz dele soou subitamente alta e amarga na sala silenciosa. Ela

lhe mostrara tudo o que ele queria, mas queria destruir tudo antes de se dar para ele. Que piada de mau gosto.

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No. Para que eu possa pensar.

Sem beber?

Cuide da sua vida.

Ento v-se foder, lady. Isso: v-se foder! gritou Alejandro, de p. Eu no preciso me apaixonar por voc para v-la morrer fodida. Para observ-la cometer suicdio 
como qualquer alcolatra pattica da zona. Se  isso o que voc planeja fazer da sua vida ento deixe-me em paz! Oh meu Deus, Kezia... Que Deus a amaldioe! levantou-a 
e a sacudiu at ela sentir o mundo sacudir sob seus ps e protestou.

Pare! Deixe-me em paz.

Eu a amo! Voc no entende isso?

No, eu no entendo. No compreendo mais nada. Eu tambm o amo. E, da, porra? Ns estamos presos um ao outro, e amamos um ao outro e precisamos um do outro. E da 
o cu desaba em cima de tudo de novo? Quem precisa disso... porra?

Eu preciso. Eu preciso de voc.

Tudo bem, Alejandro, tudo bem... e agora voc vai me fazer um favor... me deixe s, por favor. A voz dela tremia e havia de novo lgrimas nos seus olhos.

Est bem, baby. Agora  com voc.

A porta fechou-se, silenciosa, atrs dele e, cinco minutos depois, ouviu-se o som de vidro estilhaado. Ela pegara o jornal com o artigo horrvel na primeira pgina 
e jogou contra a janela com tanta fora que ele passou pelo vidro.

Que se foda o mundo! V para o inferno!

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Captulo 33

No final daquela semana, Alejandro viu a mesma cena que Edward. Este, com sofrimento, aquele em choque. Edward soubera. A Women's Wear trouxera a notcia tambm. 
Kezia Saint Martin tomando o avio para Genebra, "para descansar dos rigores da temporada social". Os jornais pareciam j ter esquecido sua associao com Lucas. 
Como as pessoas esqueciam depressa!

Publicaram que ela planejava esquiar mas no diziam onde. O chapu dela estava to enterrado na cabea que Alejandro no a reconheceria se no tivesse lido o nome. 
Olhando para a fotografia, espantou-se de novo da ausncia de reprteres, como da ltima viagem de ida e volta a San Francisco. No estado em que estava, faria realmente 
notcia.

Ele sentou-se durante muito tempo no seu pequeno gabinete com a pintura descascando da parede, olhando para a fotografia, Kezia com o chapu cobrindo o rosto. Para 
a palavra Genebra. E agora? Quando ouviria falar dela outra vez? Ainda se lembrava do beijo na ltima manh em que a vira, h alguns dias apenas. E agora ela fora 
embora. Sentiu-se pesado, como se estivesse pregado  cadeira, colado ao cho, parte do edifcio e desmoronado com o resto. Tudo ia para o brejo na sua vida. Seu 
trabalho era uma droga, detestava a cidade, seu melhor amigo morrera e ele estava apaixonado por uma mulher que sabia jamais seria sua. At mesmo se Luke tivesse 
desejado que fosse assim, como Alejandro suspeitava de que tivesse sido... Havia algo na insistncia de Luke de pedir-lhe que fosse com Kezia na ltima vez. Luke 
sabia que ela precisaria de ajuda, mas ajuda nunca significara aquilo. Ele sabia disso e Kezia devia saber tambm. Tudo era muito louco, e agora precisava organizar 
a prpria vida. Mas continuou fitando a palavra e detestando-a. Genebra.

Tem algum aqui que quer ver voc, Alejandro. Levantou os olhos e viu um dos garotos que enfiara a cabea na porta.

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Sim? Quem?

No sei, parece um fiscal, Perini, eu acho.

Diga a ele que v se foder.

De verdade? O rapaz ficou arrepiado.

No, no de verdade, babaca! Me d cinco minutos e mande-o entrar.

O que  que vou fazer com ele durante cinco minutos?

No sei, porra. Fale o que quiser. Bata-lhe, empurre-o pelas escadas abaixo. D-lhe caf... estou cagando para o que voc vai fazer. Alejandro jogou o jornal na 
cesta do lixo.

Est bem, cara, est bem. No fique nervoso. Ele nunca tinha visto Alejandro daquele jeito antes. Era assustador.

O hotel em Villars-sur-Ollon convinha perfeitamente s intenes dela: no alto das montanhas, numa cidade repleta de escolas. Virtualmente, no havia turistas ali, 
a no ser, alguns pais visitantes. Ela ficou num enorme hotel, quase desabitado, tomando chs com sete senhoras de idade, ao som dos violinos e do ceio. Deu grandes 
passeios a p, bebeu uma poro de vezes chocolate quente, ia para a cama cedo e lia. S Simpson e Edward sabiam onde ela estava e havia recomendado a ambos que 
a deixassem em paz. No planejava escrever e at mesmo Edward respeitava os desejos dela. Enviava-lhe cartas semanais para mant-la a par dos assuntos financeiros, 
e no esperava resposta, o que foi melhor, porque no houve nenhuma. S em meados de abril, ela se sentiu pronta para ir embora.

Tomou o trem para Milo, onde passou uma noite, e depois foi para Florena. Misturou-se com os turistas do comeo da primavera, fez o tour dos museus, vagou pelas 
lojas, andou ao longo do Arno e tentou no pensar. Fez a mesma coisa em Roma e ento foi mais fcil. Era maio. O sol estava quente, as pessoas animadas, os msicos 
de rua engraados. Encontrou-se com alguns poucos amigos. Jantou com eles e sentiu que a necessidade de pular e gritar finalmente a tinha abandonado. Pouco a pouco, 
ficava curada.

Nas primeiras semanas de junho, alugou um Fiat e dirigiu-se para o norte da Umbria, e para Spoleto, onde mais tarde seria realizado o festival de msica de vero 
E ento atravessou os Alpes e finalmente chegou  Frana.

Danou em St. Tropez em julho e jogou em Monte Carlo, embarcou no iate de amigos em St. Jean-Cap Ferrat por uma semana e comprou novas malas Gucci em Cannes. Recomeou 
a escrever quando passou por Provena, onde passou trs semanas perdida num hotelzinho
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que servia um pat soberbo, melhor do que qualquer outro que tivesse comido.

O livro de Luke chegou, hesitantemente enviado por Simpson, com as revistas. Ela abriu o pacote numa manh banhada de sol, quando estava descala e de camisola na 
pequena sacada do seu quarto. Podia ver colinas e campos ao longe, e por quase uma hora ela simplesmente sentou-se, de pernas cruzadas no cho do balco, com o livro 
ao colo, segurando-o, mas incapaz de abri-lo. O desenho da capa era bom e havia uma fotografia maravilhosa dele no verso do livro. A foto fora tirada antes que o 
conhecesse, mas ela possua uma cpia em sua mesa, em Nova York. Ele vinha andando por uma rua em Chicago, usando um suter branco de gola rul, seu cabelo negro 
voando ao vento, sua capa de chuva jogada ao ombro. Uma sobrancelha levantada, ele olhava sarcasticamente para a cmera, com o incio de um sorriso. Ela lhe tinha 
arrancado a fotografia na primeira vez que a vira.

Para que voc quer isso, porra?

Voc parece to sexy nela, Luke...

Jesus, como voc  louca. Espero que os meus leitores no pensem assim.

Por que no? Ela levantara os olhos um pouco surpresa e ele a beijara.

Porque devo parecer brilhante, no sexy, sua boc.

Bem, acontece que voc parece as duas coisas. Posso ficar com ela? Ele abanara a mo, embaraado, e atendera ao telefone. Mas ela pegara a fotografia e a pusera 
numa moldura de prata. Era uma viso real de Luke e ela estava contente de que estivesse na capa do livro. As pessoas deviam v-lo como ele era... as pessoas deviam...

Ficou olhando para ele o que lhe pareceram horas, com o livro no colo. Lgrimas no sentidas rolavam sem parar rosto abaixo, embaando-lhe a vista. Mas olhara para 
o passado, no para os campos distantes.

Bem, baby, aqui estamos falou alto e sorriu por entre as lgrimas, usando a bainha da sua camisola para enxugar o rosto. Quase podia ver Lucas sorrindo para ela. 
J no importava o lugar para onde ela fosse, carregava-o com ela de uma maneira apaixonada e terna. No da maneira angustiada em que ela estivera; agora podia sorrir 
para ele. Agora ele estava com ela para sempre, em Nova York, na Sua, na Frana. Era parte dela. Uma parte que lhe trazia conforto.

Olhou para longe, para os campos, com um ligeiro tremor. Recostou-se para trs, nas pernas da cadeira, ainda segurando o livro nas mos. Uma voz parecia lhe dizer 
que abrisse, mas no conseguia e,

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ento, quando observou o rosto na fotografia ainda mais uma vez, quase esperando que ele se movesse ao longo da rua em Chicago h muito esquecida, foi como se pudesse 
ver o rosto dele ficar srio, sua cabea sacudindo de gozao.

"Vamos, minha santa, abra-o, porra!"

Ela abriu-o com delicadeza, no querendo respirar ou olhar ou ver. Ela sabia, sabia disso quando tocou no livro, mas ver seria diferente. Imaginou se suportaria, 
tinha que abrir. Agora ela queria ver, e sabia que ele tambm queria. Ele nunca lhe contara, mas agora era como se sempre tivesse sabido. O livro lhe era dedicado.

Novas lgrimas escorreram pelo rosto enquanto lia, mas no eram lgrimas de sofrimento. Lgrimas de ternura, de gratido, de riso e de amor. Esses eram os tesouros 
que ele lhe dera, no tristeza. Luke nunca fora homem de tolerar tristezas. Ele estivera vivo demais para experimentar mesmo que fosse um sopro de morte. E tristeza 
 morte.

Para Kezia, que est ao meu lado aonde quer que eu v. Minha igual, meu consolo, minha amiga. Lady corajosa, voc  a luz brilhante num lugar que sempre procurei 
achar e agora afinal ns dois estamos em casa. Que voc fique orgulhosa deste livro, porque agora  o melhor que posso lhe dar, com agradecimentos e o meu amor.

L.J.

"...e agora afinal ns dois estamos em casa''. E era verdade, e era agosto ltimo, na poca, e ela teve um teste final. Marbella. E Hilary.

Meu Deus, querida, voc parece divina! To bronzeada e saudvel! Onde voc esteve, pelo amor de Deus?

Aqui e ali. Riu e afastou os cabelos dos olhos. Estava mais esbelta agora e a rgida angulosidade do seu rosto derretera-se outra vez. Viam-se pequenas rugas dos 
dois lados dos olhos, do sol ou qualquer coisa, mas ela aparentava estar bem. Muito bem.

Quanto tempo voc pode ficar? O seu telegrama nem mesmo deu uma indicao, criana malcriada!

, ela estava de fato de volta quele velho mundo familiar. Querida, amada Hilary. Mas divertia-a ser chamada de criana malcriada. Porra. Por que no? O aniversrio 
dela viera e passara no fim de junho. Agora tinha trinta anos.

Ficarei aqui alguns dias, tia Hil, se voc tiver espao.

E  s isso? Mas querida, que horror, naturalmente tenho

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quarto, que absurdo! Habitualmente tinha quartos para pelo menos quatorze hspedes, no mencionando a criadagem. Por que voc no fica mais tempo?

Tenho que voltar. Aceitou um ch gelado do mordono. Elas estavam perto da quadra de tnis, onde outros convidados jogavam.

Voltar para onde? Nossa, Jonathan melhorou seu saque, no ?

Sem dvida.

De certo, como sou tola. Voc no o conhece. Um homem perfeitamente lindo. Ele parecia a cpia-carbono de Whitney. Kezia sorriu.

Ento, para onde voc vai voltar? Hilary tornava a dar ateno a Kezia com um martini bem gelado.

Nova York.

Nesta poca do ano? Querida, voc est maluca!

Talvez, mas estive fora por quase cinco meses.

Mais um ms, no  isso que vai afetar.

Vou voltar para fazer um trabalho.

Trabalho, que espcie de trabalho? Caridade? Mas no tem ningum na cidade no vero, pelo amor de Deus. Alm disso, voc no trabalha, no  verdade? Por um momento, 
Hilary olhou ligeiramente confusa. Kezia lhe fez um gesto de confirmao.

Sim, eu trabalho. Eu escrevo.

Escreve? Para que, santo Deus? Estava bastante intrigada.

Acho que escrevo porque gosto. Para falar a verdade, gosto muito.

Isso  novidade?

No, no mesmo.

Voc sabe escrever? Decentemente, quero dizer. Desta vez Kezia no pde evitar o riso.

No sei. Certamente me esforo. Costumava escrever a coluna Martin Hallam. Mas esse no foi o meu melhor trabalho. Kezia sorriu maliciosamente. Hilary engasgou.

Voc o qu? No seja insana! Voc... Deus. Deus, Kezia, como  que voc pde?

A coluna me divertia. E, quando fiquei cansada, retirei-me. E no fique perturbado, nunca disse uma coisa indigna sobre voc.

No, mas voc... eu... Kezia, voc realmente me intriga. Aliviou o garom de outro martini e fitou sua sobrinha. A moa era realmente bastante estranha. Sempre fora, 
e agora mais isso. De qualquer maneira, acho que voc  louca de voltar em agosto. Hilary ainda no se tinha recuperado. E essa coluna j no  mais publicada.

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Kezia achou graa: era como se Hilary tentasse apanh-la numa armadilha, admitindo que realmente no a escrevera. Mas era o que ela desejava que fosse.

Eu sei, mas vou voltar para negociar um livro.

Um livro baseado em fofocas? Hilary empalideceu.

Claro que no.  uma espcie de tema policial.  realmente muito longo para explicar.

Compreendo. Bem, adoraria se voc quisesse ficar... contanto que prometesse no escrever coisas maldosas a respeito dos meus convidados. Riu  socapa docemente, 
quando lhe ocorreu que isso podia ser assunto de fofoca muito divertida para ela prpria: "Voc sabia que a minha sobrinha costumava ser Martin Hallam, querido?"

No se preocupe, tia Hilary. Eu j no escrevo essa espcie de coisa.

Que pena. Seu terceiro martini amenizara o choque. Kezia observou-a quando aceitou seu segundo ch gelado.

Voc j viu Edward?

No. Ele est aqui?

Voc no sabia?

No, eu no sabia.

Voc tem estado fora dos trilhos, no ? Onde  que voc disse que esteve esse tempo todo?

Hilary observava outra vez Jonathan sacando.

Etipia, Tanzania. A selva. Cu. Inferno. Os pontos habituais.

Que bom querida... realmente muito bom. Voc viu algum do nosso conhecimento? Mas ela estava muito interessada no jogo de Jonathan para escutar ou se importar. 
Vamos querida, vou apresent-la a Jonathan.

Mas Edward apareceu em cena antes que Hil pudesse arrast-la. Ele cumprimentou Kezia cordialmente mas com precauo.

Nunca pensei v-la aqui! Foi um cumprimento estranho, depois de tantas coisas e tanto tempo.

Eu tambm nunca pensei que voc estivesse... Ela riu e deulhe um abrao que lembrou-lhe os tempos passados.

Como voc est, realmente?

Que tal?

Exatamente da maneira que eu queria v-la. Bronzeada, saudvel e relaxada. E tambm sbria, fora um alvio.   assim que estou. Foi um monte de meses.

Sim, eu sei. Ele sabia que nunca conheceria a histria completa,
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mas certamente o fato tinha estado muito perto de destrui-la. Perto demais. Voc vai ficar muito tempo?

Apenas alguns dias. Depois tenho que voltar. Simpson est no meio dos trmites de um contrato para mim de um livro

Que perfeita maravilha'

 assim que me sinto. Ela sorriu contente e pendurou o brao no dele enquanto Edward se preparava para lev-la a um passeio

Vamos. Conte me a respeito. Vamos nos sentar debaixo das rvores l longe

Ele tirou dois chs gelados da bandeja de prata e dirigiram-se para um mirante, longe das quadras de tnis. Tinham uma poro de coisas para contar e pela primeira 
vez, em anos, ela parecia estar disposta a falar. Ele sentira muito a falta dela Mas o tempo tambm lhe fizera bem. Ele compreendera afinal o que ela representava 
na vida dele e o que ela nunca poderia ser. Ele tambm tinha feito as pazes consigo mesmo e com as pessoas com quem sonhava, tanto quanto possvel. Acima de tudo, 
aceitou o que parecia ser o seu papel. Aceitao Compreenso. Enquanto os trens da vida passavam por ele O ltimo senhor solitrio na plataforma

Pela primeira vez na vida, Kezia ficou triste por deixar Marbella. Ela chegara a um acordo com milhares de fantasmas nos meses que tinha passado sozinha, no s 
o fantasma de Luke mas outros. Ela estava at mesmo livre do fantasma de sua me, mas agora precisava voltar para casa

Engraado. No avio de volta da Espanha se lembrou de alguma coisa que Alejandro dissera ha muito tempo. "Toda essa vida  par te de voc, Kezia Voc no pode neg-la. 
Embora ela no a quisesse viver mais, ela j no precisava exorciz-la. tampouco Ela estava livre

Foi um voo agradvel e Nova York estava quente e mormacenta, bonita e pulsante quando chegou. Hilary estava errada. Era excitante, mesmo em agosto. Talvez ningum 
que importasse estivesse l mas o resto do mundo estava. A cidade estava viva

No havia fotgrafos para cumpriment-la. Nada, ningum, s Nova York E isso bastava. Tinha tanto que fazer. Era sexta-feira Noite Tinha que ir para casa e desfazer 
as malas, lavar o cabelo e a primeira coisa que faria na manh seguinte seria tomar o metro para o Harlem. Primeira coisa Voltara da Espanha, por causa do livro 
mas tambm para ver Alejandro. Era hora agora Para ela, pelo menos Planeiara isso durante muito tempo E estava pronta Para ele. Para si mesma. Ele

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era parte do seu passado, mas no a parte que ela jogara fora. Era a parte que retivera para o presente.

E o presente parecia esplndido. Estava livre agora, sem ligaes. Feliz e livre. Ela vibrava de excitao com tudo o que estava  sua frente... pessoas, lugares, 
coisas a fazer, livros para escrever, seu velho mundo conquistado a seus ps, e novos mundos a conquistar. Acima de tudo, ela conquistara a si mesma. Tinha tudo 
agora. O que havia para temer? Nada, e isso era a beleza do que ela encontrara. Ningum a possua, nem um estilo de vida, nem um homem, ningum. Kezia era dona de 
Kezia, para sempre.

Os dias com Luke tinham sido preciosos e raros, mas uma nova aurora viera... uma manh de prata e azul, cheia de luz. E havia espao para Alejandro no novo dia dela. 
Se ele estivesse por ali, caso contrrio, ela seguiria rindo e com orgulho ao sol do meio-dia.

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